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quarta-feira, fevereiro 07, 2018

Carta à prezada sra. Carmem Lúcia


“Prezada” modo de dizer, pois não prezo por nada do que a senhora diz ou faz. Não a chamarei de ilustríssima, excelentíssima ou meretíssima. Sou médico e nunca exigi que as pessoas me tratassem por “doutor”. Leio, estupefato – palavra antiga, mas que cai bem – que a senhora declarou na abertura do ano judiciário, depois de dois meses de “merecidas” férias, que “discordar da justiça pode; o que não pode é desacatar”.

De que justiça – com “jota” minúsculo – a senhora fala? Da justiça que se omitiu e até legitimou golpes de estado e ditaduras que fizeram sofrer nossa gente? De “amigos presos/ amigos sumindo assim/para nunca mais...”? Deve ser a da Suíça, da Lua, de Marte...

Senhora, a justiça da qual a senhora fala consome um terço do orçamento da Nação Brasileira. É o mais alto orçamento do planeta. Seu poder, STF, leva mais de meio bilhão de reais por ano. Mais do que todo orçamento de nossos programas sociais. Para sustentar 11 ministros e dezenas de copeiras, motoristas, engraxates, garçons, mordomos, seguranças, etc. E a senhora vem falar em “desacatar”.

Desacato é o que a tal “justiça” faz e sempre fez ao povo brasileiro. Lembremos que um juiz , quando é pego, ao invés de ser preso, é aposentado compulsoriamente. Com todos os vencimentos em dia.

A sua “justiça” deixa de punir ladrões notórios. A senhora mesmo, num voto de Minerva – a deusa jamais concordaria com uso tão banal de seu nome –, livrou um dos maiores corruptos e traficantes de ser processado. Ontem mandou arquivar processos de outro notório corrupto por “decurso de prazo, pois engavetam por 19 anos o processo.

Vossos “penduricalhos”, como auxílio moradia, educação, creche, saúde, etc. é um acinte, num país em que o auxílio-miséria é tratado por vossa elite como apenas comprador de votos e que vosso “presidente” já ameaça extinguir de vez, em nome do chamado “estado mínimo”. Eu lhe pergunto: se o bolsa família compra votos, o auxílio moradia compra sentenças?

Hoje, leio estarrecido que uma vossa colega de São Paulo liberou o desfile de um bloco de carnaval chamado “PORÃO DO DOPS”. (No coments)

É essa justiça que a senhora se revolta quando acha que é “desacatada”. Essa “justiça” que desacata todo um povo, uma nação inteira. Meu velho pai – semi-analfabeto, porém mais sábio que a senhora – sempre disse: “direito tem quem direito anda”. E a justiça de que a senhora fala, anda, há muitos anos, muito feia. Por fora e por dentro.

Manoel Bione (médico e jornalista)

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