22. O ano de 1964 resolveu testar a
resistência emocional do brasileiro. Além dos terremotos políticos que
sacudiram o país, o Brasil perdeu, no dia 9 de fevereiro, uma de suas figuras
mais extraordinárias: Ary Evangelista Barroso. Compositor, letrista, autor de
teatro de revista, animador de auditório, locutor esportivo, ex-vereador,
flamenguista fanático, boêmio profissional e rabugento em dedicação exclusiva,
Ary parecia ter vivido umas quatro encarnações na mesma vida. Seu currículo era
tão extenso que, se fosse apresentado hoje no LinkedIn, o sistema acusaria
excesso de caracteres.
Além do talento
monumental, Ary Barroso cultivava com esmero a fama de mal-humorado. Não era um
defeito, era praticamente um hobby. Uma de suas birras era com o jornalista e
compositor Antônio Maria, com quem mantinha uma rivalidade alimentada por
aquilo que artistas costumam chamar de “divergência estética” e o resto da
humanidade chama simplesmente de vaidade.
Ary insistia
que a música brasileira mais conhecida no mundo era sua imortal “Aquarela do
Brasil”: “Brasil, meu Brasil brasileiro...”. Antônio Maria retrucava que a
canção mais famosa era sua melancólica “Ninguém Me Ama”: “Ninguém me ama,
ninguém me quer...”. A discussão, basicamente, resumia-se a dois sujeitos
brilhantes disputando quem tinha produzido o maior chiclete da história da
música nacional. O certo é que se tornaram inimigos figadais.
Quando Ary foi
internado com cirrose terminal, justamente em pleno Carnaval – época em que até
a morte costuma pedir licença para passar –, os amigos convenceram Antônio
Maria de que não ficava bem deixar o velho desafeto partir sem uma
reconciliação.
Maria concordou
e foi ao hospital. O encontro foi emocionante. Abraços, lágrimas, lembranças.
Parecia o último capítulo de uma novela das oito. Com a voz já enfraquecida,
Ary fez um pedido insólito:
– Maria, canta
para mim Aquarela do Brasil.
Comovido,
Antônio Maria puxou uma caixa de fósforos para marcar o ritmo e cantou a música
inteira, sem errar uma sílaba. Ary ouviu tudo com expressão agradecida. Quando
terminou, resolveu retribuir a gentileza:
– Agora pede
para eu cantar Ninguém Me Ama.
– Não, Ary,
deixa pra lá...
– Pede, Maria.
– Não
precisa...
– Pede!
– Está bem.
Canta pra mim Ninguém Me Ama.
Ary então
disparou sua derradeira obra-prima de mau humor:
– Não sei a
letra.
Antônio Maria
explodiu:
– Não sabe
porque é um canalha!
Ary respondeu
sem perder o ritmo:
– E você é um
cafetão.
Pronto. Em
poucos segundos, a emocionante reconciliação transformou-se novamente numa
briga de botequim de altíssimo nível intelectual. Os dois compositores morreram
sem fazer as pazes. O Brasil perdeu dois gênios. E a implicância entre eles
sobreviveu até o último acorde, provando que certas amizades são tão profundas
que nem a morte consegue impedir uma boa discussão.

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