73. Aroldo Melodia fez parte do verdadeiro
esquadrão de craques da União da Ilha. Era um dream team do samba. A única
diferença para a seleção americana de basquete é que os americanos colecionavam
medalhas, enquanto a Ilha colecionava elogios. Títulos, que é bom... nem um.
Mas ninguém tira da escola o brilho da segunda metade dos anos 70, quando ela entrou no Grupo Especial revolucionando o carnaval com uma fórmula que hoje qualquer economista aprovaria: bom, bonito e barato.
Enquanto a Mangueira desfilava com
majestade e a Beija-Flor parecia desfilar com o PIB de um país africano, a Ilha
entrava na avenida com balões de gás, carrosséis de isopor, muito charme e uma
alegria que não cabia no orçamento.
E no comando da
bateria vocal estava Aroldo Melodia.
Foi ele quem transformou “Domingo”, em 1977, num daqueles sambas que fazem até fiscal de Imposto de Renda sorrir. Enquanto as outras escolas falavam de impérios, faraós e heróis nacionais, a Ilha resolveu homenagear o prazer supremo do trabalhador brasileiro: acordar tarde, jogar bola, tomar cerveja e não fazer absolutamente nada.
Quando Aroldo berrava “Segura, marimba!”, a Sapucaí inteira respondia.
Imagine Jamelão fazendo isso. Era mais fácil o Cristo Redentor descer do
Corcovado para tocar reco-reco.
Anos depois,
Antônio Carriço, presidente do GRES Sem Compromisso, tratou de importar aquele
vozeirão para Manaus. Aroldo gravou o antológico samba-enredo “Hotel Casina”,
virou figura carimbada das rodas de pagode e desenvolveu uma paixão
avassaladora por um prato preparado por dona Englantina Nunes, tia do Edu do
Banjo. Era a lendária “jardineira”.
A mistura
levava jabá, carne-seca, jerimum de leite, chouriço, maxixe, quiabo, couve e
mais algumas maravilhas capazes de convencer qualquer cardiologista a abandonar
a profissão. Sempre que embarcava para Manaus, Aroldo telefonava antes.
– Dona
Englantina, não me leve a mal, mas separe uma jardineira pra mim que eu já tô
salivando...
Numa dessas
viagens, Rinaldo Buzaglo foi buscá-lo no aeroporto. O voo atrasou quase duas
horas por problemas técnicos em Brasília, e Aroldo desembarcou com tanta fome
que já cogitava mastigar o cartão de embarque. Foram direto para a casa de dona
Englantina.
A roda de
pagode já comia solta, mas a famosa jardineira ainda não tinha aparecido. Para
matar o tempo – e os neurônios – Aroldo e Rinaldo passaram a namorar uma
garrafa de conhaque Palácio, que retribuiu o carinho com entusiasmo.
Lá pelas três
da tarde, a fome já tinha virado delírio. Aroldo entrou na cozinha à procura de
um copo, viu uma panela fumegando sobre o fogão e ouviu trombetas celestiais.
Levantou a tampa.
– Achei!
Sem consultar
ninguém, serviu um pratão monumental e atacou a comida como quem tentava
recuperar todas as refeições perdidas da infância. Rinaldo estranhou o sumiço
do amigo. Foi investigar. Encontrou Aroldo mastigando em estado de êxtase. Nem
perguntou o que era. Pegou um prato e entrou na corrente.
Cada um repetiu
mais duas vezes. Rasparam a panela com uma eficiência que faria qualquer
lava-jato morrer de inveja. Depois voltaram para a roda de samba satisfeitos,
embalando a barriga nas tradicionais cadeiras de macarrão.
Dez minutos
depois, dona Englantina anunciou:
– Gente, a
jardineira tá na mesa!
Aroldo levantou
a mão, educadamente.
– Muito
obrigado, minha santa, mas eu e o Rinaldo já almoçamos. Aliás, tava um
espetáculo! Comemos até demais. Se botar mais um grão de arroz aqui dentro,
explode tudo.
Dona Englantina
franziu a testa.
– Almoçaram...
onde?
– Na panela que
tava no fogão.
A cozinheira
caminhou lentamente até a cozinha. Levantou a tampa. Olhou para o fundo da
panela. Ficou branca. Voltou para a sala sem saber se ria ou chamava um
veterinário.
– Pelo amor de
Deus... vocês comeram a comida das minhas duas pastoras alemãs!
Silêncio
absoluto. Aroldo e Rinaldo se entreolharam. A tal iguaria era um refinado
picadinho de arroz, carne de cabeça, bobó e uma generosa porção de ração
Friskies cuidadosamente misturada para convencer as cachorras de que aquilo era
alta gastronomia. Os dois haviam limpado a panela como se estivessem avaliando
um restaurante cinco estrelas.
Dizem que
Aroldo nunca mais perguntou qual era o ingrediente secreto da jardineira. E
Rinaldo, durante muitos anos, sempre que ouvia alguém elogiar sua disposição
física, respondia, muito sério:
– Deve ser o
Friskies. Tem vitamina que a gente nem imagina...

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