quinta-feira, junho 30, 2011

Causos de Bambas: Inácio Oliveira


Marlon Figura, Inácio Oliveira, Simas Pessoa, Anibal Beça e esse vosso escriba, se preparando para desfilar na Ala das Escrotas da BICA

Novembro de 1988. Eu havia retornado de uma viagem profissional ao Japão trazendo alguns presentes para os homeboys e já havia me livrado de quase todos eles.

Faltava apenas entregar um quimono de seda para o jornalista Inácio Oliveira.

Havia uns dois meses que eu ia praticamente todos os sábados ao Bar do Armando, seu hábitat natural, e nada de encontrar o sujeito.

Será que ele havia ido embora de Manaus?

Numa tarde de sábado, estávamos lá no bar do português jogando conversa fora, quando o sempre indiscreto poeta Marco Gomes contou a novidade: Inácio estava apaixonado por uma morena bela e não queria mais saber de frequentar o Bar do Armando.

O negócio dele era levar a menina pro cinema, jogar pipoca para os pombos nas pracinhas da cidade e degustar banana split na Sorveteria Glacial, uma coisa ultrarromântica.

Nesse dia, o Roberto Dibo estava mostrando ao vivo, só na base da voz e violão, as músicas do primeiro disco produzido pelo Coletivo Gens da Selva.

De repente, adentrou no recinto uma turma de pagodeiros e começou a fazer o maior escarcéu, com suas versões meia boca dos sucessos do Raça Negra.

A MPB de raiz foi derrotada pelo samba mauriçola.

O Marco Gomes deu a dica:

– Vamos lá pro Calígula, o bar do escritor Rui Sá Chaves, na Aparecida, que nessa hora ainda não deve ter ninguém.

A sugestão foi aceita.

Quando entramos no boteco do Rui, uma surpresa: Inácio e sua morena bela eram, até então, as únicas almas presentes no recinto.

Eles estavam sentados nos banquinhos do balcão, bebendo cerveja e conversando com o poeta Dori Carvalho, sócio do Rui Sá Chaves na empreitada.

Juntamos duas mesas (éramos uns oito sujeitos) e começamos a fazer o nosso coro particular para a música “Soneto Aberto Sobre a Morte”, uma parceria de Roberto Dibo com o poeta Alcides Werk.

A morena bela começou a gostar da presepada.

Inácio começou a ficar incomodado.

Por volta das seis da tarde, Roberto Dibo passou o violão para o Carlos Castro.

Ele enfileirou logo uma sequência de Vinicius e Toquinho, que deixou a namorada do Inácio (a única presença feminina no covil) à beira de um ataque de nervos.

Ela criou coragem, se aproximou da mesa e perguntou se ele sabia tocar “Corsário”, do João Bosco.

O violonista não se fez de rogado.

Ela pediu “Espanhola”, do Flávio Venturini. Carlos tocou.

Ela pediu “Lambada de Serpente”, de Djavan. Carlos tocou.

O Inácio tinha razão em esconder aquela preciosidade dos canalhas do Bar do Armando.

Além de seios fartos, sorriso hipnótico, jeito de menina sapeca e voz aveludada, a morena bela tinha uma padaria de classe mundial.

O jeans apertadíssimo realçava aquelas formas fornidas e ela se movimentava com uma elegância de felina, sabendo que qualquer um se prostraria diante daquela imagem celestial como ocorreu com o ímpio Saulo no caminho de Damasco.

Aí, a morena bela cometeu a imprudência de se sentar na nossa mesa e se servir das cervejas que estavam ao alcance da mão.

Mas aqui cabe abrir um parêntese.

Quando entramos no pardieiro, Inácio sequer havia nos cumprimentado.

Uma hora depois de a gente estar agitando o Calígula com música da melhor qualidade, o sacana ainda continuava na dele, sem nos dar a mínima, aparentemente mais enjoado do que bode emborcado.

Daí que quando a morena bela pediu licença e se sentou ao meu lado, a escala Richter de ciúmes do Inácio Oliveira deve ter batido no VDO.

Cavalheiro como sempre, eu ofereci pra Zoraide (esse, o nome dela) um dos trinta pratos de tira-gosto que a gente havia pedido.

Ela começou a detonar alguns bolinhos de bacalhau e a pedir músicas: “Volver a los 17”, “A palo seco”, “Medo de avião”, “Para viver um grande amor”, “Sina” e por aí afora.

Carlinhos detonando tudo com a competência de sempre.

A morena bela, cada vez mais desinibida, estava começando a entrar em estado de graça.

Os cachorrões da mesa, de olhares esgazeados e cada vez mais lúbricos, se preparando para avançar no osso.

De repente, o Inácio se embucetou de vez.

Ele se aproximou da mesa, segurou a morena bela por um dos braços e foi peremptório:

– Vamos embora, meu amor! Eu já pedi o táxi!

Zoraide se levantou, meio constrangida, com um ar estampado na cara do tipo “fazer o quê?”, quando eu a segurei pela mão e bati na bola de três dedos:

– Se você quiser ficar aqui com a gente, depois te deixo em casa. E pra mostrar que não estou de sacanagem, vou deixar você tomando conta da chave do meu carro!

E coloquei na sua mão a chave do Del Rey verde-piscina que eu possuía na época.

Sem dizer uma palavra, ela segurou a chave do meu carro na mão, colocou no bolso da calça apertadíssima e voltou a se sentar à mesa.

O Inácio Oliveira saiu do bar cuspindo fogo, entrou no táxi e foi embora.

Por volta das 9h da noite, resolvi deixar a Zoraide em casa.

Ela morava nas proximidades do Posto Coca 2, ali em São Lázaro.

Eu fazia aquele caminho todo santo dia, indo pra Philco.

Quando cheguei na Bola da Suframa, em vez de quebrar à direita, fui em frente, em direção a Ceasa.

Ela não disse nada, entretida em acompanhar “Jura Secreta”, do Fagner, que saía do toca-fitas.

Eu só parei o carro quando já estava diante de um dos apartamentos do motel Beira-Rio, na estrada da Refinaria.

Banana split, uma pinóia: agora era hora de candelabro italiano e cavalo marinho.

Saímos de lá por volta das três horas da manhã, trocando juras de amor eterno.

Pra completar o quadro, dei o quimono de seda do Inácio de presente para minha nova gueixa.

Ter perdido a morena bela pra mim, o Inácio tirou de letra.

O que ele nunca me perdoou foi ter ficado sem o quimono.

Também tem dessas coisas.

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