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terça-feira, agosto 18, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 22

 


22. O ano de 1964 resolveu testar a resistência emocional do brasileiro. Além dos terremotos políticos que sacudiram o país, o Brasil perdeu, no dia 9 de fevereiro, uma de suas figuras mais extraordinárias: Ary Evangelista Barroso. Compositor, letrista, autor de teatro de revista, animador de auditório, locutor esportivo, ex-vereador, flamenguista fanático, boêmio profissional e rabugento em dedicação exclusiva, Ary parecia ter vivido umas quatro encarnações na mesma vida. Seu currículo era tão extenso que, se fosse apresentado hoje no LinkedIn, o sistema acusaria excesso de caracteres.

Além do talento monumental, Ary Barroso cultivava com esmero a fama de mal-humorado. Não era um defeito, era praticamente um hobby. Uma de suas birras era com o jornalista e compositor Antônio Maria, com quem mantinha uma rivalidade alimentada por aquilo que artistas costumam chamar de “divergência estética” e o resto da humanidade chama simplesmente de vaidade.

Ary insistia que a música brasileira mais conhecida no mundo era sua imortal “Aquarela do Brasil”: “Brasil, meu Brasil brasileiro...”. Antônio Maria retrucava que a canção mais famosa era sua melancólica “Ninguém Me Ama”: “Ninguém me ama, ninguém me quer...”. A discussão, basicamente, resumia-se a dois sujeitos brilhantes disputando quem tinha produzido o maior chiclete da história da música nacional. O certo é que se tornaram inimigos figadais.

Quando Ary foi internado com cirrose terminal, justamente em pleno Carnaval – época em que até a morte costuma pedir licença para passar –, os amigos convenceram Antônio Maria de que não ficava bem deixar o velho desafeto partir sem uma reconciliação.

Maria concordou e foi ao hospital. O encontro foi emocionante. Abraços, lágrimas, lembranças. Parecia o último capítulo de uma novela das oito. Com a voz já enfraquecida, Ary fez um pedido insólito:

– Maria, canta para mim Aquarela do Brasil.

Comovido, Antônio Maria puxou uma caixa de fósforos para marcar o ritmo e cantou a música inteira, sem errar uma sílaba. Ary ouviu tudo com expressão agradecida. Quando terminou, resolveu retribuir a gentileza:

– Agora pede para eu cantar Ninguém Me Ama.

– Não, Ary, deixa pra lá...

– Pede, Maria.

– Não precisa...

– Pede!

– Está bem. Canta pra mim Ninguém Me Ama.

Ary então disparou sua derradeira obra-prima de mau humor:

– Não sei a letra.

Antônio Maria explodiu:

– Não sabe porque é um canalha!

Ary respondeu sem perder o ritmo:

– E você é um cafetão.

Pronto. Em poucos segundos, a emocionante reconciliação transformou-se novamente numa briga de botequim de altíssimo nível intelectual. Os dois compositores morreram sem fazer as pazes. O Brasil perdeu dois gênios. E a implicância entre eles sobreviveu até o último acorde, provando que certas amizades são tão profundas que nem a morte consegue impedir uma boa discussão.

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