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quarta-feira, agosto 19, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 24

 


24. Apaixonado por samba desde os tempos em que ainda tinha cartilagens intactas, o delegado Petrônio Carvalho passou por várias escolas de samba. Começou na Vitória Régia, fez estágio na Sem Compromisso e acabou criando raízes na Reino Unido quando descobriu que um de seus subordinados na Polícia Civil, o investigador Jairo Beira-mar, era diretor de bateria da escola.

Petrônio sonhava tocar tamborim. O problema é que sonhar e saber tocar são duas coisas completamente diferentes. Depois de ouvi-lo executar alguns improvisos involuntários que ofendiam a teoria musical, a prática musical e possivelmente a própria humanidade, Jairo tomou uma decisão estratégica:

– Tu vai tocar caixa de guerra.

Era um cargo mais seguro para todos os envolvidos.

Em 1989, a Reino Unido preparava-se para desfilar com o enredo “Axé Mãe Preta”. A concentração acontecia ao lado do cemitério São João Batista, um local que, por coincidência, combinava perfeitamente com o destino de alguns ritmistas que desafinassem durante o desfile.

Jairo organizou a bateria com a precisão de um comandante militar. Caixas aqui. Surdos ali. Tamborins no meio. Cuícas acolá. Tudo perfeitamente alinhado. Aquela bateria não parecia uma escola de samba. Parecia uma operação da OTAN. Foi então que surgiu um problema.

A escola anterior, a Barelândia, resolveu protestar por alguma razão insondável e simplesmente não saía da avenida. Jairo foi verificar o que estava acontecendo. Ausentou-se por cerca de vinte minutos. Vinte. Quando voltou, encontrou um cenário que o faria questionar todas as suas escolhas de vida. A bateria havia deixado de existir. No lugar dela havia uma gigantesca roda de pagode.

O delegado Petrônio Carvalho presidia os trabalhos como um maestro do caos. Garrafas de cachaça circulavam de mão em mão. Passistas sambavam. Curiosos tocavam instrumentos da escola. Gente que nunca tinha visto um surdo na vida estava batucando nele com entusiasmo. A concentração parecia menos uma preparação para desfile e mais um churrasco clandestino financiado por alguma facção especializada em samba.

Jairo quase sofreu uma parada cardíaca. Aos gritos, começou a expulsar intrusos, recolher instrumentos e reorganizar os ritmistas. Alguns componentes já apresentavam um nível de embriaguez que os impedia de distinguir um repique de uma geladeira. Mesmo assim, o diretor seguiu firme. A disciplina precisava ser restaurada.

E Jairo possuía um método pedagógico extremamente simples. Quem errava, apanhava. Sua famosa baqueta de pau-ferro não era exatamente uma baqueta. Era um argumento. Parecia um taco de beisebol produzido para resolver conflitos trabalhistas.

Quando a escola entrou na Djalma Batista, Petrônio recebeu a primeira correção técnica.

CRACK!

A baquetada atingiu o ombro.

– Toca direito, porra! Se não quiser tocar, corre pro mato! Isso aqui é sério!

Petrônio ficou indignado. Durante anos interrogara criminosos perigosos. Prendera traficantes. Investigara homicídios. Jamais imaginara que seria esculachado em público por um subordinado diante de milhares de testemunhas. Mas permaneceu calado. Naquele ambiente, claramente Jairo era a autoridade máxima.

Antes de chegar à Tevelândia, o delegado já havia recebido tantas baquetadas corretivas que começou a suspeitar de que não participava de um desfile. Participava de uma sessão de tortura temática. Cada erro de ritmo era seguido por um novo golpe.

CRACK!

– Presta atenção!

CRACK!

– Tá atravessando!

CRACK!

– Quer me matar do coração?

Ao final do desfile, enquanto os componentes choravam emocionados, se abraçavam e comemoravam a apresentação histórica da Reino Unido, Petrônio procurou o diretor de bateria. Seu aspecto físico lembrava um sobrevivente de acidente ferroviário.

– Porra, Jairo... eu nunca apanhei tanto nem do meu pai.

– Mas melhorou o ritmo.

– Melhorou uma ova. Ano que vem me arranja um cargo na Harmonia. Não quero mais saber dessa bateria furiosa. Estou indo agora falar com o massagista Dico Paiva porque acho que meu ombro está quebrado.

A escola acabou campeã. A bateria foi elogiada. Jairo ficou feliz. Já Petrônio passou o resto da noite descobrindo músculos cuja existência desconhecia. Na segunda-feira apareceu na delegacia usando tipoia. A clavícula havia pedido exoneração.

Naturalmente os colegas quiseram saber o que havia acontecido. Petrônio, homem experiente e preocupado com sua reputação, respondeu com toda a dignidade possível:

– Estava perseguindo uns bandidos no Puraquequara. Me distraí e levei uma queda durante a operação.

Os investigadores ouviram a história com respeito. Era uma narrativa heroica. Uma demonstração de bravura policial. Um relato digno de filme de ação. Foi então que alguém perguntou a Jairo Beira-mar se aquilo era verdade.

Sem piscar, sem rir e sem demonstrar qualquer sinal de remorso, o investigador confirmou:

– Foi exatamente isso.

E naquele momento nasceu talvez o primeiro caso da história da Polícia Civil em que uma lesão corporal provocada por uma caixa de guerra foi oficialmente registrada como acidente em serviço durante perseguição a criminosos. O inquérito jamais esclareceu quantas das fraturas do delegado foram causadas pelo combate ao crime e quantas foram causadas pela Bateria Furiosa da Reino Unido. Mas quem conhecia Jairo Beira-mar sempre teve suas suspeitas.

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