quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Mitos cariocas: o cartunista Lan


Por Moacyr Luz

Minha amizade com o mestre Lan passa dos dez anos. A certeza dessa conta tenho por ter intermediado uma encomenda dos craques do Pirajá para o artista, um cartão de boas festas do bar para o ano de 2000. Pode parecer pouco, mas somos diários.

Nossas conversas pela manhã têm um tom nostálgico. Ele reclama da incompatibilidade atual entre seu fígado e as jarras de caipirinha que gosta de beber. Eu, de quase tudo que se chama álcool.

Lan, carinhosamente falando, é uma espécie de Forrest Gump da cultura carioca depois dos anos 50.
Fez as capas de discos fundamentais como um clássico em violão e voz do genial Dorival Caymmi.

Desenhou todos os sambistas imagináveis de todas as escolas de samba da nossa cidade e, em especial, da Portela, azul do seu coração.

Me conta que em 1953, acompanhando uma caravana de jornalistas em estudos sobre os morros e suas agremiações foi surpreendido pela elegância dos componentes da Madureira. Comandados por Paulo da Portela, a recepção marcou de vez a alma desse ítalo-carioca, o mestre das mulatas.

Bem recente, convidei-o pra assistir um jogo da Copa de 2006 num bar em Copacabana. Ele se despencou de Itaipava, seu bunker atual, para o encontro, mas um chuva forte mudou nossos planos e fomos parar no aconchegante Degrau do Leblon.

Fim da partida, vitória suada, céu mais claro, fomos ao programa de origem, o bar de Copa. Já na esquina, estranhei o movimento das radio-patrulhas. Uma briga de torcida fez o recinto virar pó diante da rivalidade entre a Miguel Lemos e a turma da Barata. Salvos, bebemos umas no Pavão Azul.

Em 2005, lancei um disco especial, “A Sedução Carioca do Poeta Brasileiro”. Era um trabalho lítero-musical: musicar poemas de importante poetas brasileiros que tiveram a cidade do Rio de Janeiro como inspiração. Havia Manoel Bandeira, Drummond e Mario de Andrade, todos por um instante, cariocas.

Marquei com o Lan no Bar Luiz pra falar sobre a capa desse CD, mas ele já chegou com idéia pronta, definitiva:

- O morro Dois Irmãos comparado às pernas de uma mulher.

E disse mais:

- São dois amantes, não irmãos.

Quem me apresentou esse amigo foi o parceiro Aldir Blanc.


Um pouco antes dessa capa, pensávamos num série de personalidades que a gente poderia imaginar, como um inventário humano da nossa cidade.

O nome Lan veio de cara e o samba acabou entrando no disco “Samba da Cidade”.

Se chama “Mitos Cariocas: Lan”.

É a nossa homenagem a esse artista que permanece intenso nas suas caricaturas semanais traduzindo em linhas sinuosas nossa maior curva:

- A vida.


Portelense,
bom de tango e coração circense,
arrebenta
com a pimenta braba do non sense.
Um menino
cujo defeito é não ser vascaíno.
Tipo avô
que endurece com mulata em “flô”.
Um canalha da Itália,
milongueiro, brasileiro.
Buzanfã
é tema pro élan do Lan.

Peixe-espada
temperado numa feijoada.
De virada,
não despreza o molho da rabada.
Pesquisando,
sacou que toda moça tem seu mel.
Bacharel,
pós-graduado dentro de um bordel.
Quem qui pode
como Bigode
Se der bode
com a patroa
numa boa,
é tema pro élan do Lan

No lápis dançam Irmãs Marinho,
Tijolo e Nelson Cavaquinho,
Narcisa e Clementina de Jesus
Zé Kéti, Alcides, Padeirinho
Neide, Natal, Vilma e Neguinho
Élton Medeiros e Arlindinho Cruz.

Das Oropa, Rei de Copa,
pagoderio, carioca,
no Amazonas e na Mooca,
bota e soca, na Mococa
Não tem toca, bom de boca
Pocahontas ficam tontas
vivem loucas,
sentadas no tchan do Lan.

Meu amigo, esse samba,
jeito antigo, fiz prum bamba,
tô contigo, boi não lamba
choram as sete cum tantã,
quase aurora, Iansã,
sem bambam,
vô mimbora pro amanhã
no Katamarã do Lan!!

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