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sábado, janeiro 04, 2020

Feliz ano... o quê mesmo?



Por Ivan Lessa, de Londres

Lá se foi mais um ano, lá se foram mais 200 mil neurônios. Parece que é isso que queimamos no decorrer de 365 dias. Ou um dia. Mês, talvez. O neurônio é uma célula. Dizem. Importantíssimo para nossas faculdades mentais. Por que celebramos a passagem do ano? Em memória das células que se foram, que descansem em paz.

Como a humanidade não prima pela inteligência – olhem ao redor, humanos irmãos –, acha que o fato de se aproximar mais um pouquinho de bater com as dez, vestir o paletó de madeira, pedir o boné, ou o eufemismo gracioso que quiserem para o velhusco “bater com as botas”, é fato a ser comemorado com flores a iemanjá aí, cervejadas na rua aqui.

Talvez, pessimista e cético que sou, vai ver o que estão comemorando mesmo é o fato de terem todos, ou termos todos, ultrapassado mais um ano razoavelmente de pé, sem partir na horizontal para parte alguma. De qualquer forma, maiuscular Feliz Ano Novo. Passar bem, neurônios. Estamos todos mais velhos e tão burros quanto sempre. Mas sobrevivemos.

Mal chega ao fim um ano, quando as listagens vestem seu black tie na mídia, e a ciência e a medicina, essas mesmas que descobriram o raio do neurônio, começam a dar palpite, na tentativa óbvia de nos animar em meio aos horrores de sempre que nos cercam pelos quatro cantos da Terra e os sete de nosso corpo.

Cientistas, muitos com diploma provando, insistem em desfazer mitos. Papai Noel, a maior parte de nós já sabe que não existe. Deus? Bem, Deus teve um grande ano em 2007. Sua existência foi discutida em dois ou três livros de sucesso nas duas ou três línguas que contam, à exceção, é óbvio, do latim falado no Vaticano e arredores.

Existência ou não de uma entidade superior é assunto que já não consta de minha pauta de preocupadas indagações há muito tempo. Claro que existe. Tem uma voz possante em câmara de eco e é maior que Godzilla e King Kong brincando de cavalinho. Deus apareceu várias vezes em alguns dos meus episódios favoritos de Os Simpsons.

Assim como Joana Do Arco ouviu vozes, eu vi, guerreiros, eu vi. Eu vi Deus participando da série, assim como aqueles macaquinhos que a família "trapíssima" veio a encontrar no Rio. Eu vi Deus nos Simpsons e acreditei. Acreditei em Deus assim como em todos os outros astros convidados e não dublados em português do Brasil: de Michael Jackson a Alec Baldwin e Kim Basinger.

Impossível qualquer tentativa de descrença. Deus existe e frequenta a série criada pelo esplêndido Matt Groening. Estabelecido isso, o que mais pode nos oferecer a ciência? Bem, desfazer alguns mitos é uma boa para se atravessar o ano. Mais lógico do que se vestir de branco e ir jogar flores brancas nas águas da orla marítima carioca para agradar uma entidade de origem nigeriana, a popular orixá iemanjá.

Por essa magnífica empreitada, vale a pena, na noite do 31, enfrentar os macaquinhos que infernizaram a vida de Homer, Marge e Bart. Os tambores e os fogos de artifício também ajudam nessa curiosa experiência religiosa místico-carnavalesca-candomblesiana-ortodoxa. Sim, sim, mas e os outros mitos?

Bom, a ciência deixou de lado Deus e iemanjá e proclamou, além das virtudes de um alcacelça no primeiro dia do ano, que ler no escuro não faz mal nenhum aos olhos. Provar? Isso fica para o ano. Acrescentou a ciência que essa mania de beber água o tempo todo, como se fosse coisa salubérrima, é pura embromação daqueles que querem – aqui estão minhas flores brancas, Sá Dona Iemanjá – pegar alguns trocados de nosso rico dinheirinho.

Todos os bancos de dados de todos os redutos científicos proclamam essas verdades como absolutas. Nenhuma pesquisa médica, a sério ou de sacanagem, provou coisíssima alguma. Quem o diz é o British Medical Journal em artigo da autoria de Aaron Carroll e Rachel Freeman, minha dupla dinâmica para 2008. Que aliás, pensando bem, também não provam nada. São bons de afirmações vagas como as cartomantes da rua do Catete.

Vão além os dois e desfazem – do verbo "desfazer", conforme conjugado por eles – outras lendas. Nem os cabelos nem as unhas crescem depois que a gente morre. Portanto, a vaidade, juntamente com tudo mais, inclusive os olhos azuis e o nariz arrebitado, se vão para sempre deste mundo descontentes.

Nossos cérebros? De pouca valia, conforme o atestam alguns milhões de anos de nossa história. Não exageremos pois afirmando que só usamos 10% dos 100% de suas possibilidades. Não, não. Somos burregos mesmo. Einstein e a mais recente senhorita nua em pelo (cada vez menos pelo) da revista masculina usam o máximo que podem de sua matéria cinzenta. Ponto.

Inclusive, cientista e miss podem ler à vontade no escuro. Não faz mal nenhum. É apenas mais difícil. Se Einstein raspava o cabelo das pernas, não sei. Nem de qualquer outra parte de seu corpito. Sei que as misses raspam, das pernas, e mais, muito mais, estou cansado de saber, tendo constatado mediante folhear desinteressado das tais revistas.

Não é verdade que mesmo a depilação, o brazilian, aquela aparação praieira, faça os cabelos crescerem mais rápido e mais ásperos. As misses que não se preocupem, como Einstein, que não se preocupou com seus 100% do uso de seu cérebro genial e não rapado.

E esse celular que você ganhou no Natal? Esse que lhe recomendaram que não fosse usado nos hospitais e suas imediações? Tolice. Fale besteira nele a seu bel-prazer. Tudo onda, inócua onda, nenhuma perigosa. Chata sim, perigosa não.

Quanto ao peru deglutido no Natal, aquele que você jura que lhe deu um bruta sono? Tudo na sua doentia cabeça, companheiro. Peru não dá sono. Dormem o sono eterno cercado de iguarias e muito vinho fraquinho, mas não dão sono. Mesmo. Juro pelo meu exemplar do British Medical Journal fazendo uso dos mesmos 100% de minhas faculdades mentais, exatamente como fazia o querido Einstein.

Feliz ano novo. Cuidado ao jogar as flores brancas nas ondas do verde-mar. Parece que se no meio for uma rosa vermelha, ou mesmo amarela, é azar para o ano inteiro. Isso é um fato científico.

(Publicado na BBC Brasil em 31 de dezembro de 2007) 

A incrível história do Carlão da Iaco



Janeiro de 1969. Filho da merendeira escolar Ilnah e do guarda territorial Zé Costa, o hoje empresário Antônio Carlos Costa (o “Carlão”, proprietário das Lojas Iaco) tinha 14 anos quando deixou sua Sena Madureira natal, nos confins do Acre, para estudar em Manaus.

Trazia como bagagem apenas uma pequena maleta de papelão com meia dúzia de roupas e muita vontade de vencer na vida.

Foi ser um bigorilho na casa de um tio paterno, Chico das Almas, e matriculado no Instituto de Educação do Amazonas.

Três meses depois, no início das aulas, Chico das Almas se separou da esposa e foi morar na casa de um irmão, Elzir Farias (pai do radialista Meike Farias), na Rua J. Carlos Antony, nas proximidades do Grupo Escolar Carvalho Leal. O bigorrilho foi junto.

Um mês depois, Elzir concluiu que não tinha condições financeiras de sustentar aquelas duas novas bocas e resolveu se livrar do bigorrilho.

Com a anuência de Chico das Almas, Elzir colocou Carlão e sua inseparável maleta de papelão em um táxi, e deixou o moleque no Aeroporto de Ponta Pelada com a recomendação expressa de pegar carona no primeiro Búfalo da FAB que estivesse indo para o Acre.

Sem conhecer ninguém da FAB e sem um centavo no bolso, Carlão passou três dias dormindo nos bancos do saguão do aeroporto.

Em troca de cafezinhos para enganar a fome, ele lavava os pratos e talheres da única lanchonete existente no aeroporto.

Vencido pela fome tirana, Carlão resolveu voltar a pé para o único endereço que conhecia na cidade: a casa do seu tio Elzir.

Às 6 horas da manhã do quarto dia, ele iniciou seu novo calvário: dar uma pernada federal do Aeroporto de Ponta Pelada até o bairro da Cachoeirinha.

Com a maleta de papelão na cabeça, Carlão já estava começando a encarar a subida da ladeira da Rua Urucará, no canto da Rua Tefé, em frente à Subusina da CEM, quando uma Rural Willys parou do outro lado da rua e o motorista do veículo deu um grito:

Você está indo pra onde, zé cueca?

Carlão olhou para um lado, para o outro. Não havia ninguém na rua deserta.

O sujeito da Rural insistiu:

– Estou falando contigo mesmo, zé cueca! Você está indo pra onde?...

Carlão não conhecia o sujeito, mas ainda assim respondeu:

– Vou pra casa do tio Elzir!

– Porra, tu és mesmo um zé cueca! Ninguém te quer lá naquela casa, carálio! Já te largaram até no aeroporto... Deixa de ser besta, porra, e toma tenência... Se manque!

Carlão sentiu um aperto no peito e uma vontade imensa de chorar.

O sujeito voltou a falar:

– Acho que você não se lembra de mim não! Eu sou filho do Gastão, porra! Foi teu avô Jonas que me criou... Embarca aqui nessa merda!

Enquanto entrava na Rural Willy, Carlão fez uma viagem no tempo em busca de sua própria infância e a ficha caiu.

Três gerações: Valdeir, Junior Costa e Neto

Aquele sujeito era seu primo Valdeir Costa, filho de seu tio Gastão.

O velho Gastão havia contraído hanseníase e morava sozinho em uma casa no quintal da residência de seu avô Jonas Costa, já que a profilaxia de tratamento dos infectados era o isolamento total.

Os filhos de Gastão e Dona Délia (entre os quais o boêmio Zé da Voz) foram criados por seu avô Jonas.

Valdeir estava casado com minha prima Rosinete, irmã do Cazuza, e era dono da Serralheria Santo Antônio, ali nas imediações do Conjunto Jardim Brasil.

Sua residência era ao lado da metalúrgica. Foi pra lá que ele levou o bigorrilho.

Vendo o estado de penúria do primo infante, mal entrou na residência Valdeir já deu uma voz de comando para a esposa!

– Ô Rosa! Põe comida pra esse moleque que ele está urrando de fome!

Rosinete, educadíssima, o que fazia um perfeito contraponto ao esposo grosso que só papel de embrulhar prego, fez a pergunta trivial:

– Ele quer comer o que?

– Põe comida, carálio! Põe comida! – devolveu o amabilíssimo marido.

Carlão detonou três pratos de carne assada, com feijão, arroz e farinha, que até hoje considera o melhor prato da culinária mundial.

Ficou um ano morando na casa do Valdeir e estudando.

Depois, passou mais um ano morando na casa da Dona Délia, mãe do Valdeir, ali na Rua Codajás, nas proximidades do Bar do seu Pastik (“Casa 25 de Janeiro”), enquanto trabalhava na Fróes Esquadrias, localizada na Av. Castelo Branco.

Ao completar 16 anos, Carlão soube pela sua prima Helena, irmã do Valdeir, que seu marido Eduardo, piloto de táxi aéreo, iria levar uma encomenda até Boca do Acre.

Carlão já andava meio cismado. Estava há dois anos em Manaus e continuava com a mesma meia dúzia de roupas que trouxera de Sena Madureira.

Metade já nem lhe servia mais porque o sacana estava crescendo...

Ele resolveu voltar para a cidade natal. Pegou uma carona com Eduardo no táxi-aéreo até Boca do Acre, de lá pegou carona em um barco de linha e desembarcou em Sena Madureira.

Sua mãe, Dona Ilnah, levou um susto.

O filho contou o motivo do retorno.

Dona Ilnah não quis saber de conversa:

– Volte imediatamente pra Manaus, para trabalhar e estudar! Se ficar aqui em Sena Madureira o máximo que você vai ser é jogador de sinuca, porque aqui não tem emprego pra ninguém... O povo sobrevive de teimoso. E eu não coloquei um filho no mundo para ser vagabundo...

Carlão voltou pra Manaus, foi trabalhar como vendedor das Lojas Cearense, depois passou oito anos como gerente da Top Lojas, do Jorge Mojica, e quatro como diretor comercial, até abrir seu próprio negócio lá se vão mais de 20 anos.

As lojas foram batizadas com o nome do rio que banha sua aldeia: Iaco, um dos afluentes do rio Purus.

Esse meu brother é um guerreiro!

A boca livre do advogado Vilson Benayion



O Vilson Benayion nunca meteu prego sem estopa...

Dezembro de 1986. Acho que era uma antevéspera de Natal, quando todo mundo começa a fazer planos para o Ano Novo que se aproxima. Eu estava tomando uma cerveja no Bar do Aristides, quando o Sici Pirangy entrou no bar e foi direto pra minha mesa:

– Poeta, eu tive uma ideia que acho que pode dar samba. O dia 1º de janeiro é o Dia Universal da Confraternização entre os Homens de Boa Vontade, correto? O que você acha de a gente fazer uma rua de lazer nesse dia, ali na Parintins, em frente ao Barraka’s, e confraternizar numa boa? A gente se cotiza, compra umas cervejas, assa umas carnes, coloca umas músicas pra tocar e vamos passar o dia lá, jogando conversa fora e relembrando o passado...

Achei a ideia excelente. Em menos de meia hora, nós dois já havíamos convencido cerca de 30 pessoas a embarcarem na viagem. Estabelecemos o valor da cota, algo próximo a R$ 100. Começamos a distribuir as tarefas.

O Arlindo Jorge ficou de receber o dinheiro das cotas.

O Paulo César Dó ficou de conseguir a autorização da Prefeitura para fazer a rua de lazer.

Sici Pirangy se responsabilizou pela compra da birita.

Jones Cunha se responsabilizou pela compra da carne para o churrasco.

O Wilson Fernandes, dono do Barraka’s Drink, se prontificou a fornecer uma feijoada para 100 pessoas.

O Chico Costa se escalou para comprar algumas medalhas de honra ao mérito para a gente homenagear alguns moradores do bairro.

O Antídio Weil ficou encarregado de conseguir a aparelhagem de som.

Todas as tarefas foram cumpridas dentro do prazo.

No dia 1º de janeiro de 1987, o fuzuê estava armado. A Rua Parintins, no trecho entre as ruas Borba e Carvalho Leal, se transformou em um formigueiro humano.

Havia competições de futebol, vôlei, cemitério, barra bandeira, ping pong, xadrez e dominó.

Além da suculenta feijoada carioca, foram assados 100 quilos de picanha, 50 quilos de frango, 30 quilos de bisteca de porco e 20 quilos de calabresa.

De birita, foram consumidos seis tambores de 50 litros de chope da Brahma, 20 litros de batidas diversas fornecidas pelo Selmo Caxuxa, 10 garrafões de vinho tinto de cinco litros e várias garrafas de uísque, vodca, gim e cachaça.

A festa começou às oito da manhã e terminou às oito da noite, sem que tivesse ocorrido uma única altercação.

Resolvemos repetir a dose no ano seguinte.

Em dezembro daquele mesmo ano, começamos a fazer a cobrança do dinheiro das cotas.

O total de colaboradores subiu de 30 para 100 pessoas, o que era prenúncio de um verdadeiro banquete dos deuses.

As tarefas também foram divididas e cumpridas direitinho.

Houve um certo exagero, claro. Em vez de uma simples aparelhagem de som, como no ano anterior, Antídio Weil alugou um gigantesco trio elétrico.

Em vez de algumas mesinhas do Barraka’s Drinks, o Olíbio Xiri alugou um jogo de 50 mesas com cadeiras, equipadas com guarda-sol.

Também foram alugadas algumas máquinas eletrônicas de fliperama para a garotada se divertir, cortesia do Ivan Chibata.

Os ciganos eram marrentos, apesar de o presidente da escola na época, o advogado Vilson Benayon, fazer de tudo para boicotar o encontro.

Ele queria que a festa fosse realizada na quadra coberta do GRES Andanças de Ciganos.

No dia 1º de janeiro de 1988, o fuzuê estava armado pela segunda vez.

Por volta do meio-dia, no auge da confraternização, Sici Pirangy percebeu uma multidão estimada em 800 pessoas subindo a ladeira da Rua Parintins em direção ao nosso convescote particular. Todos eles traziam uma panela na mão.

Disciplinadamente, os “intrusos” entraram na fila onde estava sendo servida a feijoada e começaram a encher seus teréns.

Depois, entraram na fila onde estavam sendo servidos os churrascos e repetiram a operação.

Depois, avançaram sobre as caixas de isopor espalhadas pelas calçadas, se abasteceram com latas de cerveja e garrafas pet de refrigerantes, e começaram a fazer o caminho de volta.

Sici Pirangy resolveu intervir.

Ele segurou no braço de um sujeito que estava carregando na cabeça uma panela de cinco litros cheia de feijoada e ponderou:

– Meu amigo, não me leve a mal, mas vocês são de onde?...

– Nós somos lá do Bodozal da Maués... – devolveu o sujeito.

– E como foi que vocês vieram parar aqui? – insistiu Sici.

– O Dr. Vilson Benayon foi de casa em casa, convidando a gente para participar do aniversário dele, que seria comemorado aqui na rua. Ele também avisou que a gente podia trazer quantas panelas quisesse para levar comida pra casa porque o negócio ia ser farto... – explicou timidamente o sujeito.

Até então, ninguém sabia que o advogado realmente fazia aniversário no dia 1º de janeiro.

Sici Pirangy liberou o sujeito e foi conversar comigo, puto da vida:

– Esse Benayon é muito safado, poeta! Ele não contribuiu com um centavo pra festa e ainda foi espalhar lá no Bodozal que estava bancando tudo... Dá pra acreditar numa merda dessas? Negócio seguinte: se ele aparecer aqui, eu vou fazer aquele escroto passar vergonha! Ele que vá fazer ficela lá pras negas dele! Aqui, não! Aqui, não!

O Benayon, evidentemente, não colocou os pés no pedaço.

Apesar da invasão dos hunos, a festa transcorreu numa boa, mas, por causa da presepada do advogado, a confraternização universal entre os homens de boa vontade foi rifada sumariamente de nosso calendário existencial e não teve uma 3ª edição.

O Benayon, entretanto, se deu bem: naquele mesmo ano, ele foi eleito vereador pelo PMDB, tendo recebido 1.500 votos dos moradores do Bodozal da Maués. Choses.

Luiz Lobão e o teste funcional na Sharp do Brasil



Mariazinha e Dona Francisca participando da Ala das Baianas 
do GRES Andanças de Ciganos

Março de 1974. Numa manhã de sábado, Lúcio Preto, Áureo Petita, Paulinho Preto e Gilberto param o carro em frente da casa da dona Francisca e começam a fazer o maior escarcéu. Dona Francisca vai até o terreiro saber o que está acontecendo:

– Dona Francisca, por favor, chame o Luiz Lobão, que ele está escalado para fazer um teste de montador de linha na fábrica de calculadoras da Sharp do Brasil! – explica Lúcio Preto.

– Mas logo hoje, em pleno sábado?... – questiona dona Francisca, visivelmente surpresa.

– Pois é. Parece que o Luiz já fez o teste escrito e hoje ele vai só fazer a avaliação física, que é feita fora da fábrica. O Paulinho e o Áureo também estão indo fazer o teste! – explicou Lúcio Preto.

Na maior boa-fé e acreditando piamente que o filho caçula tivesse tomado juízo, dona Francisca vai chamá-lo.

Ele havia chegado bêbado na madrugada anterior e vomitara a casa inteira. Um horror!

Ainda meio sonolento, Luiz Lobão se despede da mãe, entra no fusca e eles vão embora pro Bar Riachuelo, lá pelas bandas da Cidade Nova.

Retornam pra Cachoeirinha por volta da meia-noite, depois de terem detonado cinco garrafas de “pirata holandês” (Ron Montilla com leite condensado Greenland).

Luiz Lobão está capotado, quase em coma alcoólico.

Lúcio Preto e Gilberto carregam Luiz Lobão até a entrada da casa, deixam o bebum no chão, dão duas batidas rápidas na porta, entram rapidamente no fusca e saem de lá cantando pneus.

Quando dona Francisca abre a porta, toma um susto: tá lá o corpo estendido no chão.

Irritadíssima, ela começou a reclamar, enquanto tentava levantar o indigesto bebum:

– É esse que é o teste da Sharp, sem-vergonha?! É esse que é o teste da Sharp?!

Reunindo as últimas forças que ainda possuía, Luiz Lobão abriu um dos olhos, que nem o pirata do rótulo do Ron Montilla, balançou a cabeça em desaprovação e ganiu:

– Mas a senhora ainda acredita no Lúcio Preto, mamãe?...

Aí, fechou de novo o olho e voltou a dormir.

Dona Francisca era uma santa!

Chegada da Kamélia: 80 anos de tradição!



Por Iomar Japonês

Era dezembro de 1938 quando Cândido Jeremias Cumaru, o Kandú, comprou uma boneca negra, vestida de baiana, de 75 cm de altura, por quatro mil réis, na loja 4 e 400 (onde hoje funciona a loja Marisa, na esquina das avenidas Eduardo Ribeiro com Sete de Setembro).

Não se sabe se ao comprar a boneca, Kandú já pensava em utilizá-la no Carnaval do ano seguinte, o certo é que, 1939, com ela amarrada no galho de ingazeira, à frente de um grupo de amigos, Kandú comandou o Bloco da Kamélia, descendo a Eduardo Ribeiro.

No Bar Avenida (onde hoje está localizada uma agência do Bradesco), a boneca “mandou” servir aos seus brincantes uma ceia que custou 80 mil réis ao Kandú.

Fundado em 17 de outubro de 1938, tendo Kandú como um de seus fundadores, o Olimpico Clube passou a ser a casa da Kamélia.

Desde então, não houve um único ano em que a Kamélia deixasse de chegar da Bahia para animar o Carnaval de Manaus. A partir daí começou o baile da Chegada da Kamélia.

Em 1955, foi criada uma nova estratégica a fim de chamar a atenção para a chegada da boneca com o prefeito Walter Rayol (1955) mandando que fosse entregue a ela as chaves da cidade, o que representava a abertura oficial do Carnaval Manauense.

Aproveitando a estratégia que dera certo, em 1958 o prefeito Gilberto Mestrinho (1956/1958), iniciando sua carreira política, passou a entregar pessoalmente as chaves da cidade para a Kamélia, tornando, naquele ato simbólico, a abertura oficial do carnaval de Manaus, vindo a ser seguido pelos demais mandatários da cidade até os dias de hoje.

De olho na nova maneira de brincar Carnaval, em 1993 o Olímpico lançou a Banda da Kamélia. Dois anos depois, sob as mãos do artista plástico Juarez Lima, a boneca baiana passou por uma repaginação em seu visual e surgiu mais enxuta do que nunca, feita de isopor e com maior mobilidade para sambar.

Em 7 de dezembro de 2003, nova reviravolta na trajetória carnavalesca da Kamélia com a criação da Escola de Samba Império da Kamélia e fez seu 1º desfile no sambódromo em 2006 com o enredo “Kamélia, assim nasceu a minha escola”.

Pelo reconhecimento e importância da boneca Kamélia, o vereador Arlindo Júnior apresentou um projeto de Lei tornando a solenidade da “Chegada da Kamélia” como abertura oficial de carnaval de Manaus.

A propositura, transformada na Lei nº 1.722/2013, foi sancionada pelo prefeito Arthur Virgílio Neto no dia 15 de abril de 2013.

Em 2015, a boneca tornou-se Patrimônio Cultural Imaterial do Amazonas, por meio de um Projeto de Lei de autoria do então deputado estadual Bosco Saraiva, na época presidente da Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas.

Hoje, dia 4 de janeiro, com a Chegada da Kamélia, será aberto oficialmente o Reinado do Momo na capital amazonense.

E com essa trajetória, podemos assim definir a boneca Kamélia: “Kandú criou-a, o Olímpico projetou-a e o povo consagrou-a”.


sábado, dezembro 28, 2019

A tiranaboia de Bob Nelson e Bazam



O inesquecível Bazam (ao lado do filho Antônio), 
que resolveu virar encantado na manhã de ontem

O cantor e compositor Nelson Roberto Perez (aka “Bob Nelson”) se tornou conhecido por misturar música caipira com o ritmo country e ficou famoso pela interpretação da canção “Oh, Susana!”.

Nascido em Campinas (SP), em 12 de outubro de 1918, Bob Nelson era o sexto dos oito filhos de José Pérez, espanhol, ferroviário da Mogiana e dono do Hotel Dalva, e de D. Floresmina.

Ele morreu no Rio de Janeiro, em agosto de 2009, aos 90 anos, após sofrer uma parada cardíaca.

O nosso Bob Nelson baré (batizado Roberto Borges Cardoso) nasceu em Santarém (PA), em 15 de setembro de 1946, e faleceu em Manaus, em maio de 2006, aos 60 anos, vítima de diabetes.

Ele era irmão do Alberto Gordo, supervisor de Produção na Philco da Amazônia e ex-diretor do Sindicato dos Metalúrgicos, no período 1984-1987. O sangue bom Alberto Gordo também faleceu há alguns anos, vítima de diabetes.

Dotado de uma voz talhada para o canto yodell (aquele canto com vibrato do tipo “tiroleeiiiite”), o Bob Nelson baré começou se apresentando em shows de calouros pelos quatro cantos da cidade, com um repertório inteiramente calcado no Bob Nelson original.

No final dos anos 60, ele já era figurinha carimbada no Bar do Aristides, onde, invariavelmente, começava a detonar uma garrafa de Praianinha cantando “Vaqueiro do Arizona, desordeiro e beberrão / Corria em seu cavalo pela noite no sertão / No céu, porém, a noite ficou rubra num clarão / E viu passar num fogaréu um rebanho no céu / Y-pi-a-ê, y-pi-a-ô”.

A gurizada viciada em faroeste, eu incluso, ia ao delírio.

Na sequência, Bob Nelson emendava a sua canção favorita, que eu também não consigo ouvir até hoje sem me arrepiar: “Quando fui ao Alabama e toquei meu violão / Encontrei uma menina num cavalo alazão / Ela me pediu sorrindo pra tocar uma canção / Que falasse do Alabama de um banjo e um violão / Oh! Suzana não chores por mim / Pois eu volto pro Alabama pra tocar meu banjo assim...”.

E aí ele mandava o “tiroleeiiite” por quase cinco minutos, incendiando o cabaré.

Na verdade, Bob Nelson colocava o vibrato yodell em qualquer música que lhe desse na telha – e seus acompanhantes no violão que se virassem.

Por exemplo, ele começava a cantar, batucando numa caixinha de fósforo: “Na minha fazenda tem um boi / Esse boi se chama Barnabé / Sabe moço ele anda se babando / Pela minha linda vaca Salomé”.

Aí, quando todo mundo esperava o segundo verso, ele enfiava as variações inimagináveis a partir do “tiroleeiiite”. Uma zorra.

Depois que descobriu sua alma gêmea (João Carlos Weil, aka “Bazam”, irmão do Antídio Weil), Bob Nelson não parou mais de agitar.

Como se fosse a dupla Pelé-Coutinho, Bazam e Bob Nelson, numa tabelinha perfeita, realizaram milhares de aprontos na Cachoeirinha e adjacências para levantar o leite das crianças.

Mas tudo na base do lero-lero, sem violência, porque malandro é malandro e mané é mané.

Um dos mais brilhantes golpes da dupla era realizado exatamente na entrada da Vila Mamão, próximo da casa de bilhares São Francisco de Assis, sempre nos dias de sábado, no início da noite, quando a banda de Fuzileiros Navais se apresentava em frente do Palácio Rodoviário.

Na época, havia um único caminho entre a Vila Mamão e o muro do Sanatório Adriano Jorge, uma espécie de beco mal iluminado que terminava numa imensa jaqueira.

De lá em diante, dezenas de becos mal iluminados desnorteavam qualquer um que se aventurasse por aquelas plagas sem uma bússola decente.

Os meganhas só entravam ali com proteção policial.

O golpe, simples e funcional, consistia em alardear que Bazam havia aprisionado uma temida taturana também conhecida como tiranaboia.

A taturana estava presa embaixo de um chapéu, sobre um jornal, que os dois haviam acabado de estender no meio na rua.

Claro que não havia nada sob o chapéu de palha estilo Panamá, só que ninguém sabia.

As pessoas que se dirigiam para assistir ao concerto dos fuzileiros navais olhavam para a presepada sem esconder a curiosidade.

Alguns ficavam no meio do caminho para conferir a perigosíssima tiranaboia.

Também chamada de jequitirana, jitirana, taturana, cobra-de-asa, cobra-do-ar, cobra-voadora, cobra-cigarra, gafanhoto-cobra, jaciara e serpente-voadora, o verdadeiro nome da taturana é jaquinaraboia (do tupi iakyrána, “cigarra”, mboia, “cobra”).

Trata-se de um nome comum de vários insetos grandes (alguns chegam a medir 10 cm) e semelhantes a cigarras, que possuem um enorme ferrão no abdome utilizado para perfurar as plantas de onde retiram a seiva com a qual se alimentam.

A crendice popular afirma serem venenosos (“se bate numa árvore, esta seca, se bate numa pessoa, esta morre”), mas, na verdade, são insetos absolutamente inofensivos, que se alimentam do néctar das frutas e da seiva dos vegetais.

Nos anos 60, ninguém sabia disso.

Com sua voz de menestrel, Bob Nelson entrava macio como colher de alumínio em mamão maduro:

– Este bichinho chamado tiranaboia ou taturana, que está preso debaixo desse chapéu, é um dos mais temidos dentro da floresta amazônica. Segundo os mateiros, a tiranaboia só pode pousar sobre uma espécie de árvore. Caso pouse em alguma outra, ela automaticamente mata a árvore. Eu vi uma seringueira que morreu. Ela quebrou exatamente aonde a tiranaboia pousou, no meio do caule. Para a raça humana, a taturana também é muito perigosa. Caso ela trisque na pessoa, diz que a morte é certa.

Começava a juntar gente para ver a presepada.

Bazam fingia uma certa impaciência:

– Eu vou já soltar essa taturana, que ela está com muita fome! – dizia, enquanto se agachava em direção ao chapéu.

Bob Nelson o segurava pelo braço e o repreendia, fingindo nervosismo:

– Não faça isso, meu irmão. Tem muita criança no pedaço. Tu te lembras da merda que deu ontem lá na Matinha? Teve gente que saiu machucada durante a correria... Essa tua taturana é o cão chupando manga, ainda mais quando está desse jeito, morta de fome...

A curiosidade aumentava. O zum zum zum e o diz-que-diz-que iam atraindo mais gente.

Daqui a pouco, os dois já estavam cercados por dezenas de pessoas, implorando para ver a taturana.

Bob Nelson fingia uma exasperação calculada:

– Ô, meu irmão, isso aqui não é circo não! Essa tiranaboia é um terror! A gente vai precisar de uma graninha para cuidar dos mortos e feridos porque depois que ela sair de baixo do chapéu isso aqui vai se transformar no maior pandemônio... Ontem à noite, lá em Educandos, umas quinze pessoas foram parar no Samdu... Essa tiranaboia é perigosa! É muito perigosa!

Algumas pessoas contratadas previamente por eles começavam a colocar notas de um Cabral ao lado do chapéu.

Os incautos curiosos pegavam corda e começavam a depositar suas cédulas de Princesa Isabel, Dom Pedro II, Tiradentes e, em dia de fartura, até de Santos Dumont.

Todos querendo ver, ao vivo e em cores, uma autêntica tiranaboia.

Bob Nelson continuava a pregação, deixando a plateia cada vez mais nervosa e curiosa.

Quando o monte de grana atingia um valor considerado, Bob Nelson anunciava o grand finale:

– É agora que a jiripoca vai piar! – avisava, enquanto recolhia a grana depositada na folha de jornal. – Solta a taturana, meu irmão, que eu quero ver o circo pegar fogo!

Automaticamente, Bazam se ajoelhava, colocava rapidamente o chapéu na cabeça, levantava como se fosse impulsionado por molas, chutava a folha de jornal na direção da galera (a sincronia era perfeita, nem Charles Chaplin ousaria imitar) e berrava:

– Pega eles, taturana maldita! Mata a tua fome tirana, taturana miserável!

Por causa do susto, as pessoas querendo fugir da direção do chute do Bazam se chocavam uma com as outras, se machucavam e já achavam que aquilo era fruto da taturana em ação.

Em questão de segundos havia gente berrando, gente chorando, gente caindo no chão, gente sendo pisoteada, gente falando palavrões, cachorros latindo e mordendo gente, um inferno.

Enquanto o pandemônio se instalava, os dois aproveitavam para fugir correndo pelo beco da Vila Mamão até desaparecer no sem-número de becos existentes depois da jaqueira.

Na semana seguinte, repetiriam a façanha. Lá ou em outro lugar.

terça-feira, dezembro 24, 2019

A saga do Mestre Caramuru (Final)



Careca Selvagem, Caramuru Souza e Juarezinho Tavares

Em 1966, durante uma visita a Santarém, Caramuru encontrou novamente o jogador Leopoldo, que o convidou para jogar em um novo time da cidade, o Conser Clube, criado exclusivamente para desbancar os grandes clubes de Santarém no campeonato da 1ª divisão.

Os cartolas do novo clube contrataram uma verdadeira seleção: Aldo, Leopoldo, Cojoba, Pedro Olaia, Tarubá, Leopoldino, Joseli, Abdala e Caramuru, entre outros.

No primeiro turno do campeonato, o time foi a grande sensação, aplicando sonoras goleadas em todos os adversários.

Esbanjando talento e categoria, Caramuru e Abdala davam as ordens no meio de campo.

O Conser era um time invejável, com uma defesa segura, um meio de campo impecável e um ataque arrasador.

No segundo turno, entretanto, o time novato começou a ser boicotado pelos juízes nas partidas contra os chamados “clubes de tradição” (São Raimundo, São Francisco, América, etc.), sendo “tungado” desavergonhadamente na maior cara dura.

Irritados com a escandalosa roubalheira, denunciada diariamente pela imprensa falada e escrita, os cartolas do Conser Clube resolveram radicalizar e abandonaram a competição na metade do 2º turno.

De repente, da noite para o dia, vários craques ficaram desempregados.

Caramuru era um deles.

Desgostoso com aquela série de acontecimentos, ele resolveu abandonar o futebol e se mandou de Santarém.

O cartola Everaldo Martins foi buscar o craque na comunidade da Prainha e o levou para o São Raimundo.

Começava assim a sua nova trajetória.

O time alvinegro estava fazendo uma série de amistosos e Caramuru foi sendo testado nesses jogos.

O volante rapidamente se entrosou com seus novos companheiros.

Sua estreia foi contra o Sport Clube Bahia, de Sapatão, Baiaco, Romero e companhia.

O São Raimundo fez uma boa apresentação e começou a nascer o grande destaque no meio de campo, que ficaria marcado para sempre na memória de sua torcida: Caramuru e Amiraldo.

A equipe que enfrentou o clube baiano era formada por Genésio, Pedro Nazaré, Inacinho, Ricardo e Javali; Caramuru e Amiraldo; Manoel Maria, Mazinho, Nazareno e Espadim.

O volante e o meia armador deixaram o campo aplaudidos de pé pela torcida.

Na partida seguinte, foi a vez do São Raimundo enfrentar o São Cristóvão, do Rio de Janeiro.

Outro espetáculo de Caramuru no meio de campo alvinegro.

Os jogadores cariocas ficaram de boca aberta ao ver a beleza do grande futebol interiorano, com tanto atleta bom de bola (o ponta direita Manuel Maria chegaria ao Santos e depois à seleção brasileira).

Para o craque Caramuru, aquele foi um período de ouro, já que ele pode mostrar todo o seu grande talento enfrentando vários clubes do Sul do país e jogadores de alta categoria.

Para completar a satisfação do craque, apareceu outro adversário do Rio de Janeiro, o América, de Edu e Antunes, ambos irmãos de Zico.

Foi outra oportunidade de jogar com muita garra e mostrar novamente o seu talento.

Finalmente, o São Raimundo enfrentou o Flamengo, que trouxe em sua bagagem vários craques de renome como Ditão, Carlinhos, Nelsinho, Almir Pernambuquinho e Fio Maravilha.

– Foi uma partida inesquecível! – recorda Caramuru. – Perdemos, mas saímos de campo de cabeça erguida porque demostramos que em Santarém também se jogava bola.

Como aquele foi um jogo especial para Caramuru, ele relembra as duas equipes que se confrontaram no estádio Elinaldo Barbosa, superlotado de torcedores.

O São Raimundo formou com Genésio, Pedro Nazaré, Inacinho, Ricardo e Javali; Caramuru e Amiraldo; Manoel Maria, Mazinho, Nazareno e Pedro Olaia.

O time do Flamengo formou com Marco Aurélio, Luiz Luz, Ditão, Clair e Dione; Carlinhos e Nelsinho; Carlinhos II, Fio Maravilha, Almir Pernambuquinho e Antunes.



No mesmo ano de 1966, Caramuru ganhou o seu primeiro título pelo São Raimundo.

Depois de o América ter dado um show de bola em cima dos dois grandes, Leão Azul (São Francisco) e Pantera Negra (São Raimundo), e ter conquistado o campeonato de 1965, o São Raimundo voltou a ser campeão em cima de seu maior adversário, o São Francisco, com o futebol espetacular de Caramuru e de toda a sua equipe.

O Leão Azul tinha um bom time, mas não resistiu ao domínio dos alvinegros.

Uma das grandes armas do Leão já tinha ido embora, o centroavante Afonso, monte alegrense da gema (ele foi jogar no Clube do Remo, em Belém, e depois foi bicampeão do futebol amazonense pelo Fast Club, fazendo dupla com Edson Piola).

Mesmo assim não era fácil ganhar uma decisão contra o Leão Azul. Mas o Pantera Negra levou a melhor e foi campeão em 1966.

O São Raimundo tinha um excelente plantel: Genésio e Surdão (goleiros), Pedro Nazaré, Piraca, Inacinho, Ricardo Santos, Javali, Chico Cutite, Caramuru, Abdala, Amiraldo, Arinos, Manoel Maria, Caveirinha, Escapulário, Nazareno, Mazinho, Pedro Olaia e Espadim, entre outros.

Como perder com um timaço desse?

O São Francisco formava com Carlito, Guajará, Pedrinho Araújo, Jô e Acari; Pão Doce e Chico Imbiriba; Cabinha, Edvar, Bimba e Navarrinho.

Esta decisão aconteceu quando o futebol santareno era de fato respeitado pelo nível de qualidade de seus talentosos jogadores.

Caramuru ainda ficou jogando no São Raimundo até 1968. Depois retornou para Fordlândia.

Em virtude de metade de sua família já estar morando em Manaus, o craque retornou para a capital amazonense, onde foi trabalhar na Universidade Federal do Amazonas.

Nas horas vagas, a sua pelada era sagrada.

Caramuru fixou residência em Manaus, no bairro de São Francisco, mas, sempre que pode, viaja de férias para Fordlândia, sua terra natal, e para Santarém, cidade que o recebeu de braços abertos e que até hoje lhe devota um grande carinho.

Ele continua torcendo de longe pelo São Raimundo e tem lembranças inesquecíveis do saudoso Everaldo Martins, o cartola alvinegro responsável pela sua carreira no clube.

Casado com dona Terezinha, Caramuru vive em grande harmonia com seus filhos, todos casados e “peladeiros” contumazes: Marcos, Paulo, Zanata e Elton.

O gente-fina Marcos é presidente vitalício do Santos, um dos grandes times amadores de São Francisco.

Paulo Caramuru, engenheiro mecânico da Eletronorte, além de peladeiro é um partideiro de responsa.

Elton, o mais tranquilo dos quatro, é dono de uma distribuidora de bebidas e também se defende bem em um partido alto.

Vascaíno sadio, Zanata é a ovelha negra em uma família de flamenguistas doentes.

Ele foi batizado com o nome do craque flamenguista, mas quando começou a se interessar por futebol o ex-craque flamenguista já jogava no Vasco.

Zanata, claro, trocou de camisa.

Acontece.

A saga do Mestre Caramuru (Parte 1)



Pai Simão e Caramuru Souza

Ele tinha um toque de bola extremamente refinado e, por isso mesmo, detestava jogador que dava “bicuda” ou “isolava” a bola nas arquibancadas.

Era um volante moderno, nos anos 60, que atacava e defendia com igual desenvoltura.

Nasceu na terra que exportou vários craques para Santarém: Fordlândia, a cidade industrial que o magnata Henry Ford construiu no coração da Amazônia.

Em Santarém, ele jogou no Coser Clube, São Francisco e São Raimundo, onde foi campeão, e fez, juntamente com Amiraldo, um dos melhores meios-de-campo do futebol do Baixo-Amazonas.

Seu nome: Caramuru Borges de Souza.

Filho do comerciante Miguel Guimarães, um dos mais ilustres membros da colônia santarena residente em Manaus, Caramuru veio morar na capital amazonense quando ainda era criança.

Nos finais de semana, Pai Simão costumava apanhar o comerciante Miguel Guimarães em sua casa para passearem de carro pela cidade.

Meu pai, que possuía um táxi Aero Willys, conhecia o velho Miguel desde Santarém e mantiveram a mesma amizade em Manaus.

O jovem Caramuru começou a estudar no Colégio Dom Bosco e a disputar alegres peladas no Estádio General Osório do 27º BC (“Batalhão de Caçadores”).

Sua grande habilidade no trato da bola começou a despertar o interesse de muitos “olheiros”.

A primeira oportunidade aconteceu quando o São Lourenço, time que participava do campeonato amador da 2ª divisão, o convidou para defender as suas cores.

Caramuru tinha apenas 16 anos.

Depois de mostrar seu fino trato com a bola, sua fama estendeu-se aos clubes da 1ª divisão e o treinador do Auto Esporte assediou a família do garoto para que ele pudesse jogar no campeonato amazonense.

Dirigente e treinador do time, Cláudio Coelho foi o responsável pela ida do craque para o Auto Esporte, depois de convencê-lo a fazer o famoso “teste de campo” entre os reservas do time.

Bastou o primeiro treino para Caramuru ser aprovado logo de primeira, graças ao seu vistoso futebol.

Depois de alguns treinamentos, ele ganhou a posição de titular no time principal para fazer sua estreia contra um fortíssimo adversário, o tradicional Clube do Remo (PA), que trazia na sua bagagem jogadores como Smith, Socó, Mangaba, Casemiro, Zé Ferreira, Kiba, Sessenta e Dudinha, este oriundo do time São Francisco, de Santarém.

O adolescente Caramuru estreou no Auto Esporte com uma sensacional vitória de 3 a 0 contra o Leão Azul do Baenão.

Os heróis desta conquista do time baré, que ainda jogavam no esquema 2-3-5, foram Vicente, Guarda e Gatinho; Juarez, Gilberto e Joia; Silvio, Osmar, Mario Gordinho, Caramuru e Manoel.

Caramuru sagrou-se bicampeão do futebol amazonense nos anos de 1956 e 1959, e ficou jogando em Manaus até 1962.

Durante uma viagem de férias para Fordlândia, Caramuru encontrou a bordo do barco regional em que viajava o craque Leopoldo, que o convidou para tentar a sorte em um dos times da Princesinha do Tapajós.

A fama do craque bom de bola se espalhou em Santarém e a repercussão chegou até aos ouvidos de Antonio Turco, um dos dirigentes do São Francisco, que acreditou em Leopoldo e pediu o aval do então presidente do clube, Francisco Coimbra, para contratar o craque para o lugar de Mindó, que já estava pendurando as chuteiras.

Tudo isso ocorreu no ano de 1963. Caramuru foi recebido com festa pelo grande elenco do São Francisco: Gato, Tarol, Jô, Pedrinho Araújo, Edvar, Tovica, Afonso, Aluísio, Beleza Preta, Mindó, Coruja, Joseli e Leopoldo.

O time era treinado pelo famoso Raik e no comando fora do campo estavam Chico Coimbra, Dídimo Souza, Osmar Simões, Machadinho e Otaviano Matos.

Caramuru jogou algumas partidas amistosas pelo São Francisco.

Contra o Rio Negro, de Manaus, o time venceu por 4 a 0. Foi derrotado pelo Clube do Remo, de Belém, por 4 a 3. Empatou em 1 a 1 com o Moto Clube e perdeu para o Maranhão Atlético Clube por 4 a 2, ambos de São Luís.

O jogador, entretanto, não se ambientou no time azulino e se mandou para Fordlândia, onde foi por conta de um chamado da família para trabalhar na Petrobrás.

Acabou ficando três anos na empresa.

Maristóteles e os “perus” de dominó



Chico Costa e Simão Pessoa no Bar do Jacó

Abril de 1982. Um dos mais hábeis jogadores de dominó da Cachoeirinha, o comerciante Maristóteles, pai do Neto e do Totinha, tinha um prazer quase sádico em azucrinar os “perus” que ficavam palpitando durante as dramáticas partidas de dominó disputadas no Top Bar.

O engenheiro Chico Costa era um dos que mais sofriam em suas mãos.

De repente, com a partida quase no fim, Maristóteles perguntava o placar.

Quase sempre, sua dupla estava vencendo por uma diferença de mais de 50 pontos.

Ele, então, consultava as três pedras que tinha na mão, observava o jogo formado na mesa, fazia uma série de cálculos mentais e começava a falar para si mesmo, bem baixinho, mas audível o suficiente para o “peru” escutar, enquanto se preparava para sentar uma pedra:

– É... Não tem outro jeito!... Só dá pra fazer isso mesmo!... Vamos lá!... Seja o que Deus quiser!...

Postado em suas costas, vendo suas pedras e fazendo a mesma série de cálculos mentais, o “peru” começava a ficar nervoso.

E o nervosismo se transformava em dor, raiva, exasperação, desespero, quando Maristóteles, de pura sacanagem, sentava uma pedra que não tinha nada a ver com o desenrolar clássico da partida até mesmo na visão estreita de um leigo.

Numa espécie de uivo dolorido saindo do mais recôndito de suas entranhas, o “peru” lhe tomava as pedras da mão e gritava:

– Cavalo! Não era pra jogar essa aí não! Era pra jogar aqui nessa ponta, com essa pedra aqui, dando 50, mais 50 e dominó de 20! Cavalo! Invertebrado! Desgraçado! Filho da puta! Burro!

Maristóteles só faltava perder o fôlego de tanto rir da fúria, do desespero e das imprecações do sujeito.

O inigualável Pagode do Chibata



Março de 1986. Cada vez mais disposto a emular os bicheiros cariocas, Ivan Chibata resolveu montar um grupo de pagode.

Ele contratou o violonista Chiquinho da Baiana, um veterano frequentador do Bar Academia do Galo, no Boulevard Amazonas, conhecido reduto de chorões, pagodeiros e sambistas da cidade, para ser seu acompanhante em tempo integral.

Exímio instrumentista, Chiquinho da Baiana tinha quase 70 anos e estava na cara que não teria pique para acompanhar um bicheiro movido a glucoenergan na veia.

Mas ele topou, talvez porque estivesse precisando de um “agrado”.

Ivan Chibata comprou os demais instrumentos – atabaque, tantã, pandeiro, cavaquinho, banjo, agogô, frigideira, cuíca, tamborim – e, em companhia de Chiquinho da Baiana, começou a circular pelos botecos.

No início eram apenas eles dois (Ivan tocava um atabaque razoável e era metido a cantor), mas se algum presente quisesse participar da roda de pagode bastava pegar um dos instrumentos no porta-malas do carro e começar a brincar.

O Pagode do Chibata começava, invariavelmente, com uma música do João Nogueira: “Clara, / Abre o pano do passado, / Tira a preta do cerrado / Põe rei congo no congá / Anda / Canta um samba verdadeiro, / Faz o que mandou o mineiro / Ô mineira / Samba que samba no bole que bole / Ôi morena do balaio mole / Se embala do som dos tantãs / Quebra no balacochê do cavaco / E rebola no balacobaco / Se embola dos balagandãs / Mexe no meio que eu sambo do lado / Vem naquele bamboleado / Que eu também sou bam, bam, bam / Vai cai no samba cai / E o samba vai até de manhã / Vai cai no samba cai / E o samba vai até de manhã / Ô saravá mineira guerreira / Que é filha de Ogum com Iansã”.

Além de João Nogueira, o repertório tinha Jorge Aragão, Luiz Carlos da Vila, Almir Guineto, Candeia, Monarco, Dona Ivone Lara, Walter Alfaiate, Martinho da Vila, Fundo de Quintal e por aí afora.

O circuito dos bares era bem conhecido.

Ivan começava no Bar do Aristides, por volta das 16h de sábado.

Depois de três horas de agito, ele recolhia os instrumentos e o violonista e ia pro Bar da Alzira, depois pro Bar da Dolores, depois pro Bar da Loura, depois pro Bar do Russo, depois pro Bar do Camaleão, e só parava a cantoria quando o dia estivesse amanhecendo.

O dia de segunda-feira, bem entendido.

O bicheiro também tinha outras bossas.

Era comum, no meio da roda de pagode, Ivan Chibata pedir um tempo e anunciar:

– Agora o meu atabaque vai soar igual caixinha de guerra!

Aí, retirava do pescoço um cordão de ouro de dois dedos de grossura, colocava em cima do couro do atabaque, e começava a bater nas laterais do instrumento.

O som do pesado cordão sobre o couro do atabaque imitava realmente o som de uma caixinha de guerra.

O mulherio que assistia essa presepada só faltava ter orgasmo.

Para entrar no carro do Ivan Chibata e acompanhar o bicheiro exibicionista e podre de rico pelo resto da noite era conta de multiplicar.

Uma madrugada, quando já estava no Bar do Camaleão, Ivan Chibata percebeu que o diamante de 25 quilates de seu imponente anel de ouro havia caído. Só restava o buraco da pedra no anel.

Ele recolheu os instrumentos e, junto com os acompanhantes, empreendeu uma verdadeira via sacra pelos bares aonde já havia tocado antes.

Era hilariante ver aquele monte de gente agachado entre as mesas procurando pelo diamante fujão. A pedra foi recuperada no Bar do Aristides.

O sujeito que encontrou o diamante foi agraciado na mesma hora com R$ 5 mil em espécie.

Segundo Ivan Chibata, a recompensa equivalia a 1% do valor real do brinquedo. Era um exagerado.

No sexto mês de existência do inigualável Pagode do Chibata, o violonista Chiquinho da Baiana já havia se transformado em um verdadeiro zumbi.

Ele aproveitava cada intervalo musical para tirar um cochilo, o que deixava o bicheiro puto da vida.

– Vamos trabalhar, meu compadre, vamos trabalhar! – berrava Ivan Chibata, vibrando o atabaque com violência. – A gente ainda tem mais três apresentações pra fazer. Se o senhor continuar dormindo desse jeito não vai receber um tostão...

Chiquinho da Baiana despertava assustado, se recompunha e recomeçava a dedilhar o violão de sete cordas.

Três meses depois, o violonista pediu arrego:

– Olhe, seu Ivan, eu gosto muito do senhor e preciso muito desse emprego, mas não tenho mais saúde para ficar tocando 36 horas seguidas, só se alimentando de cerveja Brahma, cigarro Carlton e isca de queijo coalho2...

A revelação foi um choque. Até então Ivan Chibata não sabia que as pessoas precisavam ingerir carboidratos, gorduras e proteínas para não morrer de fome.

O Pagode do Chibata acabou na mesma hora.

A Lista de Schindler de Edward Favela



O escritor Jones Cunha no Castanhal do Jutica, em Tefé

Era quase uma tradição de fim de ano. No começo da tarde do dia 31 de dezembro, o motorista Edward Favela, armado com uma peixeira de sete polegadas na cintura, se aboletava solitariamente em uma das mesas do Bar do Aristides, na Cachoeirinha, pedia uma “meiota” de cachaça e começava a consultar uma lista.

Naquela lista estavam os nomes dos desafetos em que ele iria começar a desfechar uma peixeirada no bucho, de preferência para matar, a partir do dia seguinte, 1º de janeiro, dia consagrado à paz entre os homens.

Quem tivesse feito alguma desfeita ao motorista no ano que se encerrava, era um candidato potencial a entrar na lista.

De repente, Jones Cunha se aproximava da mesa do matador:

– O meu nome está na lista?

Edward dava uma olhada.

– Está. Você é o terceiro!

– Meu irmão, não faça isso! Eu vou te pagar uma “meiota”, mas coloca o meu nome lá embaixo, entre os últimos... – implorava Jones Cunha.

– Feito! – avisava Edward.

Enquanto Jones providenciava a cachaça, Favela riscava seu nome do terceiro lugar e acrescentava lá pelo quinquagésimo sexto, que o sujeito tinha muitos desafetos.

Daí a pouco, chegava Nei Parada Dura:

– O meu nome está na lista?

Edward dava uma olhada.

– Está. Você é o quinto!

– Meu irmão, não faça isso comigo não! Eu vou te pagar uma “meiota” e um tira-gosto de sardinha, mas coloca o meu nome lá embaixo, entre os últimos... – implorava Nei Parada Dura.

– Feito! – avisava Edward.

Enquanto Nei Parada Dura providenciava a cachaça e o tira-gosto, Favela riscava seu nome do quinto lugar e acrescentava lá pelo sexagésimo nono.

Dali a alguns minutos, Rubens Bentes se aproximava da mesa:

– O meu nome está na lista?

Edward dava uma olhada.

– Está. Você é o primeiro!

– Porra, meu irmão, você está me desconhecendo! Sempre fui seu peixe. Não faça isso comigo não! Eu vou te pagar duas “meiotas” e uma carteira de Hollywood, mas coloca o meu nome lá embaixo, entre os últimos, de preferência, depois do Jones... – implorava Rubens Bentes.

– Feito! – avisava Edward.

Enquanto Rubens Bentes providenciava a cachaça e o cigarro, Favela riscava seu nome do primeiro lugar e acrescentava lá pelo octogésimo terceiro.

Por volta das 10 da noite, mais bêbado do que um gambá (dependendo do número de desafetos que chegavam no bar, ele era agraciado com até 25 “meiotas”, 15 carteiras de Hollywood e um número incalculável de tira-gostos de sardinha, conserva e salsicha em lata), Edward Favela guardava a lista no bolso e se dirigia para sua residência, aos trambolhões.

Quando se curava da carraspana, no dia seguinte, Favela não tocava no assunto.

Mas no dia 31 de dezembro do ano seguinte começaria tudo outra vez.

Era um obstinado!

Eu e Mário Adolfo brincando de mountain bike



Caloi Barra Forte: só para os fortes, só para os machos!

Fevereiro de 1970. No Natal do ano anterior, Pai Simão havia nos presenteado com duas bicicletas Caloi: uma feminina (“Caloi Ceci”), na cor azul, para as meninas, e uma masculina (“Caloi Barra Forte”), na cor vermelha, para os moleques (eu e Simas).

Estava na cara que o futuro Careca Selvagem dificilmente iria pilotar aquela máquina: ele não tinha tamanho para sentar no selim e pisar nos pedais ao mesmo tempo.

O safado resolveu o problema enfiando uma das pernas por dentro do arco oco que servia de suporte do quadro para alcançar um dos pedais e pilotar a “magrela” meio de lado, como se fosse um sidecar.

Eu havia aprendido a andar de bicicleta com seis anos de idade, quando Pai Simão comprou duas minibicicletas pra gente.

Simone e Silene foram as primeiras a aprender a andar nas bicicletas sem as “rodinhas” auxiliares.

Eu levei um bom tempo até parar de olhar pros pedais e seguir em frente, sem cair.

Silane, Selane e Simas também aprenderam a dominar as maquininhas após uma série de tombos memoráveis.

O certo é que quando as duas Caloi nos foram presenteadas, a farra ficou completa.

Havia um pequeno detalhe. Os freios da Ceci já eram produzidos no moderno sistema de cabo de aço, ou seja, você acionava a manopla de freio com apenas um dedo.

Os freios da Barra Forte ainda eram do antigo sistema “freio de vara”, ou seja, duas manoplas de ferro quase na horizontal, que você só conseguiria acionar usando as duas mãos para apertar com força.

Com o uso continuado, as manoplas de freio ficavam mais maleáveis, mas nos seis primeiros meses o piloto tinha que tocar um dobrado.

Para resolver o problema de frenagem, eu pedia que o sujeito do bagageiro saltasse e segurasse a bicicleta pelo próprio bagageiro.

A estilosa bicicleta feminina Ceci

Uma tarde de domingo, eu e Mário Adolfo estávamos caçando brotos na parte plana da Rua Borba, entre a Codajás e a Parintins.

Como o Mário Adolfo nunca se interessou em aprender a andar de bicicleta, eu pilotava a “magrela” e ele ia confortavelmente sentado no bagageiro para ajudar nas freadas.

Lá pelas tantas, ele me convenceu a passar em frente de sua casa, onde as meninas da rua (Edna, Mary Jane, Hedy Lamar, Sôngila, Silane, Noca, Silvana, Nise, etc.) estavam tricotando fofocas.

Nós dois passamos na frente das garotas na maior bossa e, nas proximidades da atual quadra do GRES Andanças de Ciganos, no começo da ladeira em direção à Rua Tefé, deu-se o inevitável: a bicicleta aumentou assustadoramente de velocidade.

– Caceta, Mário Adolfo, pula e segura essa porra que não estou conseguindo frear! – gritei.

– Nem pelo caralho! – devolveu ele, já posicionando os calcanhares no eixo da roda traseira e se preparando para o pior. – A bicicleta está com muita velocidade, não vai dar pra pular não!

A bicicleta embicou em velocidade supersônica em direção à Rua Tefé.

Eu poderia tentar atravessar a Rua Tefé em alta velocidade para que a velocidade diminuísse na próxima ladeira de subida em direção à Rua Itacoatiara, mas fiquei com medo de um carro nos pegar pela proa e fiz a única coisa que me pareceu razoável: dobrei à esquerda na Rua Tefé, pegando uma nova ladeira, dessa vez em direção à Rua Urucará.

Não lembrava que a prefeitura estava fazendo a terraplanagem da rua.

No barro molhado, a bicicleta virou um bólido de Fórmula Um.

Para nossa sorte (ou azar, sei lá), no cruzamento das ruas Tefé e Urucará havia tanta lama, que a bicicleta atolou e nós atolamos junto com ela.

Levamos uns cinco minutos para descobrir onde a “magrela” havia submergido.

Pra completar, surgiu uma briga de dezenas de cachorros a dois metros de onde desabamos.

Por muito pouco não saímos correndo e deixamos a bicicleta por lá mesmo.

Enquanto subíamos a ladeira da Rua Urucará em direção à Parintins, com barro da cabeça aos pés e empurrando, envergonhados, a bicicleta enlameada, discutíamos o que fazer naquela situação.

– Se a gente subir a ladeira da Parintins nesse estado, as meninas vão rir e passar o resto da vida zoando da nossa cara! – avisou Mário Adolfo.

Resolvemos contornar a Rua J. Carlos Antony, descer a Rua Borba e se limpar discretamente em um barril de água que havia no quintal da dona Sila.

A operação mostrou-se absolutamente inútil.

Mal a gente tinha se lavado, o nosso corpo voltava a ficar esbranquiçado como se fôssemos aborígenes australianos se preparando para a festa do padroeiro da aldeia.

Ô barrozinho filho da puta! Estragou o nosso domingo.

segunda-feira, dezembro 23, 2019

Lúcio Preto e a arte de não pagar a conta em botequim



O comerciante Selmo Nogueira e o garçom Marcha Lenta, no Caxuxa

Nos anos 70, o Bar do Caxuxa, do comerciante Selmo Nogueira, era parada obrigatória dos boêmios manauaras por conta das excelentes sopas, sanduíches, sucos e batidas vendidas no local.

Pelo menos uma vez por mês, Lúcio Preto costumava adentrar no boteco por volta da meia-noite, acompanhado por meia dúzia de mulheres já completamente “mamadas”.

Na condição de senhor absoluto do harém, ele pedia sanduíches de todos os tipos, sucos variados, batidas de frutas de época e encerrava a fuzarca com uma rodada de sopas em cumbucas de porcelana.

As mulheres se fartavam à tripa forra.

Lá pelas tantas, ele solicitava a uma das meninas que lhe desse um fio de cabelo, que ele iria mostrar como era capaz de sair do boteco sem pagar a conta.

Curiosas, elas sempre obedeciam.

Lúcio Preto pegava o fio de cabelo e colocava dentro de qualquer cumbuca que ainda contivesse um pouquinho de sopa.

Na hora de pagar a despesa, ele chamava o Selmo em particular, exibia a cumbuca e chutava de bico:

– Porra, Selmo, eu encontrei um cabelo cheio de lêndeas aqui dentro. Se você me cobrar alguma coisa, vou fazer um escândalo da porra aqui no bar denunciando a falta de higiene dessa merda e duvido que alguém ainda venha lanchar aqui...

Constrangido, Selmo limitava-se a recolher os pratos sujos e rasgar a conta.

As mulheres ficavam tão felizes que só faltavam abrir as pernas pro Lúcio Preto ali mesmo.

Um dia, inquirido pelo Mário Adolfo por que não dava um basta naquele truque velho e manjado, Selmo abriu o jogo.

– É que de vez em quando a luz vai embora e o pessoal aproveita a escuridão pra tentar me dar um xexo generalizado. Mas quando o Lúcio Preto está na área, ele dá logo um grito: “Se alguém sair do bar, eu vou dar um tiro no meio da bunda!”. Como todo mundo sabe que ele é mesmo doido, ninguém se atreve a arredar o pé até a luz voltar. Daí que a grana que eu economizo sem levar xexo nessas ocasiões é suficiente para pagar essas lambanças dele, realizadas uma vez por mês. Mas o teatrinho precisa ser feito para ele impressionar o mulherio, sair sem pagar e ainda me fazer passar por otário... Faz parte do jogo!

Se um dia morrer, Selmo Caxuxa vai pro céu. Papo sério.

Zazá e Cafuringa no Fazendário Clube



Isaías Leite furou a fila em junho do ano passado. Tenho (temos) saudade

No começo dos anos 70, um novo playboy foi morar na Rua Tefé, quase no canto com a Rua Borba, para se transformar no único rival à altura do eterno playboy Odivaldo Guerra.

Com quase dois metros de altura, físico de halterofilista, boa pinta, bem-humorado, bom de papo e bom de porrada, Isaías Leite logo conquistou a admiração da rapaziada. O sujeito tinha um currículo cascudo.

Ainda adolescente, quando morava na Vila Municipal, começou a treinar judô até se transformar em faixa preta e conquistar vários títulos na categoria absoluto.

Quando serviu o Exército, aprendeu a lutar boxe.

O acupunturista que amenizava as indigestas dores de bico-de-papagaio que acometiam seu pai, o comerciante Manuel Leite, era o sansei Noroshi Shiranui, um dos descendentes de Mitsuyo Maeda, o famoso Conde Kano, introdutor do jiu-jitsu no Brasil a partir de Belém do Pará.

O acupunturista passou a ensinar jiu-jitsu para o Isaías.

Nos anos 60, Isaías morou no Rio de Janeiro, em companhia de Artur Virgílio Neto, e ficou íntimo da família Gracie.

Começou a tomar aulas de jiu-jitsu com Rickson Gracie, o maior lutador da história do esporte em todos os tempos.

Com pouco mais de um ano, já era um dos maiores “brigões” do Rio de Janeiro, fazendo parte da temida “Turma da Miguel Lemos”, de Copacabana.

– Técnica, você já tem de sobra! – explicou Rickson Gracie, após mais um treino. – Agora só precisa trabalhar a respiração. Você tem que ter fôlego para duas horas de porrada. Conseguindo isso, você vai ser invencível.

Isaías levou a sério o conselho do treinador.

Começou a praticar natação, mergulho, corrida, alpinismo, o diabo a quatro.

Transformou-se em uma máquina de guerra.

Quando se mudou para a Cachoeirinha, alguns anos depois, já era pau de dar em doido.

Ninguém encarava a fera.

Sua técnica era simples e infalível: ele voava nas pernas do oponente, dava uma “baiana”, fazia a montada e esfarelava a cara do sujeito de porrada.

Nenhuma luta durava mais de três minutos.

Um dia, Isaías foi convidado pela turma do Top Bar para participar de uma partida de futebol no campo do Fazendário.

Com aquele tamanho descomunal, 100 kg de puro músculo, ele iria meter medo tanto nos zagueiros adversários, se jogasse de centroavante, quanto nos atacantes adversários, se jogasse de zagueiro.

Antídio Weil escalou Isaías de ponta de lança.

Com cinco minutos de jogo, o ponta direita Ely Cafuringa, um baixinho super gente fina, toca uma bola pra ele na entrada da grande área, sai correndo em direção ao gol e começa a gritar:

– Mete pra mim, Zazá! Mete pra mim, Zazá!

Isaías deu um bico na bola pra fora do campo, encarou o Cafuringa e soltou os cachorros:

– Zazá é nome de filho de lavadeira, ô filho da puta! Me respeita! Meu nome é Isaías, caralho, Isaías! Eu não te conheço, porra, mas Zazá deve ser o nome da puta que te pariu! Entendeu, zé boceta? Meu nome é Isaías, corno manso, Isaías! Já aprendeu ou quer que eu te ensine na base da porrada?...

Tremendo mais do que vara verde, Cafuringa tentou consertar o estrago:

– Me desculpe, seu Isaías, me desculpe. Eu não sabia o seu nome aí perguntei pro doutor Vilson Benayon e ele me disse que era Zazá...

Isaías, mais puto ainda:

– É, zé boceta, continua acertando o teu ponteiro pelo relógio daquele Pacu de Bomba pra ver se eu não quebro vocês dois de porrada...

O destempero verbal do playboy foi crucial para que o novo apelido “pegasse”.

A partir desse dia, Isaías ficou conhecido para sempre como Zazá.

Era um figuraço!

Demonstração da arte suave no Bar Pinguim



Ivancy Wilkens e seu irmão Xireia

Março de 1978. Estudante do Colégio Brasileiro e morador da Vila Mamão, Ivancy Wilkens, primo do advogado Val Wilkens, tinha 15 anos e estava gazetando aula para jogar pinball no anexo do Bar Pinguim, chamado “Pinguinzinho”, ali na Praça do Congresso.

Ele estava jogando em uma máquina Taitorama, que permitia o jogo simultâneo de até quatro moleques porque possuía marcadores individuais.

Quando perdeu a terceira bola e ia dar a vez a outro jogador, a máquina anunciou que ele havia conquistado um bônus extra, que lhe dava direito à nova partida.

Um sujeito grandalhão que aguardava sua vez de jogar cismou que o bônus extra era dele e expulsou Ivancy da máquina, com violência.

Ivancy ficou ali por perto, curtindo sua raiva em silêncio e, de repente, quando o sujeito menos esperava, ele se aproximou sorrateiramente e deu um pisão violento na máquina.

O solavanco obrigou a máquina a fazer “tilt”, ou seja, “the game is over”.

O sujeito ficou furioso por ter perdido a ficha e avançou sobre Ivancy para dar-lhe umas porradas.

Ivancy saiu correndo do anexo e entrou no Bar Pinguim, com o grandalhão em seu encalço.

Foi quando outro sujeito se interpôs entre os dois:

– Deixa o moleque em paz e procura um cara do teu tamanho pra brigar! – disparou o sujeito, que era bastante franzino.

– Tu não te mete, senão quem vai apanhar é você! – devolveu o grandalhão.

– Então vem pra cima! – desafiou o franzino.

O grandalhão deu um soco, o sujeito franzino se desviou, pegou o pulso do oponente e lhe jogou no chão, em uma fração de segundos.

Mais puto ainda, o grandalhão se levantou, deu um novo soco, o franzino fez uma nova esquiva, pegou no pulso do adversário e colocou o sujeito no chão pela segunda vez, em outra fração de segundos.

O grandalhão não se deu por vencido.

– Aguenta aí que eu vou bem ali chamar a minha turma e nós vamos te quebrar de porrada! – avisou, saindo correndo do bar em direção à Praça da Saudade.

Ainda apavorado, Ivancy foi lá com o sujeito que lhe salvara da surra:

– Meu amigo, obrigado por tudo, mas acho bom o senhor se mandar. Aquele cara que o senhor derrubou no chão é um valentão aqui da área conhecido como Short. A turma que ele foi buscar só tem maus elementos: De Ouro, Brecha, Careca, Dodô, Exu, Rai Maraca, Afonsinho...

– Pode deixar que eu sei me cuidar! – avisou o sujeito franzino, enquanto bebia tranquilamente um novo chopinho.

Cada vez mais nervoso, Ivancy foi pra frente do Ideal Club observar a confusão à distância.

Dali a alguns minutos surgiu a turma do invocado De Ouro, disposta a matar ou morrer por um de seus membros.

– Foi aquele filho da puta ali que me bateu! – avisou Short, apontando para o sujeito franzino, que permanecia encostado no balcão da choperia sorvendo tranquilamente seu chopinho.

De Ouro falou alguma coisa com o sujeito e, dali a pouco, os dois estavam encarando alegremente várias tulipas de chope, como velhos amigos.

O resto da turma, incluindo Short, foi embora.

Sem entender nada, Ivancy se aproximou timidamente do balcão do bar.

– Foi esse moleque aí que começou a confusão? – perguntou De Ouro.

O sujeito franzino assentiu com a cabeça.

– Chega aí, moleque! Vem tomar um chopinho com a gente! Esse aqui é o meu professor Reyson Gracie, o cara que introduziu o jiu-jítsu no Amazonas – avisou De Ouro.

Só então a ficha caiu. Aquele sujeito franzino era simplesmente o terceiro filho do lendário Carlos Gracie, considerado o pai do jiu-jitsu brasileiro.

Reyson chegou em Manaus, em 1976, a convite de seu amigo Artur Neto, para difundir o jiu-jitsu.

No ano seguinte, fundou a federação amazonense da modalidade e realizou o primeiro campeonato oficial da arte suave no ginásio do Colégio Militar de Manaus.

Ivancy Wilkens, Simão Pessoa, Simas Careca Selvagem e Xireia

Naquela mesma tarde do entrevero no Bar Pinguim, Reyson Gracie convidou Ivancy para treinar com ele, no próprio quarto de hotel em que estava hospedado, na Rua dos Barés.

Os ensinamentos obtidos com Reyson eram transferidos por Ivancy para seu irmão caçula, Joaquim Nogueira Neto (aka “Xireia”), na época um pivete de oito anos.

Ele ganhou esse apelido jogando futsal no time infantil do ABC porque lembrava muito o líbero Gaetano Scirea, campeão pela seleção italiana de 1982.

Artista plástico, muralista e entalhador, Xireia foi campeão adulto de futsal Norte-Nordeste pelo ABC, mas depois abandonou as quadras para se dedicar ao jiu-jitsu.

Atualmente é trabalhador da Samsung, no Distrito Industrial.

Ivancy, além de se dedicar ao jiu-jitsu, foi campeão amazonense de voleibol pelo Olímpico.

Atualmente, ele mexe com fretamento de barcos para festas regionais.

O irmão mais velho dos dois, João Nogueira (aka “Nogueira”), em parceria com a esposa Ana, mantém estoicamente, e apenas com recursos próprios, a escola de futebol Meninos da Vila Mamão, que ensina os fundamentos do rude esporte bretão para cerca de 70 moleques de 7 a 14 anos, em um campinho de areia localizado na Rua Vasconcelos Chaves, próximo de sua residência.

Líbero do time de másters do Santos, de São Francisco, Nogueira trabalha no setor de logística de uma empresa terceirizada da Gol Transportes Aéreos.

Tudo índio, tudo parente, tudo sangue bom!

Ivan Chibata e a fissura do Dino Sarará



Julho de 1984. O violonista Dino Sarará estava acompanhando o bicheiro Ivan Chibata em mais uma maratona etílica pelos bares da cidade.

Tocando há 12 horas sem parar, seus dedos já estavam começando a minar sangue.

Assim que Dino Sarará encerrou a canção “O Mundo É Um Moinho”, do Cartola (Ivan Chibata no vocal, claro), ele descansou o violão no colo e, olhando sério para o bicheiro, avisou:

– Chefia, eu só vou continuar tocando aqui contigo depois que fumar um charo! Eu tô fissurado por um charo! E se a fissura não passar, eu não acerto tocar uma nota! Se você não fizer uma presença, eu vou embora pra casa agora mesmo! Sem dirijo, eu não toco!

Ivan Chibata não se aperreou. Chamou Vladimir Brother, seu secretário informal, lhe entregou a chave do carro, uma pacoteira de dinheiro e cantou a pedra:

– Vai numa boca de fumo e compra cinco charos pra esse vagabundo!

Brother voltou meia hora depois, de mãos abanando.

Estava faltando maconha na cidade por causa de uma blitz devastadora feita pela Polícia Civil no início da semana.

Metade dos traficantes estava presa, a outra metade tinha fugido pro interior.

Não havia jererê nas bocas de fumo nem pra fazer remédio pra asma.

Ivan Chibata não se aperreou. Pegou a chave do carro, colocou o violonista dentro do veículo e se mandou para a Delegacia de Polícia Civil (1ª DP), que funcionava nas imediações do Restaurante Gato Preto, na Cachoeirinha.

Lá chegando, ele foi conversar com o delegado plantonista, que estava lendo um livro da Agatha Christie:

– Meu querido, esse rapaz aqui é o meu violonista, o Dino Sarará, um músico da melhor qualidade! – explicou o bicheiro ao delegado. – Ocorre que esse cidadão, coitado, é dependente químico e está passando por uma crise de abstinência porque vocês apreenderam toda a maconha da cidade. Ele está tão fissurado, coitado, que pode sofrer um piripaque a qualquer momento e bater as botas. Será que vocês não podiam quebrar o galho dele?...

Sem se levantar da mesa, o delegado chamou um policial:

– Ô Zé Elias! Vai lá dentro, pega um daqueles pacotes de maconha que a gente confiscou ontem na Rua 13 da Colônia e entrega aqui pro Ivan!

Dito isso, voltou a se concentrar na leitura do livro.

Ivan Chibata recebeu o pacote de 5 kg de maconha prensada do tipo “manga rosa” legítima, importada do Maranhão, agradeceu rapidamente, colocou o violonista no carro e os dois voltaram para o bar.

A pacoteira foi colocada em cima da mesa.

O bicheiro tirou da cintura seu Colt 44 com cabo de madrepérola e colocou ao lado da pacoteira.

Aí, em tom paternal, ele deu uma nova dica pro violonista:

– Dino, meu filho, você pode fumar quantos charos quiser, que a firma aguenta! Eu sei que você vai ficar muito doido, vai errar o andamento das músicas, vai esquecer as harmonias, vai fazer merda pra caralho, mas eu não estou nem aí. A única coisa que você não pode fazer, meu filho, é se levantar da mesa e ir embora. Você está sendo pago pra me acompanhar, entendeu?...

Nervosíssimo, o violonista assentiu com a cabeça, pediu licença e começou a enrolar um baseado.

Passou 72 horas seguidas tocando para o bicheiro pelos botecos da cidade, completamente alucinado.

O Ivan Chibata era aloprado!

Lúcio Preto e Cafuringa no Top Bar



Ely Cafuringa e Petroba (de costas), Vilson Benayon, Antídio Weil, Maurílio, 
Zé Paulo e Nego Walter na Quadra dos Ciganos

Junho de 1981. Cheio da manguaça, o baixinho Ely Cafuringa se aboletou em uma das cadeiras do Top Bar e começou a dormir o sono dos justos. Roncava mais do que porco da mão branca.

Extremamente gente fina, cortês e educado, Cafuringa morava na Praça 14, mas não saía da Cachoeirinha, sempre ostentando uma imensa bolsa a tiracolo repleta de papéis velhos, livros de poesia e documentos.

Após perder uma partida de sinuca para Nei Parada Dura, Lúcio Preto ficou cismado de que o ronco do Cafuringa havia atrapalhado a sua concentração e resolveu se vingar.

Primeiro, ele retirou cuidadosamente a bolsa a tiracolo do rapaz, esvaziou seu conteúdo e encheu de pedra jacaré.

A bolsa ficou pesando uns trinta quilos.

Lúcio Preto recolocou a bolsa cuidadosamente no colo do Cafuringa e colocou a alça da sacola no pescoço do dorminhoco.

Aí, se acocorou, desamarrou o tênis do bebum e amarrou um cadarço no outro.

Os dois pés ficaram praticamente colados.

Na sequência, ele retirou do bolso uma bomba catolé, acendeu e colocou embaixo da cadeira do dorminhoco.

O barulho da explosão fez o Cafuringa, assustado, se levantar abruptamente da cadeira.

O peso da bolsa em seu pescoço dobrou seu corpo pra frente.

Ele tentou dar um passo para recuperar o equilíbrio, mas os dois pés estavam amarrados.

Cafuringa embiocou de cara no chão de cimento.

Levou sete pontos na testa.

Nunca mais quis dormir no Top Bar quando o Lúcio Preto estava jogando sinuca.