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terça-feira, setembro 15, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 73

 


73. Aroldo Melodia fez parte do verdadeiro esquadrão de craques da União da Ilha. Era um dream team do samba. A única diferença para a seleção americana de basquete é que os americanos colecionavam medalhas, enquanto a Ilha colecionava elogios. Títulos, que é bom... nem um.

Mas ninguém tira da escola o brilho da segunda metade dos anos 70, quando ela entrou no Grupo Especial revolucionando o carnaval com uma fórmula que hoje qualquer economista aprovaria: bom, bonito e barato. 

Enquanto a Mangueira desfilava com majestade e a Beija-Flor parecia desfilar com o PIB de um país africano, a Ilha entrava na avenida com balões de gás, carrosséis de isopor, muito charme e uma alegria que não cabia no orçamento.

E no comando da bateria vocal estava Aroldo Melodia.

Foi ele quem transformou “Domingo”, em 1977, num daqueles sambas que fazem até fiscal de Imposto de Renda sorrir. Enquanto as outras escolas falavam de impérios, faraós e heróis nacionais, a Ilha resolveu homenagear o prazer supremo do trabalhador brasileiro: acordar tarde, jogar bola, tomar cerveja e não fazer absolutamente nada. 

Quando Aroldo berrava “Segura, marimba!”, a Sapucaí inteira respondia. Imagine Jamelão fazendo isso. Era mais fácil o Cristo Redentor descer do Corcovado para tocar reco-reco.

Anos depois, Antônio Carriço, presidente do GRES Sem Compromisso, tratou de importar aquele vozeirão para Manaus. Aroldo gravou o antológico samba-enredo “Hotel Casina”, virou figura carimbada das rodas de pagode e desenvolveu uma paixão avassaladora por um prato preparado por dona Englantina Nunes, tia do Edu do Banjo. Era a lendária “jardineira”.

A mistura levava jabá, carne-seca, jerimum de leite, chouriço, maxixe, quiabo, couve e mais algumas maravilhas capazes de convencer qualquer cardiologista a abandonar a profissão. Sempre que embarcava para Manaus, Aroldo telefonava antes.

– Dona Englantina, não me leve a mal, mas separe uma jardineira pra mim que eu já tô salivando...

Numa dessas viagens, Rinaldo Buzaglo foi buscá-lo no aeroporto. O voo atrasou quase duas horas por problemas técnicos em Brasília, e Aroldo desembarcou com tanta fome que já cogitava mastigar o cartão de embarque. Foram direto para a casa de dona Englantina.

A roda de pagode já comia solta, mas a famosa jardineira ainda não tinha aparecido. Para matar o tempo – e os neurônios – Aroldo e Rinaldo passaram a namorar uma garrafa de conhaque Palácio, que retribuiu o carinho com entusiasmo.

Lá pelas três da tarde, a fome já tinha virado delírio. Aroldo entrou na cozinha à procura de um copo, viu uma panela fumegando sobre o fogão e ouviu trombetas celestiais. Levantou a tampa.

– Achei!

Sem consultar ninguém, serviu um pratão monumental e atacou a comida como quem tentava recuperar todas as refeições perdidas da infância. Rinaldo estranhou o sumiço do amigo. Foi investigar. Encontrou Aroldo mastigando em estado de êxtase. Nem perguntou o que era. Pegou um prato e entrou na corrente.

Cada um repetiu mais duas vezes. Rasparam a panela com uma eficiência que faria qualquer lava-jato morrer de inveja. Depois voltaram para a roda de samba satisfeitos, embalando a barriga nas tradicionais cadeiras de macarrão.

Dez minutos depois, dona Englantina anunciou:

– Gente, a jardineira tá na mesa!

Aroldo levantou a mão, educadamente.

– Muito obrigado, minha santa, mas eu e o Rinaldo já almoçamos. Aliás, tava um espetáculo! Comemos até demais. Se botar mais um grão de arroz aqui dentro, explode tudo.

Dona Englantina franziu a testa.

– Almoçaram... onde?

– Na panela que tava no fogão.

A cozinheira caminhou lentamente até a cozinha. Levantou a tampa. Olhou para o fundo da panela. Ficou branca. Voltou para a sala sem saber se ria ou chamava um veterinário.

– Pelo amor de Deus... vocês comeram a comida das minhas duas pastoras alemãs!

Silêncio absoluto. Aroldo e Rinaldo se entreolharam. A tal iguaria era um refinado picadinho de arroz, carne de cabeça, bobó e uma generosa porção de ração Friskies cuidadosamente misturada para convencer as cachorras de que aquilo era alta gastronomia. Os dois haviam limpado a panela como se estivessem avaliando um restaurante cinco estrelas.

Dizem que Aroldo nunca mais perguntou qual era o ingrediente secreto da jardineira. E Rinaldo, durante muitos anos, sempre que ouvia alguém elogiar sua disposição física, respondia, muito sério:

– Deve ser o Friskies. Tem vitamina que a gente nem imagina...

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