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quarta-feira, janeiro 10, 2007

Ultimate Fighting: Luiz Alberto Machado entrevista Ulisses Tavares


Luiz - Como você descobriu a poesia?

Ulisses - Hiii, faz muito tempo. Como fui o que hoje se chama de criança super dotada, mas, na época, apenas chamavam de pentelho - porque eu gostava mais de ler e escrever que brincar de bola - encontrei logo na poesia o refúgio para minha sensibilidade. Mas me encantei mesmo foi por volta dos 9 anos. Como estou com 52, foi no final da década de 50, século passado. Havia grande agito com movimentos de poetas declamando seus poemas em ruas, praças e faculdades. Assisti aquilo e resolvi ser como eles. Comecei a declamar em público e expor meus poemas em varais nas praças. Agora, uma outra motivação mais prática e prosaica é que eu era tarado pela professora do primário e ela se encantava com os poemas daquele garoto precoce, seu aluno. Não comi a professora, mas continuei fazendo poemas e nunca comendo ninguém por causa disso. A maioria das garotas, ontem como hoje, de coisa escrita gosta mesmo é do valor que você é capaz de escrever num cheque. Demorei décadas para conhecer as exceções. Tem uma música das Frenéticas que resume isso: "quanto mais a mulher jura/gostar de homem erudito/tanto mais ela procura/um tipo burro e bonito."

Luiz - Só poeta lê poeta? Como se dá isso a seu ver?

Ulisses - Não é nada difícil de entender. O mundo está mais democrático no acesso a informação, mas também a maioria é cada vez mais abrutalhada e insensível. Metade do planeta é shopping center, a outra metade um templo religioso medieval. Com algumas ilhas atlântidas, faróis, aqui e ali. Cúmplices e vítimas ao mesmo tempo, um jogo milenar e cruel da humanidade. Carinha que cresceu ouvindo pagode quanto tempo vai levar para aprimorar o ouvido para melodias mais ricas e elaboradas, seja clássico, jazz ou dodecafônica? A poesia é, assim, pragmaticamente falando, mais acessível aqueles que a praticam e a lêem. No jogo do mercado, então, nem tem discussão: entre um Paulo Coelho da vida e um poeta- por melhor que ele seja- fica-se com o que dá lucro imediato e certo. Principalmente aqui no Brasil onde tem uma massa de pessoas que precisa de dicionário para entender a revistinha da Mônica. E boa parte de nossa elite é analfabeta por opção. O que me faz otimista é que parece que está vindo uma nova geração que é estimulada a curtir poesia desde cedo. Meu livro de poesias para crianças, o Viva a poesia viva, da Editora Saraiva já vendeu mais de 50 mil exemplares. Também, anteriormente, o Caindo na real, da Brasiliense ficou mais de ano entre os mais vendidos e o Aos Poucos Fico Louco, da Editora Globo, esgotou rapidinho. Sem contar o Livro/Agenda da Tribo, voltado para os jovens e no qual colaboro há 13 anos, que nunca tira menos de 150 mil exemplares. Agora, alcançar o povão mesmo, fica na nossa utopia: o pão da carne é uma necessidade, o pão do espírito, a poesia, portanto, um luxo que pode esperar. Ainda bem que temos dois olhos. Um vê o futuro, o sonho, e sorri, o outro vê a realidade e chora.

Luiz - A poesia pode tornar a vida suportável ou isso é apenas um jogo de palavras no desvario poético?

Ulisses - Qualquer coisa em que a gente acredite, bote fé, curta, pode tornar a vida mais suportável. Poesia, como tudo, também é droga, também vicia. O velho Freud chamava isso de sublimação. Eu prefiro chamar de paixão. A natureza é sábia: nem tudo que a gente quer a gente consegue, mas tudo que a gente sonha é possível. A poesia é a corporificação/materialização do sonho. Orgasmo não existe apenas através dos genitais. É algo tinhoso e amplo que pode até nos acontecer por algo imaterial como a palavra escrita. Poeta que é poeta não goza apenas com o pau e buceta, goza até com a caneta. Êpa, acho que cometi um poema.

Luiz - O que você imagina que aconteceu com a poesia, foi a banalização ou você atribui uma outra causa para que ela esteja, digamos, tão ausente do alcance do leitor?

Ulisses - Isso que chamamos de leitor, a indústria cultural chama de consumidor de literatura. A poesia, dentro dos gêneros literários, hoje é o patinho feio que, mesmo sendo cisne, fica no seu cantinho, hostilizado pelos demais. Já foram os poetas mais apreciados, é certo, mas isso foi na Grécia antiga, na revolução russa, no império islâmico do tempo em que eles não espalhavam bombas e ignorância pelo mundo. Bobagem, a meu ver, ficar preocupado com isso. Melhor e mais efetivo é colocarmos a pouca leitura da poesia onde ela deve estar: no contexto da política e da educação do povo. Não dá pra poesia concorrer, e vencer, em uma cultura de bundas, materialismo, consumismo e comunicação de massa. E, também, relax: se os políticos e os membros da elite dirigente fossem como os poetas, que batalham, discutem e se preocupam pra caralho, tudo estaria melhor. O tempo que nos coube viver é assim mesmo, mudanças e trevas, bem misturadinho. Talvez um dia a revista Caras fotografe a biblioteca de alguém e esse alguém se declare orgulhoso pela biblioteca e não só pela riqueza, bíceps e silicone acumulados.

Luiz - O que você observa da poesia depois que Adorno sentenciou que não podia mais haver poesia depois de Auschwitz?

Ulisses - O ser humano é maior que seu pessimismo, mesmo quando tem uma visão deprê como quase todas de Adorno. Aquilo que denominamos poesia talvez seja a aspiração maior e mais plena do melhor que existe em nós. O homem é, sempre foi e será, uma grande tragédia e uma grande esperança. E também uma grande piada, claro. Lamentamos por Auschwitz mas não vamos deixar de fazer e apreciar a poesia por isso. Se fosse assim, a poesia teria acabado na primeira guerra e ou na primeira peste. E foram tantas, né?

Luiz - A seu ver, arte pela arte ou um engajamento na atitude do poeta?

Ulisses - Engajar, colocar, a poesia pró ou contra qualquer movimento social é sempre um risco para qualquer artista. A poesia, e a arte como um todo, é fortuita, gratuita e doidivanas. A causa pode ser boa, meritória, polarizadora, o escambáu, mas o que importa é que a poesia é que tem de ser boa, enquanto literatura, independente de seu momento ou objetivo. Pessoalmente, quanto mais leio e escrevo, mais me convenço que, de todos os métodos de comunicação, a poesia é a mais fraquinha para mudar alguma coisa na história humana. Melhor o ensaio, o jornalismo e até a propaganda, esta sim, eficiente, infelizmente. Poesia não é remédio, não precisa de rótulo e bula.

Luiz - Você é bem versátil, transita por diversas áreas. Como você concilia poeta, escritor, professor, multimídia?

Ulisses - Atualmente, fiz minha opção Robin Wood, pelos pobres, e o mais pobre que posso ajudar e conheço de perto sou eu mesmo. Vivo de/para literatura 25 horas por dia. Meu padrão de vida despencou. Ando com um Fusca 75, mas vivo de meus direitos autorais. De vez em quando, a vida material me obriga a voltar a exercer uma das minhas sete profissões. Daí eu vou, faço palestras, treino executivos, dou aulas, crio campanhas publicitárias, escrevo artigos e crônicas para revistas e jornais etc. mas volto cada vez mais rapidinho para minha paixão maior, que é escrever. Escrevo muito, agito sempre - estou com mais de 74 livros publicados. Venço pela insistência. Se os leitores não curtiram um livro, lanço outro, sobre outro tema. Meu lema é igual daquela churrascaria de Arkansas, famosa por servir o maior bife do mundo: "Se não gostar, pode comer outro grátis", he, he. Dou graças a Deus por ter sido riponga. Não preciso de muitas coisas materiais para ser feliz. Nem de ter livros. Alugo ou empresto de bibliotecas.

Luiz - Que experiência você traz das alternativas que você usa desde a geração mimeógrafo marginal até o advento da Internet?

Ulisses - A principal experiência é que, seja mimeógrafo ou internet, trabalhar e divulgar poesia nunca é fácil. Embora seja um entusiasta da Internet (já sou um dinossauro da web- afinal fui estrategista do segundo provedor brasileiro, o SBT On Line, e ocupante da primeira cadeira de pós-graduação em web na América Latina (na Fiam)- acho primordial se ler poesia em silêncio, naquela coisa mágica que só o papel proporciona. A vantagem, hoje, é de escala. Eu coloco um poema novo na rede e, em instantes, ele é quintuplicado em inúmeros blogs, chats e sites.

Luiz - Você acha que a Internet tem contribuído para a difusão da poesia? Ela tem melhorado, tem possibilitado reconhecer novos poetas?

Ulisses - Claro que sim, indiscutívelmente. A Internet, ao contrário do que achavam os profetas do apocalipse, vem ampliando a capacidade e necessidade de todo mundo, principalmente os jovens, de terem um melhor vocabulário, escreverem fluentemente, de aprenderem a ler e escrever, enfim. Mas, não nos iludamos: quem gosta de poesia, vai ter mais facilidade de encontrar poesia na net. Quem não gosta, vai fazer o que faria sem a web: procurar bundas e paus. Não há tecnologia, por si só, que faça um upgrade imediato das cabeças e espíritos. E poema ruim com flash é apenas um flash bem feito.

Luiz - A seu ver, o que há com o poeta que ele não consegue atingir melhor o público, ficando restrito às rodinhas que ainda se renova mas as caras que são as mesmas sempre em recitais, em saraus? Como ampliar esse universo? Essas práticas são antiquadas e o poeta precisa buscar novas fórmulas ou é a poesia mesmo que não chega?

Ulisses - Já fiz, e faço, trocentos recitais de poesias, de todo tipo, em todo lugar. Com música e sem música. Com teatro e sem teatro. Com pintores e performáticos e a seco. A verdade/realidade é chata mas é isso aí: poesia é coisa para iniciados. Quem não gosta, ou não está acostumado, vai preferir mesmo é um forró, um bailão, uma outra atração qualquer. Recital de poesia é igual teatro alternativo: ninguém é contra, mas ninguém vai nem amarrado. Quem tem saco pra ouvir poeta declamando, de duas uma: ou é poeta, e está louco por uma chance de mostrar também seu poema, ou é alguém que de fato curte poesia. Se é que consola, quem vai a um recital de poetas está pronto para achar aquilo bonito, e isso é bacana. Não sei sinceramente, nem como marketeiro e publicitário, como aumentar esse universo. Acho que temos tentado de tudo um pouco- misturar com vídeo, som, pintura, performance, body art etc. Mas lutamos contra um fato intransponível no atual momento: poesia ainda não dá ibope e pronto. Quem sabe, queira Deus, os ventos da fortuna mudem. Mas, dái, o mundo também terá mudado. A seu ver, o público é conservador ou a vanguarda que não encontra base em suas utopias? Vanguarda tem que ser, claro, vanguarda. Mas não deve ser prepotente. A vanguarda entende e interpreta muito bem o que a maioria, a retaguarda, não consegue entender e interpretar, nem bem nem mal nem mais ou menos. Como esperar, então, que o povo coma hoje, já, agora, os finos biscoitos que ela fabrica? Paciência, humildade e compreensão, pois, mais caldo de galinha. Quem aposta na utopia tem que esperar a viabilidade da utopia. A seu ver, que atitude ou compromisso deve ter o poeta do nosso tempo? De preferência, nenhum. O compromisso do poeta é com sua poesia. E já é o bastante se conseguir cumprir. O resto é cosmética, jogo de mercado, veleidade, ego. O que você destaca como uma excelência poética hoje? Poderia citar, literalmente, dezenas de nomes. Leminsky, Antunes, Frederico Barbosa, Ademir Assumpção, Glauco Mattoso, Bráulio Tavares, Drummond e tantos outros. Mas, quando comparo ao que se fez antes, bem antes, um Bocage, um Arentino, um Dante, um Virgílio, acho tudo muito pobrinho e tôsco. Poesia é soda mesmo. Quanto mais eu leio, mais exigente fico. Tanto que, até dos meus mais de mil poemas, eu só dou nota 5 para dois ou três no máximo.

Luiz - O que você teria a dizer aos que estão entrando hoje, engatinhando ainda, na senda da poesia?

Ulisses - Ufa, finalmente uma pergunta fácil: escrevam o que quiserem, publiquem e apresentem como quiserem, inclusive aproveitando as facilidades de edição e exposição de hoje. O único conselho que posso dar, depois de tanto tempo brigando pela poesia, e pode ser válido e ajudar é: fodam-se! Quem mandou escolherem a poesia como alternativa de vida? Poesia é a coisa mais fácil e complicada que existe. Quem quer moleza e sucesso imediato que vire cantor sertanejo. Ou político. Ou traficante. Ou coma baratas num big brother da tv.

ULISSES TAVARES: O CAIXEIRO-VIAJANTE DA POESIA


Ulisses Tavares nasceu em Sorocaba (SP), em 1950, e fez sua estréia literária em 1959, com a publicação de poemas nos jornais Folha de Sorocaba e Diário de Sorocaba. Em 1963 realizou exposição de poemas em varais, em praças públicas de São Paulo. Em 1977, publicou Pega Gente, seu primeiro livro de poesia independente e um clássico da “geração marginal”.

Em 1978, lançou o jornal/movimento Poesias Populares - O Jornal do Poeta, que teve mais de 20 edições e reuniu cerca de 350 poetas de todo país. Entre 1978 e 1990 foi editor do Núcleo Pindaíba Edições e Debates, com Aristides Klafke, Arnaldo Xavier e Roniwalter Jatobá, em São Paulo, e, de 1980 a 1985, responsável pela coluna “Notícias do Poetariado” (sobre poesia marginal), do jornal Leia-Livros.

Ulisses Tavares ficou famoso nacionalmente quando, no início dos anos 80, um personagem da novela “O Amor é nosso”, da rede Globo, inspirado nos “poetas marginais”, começou a declamar seus versos para todo o país.

No período de 1982 a 1989 publicou os livros de ficção Garcia Quer Brincar, Dias Azuis Claros e Escuros e Sete Casos do Detetive Xulé, além do álbum de quadrinhos SUBS, com desenhos de Julio Shimamoto.

Em 1994, fundou a UTI Edições Criativas. Sua obra poética abrange os livros O Eu entre Nós (1979), Caindo na Real (1984), Aos Poucos Fico Louco (1987) e Pulso (1995). Ulisses Tavares é um dos poucos polígrafos da literatura brasileira, ou seja, escreve sobre diferentes assuntos e em diversos formatos (de poesia a romances, de contos a histórias em quadrinhos, de crônicas a ensaios).

Além da literatura, ele atua como professor de criatividade aplicada à redação, propaganda e marketing, compositor, dramaturgo, roteirista de cinema e de televisão, especialista em marketing político, professor de jornalismo digital e um autor de sucesso, com mais de 4 milhões de exemplares vendidos de seus livros, prestes a chegar a publicação do seu 100º livro.

Autor de "Diário de uma paixão" e "Histórias quentes de bichos e gentes", ambos pela Geração Editorial, Ulisses Tavares mora em uma fazenda ecológica próxima de São Paulo e cria cachorros da raça english springer spaniel.

A poeta Leila Míccolis assim escreveu sobre a sua (dele) obra: "Numa linguagem urbana, direta, muitas vezes óbvia, (Ulisses Tavares) questiona, provoca, agride, sem subterfúgios nem entrelinhas: quem gostar, bom proveito, quem não, se retire. Sendo seu trabalho de resistência, de denúncia, de crítica, se propõe a ser ativo - função de toda 'poesia necessária', para empregar uma expressão usual.".

Desculpe, Cecília

eu canto porque o instante existe
mas minha vida não está completa.
sinto gozo, sinto tormento,
sei que a canção não é tudo.
ainda sou gente, embora poeta.

Maravilhas da Fauna

Vacas de açougue,
tigres de circo,
patos que apitam,
peixes contaminados,
aves sem pés nem cabeça
quietas no supermercado.

Maravilhas da Flora

Pinheiros natalinos sintéticos,
flores cor-de-fuligem,
arbustos esqueléticos,
florestas de antenas de TV,
alfaces com DDD.

[1,75m de não faça isso,]

1,75m de não faça isso,
68kg de não faça aquilo,
é dose:
meu irmão já nasceu adulto precoce.

[papai e mamãe]

papai e mamãe
moram separados.
como só tenho um coração,
cada um mora de um lado.

[rola a bola]

rola a bola
livre o drible
defesa surpresa
apela na canela
salta uma falta
sem tevê juiz não vê
escorrego já no prego
chute estoura pra fora
craque no ataque
quero e recupero
sede de rede
fé no pé
cara a cara
com o goleiro
pronto o apronto
chutar pra marcar
puxa vida
apitaram
o fim da partida
do gol que quase fiz
cumprimento a torcida
lembranças à mamãezinha do juiz.

Biografia

quando sozinho, sofro.
com gente, finjo.
se amado, fujo.
amante, disfarço.
permanecendo, inquieto.
calado, penso.
pensando, calo.
tocado, tremo.
tocando, recuo.
vencedor, desinteresso.
vencido, odeio.
quase morto,
vivo assustado.
quase vivo,
morro de medo.

Conteúdo

No toque, a troca.
No ato, o salto.
No esfrega, a entrega.
Na mão, o coração.
No rir, o repartir.
No sangue, o bumerangue.
Na ida, a vida.

Esquizo

Tem um cara dentro de mim
Que faz tudo ao contrário:
Não temo amar, ele se borra
Sou esperto, ele é otário
Não amolo ninguém, ele torra
Acredito em tudo, ele é ateu
Sou normal em sexo, ele tarado
Agito sempre, ele fica parado
sou bacana, ele escroto
quem me faz infeliz e torto
É sempre ele, nunca fui eu.




[achada a garrafa]

achada a garrafa,
não tinha dentro gênio nenhum
para atender meus três desejos:
boca para encher de beijos
bolso onde sobrasse algum
alegria repartida à esmo.
mas tinha muita pinga
o que vinha a dar no mesmo.




Roupas

se me protegesse.
se me enfeitasse.
mas apenas me esconde.


Santo nome em vão

o ruim de ser povo
é avalizar um empréstimo novo
em Calcutá
sem nunca ter ido lá.


Poeminha Machista

lutei tanto para transformar
você de mulher em posse,
só o que consegui foi uma
ejaculação precoce.


Toque

alguma coisa estranha acontece
quando se toca em gente.
experimente.


Meditação Transcendental


para meditar,
o homus modernus ocidentalis
cruza as pernas
deixa as costas eretas
os braços relaxados
concentra a atenção num ponto
e, assim imóvel em
pensamento e ação,
liga a televisão.


Luzir


deixar crescer o amor.
olhar o amor que cresce.
pegar então o amor,
esse balão,
subir com ele até
bater a cabeça no céu.
agora, soltar o amor,
deixar subir o amor,
subir sozinho.


Daltonismo


olhe de novo:
não existem brancos.
não existem amarelos.
não existem negros.
somos todos arco-íris.


Certas Religiões


olhar para o alto.
tão alto que se tenha
um torcicolo eterno
e nunca mais se possa
olhar direto para o próximo.


UFO

está todo mundo
vendo disco voador.
mas Eu que é bom
ninguém repara.


My God

nada sei sobre a vidinha do
pernilongo que mato
indiferente na parede.
mas desconfio que era
a única que ele tinha.



Soneto desbundado

a poesia pode ser quadrada
enquadrada para sê-la
camisa-de-força rimada
fazer ouvir estrelas.

nada impede também a poesia
de não falar coisa com coisa
igual jacaré escrevendo na lousa
em vez de preta, da cor do dia.

por que não a poesia, menina
cantando detalhes simples
um beijo, pulo na piscina?

tímida, pirada, sortida
negócio de poesia é este: riiip
rasgar o coração da vida.



Religião

olhar para o alto.
tão alto que se tenha
um torcicolo eterno
e nunca mais se possa
olhar direto para o próximo.

Por um triz

a gente perde um amor por
tão pouco.
o lugar que não se foi
olhar não cruzado
rua desviada
frase não ousada
mão recolhida instantes após.
amor que perdi
quem me ensinou.



Refazendo

a ausência do soco
reforça o punho,
a falta do chicote
atiça o domador,
a despensa vazia
aguça a língua,
a supressão da palavra
aviva o discurso,
a imprevisão do certo
devolve o inexorável,
a abstração do corpo
prepara o repartir,
a descoloração da rosa
reintegra a paisagem,
a andança no charco
redescobre a terra firme,
a pororoca do medo
desperta a coragem,
a recusa da garrafa
retorna o vinho,
a cortada do caule
reforça a raiz,
a supressão do canto
reinventa o verso,
a despedida do vôo
refaz o arremesso,
a solidão aberta
reescreve o amor.



Sôfrego

meu medo é ficar sozinho.
abraço o primeiro copo
agarro o primeiro corpo
e amo na mais completa solidão.



Vale de lágrimas

triste sina de gerações:
perdendo o medo de trepar
descobrimos o medo de amar.



Os Jovens Bandeirantes

(Um soneto sujo de sangue)

Depois dos portugueses ladinos infantes
Enganando e trucidando ingênuos silvícolas
E depois dos destemidos bandeirantes
Esmagando cocares cabeças e clavículas

Ficou estabelecida a sangrenta tradição:
Tivemos 500 anos de branca supremacia
Levando tudo do índio que ficou na mão
Sem terra, sem árvore, sem alforria

Mas foi todo o acontecido pouco
Nesta terra de manos cruéis e loucos
Inventaram uma nova moda, por esporte

Com fogo, pedras e chutes, diverte-se a escória,
Os novos bandeirantes continuando a história,
Dando aos índios a saída de sempre, a morte.


(São Paulo, Brasil, 8 de janeiro 2003, dia do assassinato do caingangue no Rio Grande do Sul.)


quinta-feira, janeiro 04, 2007

POESIA MARGINAL: TRINTA ANOS ESSA NOITE

Chacal in Concert no CEP 20.000


Há 30 anos, a antologia "26 Poetas Hoje" reuniu expoentes da literatura brasileira. A obra provocou bastante burburinho no meio acadêmico nacional ao definir aquele que, mesmo após décadas, ainda pode ser considerado o último rótulo significativo quando se fala em poesia no país: marginal

Por Carlos Juliano Barros

Chacal já tinha tomado três ou quatro batidas de limão, o que certamente contribuiu para deixá-lo menos envergonhado. Parecia bastante empolgado com o movimento de uma feira de artes que ele e alguns amigos organizavam no espaço da livraria Muro, a pedido do próprio dono. As pessoas que perambulavam pela loja localizada em Ipanema, bairro badalado da zona sul do Rio de Janeiro, estavam entretidas com a projeção de um vídeo sobre índios nativos do Brasil. As imagens eram acompanhadas pela reprodução da batucada do Cacique de Ramos, tradicional bloco carnavalesco carioca. Não havia microfone ou qualquer outro aparelho que aumentasse a potência de sua voz. Mesmo assim, Chacal não resistiu à súbita vontade de emendar "Papo de Índio", poema de tom coloquial e dinâmico publicado em 1971, quatro anos antes daquele evento realizado em Ipanema:

"Veio uns ômi de saia preta
cheiu di caixinha e pó branco
qui eles disserum qui chamava açucri
Aí eles falarum e nós fechamu a cara
depois eles arrepetirum e nós fechamu o corpo
Aí eles insistirum e nós comemu eles"


Chacal compara sua atitude à declamação de "O uivo", feita por Allen Ginsberg, em 1956, numa galeria de São Francisco. A performance do poeta norte-americano é considerada um marco para a chamada beat generation, cujos valores revolucionaram o comportamento dos jovens dos Estados Unidos no período do pós-guerra. Em busca de uma vida recheada de emoções e aventuras, eles se atiravam na estrada e atravessavam o país de ponta a ponta, preparados para o que desse e viesse. Esse movimento de contracultura surgido na metade do século 20 conquistou corações e mentes do mundo inteiro.

Impossível não reconhecer a herança do ideal beat no espírito da poesia que Chacal e seus jovens colegas do Rio de Janeiro praticavam em 1975. Afinal de contas, eles não queriam parecer com Carlos Drummond de Andrade, mas sim com Bob Dylan. Não almejavam apenas fazer poemas, mas viver poeticamente. Contudo, havia referências ainda mais fortes para compreender esse fenômeno literário que criou raízes sólidas na zona sul da capital fluminense, e que acabou se espalhando por diversas cidades do Brasil. "A nossa geração é embebida em Beatles, um lance mais hippie", explica Chacal, que também é autor de teatro, roteirista de televisão e compositor musical.

No ano seguinte à apresentação na livraria Muro, outros versos de sua autoria fizeram parte de uma antologia chamada "26 poetas hoje", organizada pela professora Heloisa Buarque de Hollanda. A obra provocou bastante burburinho no meio acadêmico nacional ao definir aquele que, mesmo três décadas depois, ainda pode ser considerado o último rótulo significativo quando se fala em poesia no Brasil: marginal. "O livro levantou uma questão que precisava ser colocada naquele momento: o que é literatura? Ele irritou porque pôs em dúvida os paradigmas, derrubou explicitamente o mito da grande poesia", afirma Heloisa. Nomes conhecidos, como Torquato Neto, Waly Salomão e Ana Cristina César, figuram entre esses 26 poetas. Há outros escritores importantes que não foram relacionados, como o curitibano Paulo Leminsky, mas cuja produção também guarda semelhanças com a do grupo que compõe a antologia.

O termo "marginal" foi cunhado pela própria professora e não remete à noção de fora-da-lei, como poderia supor o leitor mais desavisado. Na verdade, ele se aplica a autores que tinham dificuldade para emplacar suas obras em editoras de grande porte. Não é à toa, portanto, que eles foram imortalizados pela expressão "geração do mimeógrafo", já que se valiam dessa máquina para levar ao público consumidor, de forma ágil e barata, livros de pequena tiragem bancados por conta própria. Entretanto, "26 poetas hoje" é emblemático porque fez justamente o contrário: abriu as portas do mercado editorial para a maioria dos que participaram da antologia. Além disso, marginal era aquele que traduzia em versos de postura anti-intelectual os problemas do seu cotidiano, revelando sintonia com as mudanças políticas e comportamentais por que passava o país. Uma época de repressão e censura impostas pelo governo militar, mas também um período de assimilação da cultura pop, que o Tropicalismo de Caetano Veloso e Gilberto Gil ajudou a introduzir.

É necessário fazer uma importante ressalva ao se analisar essa produção literária que marcou os anos 70. Falar de poesia marginal não implica falar apenas de jovens inebriados por cinema, cartoons e shows de rock. Ela não diz respeito somente a pessoas como Chacal e Charles, que organizavam bem freqüentados recitais – as famosas "artimanhas" – e mergulhavam de cabeça no ambiente de psicodelia típico daquela década. A antologia lançada por Heloisa Buarque de Hollanda é prova disso. Constam dela escritores de pelo menos três gerações diferentes, com valores e ideais distintos, mas que se irmanavam pela insatisfação com os anos de chumbo da ditadura. Também se aproximavam pela utilização de "uma comunicabilidade direta, uma linguagem cotidiana e nada rebuscada para expressar aquela realidade", explica Flávio Aguiar, professor de literatura da Universidade de São Paulo (USP), que também participou dos "26 poetas hoje".

Por essa razão, soaria falso caracterizar a poesia marginal como um movimento. Até porque não se percebe uma unidade ideológica, muito menos a manifestação de receitas sobre o modo de se fazer literatura – como propunham os modernistas de 1922, encabeçados por Mario e Oswald de Andrade, por exemplo. Tratava-se da partilha de um sentimento comum sobre uma realidade hostil. "A grande qualidade da antologia da Heloisa foi revelar alguns poetas, mas o defeito consistiu em colocar um rótulo em pessoas muito diferentes que estavam produzindo na mesma época. Eles não se vêem como um grupo", garante Viviana Bosi, professora da USP.

Liberdade e repressão

Há quem diga que o ano de 1968 não acabou até hoje. Em Paris, durante o mês de maio, centenas de milhares de jovens europeus tomaram as ruas da cidade com um objetivo no mínimo ambicioso: mudar o mundo. Protestavam contra a manipulação exercida pelos meios de comunicação de massa, lutavam pelo fim das discrepâncias entre homens e mulheres, defendiam a preservação do meio ambiente. Enfim, clamavam por uma sociedade mais justa e, acima de tudo, livre.

No Brasil, as manifestações de Paris também ecoaram para valer e apimentaram o já temperado caldeirão político da época. O país havia completado quatro anos sob o domínio da ditadura, e a pressão social pela redemocratização se acentuava. No campo das artes, Chico Buarque, com sua peça de teatro "Roda Viva", e Caetano Veloso, através de sua canção "É proibido proibir", funcionavam como porta-vozes dos críticos do regime militar. Entretanto, em reação à crescente insatisfação popular, o general e presidente da república Costa e Silva assinou o Ato Institucional de n°5 (AI5), no apagar das luzes de 1968. Imediatamente, começou um nebuloso período de perseguições e repressão aos inimigos do governo.

As mídias de grande circulação e as manifestações culturais de massa, como o cinema e a música, sofreram mais com a censura dos órgãos militares do que a literatura. "A poesia nunca foi formadora de opinião, e não tinha o poder de fogo das outras artes. Por isso, não existia tanto controle. De qualquer maneira, ela agregou muita gente nos anos 70. Os recitais eram muito concorridos. Hoje isso é impensável", analisa Heloisa. A poesia marginal também seguiu a trilha aberta pela imprensa alternativa, de que se destacam os jornais "Opinião", "Movimento" e "Pasquim". "Havia um clima muito receptivo no país a esse tipo de publicação devido à censura. Era uma forma de resistência cultural contra um mercado editorial considerado anacrônico e contra o controle imposto pelo regime militar", conta Flávio Aguiar.

O florescimento da poesia marginal é fruto do choque entre a atmosfera repressiva, no plano político interno, e a metamorfose comportamental que se verificava em esfera mundial. "Imagine o que é ter 17 anos em 1968, com a ditadura comendo solta? Meu pai foi preso depois do AI5. Aí aparecem o movimento hippie, o festival de Woodstock. Eu precisava de um canal para responder a todas essas informações, e o canal foi a palavra", conta Chacal. Havia um tom de desilusão no ar com relação aos métodos tradicionais de luta pregados pela esquerda – que não pareciam a resposta adequada à violência dos novos tempos. Por outro lado, a liberdade individual defendida pelos jovens de Paris era um convite à rebeldia, não à revolução.

"Foi um momento de demolição de dogmas, uma resposta aos que acreditavam, com a melhor das intenções, que o intelectual era irmão do operário para fazer a revolução. O que os dois tinham em comum? Ambos estavam fora do centro social, mas cada um se encontrava isolado no seu mundo", argumenta Viviana Bosi. O clima de desilusão e de crítica a esse discurso em certa medida populista é evidenciado por um poema de Charles intitulado "Perpétuo Socorro":

"O operário não tem nada com a minha dor
Bebemos a mesma cachaça por uma questão de gosto
ri do meu cabelo
minha cara estúpida de vagabundo
dopado de manhã no meio do trânsito
torrando o dinheirinho miúdo a tomar cachaça
pelo que aconteceu
pelo que não aconteceu
por uma agulha gelada furando o peito"

A ânsia de viver desregradamente, com cara de vagabundo dopado de manhã, rendeu à geração de 70 o adjetivo de "desbundada" – trocando em miúdos, um grupo que queria tão somente curtir a vida. Mas não eram apenas os jovens que enxergavam a necessidade de repensar os métodos de militância política, ao fazer do próprio cotidiano a arma de protesto contra o status quo. Na verdade, a poesia marginal nasceu da aliança entre esses poetas influenciados pelo modo de vida alternativo da contracultura americana e os escritores que vivenciaram o clima de disputa política profundamente ideologizada da década anterior. "Ao ler Chico Alvim (um dos "26 poetas hoje"), que era marxista convicto, percebe-se que ele acha que a retórica do Partido Comunista não tinha mais eficácia para a situação que se armou. Enxerga-se a vontade de buscar uma saída, mas não a saída da revolução comportamental, como fez a geração do desbunde", afirma Heloisa.

Traços estilísticos

À primeira leitura, a poesia marginal dos anos 70 parece resgatar propostas formuladas pelos escritores que redefiniram os rumos da literatura nacional na Semana de Arte Moderna de 1922, realizada em São Paulo: versos com toque humorístico e linguagem coloquial, que revelam pouca preocupação com a métrica ou com a rima, e que retratam situações bastante cotidianas. Entretanto, os marginais foram além nessa vontade de casar poesia e vida, deixando de lado o politicamente correto e se valendo do efeito libidinoso e dos palavrões – tão corriqueiros, diga-se de passagem, nas conversas entre as pessoas. É o que se pode ver nos versos de "Epopéia", de Cacaso, professor universitário que exerceu uma certa liderança entre os marginais, conquistando admiradores e popularizando esse tipo de produção no meio acadêmico:

"O poeta mostra o pinto para a namorada
E proclama: eis o reino animal!
Pupilas fascinadas fazem jejum"

Abordar temas terrenos e subjetivos consistia numa crítica ao que era considerado cânone na época, como a poesia de João Cabral de Mello Neto, por exemplo. Na concepção de alguns marginais, a literatura do mestre pernambucano tinha um caráter muito maquinal e tecnicista, com versos bem acabados, porém pouco antenados ao dia-a-dia. Também representava uma alfinetada no projeto estético do concretismo, criado pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e por Décio Pignatari, que defendiam a "morte" do verso convencional ao darem mais importância para a espacialização das palavras na transmissão de uma mensagem – uma poesia que privilegiava os efeitos de caráter visual. Além disso, os marginais não se enquadravam no engajamento político-partidário da poesia produzida nos moldes prescritos pelo Centro de Cultura Popular, da União Nacional dos Estudantes (UNE), durante a década de 60.

Mas, se a opção por uma linguagem coloquial e temas pouco complexos já havia sido praticada pelos modernistas, e se a crítica à conjuntura política também já tinha sido feita antes, o que de fato singulariza os marginais? Pode-se dizer que eles "desengravataram" a poesia, que desceu do pedestal e passou a freqüentar ambientes não tão eruditos. O público fiel, composto principalmente de universitários que freqüentavam a zona sul do Rio de Janeiro ou os cinemas de São Paulo, identificou-se com aquela maneira espontânea e inocente de peitar as grandes editoras. "Era difícil entrar no mercado. Mas, com o avanço das técnicas gráficas, fazer um livro de poucas páginas ficou barato, e o mimeógrafo se tornou a forma mais simples de reprodução. Havia dificuldade para comercializar, e isso passou a ser feito de mão em mão, pelo próprio autor, nas portas de restaurantes e teatros. A princípio era uma alternativa, depois virou uma opção de recusa ao mercado tradicional", acrescenta Flávio Aguiar.

Legado

Quando Caetano Veloso, Gilberto Gil e companhia estremeceram a cena da música popular brasileira com a Tropicália, no final da década de 60, estava claro que esse movimento descendia diretamente da Antropofagia criada por Oswald de Andrade, quarenta anos antes. A idéia de devorar as influências culturais vindas de fora, misturando-as ao pastiche de ritmos e expressões genuinamente tupiniquins, demorou a ser digerida pela esquerda tradicional no país. O som da guitarra era visto como uma verdadeira afronta aos valores nacionalistas e por isso causou tanto alvoroço na época. Com a mesma ânsia que Caetano e Gil beberam da fonte de um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, os poetas marginais da década de 70 também se apropriaram do canal de cultura pop desbravado pelos tropicalistas.

O piauiense Torquato Neto, que pertencia à linha de frente daquele movimento, é um dos grandes responsáveis pela disseminação dos novos valores que deram o tom da produção literária desenvolvida ao longo dos anos de chumbo da ditadura. Por essa razão, é considerado um dos pais da poesia marginal. Entre 1971 e 1972, ele assinou a coluna "Geléia Geral" no jornal "Última Hora", com textos que refletiam a efervescência contracultural que já havia contaminado outras áreas, como as artes plásticas. Não é por acaso, portanto, que a homenagem eternizada pelo slogan "seja marginal, seja herói", feita por Hélio Oiticica ao traficante Cara de Cavalo, morto pela polícia em 1966, é considerada uma metáfora da aura inquieta daqueles anos.

Apesar de se encontrarem autores independentes em diversas partes do Brasil, como São Paulo, Belo Horizonte e Brasília, a poesia marginal na verdade é um fenômeno bastante localizado, uma febre que assolou a classe média e universitária, que freqüentava a zona sul do Rio de Janeiro. "Não acho que existisse um grupo coeso de poetas, mas pelo menos havia um grupo. Isso também era devido à liderança exercida pelo Cacaso", afirma Flávio Aguiar. Foi nessa região da capital fluminense que surgiram círculos de autores que se reuniam para lançar publicações de poesia, como a revista "Navilouca" e a coleção "Frenesi", produzidas com recursos próprios e vendidas de mão em mão. É no Rio de Janeiro também que surge a Nuvem Cigana, um grupo formado não só por poetas, como Chacal e Ronaldo Bastos – parceiro de Milton Nascimento em diversas composições –, mas também por pessoas como o cantor Paulinho da Viola e o jogador de futebol Afonsinho, que se reuniam para organizar artimanhas e eventos culturais de todo tipo.

Atualmente, o legado da poesia marginal pode ser visto sob diversos ângulos. No campo específico das letras, o número de teses acadêmicas sobre autores como Chico Alvim e Ana Cristina César só fazem crescer. "É bastante irônico. Na década de 70, eles não eram considerados literatura, mas hoje são parte do cânone, viraram oficiais", afirma Heloisa. Outros buscaram novas formas de expressão artística e acabaram migrando para a televisão, como é o caso de Chacal e Charles, que se tornaram roteiristas da Rede Globo. Além disso, diversas composições de sucesso, consagradas nas vozes de cantores bastante populares como Edu Lobo, Moraes Moreira, Lulu Santos e Adriana Calcanhoto, foram feitas em parceria com os poetas marginais.

É difícil resumir o espírito alvoroçado daquela época, em que a poesia preencheu uma parte do vazio deixado pela repressão ostensiva aos movimentos organizados de contestação política. Os marginais oscilam entre a necessidade de se libertar e a tensão por não se deixar controlar, mas todos são reféns das suas individualidades, o que impossibilita qualquer generalização. "A poesia marginal é um saco de gatos", brinca Chacal. Talvez também seja "como se todos estivéssemos escrevendo um poema a mil mãos", como escreveu Cacaso.


(Publicado na revista Repórter Brasil em 30 de janeiro de 2006)

Conversa com Chacal

Chacal é o nome artístico de Ricardo de Carvalho Duarte, que nasceu em 24 de maio de 1951, no Rio de Janeiro. Publicou 13 livros, dos quais Muito Prazer (1971), Preço da Passagem (1972), América (1975), Quampérius (1977), Drops de Abril (1983), Comício de Tudo (1986), Letra Elétrika (1994), Posto Nove (1998) e A Vida é curta pra ser pequena (2002). Colaborador de revistas de poesia nos anos 70, nos 90 editou, entre outros, O Carioca. Publicou periodicamente nos jornais Correio Brasiliense, Folha de S. Paulo e Jornal do Brasil. Participa das antologias 26 Poetas Hoje (1976) e Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século (2001). Letrista (parcerias com Lulu Santos, Fernanda Abreu e Moraes Moreira, entre outros), criador e diretor do CEP 20.000, evento que acontece no Rio desde 1990. A entrevista foi feita por Fabrício Marques (*).

MARÇO DE 1998

Poeta, letrista, editor, mas principalmente saltimbanco e performático da poesia, você é um dos mais notórios representantes da “geração mimeógrafo” que marcou com sua presença nos anos 70. Vinte e cinco anos depois do primeiro lançamento, é relançado seu livro de estréia, “Muito Prazer”. É uma edição comemorativa – da editora Sette Letras – do livro que, em 1971, teve apenas 100 exemplares mimeografados e distribuídos na noite carioca, de bar em bar, por um jovem com então 25 anos. Qual a diferença entre a primeira edição e esta, 25 anos depois?

No meu último livro, “Letra Elétrika”, de 94, tem um texto chamado “Quântico dos Quânticos”, que diz: ‘Será o texto reescrito outro ou serei outro ao reescrever o texto ou já que tudo muda porque você me olha com essa cara de bunda toda vez que lhe digo que já fui?’ 25 anos é o tempo que vai de uma encarnação à outra. A primeira edição do “Muito Prazer” em 71 tinha a cara da urgência, do panfleto, da guerrilha urbana. Agora, é uma edição revista, ampliada e bem cuidada, com pequenos textos críticos, orelhas, e um elogio feito por Waly Salomão, publicado em 72 na coluna de Torquato Neto, “Geléia Geral”, que foi meu salvo conduto nas veredas da poesia. Agora, meu prazer ficou maior.

Você poderia contar alguma experiência marcante dessa época?

Me lembro de chegar na sala de aula da escola de Comunicação da UFRJ, com os primeiros exemplares mimeografados na mão. Foi um espanto. Algumas pessoas queriam comprar. Lembro até hoje da dificuldade que tive em colocar um preço naquele negócio. Era a primeira vez que eu ganhava dinheiro com poesia. Lembro de tentar vender, sem sucesso (minha timidez era gigante), o livro na entrada do show “Gal Fa-Tal”, no teatro Tereza Raquel, num dos primeiros shoppings de Copacabana, ponto de encontro noturno da galera da época. De dar um livro para Jards Macalé, no Píer, em Ipanema, point diurno da rapaziada. E lembro das opiniões e conselhos de Waly, meu primeiro leitor do ramo.

Como você viu e viveu as transformações (se é que houve alguma) das décadas de 70, 80 e a atual.


É divertido falar disso, estando dentro da parada. Mudam os anos, os modos, o país, mudei eu. 70 foi um período sinistro, vertiginoso, cercado de treva e droga. Mas no meio algo brilhava: a luz negra dos poetas possessos. E a voz penetrou o silêncio imposto e fertilizou a poesia. 70 foram anos “punk”, de uma poesia urgente, mal acabada, irresistível, vital. A poesia olhava a vida nos olhos e dizia como era ela e vice-versa.

A torre de marfim, atingida pelo raio da vida, ruiu boquiaberta. E desses escombros, brotou o rock dos 80. Os poetas migraram para a música porque o som distorcido e amplificado das caixas de som eram as caixas de guerra que eles precisavam. A tecnologia veio junto com a indústria cultural. A poesia se performatizou, se profissionalizou, aprendeu os truques marqueteiros e aprofundou suas olheiras com maquiagem barata.

Nos 80, os poetas invadem os palcos, armados de guitarras até os dentes. Nas garagens da poesia, o verso era recauchutado. Cientistas do verbo, exasperados com tanto barulho e diluições, recuperavam o vigor do verso, a coluna vertebral do poema era estimulada como antídoto aos maus modos marginais. E chega 90 com seu jeito collorido. A biodiversidade campeia. A indústria drenou a alma do rock e partiu para o interior. As editoras deixaram o barco bêbado da poesia à deriva e os poetas acordaram. Dos laboratórios das faculdades de letras, veio à luz um verso novo, eivado de referências poéticas.

A poesia, cansada de lidar com a vida, de brigar para mudar o mundo, se volta para dentro de si mesma. Os cadernos de cultura exultam. As referências agora são mais fáceis de achar. Saem das ruas e vão para as bibliotecas e livrarias. Mas a contraparte dessa tendência estoura nas rádios e se chama rap, hip-hop, funk. A poesia falada, cantada no ritmo eletrônico, celebrando a miséria urbana. Final de milênio. Vale tudo que venha somar. Radicalmente.

Quais os poetas que são referências para você?

Oswald de Andrade, Bob Dylan, Guimarães Rosa, Caetano Veloso, Chico Buarque, Allen Ginsberg, João Cabral, Ferreira Gullar, Manoel de Barros, Arnaldo Antunes.

E o que você tem lido atualmente?

Releio “Naked Lunch”, de Willian Burroughs. E acabei de ler a biografia de Noel Rosa, de João Máximo. A rua me interessa.

Os poetas da Poesia Concreta, de modo geral, sempre torceram o nariz para a poesia dita “marginal”. E você, o que pensa da poesia concreta? E que avaliação faz dos poetas “marginais”?

Concretismo: dez em matemática. Dez em política. Zero em português.

Poesia marginal: zero em português. Dez em biologia. Zero em matemática.

Como foi sua participação no disco da Fernanda Abreu? Fale um pouco de seu lado letrista.

Eu e Fernanda temos um vício em comum: a dança. Fernanda dança pelos poros. Tudo que ela faz tem swing. Eu gosto disso. Se o homem não fosse bloqueado por ondas de cultura repressiva, ele dançaria como quem respira. Trabalhar com Fernanda é só ligar o automático. Ela é rápida, inteligente, toca a bola e se desloca para receber na frente. A gente pensa junto. Mas eu não sou letrista. Eu escrevo sem música. A Fernanda cria o ritmo, funkeira de primeira que é. Nunca compus nada de nota. As músicas que mais gosto das que fiz é “A Lata”, “Be Sample”, com Fernanda e Chico Neves; “Vamp”, com Mimi Lessa, que o Barão gravou; “Andréia Andróide”, com Ricardo Barreto; e “Leontina”, com Moraes Moreira.

Que tipo de som você tem ouvido?

Planet Hemp, Fernanda Abreu, Piu Piu, Cabeça.

Há algum tempo, o poeta Bruno Tolentino levantou uma polêmica em torno da diferença entre letra de música e poesia. Na concepção dele, Caetano Veloso, por exemplo, não seria um poeta, mas um letrista. Como você vê essa questão?


Tolentinices. O Bruno confunde poesia com poesia culta que tem como referência a própria poesia. A poesia que viaja com a música é meio vira-lata, vadia. Uma é poesia de língua. A outra, da fala. A poesia do Bruno tem que ter uma espinha dorsal como quer também João Cabral. Mas há muito a poesia vendeu as muletas da métrica e foi extrair ser ritmo da respiração entrecortada pelos sustos do imprevisto. Feliz do país que pode cantar seus poetas em alto e bom tom como aqui.

AGOSTO DE 2000

De sua experiência com a poesia tanta falada quanto escrita, quais as principais características que se podem depreender delas?

A rima, a aliteração, a paranomásia (imagens sonoras), junto com a metáfora, a metonímia (imagens visuais) são da praia da poesia. Para apreciá-las, é útil que se leia ou que se ouça o poema em voz alta. Senão é como consumir música apenas com a leitura da partitura. A poesia impressa matou aos poucos o hábito de se ouvir poesia. A poesia provençal não se criaria no planeta de Gutemberg. Mais que o som, a poesia no papel tira a presença do recitador, seja ele o poeta ou outra pessoa. Perde-se a emoção, a dicção, a presença do poeta, que nos ajuda a perceber as divisões, o ritmo a que ele se propôs quando criou o poema (a esse respeito, ver como crescem as Galáxias, de Haroldo de Campos, quando faladas por ele). Ganha-se, por outro lado (perdida num recital, mas não de todo no CD), a possibilidade de se voltar de imediato, a determinados versos, para melhor percebê-los. Para a poesia mais reflexiva, talvez o melhor veículo seja a poesia impressa, lida no sossego. Mas uma poesia que se quer relato do cotidiano, com uma linguagem mais próxima da fala, com suas impurezas e tiques nervosos, como na poesia dos anos 70, cabe melhor a apresentação ao vivo, onde a dicção, o gesto, o ritmo, características da fala, dão à poesia a impressão do passageiro.

Rodolphus Agrícola disse que a poesia serve para ensinar, comover e deleitar. João Cabral fala em poesia como máquina de como ver, realçando sua visualidade. Os concretos falam em poesia verbivocovisual, querendo esgotar as possibilidades da palavra. A poesia falada nos leva a um novo estudo. Algo que se passe pela música, pelo canto, pelo teatro, pela performance. Não estamos diante da poesia escrita, nem do monólogo dramático. Estamos diante de uma simbiose dessas diversas expressões. Nada melhor que o poeta para ler suas próprias composições. Ele saberá, melhor que ninguém, falar seus poemas dentro das divisões desejadas. Claro está que alguns poucos recitadores podem compensar uma divisão equívoca com uma boa colocação de voz e gesto. Mas, na maioria dos casos, o que se vê é um ator querendo se sobrepor ao poema, querendo dramatizar e dar intenções que devem ficar a cargo do espectador. O recitador deve ter a medida exata do palavra. Não chutá-la como se fosse pedra. Nem encharcá-la de perdigotos melodramáticos. As palavras, essas baixinhas, sabem direitinho o que querem dizer. Cabe a quem fala transmiti-las com sabor, e a quem as recebe, ouvidos abertos. No mais, ficam o gestual, a dicção, o domínio do microfone de quem fala, às condições acústicas do espaço, a respiração da platéia e, acima de tudo, a qualidade do poema.

O que um poema falado "diz" que o poema escrito, tipográfico, não pode dizer?

Talvez a distância do rosto e seu retrato. A palavra, quando plena de sentido, fica prosa, como diria meu primo. E por isso não se contenta em ficar chapada sobre o papel como um cachorro atropelado. Ela quer inflar, viajar, ganhar outras dimensões. Aí ela maquina aqui, maquina ali, se enfurece, se faz de sonsa, dribla, ilude e, fulminante, escapole pela porta da boca, enchendo o espaço com seu som único, mágico, imantado. Quando o poeta alça a voz, o sol fica vermelho de inveja porque sabe que é a única energia que pode superá-lo em sua grandeza e calor. A voz plena de força para fazer a poesia acontecer e encher de pássaros o espaço de uma sala, de uma noite, do vazio. A voz com sua precisão cirúrgica mesmo imprecisa como a de Drummond, pequena como a de Bandeira, áspera como a de Cabral, apresenta ali, gota a gota, pelo filtro do verbo decantada, a vida condensada. Palavra, fonte de cura e loucura, tão expressivas como um olhar, um gesto, um esgar.

A palavra, que estremece e percorre por dentro o corpo, numa corrida de obstáculos, quando sai da boca é vida, mesmo que inspirada na morte. A poesia na voz do poeta é um digno espetáculo. Ver como a criatura se contorce ou se transtorna, sorri ou gesticula para dizer o que para ninguém é fácil, mas é bom, saudável, depurativo. Com ou sem recursos eletrônicos, com ou sem trabalhos de corpo ou voz, a poeta ali se agiganta, incorpora um sistema solar e se manifesta cidadão do planeta Terra.

JULHO DE 2003

De onde veio o apelido Chacal?

De uma gíria antiga: onda chacal. Usei-a depois de um treino da seleção carioca infantil de vôlei em 1964. As pessoas, depois do treino, comendo em silêncio na cantina, eu cheguei e mandei: Que onda chacal! Foi pra rua. Pegou.

Você nasceu na Gávea e com um ano foi para Copacabana. Depois voltou para a Gávea, onde mora desde 83. O que esses lugares do Rio representam pra você? Afinal, o que o Rio significa pra você inclusive, você escreveu um livro sobre o Posto 9 (estou certo?), não é (o rio é basicamente o mar)? Chacal, queria que você se detivesse mais nessa pergunta, e viajasse no tempo, lembrando tudo que quiser de sua infância, seus pais, irmãos (os tem?)


Tenho três irmãs. Duas mais velhas e uma mais nova. O Rio é a minha cidade. Adoro cantá-la de todo jeito. Além do Posto 9, editei uma revista chamada O CARIOCA, e faço há 13 anos o CEP 20.000, que é o código postal da cidade. O Rio é a minha praia na infância e adolescência em Copacabana. Muita onda, muito jacaré e futebol. As primeiras domingueiras e festinhas ao som de Satisfaction. A primeira namorada. Depois o clássico no Colégio Estadual André Maurois de 67 a 69, já na Gávea. O movimento estudantil. A descoberta do samba em Mangueira, no Império Serrano. Sexo, drogas e poesia na Escola de Comunicação da UFRJ e no eixo Baixo Leblon / Pier (Praia de Ipanema). O encontro com Waly e Torquato Neto em 72, no Teatro Teresa Raquel em Copacabana, durante a temporada do show "Gal Fatal". A vida quase sempre na rua, nos bares, na praia. O Rio é uma cidade out door. A vista quase sempre é um colírio. A cidade é dispersa, festiva, difícil de se concentrar no trabalho. Mas o Rio é principalmente a cidade onde nasci e vivo há 52 anos.

Tem quanto tempo que você está ligado à poesia? O que significa pra você essa longa ligação? O que a poesia trouxe (ou tirou) para a sua vida? (poesia incidental, pra acompanhar a pergunta: "A gente vai ficando velho e escreve menos/ (...) não há nenhum critério em ser velho").

Descobri a poesia em 1970, através de livro sobre Oswald de Andrade, da coleção Nossos Clássicos, da Editora Agir. A partir daí comecei a escrever meus poemas kodak. Flashes da vida, do momento. A poesia é meu canal de comunicação com o mundo. Através dela, traduzo minhas experiências. A poesia me ajudou a estar no mundo e me tirou da angústia do sempre difícil contato humano.

A vida é curta pra ser pequena é seu livro mais recente, certo? Há nele quase que uma contaminação permanente de poemas por letras de música e vice-versa, concorda? Gostaria que comentasse essa "hibridização".

Não percebo muito essa diferença. Acho que de uma forma geral, trafego por várias poéticas. Do poema mais curto, como o título do livro, pela poesia em prosa, pelo poema rimado. Acho que minha poesia não se encaixa em modelos. Eu os uso, simplesmente.

O poema que abre o livro é "ouro preto a pé". Como é "bater pedra/ pisar pedra/ em ouro preto"?

Acho que fala de uma obsessão, de uma necessária obstinação para poder criar, sem que a dispersão, a avalanche de solicitações do cotidiano te impeçam de compor.

Em Ruas, o narrador diz que "há meio século/ ando nas ruas (...) a pé". Chacal, Esse contato direto com a vida citadina, com áreas urbanas, unindo o dado biográfico com as palavras é essencial para o poeta ("colar o ouvido no asfalto/ tomar o pulso da cidade/ e dançar")? Nessas andanças dá pra saber de que é feito o conteúdo da caixa preta do planeta? -Isso sem falar nos poemas "cidade" e "à rua".

Eu amo a rua. Como João do Rio, acho a rua, a morada do acaso, o combustível para a criação. Os livros, a escola, podem complementar o aprendizado. Mas o essencial vem das ruas, dos encontros fortuitos, da batucada.

Na seção "figuras" você desfila um cardume de personagens interessantes: leontina, sonhoníricos, bundamental... Poderia falar um pouco dessas figuras?

Leontina veio de uma matéria no Fantástico sobre alergias que pessoas tem depois do beijo. Moraes Moreira musicou-a muito bem. Bundamental é aquele lírico paquidérmico, amante das convenções. Um nostálgico dos tempos d`antanho. Acho que existe um pouco dele em todo poeta. Sonhoníricos e Burrovaldos são os delirantes de plantão em oposição aos idiotas da objetividade.

"Aqui agora" diz: "o aqui agora está mudado/ em 68/ era viver intensamente/ em 2001/ uma odisséia no atolado". Mas nessa odisséia no atolado de hoje, ainda cabe viver intensamente?

Se torna cada vez mais improvável. Hoje é tudo muito previsível. A compulsão de fazer dinheiro, de ganhar a vida, vai excluindo o desejo do planeta vida. Eu sou um utópico nato. Venho da geração de 68. Acho que a vida é curta pra ser pequena.

Enquanto preparava essas perguntas, eu ouvia uma música que está fazendo 30 anos: "Complexo de épico", do Tom Zé: "todo compositor brasileiro é um complexado. Por que então essa mania danada, essa preocupação de falar tão sério, de parecer tão sério (...) vai ser sério assim no inferno!". Você concorda que uma grande parte dos poetas e dos artistas em geral se levam muito a sério? Isso é sério?

Concordo plenamente. Escondem sobre a máscara da erudição, a dificuldade de dar um laço no cadarço do sapato. Esquecem do outro. Não sabem que a vida é troca, base do eterno aprendizado.

Fale sobre a experiência do Centro de Experimentação Poética, o CEP 20.000. (ali a onda é boa/o mundo ali é bom)?

O CEP 20.000 é o meu centro. Um caldeirão onde se mistura música, poesia, teatro, performance, toda última quarta de cada mês, no Espaço Cultural Sérgio Porto, no Rio, com apoio do Rioarte. Com o CEP, eu posso me rever nos poetas de vinte anos que ainda tem a poesia como reflexo das suas vivências, cotidiano esse muito parecido com o meu há vinte anos atrás, onde a urgência de entrar no mercado de trabalho e a insatisfação com essa situação devido à vontade de experimentar o mundo é angustiante. O CEP 20.000 serve de palco para a garotada expressar essa fúria e não morrer sufocada. Devia ter apoio da Secretaria Municipal de Saúde.

É com orgulho que comemoramos 13 anos de existência agora em agosto de 2003. Acho que a história da falada poesia falada no Rio se divide em antes e depois do CEP. Uma história que sempre se renova. Talvez por não nos levarmos tão a sério. Três gerações se criaram por lá.

Quanto tempo e quantos números durou a revista O Carioca, que você editou? Como é editar uma revista de cultura e arte no Brasil?

“O Carioca” nasceu em janeiro de 95 para levantar a bola da cidade do Rio de Janeiro, oprimida pela guerra santa entre Leonel Brizola e Roberto Marinho. “O Carioca” não é uma revista bairrista. Apenas quer cantar seu bairro porque é lá que estão suas melhores referências.

O Carioca durou de 95 a 98. Foram 5 edições. Tudo que não passa pela indústria cultural e seus departamentos de marketing, é difícil de se estabelecer. Essa perversa parceria que transforma um produto da sensibilidade humana em mais uma entre zilhões de mercadorias, é coisa de profissionais. Eu serei um eterno viajante, hóspede do planeta. Mas eu ainda faço uma revista para anões albinos.

N’O Carioca você expôs uma característica de amplitude de interesses, ouvindo cineastas, músicos.

Todas as formas de expressão artística me interessam. Eles se misturam, assim como os sentidos interagem. É lamentável que um artista não tenha curiosidade por outras formas de criação. Essa amplitude que quis dar ao Carioca, talvez tenha inviabilizado-a. Daí anões albinos.


Como era o panorama editorial quando você começou a escrever e como você o vê agora?

Em 1971: por desconhecer os caminhos que me levassem a uma editora e por achar muito mais legal fazer um livro artesanal, optei pelo mimeógrafo. Escrever, publicar e distribuir, faziam parte de um mesmo ato: viver a vida, simplesmente, anotando e publicando o vivido.
A onda se alastrou e muita gente começou a escrever, ler e falar poesia. Mas viver desse ato tão natural como respirar, era difícil. Livros, mais se davam do que se vendiam. Até que veio uma grande editora (Brasiliense) e vendeu duas edições - 6 mil exemplares - do meu 9.º livro, Drops de Abril (1983), uma coletânea dos meus livros até então. Daria para viver se aquilo fosse num crescendo. Mas a editora entrou em declínio. E outras não se interessaram.
Em 2002, lanço meu 13º livro "A vida é curta pra ser pequena" por conta própria. Deixo os livros em consignação em livrarias e sou tratado a dentadas na hora de fazer o acerto. Quando a poesia vira livro e o livro, mercadoria, tudo vira coisa. E o poeta apenas um produtor de inutensílios, como diz Manoel de Barros.



Como viver do trabalho poético ?


OK, poesia não é para se viver e para se escrever. Então produzo há 13 anos, o Centro de Experimentação Poética - CEP 20.000, evento referência na área de poesia falada e performatizada no Rio de Janeiro, com dezenas de jovens sedentos de novidade presentes às últimas terças feira de cada mês. Acho que se pudéssemos juntar a poesia escrita, com seu corte e sua precisão, à poesia falada, com sua música e expressão, à poesia virtual, com seu poder de disseminação e interação, teríamos novamente meios para popularizar e aumentar o nível de comunicação poética pelo país. E talvez, viver de poesia.


Depois do CEP, algo em vista?


Poesia não é uma arte popular em lugar algum do mundo. Mas não precisa ser tão ignorada como hoje no Brasil. E, se nós, que fazemos dela nosso meio de expressão, não tentarmos reverter esse quadro, ninguém mais. Acho que a gente pode revitalizar a Poesia que se faz no Brasil hoje, ampliando e revigorando o repertório das novas gerações e re-inseminando na corrente sangüínea do país, a boa poesia de todos os tempos. Uma forma para alcançar esse objetivo: pega-se 4 capitais (Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba que além de centros importantes, são relativamente perto uma da outra) e 1 poeta âncora que escrevam, falem e produzam eventos ou publicações de poesia em cada capital. A cada estação, seria lançada uma publicação com os poetas âncoras e os poetas de uma determinada cidade. A publicação seria lançada com um show. Um site seria criado e atualizado mensalmente e além de poemas e animações, teria o serviço dos eventos mensais e lugares de vendas das publicações e livros indicados. Uma vez por ano, um grande festival em Brasília, com poetas e performers de todo país e convidados internacionais. Esse esquema poderia ser reproduzido ao nível estadual e municipal, com escolha de cidades ou bairros do centro e da periferia em encontros semanais. Enfim, a possibilidade de tirar a poesia do gueto, é dar-lhe vida através do espetáculo, qualificá-la através de publicações e disseminá-la através da Internet. Acho que esse seria um upgrade digno para o CEP 20.000.


(*) Fabrício Marques é poeta e jornalista. Esta entrevista foi publicada no livro “Dez conversas” (Gutenberg, 2004) e cedida com exclusividade para o site Cronópios.