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quarta-feira, agosto 19, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 26

 


25. Fevereiro de 1979. Sábado magro de carnaval. Tão magro que dava para contar as costelas da folia. O folião Sicy Pirangy resolveu dar uma passada no Top Bar, lá na Cachoeirinha, para conferir o movimento e quase entrou em depressão ao encontrar o estabelecimento praticamente alugado para as moscas. O bar estava mais vazio que carteira de estudante na última semana do mês.

Num canto, sentados com cara de quem tinha acabado de receber uma ordem de despejo da própria dignidade, estavam Zeca Boy e Luiz Lobão.

Os dois conversavam baixinho, cultivando aquela expressão melancólica típica de quem possui muitos sonhos e exatamente nenhum tostão. Sicy chegou chegando:

– Cadê o resto da turma, porra?

– Foi todo mundo pro baile de carnaval no Clube Municipal! – respondeu Zeca Boy.

– E vocês ficaram plantados aqui por quê?

Luiz Lobão suspirou fundo:

– Porque, se jogarem um gato em cima da gente, ele escorrega. Estamos mais lisos que muçum ensebado.

Sicy abriu um sorriso daqueles que normalmente antecedem uma tragédia.

– É só isso? Seus problemas acabaram. Venham comigo!

A frase, que em qualquer filme sério seria seguida de uma solução milagrosa, naquele caso era apenas o prenúncio de uma picaretagem de alto nível. Ele parou um táxi que passava pela rua. Era um fusquinha, daqueles que rodavam Manaus inteira tossindo fumaça e sobrevivendo apenas pela força da fé. Os três embarcaram.

– Meu compadre, Clube Municipal, na Torquato Tapajós! – ordenou Sicy.

O taxista sorriu por dentro. Finalmente uma corrida decente naquela noite. E lá foram eles.

Naquele tempo, a Torquato Tapajós parecia cenário de filme de faroeste produzido com orçamento de merenda escolar. Era mato de um lado, mato do outro e uma escuridão tão profunda que até os vaga-lumes andavam com medo. Quando chegaram às proximidades da Estrada do Aeroclube, Sicy bateu no ombro do motorista.

– Meu amigo, sem querer abusar da sua boa vontade, mas o senhor pode parar um instantinho aqui?

O motorista, alma pura e inocente, freou o carro. Foi o erro da noite. Sicy então bateu no ombro de Zeca Boy e anunciou:

– Daqui pra frente é com vocês dois, bonitões!

Antes que qualquer cérebro presente processasse aquela informação, ele já havia acionado a maçaneta, aberto a porta e desaparecido na escuridão com a velocidade de um atleta olímpico fugindo de um agiota. O taxista levou alguns segundos para entender o golpe. Tempo mais que suficiente para Zeca Boy e Luiz Lobão concluírem que permanecer no veículo seria uma decisão financeiramente desaconselhável. Abriram a porta e partiram atrás de Sicy numa fuga tão sincronizada que parecia ensaio de escola de samba.

Quando o motorista finalmente percebeu que tinha sido promovido de trabalhador honesto a patrocinador involuntário do transporte carnavalesco, os três já estavam evaporados no matagal. Furioso, o sujeito desceu do carro munido de uma lanterna e um revólver. Fez uma busca rápida pela região e ainda disparou alguns tiros na direção do escuro. Mas procurar Sicy Pirangy no mato àquela altura era como tentar capturar fumaça usando uma peneira. O xexo já tinha sido aplicado com sucesso.

Minutos depois, já dentro do Clube Municipal, Zeca Boy e Luiz Lobão encontraram o mentor da operação e foram logo cobrando explicações:

– Porra, bicho! Quase que a gente leva uns tiros por tua causa!

Sicy deu de ombros, com a serenidade de um monge tibetano especializado em calotes coletivos.

– Tá bom, bonitões, mas vocês queriam que eu fizesse o quê? Eu também tô mais liso que muçum besuntado de óleo Johnson, carálio!

E os três seguiram para o baile como se nada tivesse acontecido. Porque naquela época havia duas certezas absolutas: ninguém tinha dinheiro e todo mundo tinha coragem. E porque, no fim das contas, o que se leva da vida é a vida que se leva – desde que o táxi fique para trás.

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