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terça-feira, setembro 15, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 72

 


72. Junho de 1978. O Brasil vai disputar o terceiro lugar da Copa do Mundo contra a Itália, no Monumental de Núñez, em Buenos Aires. 

Na Rua Itacoatiara, entre as ruas Urucará e Maués, arma-se um evento quase tão importante quanto a partida: umas 30 criaturas resolvem assistir ao jogo na casa do seu Albino Maia, pai do ex-centroavante Manuel Augusto, levando cerveja, tira-gosto e uma quantidade de morteiros suficiente para comemorar a independência de um país de médio porte.

Entre os convocados da torcida estavam Sadok, Amélia, Sici Pirangy, Soraya, Manuel Augusto, Socorrinha Macedo, Carlos Barriga, Fátima, Antídio Weil, Betinha, Cleber Weil, Albino Filho e Maria Angélica.

Sentado solenemente em sua cadeira de rodas, o velho Albino lançou a única profecia daquela tarde:

– Se forem soltar foguete, façam isso lá no quintal!

Ninguém deu bola. Afinal, brasileiro só respeita previsão do tempo quando chove.

Cláudio Coutinho escalou Leão, Nelinho, Oscar, Amaral, Rodrigues Neto, Batista, Toninho Cerezo, Jorge Mendonça, Gil, Roberto Dinamite e Dirceu. Aos 37 minutos do primeiro tempo, Franco Causio subiu sozinho e meteu de cabeça: Itália, 1 a 0. A sala mergulhou num silêncio tão profundo que dava para ouvir um mosquito pedir licença para pousar. Parecia velório de parente rico.

No intervalo, Coutinho resolveu abandonar a diplomacia. Sacou Toninho Cerezo, colocou Rivelino. Tirou Gil, entrou Reinaldo. O Brasil voltou possuído. Aos 18 minutos, Nelinho acertou um chute tão improvável que até hoje o goleiro italiano deve jurar que a bola fez baliza no meio do caminho. Em vez de cruzar, ela resolveu entrar. Gol do Brasil.

A sala virou um réveillon fora de época. O pessoal nem esperou chegar ao quintal: começou a disparar foguete pela própria janela da sala. Seu Albino apenas respirou fundo. Havia percebido que sua recomendação acabara de entrar para a história das sugestões ignoradas.

Dez minutos depois, Rivelino levantou na área. Roberto Dinamite tentou dominar no peito, mas a bola escapuliu como sabonete em banho de cadeia. Antes que alguém entendesse o lance, Dirceu emendou um voleio cinematográfico. Golaço. Brasil 2 a 1.

A casa entrou em estado de insanidade coletiva. Tinha gente abraçando desconhecido, beijando rádio, prometendo pagar promessa e jurando que Coutinho era um gênio incompreendido. Foi então que Socorrinha Macedo decidiu colaborar com a festa.

Aproximou-se da janela, acendeu um morteiro de três tiros, mas, na hora H, foi dominada por um ataque fulminante de nervosismo. As mãos começaram a tremer, ela largou o artefato no meio da sala e mergulhou atrás do sofá com a velocidade de um recruta ouvindo “granada”.

O resto foi pura seleção natural. Metade dos presentes saiu pela janela sem consultar altura nem gravidade. A outra metade disparou rumo ao quintal. Até seu Albino, na cadeira de rodas, bateu todos os recordes mundiais de velocidade. Dizem que, por alguns segundos, Ayrton Senna teria dificuldade para alcançá-lo.

Os três estampidos sacudiram a casa inteira. A fumaça tomou conta da sala, os cachorros da vizinhança entraram em greve de latidos e os vizinhos tiveram certeza de que a Terceira Guerra Mundial havia começado na Rua Itacoatiara.

Quando a fumaça baixou, ninguém tinha perdido um dedo, uma orelha ou a compostura – esta última já havia sido perdida bem antes do apito inicial. No fim das contas, o Brasil conquistou o terceiro lugar da Copa. E Socorrinha Macedo escapou de ser excomungada, deserdada e proibida de acender até vela de aniversário pelo resto da vida.

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