24. Apaixonado por samba desde os tempos em
que ainda tinha cartilagens intactas, o delegado Petrônio Carvalho passou por
várias escolas de samba. Começou na Vitória Régia, fez estágio na Sem
Compromisso e acabou criando raízes na Reino Unido quando descobriu que um de
seus subordinados na Polícia Civil, o investigador Jairo Beira-mar, era diretor
de bateria da escola.
Petrônio
sonhava tocar tamborim. O problema é que sonhar e saber tocar são duas coisas
completamente diferentes. Depois de ouvi-lo executar alguns improvisos
involuntários que ofendiam a teoria musical, a prática musical e possivelmente
a própria humanidade, Jairo tomou uma decisão estratégica:
– Tu vai tocar
caixa de guerra.
Era um cargo
mais seguro para todos os envolvidos.
Em 1989, a
Reino Unido preparava-se para desfilar com o enredo “Axé Mãe Preta”. A
concentração acontecia ao lado do cemitério São João Batista, um local que, por
coincidência, combinava perfeitamente com o destino de alguns ritmistas que
desafinassem durante o desfile.
Jairo organizou
a bateria com a precisão de um comandante militar. Caixas aqui. Surdos ali.
Tamborins no meio. Cuícas acolá. Tudo perfeitamente alinhado. Aquela bateria
não parecia uma escola de samba. Parecia uma operação da OTAN. Foi então que
surgiu um problema.
A escola
anterior, a Barelândia, resolveu protestar por alguma razão insondável e
simplesmente não saía da avenida. Jairo foi verificar o que estava acontecendo.
Ausentou-se por cerca de vinte minutos. Vinte. Quando voltou, encontrou um
cenário que o faria questionar todas as suas escolhas de vida. A bateria havia
deixado de existir. No lugar dela havia uma gigantesca roda de pagode.
O delegado
Petrônio Carvalho presidia os trabalhos como um maestro do caos. Garrafas de
cachaça circulavam de mão em mão. Passistas sambavam. Curiosos tocavam
instrumentos da escola. Gente que nunca tinha visto um surdo na vida estava
batucando nele com entusiasmo. A concentração parecia menos uma preparação para
desfile e mais um churrasco clandestino financiado por alguma facção
especializada em samba.
Jairo quase
sofreu uma parada cardíaca. Aos gritos, começou a expulsar intrusos, recolher
instrumentos e reorganizar os ritmistas. Alguns componentes já apresentavam um
nível de embriaguez que os impedia de distinguir um repique de uma geladeira.
Mesmo assim, o diretor seguiu firme. A disciplina precisava ser restaurada.
E Jairo possuía
um método pedagógico extremamente simples. Quem errava, apanhava. Sua famosa
baqueta de pau-ferro não era exatamente uma baqueta. Era um argumento. Parecia
um taco de beisebol produzido para resolver conflitos trabalhistas.
Quando a escola
entrou na Djalma Batista, Petrônio recebeu a primeira correção técnica.
CRACK!
A baquetada
atingiu o ombro.
– Toca direito,
porra! Se não quiser tocar, corre pro mato! Isso aqui é sério!
Petrônio ficou
indignado. Durante anos interrogara criminosos perigosos. Prendera traficantes.
Investigara homicídios. Jamais imaginara que seria esculachado em público por
um subordinado diante de milhares de testemunhas. Mas permaneceu calado.
Naquele ambiente, claramente Jairo era a autoridade máxima.
Antes de chegar
à Tevelândia, o delegado já havia recebido tantas baquetadas corretivas que
começou a suspeitar de que não participava de um desfile. Participava de uma
sessão de tortura temática. Cada erro de ritmo era seguido por um novo golpe.
CRACK!
– Presta
atenção!
CRACK!
– Tá
atravessando!
CRACK!
– Quer me matar
do coração?
Ao final do
desfile, enquanto os componentes choravam emocionados, se abraçavam e
comemoravam a apresentação histórica da Reino Unido, Petrônio procurou o
diretor de bateria. Seu aspecto físico lembrava um sobrevivente de acidente
ferroviário.
– Porra,
Jairo... eu nunca apanhei tanto nem do meu pai.
– Mas melhorou
o ritmo.
– Melhorou uma
ova. Ano que vem me arranja um cargo na Harmonia. Não quero mais saber dessa
bateria furiosa. Estou indo agora falar com o massagista Dico Paiva porque acho
que meu ombro está quebrado.
A escola acabou
campeã. A bateria foi elogiada. Jairo ficou feliz. Já Petrônio passou o resto
da noite descobrindo músculos cuja existência desconhecia. Na segunda-feira
apareceu na delegacia usando tipoia. A clavícula havia pedido exoneração.
Naturalmente os
colegas quiseram saber o que havia acontecido. Petrônio, homem experiente e
preocupado com sua reputação, respondeu com toda a dignidade possível:
– Estava
perseguindo uns bandidos no Puraquequara. Me distraí e levei uma queda durante
a operação.
Os
investigadores ouviram a história com respeito. Era uma narrativa heroica. Uma
demonstração de bravura policial. Um relato digno de filme de ação. Foi então
que alguém perguntou a Jairo Beira-mar se aquilo era verdade.
Sem piscar, sem
rir e sem demonstrar qualquer sinal de remorso, o investigador confirmou:
– Foi
exatamente isso.
E naquele
momento nasceu talvez o primeiro caso da história da Polícia Civil em que uma
lesão corporal provocada por uma caixa de guerra foi oficialmente registrada
como acidente em serviço durante perseguição a criminosos. O inquérito jamais
esclareceu quantas das fraturas do delegado foram causadas pelo combate ao
crime e quantas foram causadas pela Bateria Furiosa da Reino Unido. Mas quem
conhecia Jairo Beira-mar sempre teve suas suspeitas.

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