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quarta-feira, agosto 19, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 26

 


26. O sambista Dominguinhos do Estácio desembarcaria em Manaus numa terça-feira para cumprir uma verdadeira jornada de operário do entretenimento: apresentações diárias até domingo. Tudo corria conforme o planejado até que alguém percebeu uma brecha na agenda da sexta-feira. Dominguinhos, que não tinha alergia a dinheiro, ligou imediatamente para Edu do Banjo.

– Meu camarada, não tem nenhum canto onde eu possa cantar na sexta? Levantar um troquinho? Comprar um pão com manteiga?

Edu começou a mexer os pauzinhos e conseguiu interessar a diretoria da Associação Atlética Banco do Brasil. Fechado o negócio, o show seria exclusivo para os associados da AABB. Coube a Edu vender as mesas por um preço camarada, suficiente para garantir o cachê do artista.

Entre os compradores apareceu Nailson Brito, bancário pernambucano, especialista em forró pé de serra, apreciador profissional de cachaça de cabeça e proprietário de uma confiança quase infantil na humanidade. Tão logo ouviu falar que haveria um show de um sujeito chamado Dominguinhos, comprou cinco mesas. Cinco. Vinte lugares. O homem mobilizou parentes, amigos, agregados, vizinhos e talvez até alguns transeuntes capturados na rua.

Na noite do espetáculo, Nailson era a própria personificação da felicidade. Instalou sua tropa a poucos metros do palco e aguardava ansiosamente o momento em que ouviria os primeiros acordes de sanfona. O show começou. Primeiro veio um grupo de pagode local. Depois, finalmente, surgiu Dominguinhos.

Nailson ajeitou-se na cadeira. A qualquer momento viria “Eu Só Quero um Xodó”. Não veio. O cantor abriu os trabalhos com um samba-enredo. Depois outro. Depois mais outro. A seguir mergulhou em partido-alto, samba-canção, pagode, jongo, lundu, breque, terreiro e tudo o mais que a cultura afro-brasileira havia produzido nos últimos cem anos. A sanfona não apareceu. A zabumba não apareceu. O triângulo não apareceu. “Asa Branca” continuava desaparecida.

Duas horas depois, Dominguinhos do Estácio encerrou o espetáculo sob aplausos entusiasmados da plateia. A plateia inteira. Ou quase. Nailson Brito estava sentado à mesa com a expressão de um homem que acabara de descobrir que comprou uma passagem para Recife e desembarcou em Vladivostok. Ao avistar Edu do Banjo, saiu em sua direção feito um fiscal da Receita atrás de sonegador.

– Que merda foi essa, Edu? Que merda foi essa?

Edu estranhou.

– Calma, mestre! O que aconteceu?

– Aconteceu que vocês vão devolver o dinheiro das minhas cinco mesas!

– Mas por quê?

Nailson respirou fundo para organizar a indignação.

– Porque isso foi propaganda enganosa da mais baixa categoria!

– Como assim?

– Porra, Edu! Eu trago minha família inteira pra assistir Dominguinhos e o cidadão passa duas horas cantando música que ninguém conhece!

– ...

— Não trouxe a sanfona!

– ...

– Ninguém sabe tocar zabumba!

– ...

– Ninguém sabe tocar triângulo!

– ...

– E aquele filho de uma égua ainda termina o show sem cantar “Asa Branca”!

A cada argumento, Edu sentia sua alma abandonar lentamente o corpo.

– Nailson...

– O quê?

– Acho que houve um pequeno mal-entendido.

– Pequeno?

– O Dominguinhos que você está pensando é o sanfoneiro.

– Claro!

– Esse aqui é o Dominguinhos do Estácio.

Seguiu-se um silêncio tão grande que dava para ouvir o gelo derretendo dentro dos copos. Nailson piscou algumas vezes. Olhou para o palco. Olhou para Edu. Olhou para os parentes. Olhou novamente para o palco. E finalmente compreendeu que havia comprado cinco mesas para assistir ao artista errado. Aquele talvez tenha sido o único caso documentado de um pernambucano que foi a um show de samba e saiu reclamando da ausência de sanfona. Durante semanas, a família inteira debochou dele. E com razão.

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