25. Fevereiro de 1979. Sábado magro de
carnaval. Tão magro que dava para contar as costelas da folia. O folião Sicy
Pirangy resolveu dar uma passada no Top Bar, lá na Cachoeirinha, para conferir
o movimento e quase entrou em depressão ao encontrar o estabelecimento
praticamente alugado para as moscas. O bar estava mais vazio que carteira de
estudante na última semana do mês.
Num canto,
sentados com cara de quem tinha acabado de receber uma ordem de despejo da
própria dignidade, estavam Zeca Boy e Luiz Lobão.
Os dois
conversavam baixinho, cultivando aquela expressão melancólica típica de quem
possui muitos sonhos e exatamente nenhum tostão. Sicy chegou chegando:
– Cadê o resto
da turma, porra?
– Foi todo
mundo pro baile de carnaval no Clube Municipal! – respondeu Zeca Boy.
– E vocês
ficaram plantados aqui por quê?
Luiz Lobão
suspirou fundo:
– Porque, se
jogarem um gato em cima da gente, ele escorrega. Estamos mais lisos que muçum
ensebado.
Sicy abriu um
sorriso daqueles que normalmente antecedem uma tragédia.
– É só isso?
Seus problemas acabaram. Venham comigo!
A frase, que em
qualquer filme sério seria seguida de uma solução milagrosa, naquele caso era
apenas o prenúncio de uma picaretagem de alto nível. Ele parou um táxi que
passava pela rua. Era um fusquinha, daqueles que rodavam Manaus inteira
tossindo fumaça e sobrevivendo apenas pela força da fé. Os três embarcaram.
– Meu compadre,
Clube Municipal, na Torquato Tapajós! – ordenou Sicy.
O taxista
sorriu por dentro. Finalmente uma corrida decente naquela noite. E lá foram
eles.
Naquele tempo,
a Torquato Tapajós parecia cenário de filme de faroeste produzido com orçamento
de merenda escolar. Era mato de um lado, mato do outro e uma escuridão tão
profunda que até os vaga-lumes andavam com medo. Quando chegaram às
proximidades da Estrada do Aeroclube, Sicy bateu no ombro do motorista.
– Meu amigo,
sem querer abusar da sua boa vontade, mas o senhor pode parar um instantinho
aqui?
O motorista,
alma pura e inocente, freou o carro. Foi o erro da noite. Sicy então bateu no
ombro de Zeca Boy e anunciou:
– Daqui pra
frente é com vocês dois, bonitões!
Antes que
qualquer cérebro presente processasse aquela informação, ele já havia acionado
a maçaneta, aberto a porta e desaparecido na escuridão com a velocidade de um
atleta olímpico fugindo de um agiota. O taxista levou alguns segundos para
entender o golpe. Tempo mais que suficiente para Zeca Boy e Luiz Lobão
concluírem que permanecer no veículo seria uma decisão financeiramente
desaconselhável. Abriram a porta e partiram atrás de Sicy numa fuga tão
sincronizada que parecia ensaio de escola de samba.
Quando o
motorista finalmente percebeu que tinha sido promovido de trabalhador honesto a
patrocinador involuntário do transporte carnavalesco, os três já estavam
evaporados no matagal. Furioso, o sujeito desceu do carro munido de uma
lanterna e um revólver. Fez uma busca rápida pela região e ainda disparou
alguns tiros na direção do escuro. Mas procurar Sicy Pirangy no mato àquela
altura era como tentar capturar fumaça usando uma peneira. O xexo já tinha sido
aplicado com sucesso.
Minutos depois,
já dentro do Clube Municipal, Zeca Boy e Luiz Lobão encontraram o mentor da
operação e foram logo cobrando explicações:
– Porra, bicho!
Quase que a gente leva uns tiros por tua causa!
Sicy deu de
ombros, com a serenidade de um monge tibetano especializado em calotes
coletivos.
– Tá bom,
bonitões, mas vocês queriam que eu fizesse o quê? Eu também tô mais liso que
muçum besuntado de óleo Johnson, carálio!
E os três
seguiram para o baile como se nada tivesse acontecido. Porque naquela época
havia duas certezas absolutas: ninguém tinha dinheiro e todo mundo tinha
coragem. E porque, no fim das contas, o que se leva da vida é a vida que se
leva – desde que o táxi fique para trás.
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