19. Falecido em janeiro de 1976, o
impagável Neném Prancha começou sua carreira como roupeiro do Botafogo e
terminou sua vida como olheiro de futebol de praia. O ilustre cidadão era assim
apelidado por conta das mãos de 23 centímetros e dos pés de número 44. Embora
não fosse jogador nem treinador, Neném Prancha era reconhecido como grande
conhecedor de futebol. Mas não foi nem por sua sabedoria futebolística nem por
suas estranhezas – nunca falava de seu passado e, embora fosse visto todos os
dias na praia, jamais era visto no mar – que ele ficou célebre. Foi, na
verdade, pelas frases irreverentes.
Neném Prancha
foi o autor de sentenças que ficaram marcadas ao longo do tempo, como “se
concentração ganhasse jogo, o time do presídio não perdia uma partida” ou “o
goleiro deve andar sempre com a bola, mesmo quando vai dormir. Se tiver mulher,
dorme abraçado com as duas”. Ele ainda cravou frases do tipo “pênalti é uma
coisa tão importante, que quem devia bater é o presidente do clube”, “se
macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminava sempre empatado”, “quem
corre é a bola, senão era só fazer um time de batedores de carteira” e “bola
tem que ser rasteira porque o couro vem da vaca e a vaca gosta de grama”.
Aqui na taba, o
maior discípulo de Neném Prancha foi o índio piratapuia José Onofre Tavares,
mais conhecido como Marajara. Durante 40 anos – do início dos anos 60 ao final
dos anos 80 –, Marajara fundou, organizou ou treinou mais de 50 times de
futebol nos bairros da Cachoeirinha, Raiz, Petrópolis e São Francisco, tendo
passado por suas mãos mais de 3 mil atletas. Com um detalhe: ele só treinava
crianças e adolescentes, nunca foi técnico de um time de adultos. E, a despeito
das maledicências e lendas urbanas a seu respeito, nunca sentou em cadeira
ocupada. Pelo contrário. Casou um monte de vezes e teve dezenas de amantes.
Hoje, com mais de 80 anos, Marajara mora com mulher, filhos, netos e bisnetos
no bairro da Alvorada.
Quando o
conheci pessoalmente, Marajara morava em uma pequena tapera de palha nas
imediações do campo do Peñarol, em Petrópolis, e era dono do time do Canarinho,
um dos adversários mais aguerridos do Murrinhas do Egito. Diariamente,
incluindo os dias de jogo, ele fazia uma reca de moleques – Ernâni, Eraldo,
Erasmo, Donga, Bordado, Ferrinho, Tobias, Irineu etc. – correr do campo do
Peñarol até o Igarapé do Crespo, na Raiz. Chegando lá, os moleques se banhavam
rapidamente no igarapé e voltavam correndo de volta para a sede do clube (a
tapera do Marajara), onde recebiam uma caneca de mingau de banana verde.
Como o mingau
era feito com o abominável “leite do posto” (os primeiros experimentos de leite
de soja, testados no Terceiro Mundo por conta dos acordos MEC-Usaid), metade
dos atletas era acometida de disenteria na mesma hora. Pra nós, do Murrinhas do
Egito, que costumávamos enfrentar o Canarinho desfalcado de seus melhores
atletas por conta do famoso mingau de banana verde, era uma mão na roda.
Homem de poucas
luzes, quase analfabeto, extremamente simples, Marajara comprava os
equipamentos dos times (jogo de camisas, calções e meiões) com seus próprios
recursos. Nunca recebeu uma mísera ajuda oficial, mas também não se queixava
disso. Ele era apaixonado pela Seleção Brasileira de 1958 (que eu também
considero a melhor de todos os tempos) e sua filosofia de jogo era baseada
exclusivamente na tática implantada por Vicente Feola: ao atacar, abra os
ponteiros, ao defender-se, congestione o meio fechando a cabeça da área. Se na
criação o companheiro deslocar, deverá receber na feição, mas se outro pedir, é
porque estará mais confiante ou melhor colocado. Portanto, ataque em leque e
defenda em funil, quem desloca recebe e quem pede tem preferência. Simples
assim.
Com o passar do
tempo, Marajara acabou por adaptar essa teoria para a cultura baré, reunindo
algumas máximas de fácil entendimento para a molecada. Assim, antes de seu time
entrar em campo, ele reunia a defesa em um canto e dava suas recomendações
finais:
– O goleiro
precisa ser igual visgo de jaca em pé de curió: pegou, não larga mais. Os
laterais têm que jogar igual limpador de para-brisa: indo e vindo o tempo todo.
Os zagueiros têm que jogar que nem mandioca braba: plantado na área sem sair! O
volante tem de jogar como quem tomou lacto-purga em jejum: tendo muito cuidado
pra não fazer merda! E não esqueçam que atacante inimigo é feito cabeça de
prego: tem que levar porrada, até sumir da frente!
Depois que
conversava com a defesa, Marajara se reunia com os atacantes:
– O armador tem
que distribuir a bola igual a rabo de vaca: prum lado e pro outro, prum lado e
pro outro! O ponta direita tem que ser igual navalha Solingen em mão de
malandro: cortou no meio, rasga em diagonal. O ponta esquerda tem que ser que
nem preá no cio: só cruzando, só cruzando! O ponta de lança tem que jogar que
nem espartilho de puta: apertando por trás e entrando pelas brechas. O
centroavante tem que jogar igual calcinha em rabo de quenga: enfiadinho o tempo
todo!
Depois da
preleção com os atacantes, reunia o time inteiro:
– Não gosto de
capitão de equipe calado. Ele tem de ser que nem cabrito entrando na faca:
berrando o tempo todo! O jogo está amarrado no meio-campo? Os laterais devem se
adiantar pra fazer a tática do tatu com porco: cavar e fuçar, cavar e fuçar.
Quando a gente estiver sendo atacado, arrecua o time inteiro. E na hora do
ataque é que nem enterro de político: vai todo mundo!
Dadas as
instruções finais, Marajara fazia todos os atletas se darem as mãos e rezarem
um Pai Nosso – provavelmente pedindo a Deus para não serem goleados mais uma
vez pelo implacável Murrinhas do Egito, da Cachoeirinha, ou pelos não menos
implacáveis Cruz Vermelha, da Raiz, e Monte Cristo, de São Francisco. Homem de
pouca fé, seus apelos misericordiosos às forças divinas nunca terminavam bem.
Quando a
partida terminava, tivesse seu time perdido ou não, Marajara reunia os garotos
em sua própria residência e servia refresco de mangarataia com bolo de
macaxeira, tudo custeado do próprio bolso. Por sua dedicação ao futebol amador,
o índio piratapuia bem que merecia uma estátua em praça pública.

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