26. O sambista Dominguinhos do Estácio
desembarcaria em Manaus numa terça-feira para cumprir uma verdadeira jornada de
operário do entretenimento: apresentações diárias até domingo. Tudo corria
conforme o planejado até que alguém percebeu uma brecha na agenda da
sexta-feira. Dominguinhos, que não tinha alergia a dinheiro, ligou
imediatamente para Edu do Banjo.
– Meu camarada,
não tem nenhum canto onde eu possa cantar na sexta? Levantar um troquinho?
Comprar um pão com manteiga?
Edu começou a
mexer os pauzinhos e conseguiu interessar a diretoria da Associação Atlética
Banco do Brasil. Fechado o negócio, o show seria exclusivo para os associados
da AABB. Coube a Edu vender as mesas por um preço camarada, suficiente para
garantir o cachê do artista.
Entre os
compradores apareceu Nailson Brito, bancário pernambucano, especialista em
forró pé de serra, apreciador profissional de cachaça de cabeça e proprietário
de uma confiança quase infantil na humanidade. Tão logo ouviu falar que haveria
um show de um sujeito chamado Dominguinhos, comprou cinco mesas. Cinco. Vinte
lugares. O homem mobilizou parentes, amigos, agregados, vizinhos e talvez até
alguns transeuntes capturados na rua.
Na noite do
espetáculo, Nailson era a própria personificação da felicidade. Instalou sua
tropa a poucos metros do palco e aguardava ansiosamente o momento em que
ouviria os primeiros acordes de sanfona. O show começou. Primeiro veio um grupo
de pagode local. Depois, finalmente, surgiu Dominguinhos.
Nailson
ajeitou-se na cadeira. A qualquer momento viria “Eu Só Quero um Xodó”. Não
veio. O cantor abriu os trabalhos com um samba-enredo. Depois outro. Depois
mais outro. A seguir mergulhou em partido-alto, samba-canção, pagode, jongo,
lundu, breque, terreiro e tudo o mais que a cultura afro-brasileira havia
produzido nos últimos cem anos. A sanfona não apareceu. A zabumba não apareceu.
O triângulo não apareceu. “Asa Branca” continuava desaparecida.
Duas horas
depois, Dominguinhos do Estácio encerrou o espetáculo sob aplausos
entusiasmados da plateia. A plateia inteira. Ou quase. Nailson Brito estava
sentado à mesa com a expressão de um homem que acabara de descobrir que comprou
uma passagem para Recife e desembarcou em Vladivostok. Ao avistar Edu do Banjo,
saiu em sua direção feito um fiscal da Receita atrás de sonegador.
– Que merda foi
essa, Edu? Que merda foi essa?
Edu estranhou.
– Calma,
mestre! O que aconteceu?
– Aconteceu que
vocês vão devolver o dinheiro das minhas cinco mesas!
– Mas por quê?
Nailson
respirou fundo para organizar a indignação.
– Porque isso
foi propaganda enganosa da mais baixa categoria!
– Como assim?
– Porra, Edu!
Eu trago minha família inteira pra assistir Dominguinhos e o cidadão passa duas
horas cantando música que ninguém conhece!
– ...
— Não trouxe a
sanfona!
– ...
– Ninguém sabe
tocar zabumba!
– ...
– Ninguém sabe
tocar triângulo!
– ...
– E aquele
filho de uma égua ainda termina o show sem cantar “Asa Branca”!
A cada
argumento, Edu sentia sua alma abandonar lentamente o corpo.
– Nailson...
– O quê?
– Acho que
houve um pequeno mal-entendido.
– Pequeno?
– O
Dominguinhos que você está pensando é o sanfoneiro.
– Claro!
– Esse aqui é o
Dominguinhos do Estácio.
Seguiu-se um
silêncio tão grande que dava para ouvir o gelo derretendo dentro dos copos.
Nailson piscou algumas vezes. Olhou para o palco. Olhou para Edu. Olhou para os
parentes. Olhou novamente para o palco. E finalmente compreendeu que havia
comprado cinco mesas para assistir ao artista errado. Aquele talvez tenha sido
o único caso documentado de um pernambucano que foi a um show de samba e saiu
reclamando da ausência de sanfona. Durante semanas, a família inteira debochou
dele. E com razão.

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