72. Junho de 1978. O Brasil vai disputar o terceiro lugar da Copa do Mundo contra a Itália, no Monumental de Núñez, em Buenos Aires.
Na Rua Itacoatiara, entre as ruas Urucará e Maués, arma-se um
evento quase tão importante quanto a partida: umas 30 criaturas resolvem
assistir ao jogo na casa do seu Albino Maia, pai do ex-centroavante Manuel
Augusto, levando cerveja, tira-gosto e uma quantidade de morteiros suficiente
para comemorar a independência de um país de médio porte.
Entre os
convocados da torcida estavam Sadok, Amélia, Sici Pirangy, Soraya, Manuel
Augusto, Socorrinha Macedo, Carlos Barriga, Fátima, Antídio Weil, Betinha,
Cleber Weil, Albino Filho e Maria Angélica.
Sentado
solenemente em sua cadeira de rodas, o velho Albino lançou a única profecia
daquela tarde:
– Se forem
soltar foguete, façam isso lá no quintal!
Ninguém deu
bola. Afinal, brasileiro só respeita previsão do tempo quando chove.
Cláudio
Coutinho escalou Leão, Nelinho, Oscar, Amaral, Rodrigues Neto, Batista, Toninho
Cerezo, Jorge Mendonça, Gil, Roberto Dinamite e Dirceu. Aos 37 minutos do
primeiro tempo, Franco Causio subiu sozinho e meteu de cabeça: Itália, 1 a 0. A
sala mergulhou num silêncio tão profundo que dava para ouvir um mosquito pedir
licença para pousar. Parecia velório de parente rico.
No intervalo,
Coutinho resolveu abandonar a diplomacia. Sacou Toninho Cerezo, colocou
Rivelino. Tirou Gil, entrou Reinaldo. O Brasil voltou possuído. Aos 18 minutos,
Nelinho acertou um chute tão improvável que até hoje o goleiro italiano deve
jurar que a bola fez baliza no meio do caminho. Em vez de cruzar, ela resolveu
entrar. Gol do Brasil.
A sala virou um
réveillon fora de época. O pessoal nem esperou chegar ao quintal: começou a
disparar foguete pela própria janela da sala. Seu Albino apenas respirou fundo.
Havia percebido que sua recomendação acabara de entrar para a história das
sugestões ignoradas.
Dez minutos
depois, Rivelino levantou na área. Roberto Dinamite tentou dominar no peito,
mas a bola escapuliu como sabonete em banho de cadeia. Antes que alguém
entendesse o lance, Dirceu emendou um voleio cinematográfico. Golaço. Brasil 2
a 1.
A casa entrou
em estado de insanidade coletiva. Tinha gente abraçando desconhecido, beijando
rádio, prometendo pagar promessa e jurando que Coutinho era um gênio
incompreendido. Foi então que Socorrinha Macedo decidiu colaborar com a festa.
Aproximou-se da
janela, acendeu um morteiro de três tiros, mas, na hora H, foi dominada por um
ataque fulminante de nervosismo. As mãos começaram a tremer, ela largou o
artefato no meio da sala e mergulhou atrás do sofá com a velocidade de um
recruta ouvindo “granada”.
O resto foi
pura seleção natural. Metade dos presentes saiu pela janela sem consultar
altura nem gravidade. A outra metade disparou rumo ao quintal. Até seu Albino,
na cadeira de rodas, bateu todos os recordes mundiais de velocidade. Dizem que,
por alguns segundos, Ayrton Senna teria dificuldade para alcançá-lo.
Os três
estampidos sacudiram a casa inteira. A fumaça tomou conta da sala, os cachorros
da vizinhança entraram em greve de latidos e os vizinhos tiveram certeza de que
a Terceira Guerra Mundial havia começado na Rua Itacoatiara.
Quando a fumaça
baixou, ninguém tinha perdido um dedo, uma orelha ou a compostura – esta última
já havia sido perdida bem antes do apito inicial. No fim das contas, o Brasil
conquistou o terceiro lugar da Copa. E Socorrinha Macedo escapou de ser
excomungada, deserdada e proibida de acender até vela de aniversário pelo resto
da vida.

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