terça-feira, dezembro 22, 2015

A vida secreta de Louisa May Alcott (29/NOV/1832 - 06/MAR/1888)


Tal como Jo March, a heroína do seu grande romance Mulherzinhas, Louisa May Alcott era temperamental e determinada. Essas qualidades realmente incomodavam seu pai, o grande guru transcendentalista Bronson Alcott. “Ela ainda é o indisciplinado objeto dos seus próprios instintos”, ele se queixou. Na época, Louisa era um bebê de apenas um ano. Claramente, crescer naquela família não seria tarefa fácil.

Louisa continuou sendo a ovelha negra pela vida inteira. Era também quem ganhava o sustento da família – uma combinação volátil e muitas vezes tóxica. Sob todos os padrões, Bronson Alcott era um idiota útil para qualquer um que estivesse querendo disseminar um excêntrico tratamento ou iniciar uma utópica comunidade vegetariana. Era também um tanto hipócrita. Esbravejava repetidamente suas denúncias contra propriedades privada, mas aceitava doações em dinheiro e moradia livre de aluguel de seus amigos ricos.

Como consequência, a família estava sempre a um gesto de generosidade de distância do asilo de mendigos. Era aí que Louisa entrava. Ela trabalhou em vários empregos tediosos a fim de sustentar as três irmãs e seus excêntricos pais. Ela costurava, lecionava em escolas, cuidava dos filhos de outras pessoas. Mas, por dentro, ansiava por viver um tipo de vida muito diferente – e por escrever sobre ele.

Numa viagem para Boston, Alcott tentou vender alguns dos seus primeiros textos. “Atenha-se à sua função de professora”, disse-lhe o eminente editor James Fields, quando ela lhe mostrou seu manuscrito. “Você não sabe escrever”. Sem se abalar, ela continuou aperfeiçoando-se na escrita. No fim das contas, seus textos se tornaram a principal fonte de renda da família.

Ela ganhou um bom dinheiro com uma sensacional série de góticas histórias de mistério sob os pseudônimos A. M. Barnard, Aunt Weedy, Flora Fairfield, Oranthy Bluggage e Minerva Moody. Na verdade, o nome Louisa May Alcott poderia ter ficado perdido para história se o seu editor não tivesse lhe pedido, em 1868, para escrever um livro para meninas.

Só havia um problema: ela detestava crianças. “Não gosto realmente desse tipo de coisa”, ela descreveu em seu diário. “Nunca gostei de meninas nem conheci muitas, exceto as minhas irmãs; nossas brincadeiras e experiências incomuns talvez sejam interessantes, embora eu duvide disso”. Mas tarde ela descartaria sua ficção juvenil como mera “papinha moral para crianças”.

Alcott rabiscou Mulherzinha em apenas três meses. O livro se tornou um sucesso instantâneo e transformou-a em uma celebridade literária. Ainda assim, ela permaneceu solteira e misteriosamente dependente da sua família, que agora já não lutava mais contra a penúria.

Ela era também do tipo intrometida, tendo liderado a campanha para banir de Massachusetts o livro As aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain. Foi esse tipo de demagogia que incitou o historiador literário Odell Shepherd a afirmar que ela “aos cinquentas e seis anos, preservava aquele desprezo pelas ideias que é normal entre garotos e garotas aos quinze anos”.

O ativismo social de Alcott teve também um aspecto positivo. Ela foi uma pioneira na defesa da causa abolicionista, bem como na defesa do sufrágio feminino. Durante a Guerra Civil, viajou para Washington, D. C., para trabalhar como enfermeira no Union Hospital e ficou esmagada pelo peso das visões, sons e odores dos soldados feridos que voltavam da Batalha de Fredericksburg – sem falar que eram os primeiros homens nus que ela via.

Também contraiu pneumonia – talvez tivesse sido tifo – não importa; os médicos não saberiam dizer com certeza e, qualquer que fosse a enfermidade que a tivesse afligido, o tratamento teria sido o mesmo, de acordo com as insanas práticas médicas do século XIX.

Alcott foi inundada de calomelano, um composto de mercúrio que, acreditava-se, limpava o corpo de toxinas. Ela foi envenenada por mercúrio. Sua língua inchou, as gengivas ficaram inflamadas, o cabelo caiu. Sua condição era incurável e irreversível e ela lutou contra seus efeitos debilitantes durante os últimos vinte e cinco anos da sua vida. No final, sobreviveu ao seu pai excêntrico e dominador por apenas dois dias. Até o fim da vida dela continuou cuidando de tudo. Quando providenciava o funeral de Bronson Alcott, confidenciou ao seu fiel diário: “Será que algum dia encontrarei tempo para morrer?”. No dia 6 de março de 1888 ela finalmente encontrou.

Mas de um século depois, a vida e a obra de Louisa May Alcoott continuam atraindo o interesse dos acadêmicos. No entanto, fazer com que as pessoas a encarem como algo além de uma talentosa escritora para crianças tem sido bastante difícil. No final dos anos 1980, dois professores que pesquisavam um livro de Alcott encontraram o manuscrito do seu primeiro romance não publicado na biblioteca da Universidade de Harvard. O manuscrito, cujo valor foi estimado em um milhão de dólares, estivera guardado na estante, intocado e juntando poeira por quase 150 anos.


Eia!

Alcott foi uma criança turbulenta e indisciplinada, tanto que acabou se convencendo de que havia sido um cavalo numa vida passada. Seu pai, que não acreditava em tais tolices cármicas, não achava graça nenhuma nisso.

Bolos de Frutas

Quando Alcott tinha onze anos, seu pai levou a família para morar na utópica comunidade Fruitlands em Harvard, Massachusetts. A experiência em “vida simples e pensamentos elevados” foi um desastre consumado tal que Alcott satirizou de maneira memorável em sua obra de 1873, Transcendental wild oats. Proibidos de comer carne ou de explorar animais de qualquer jeito, os Alcott subsistiram à base de pão sem fermento, mingaus e água por quase um ano.

Proibidos também de usar esterco de cavalo ou de plantar coisa em profundidade no solo para não perturbar as minhocas, os residentes descobriram que – surpresa, surpresa – todas as tentativas de se cultivarem alimentos seriam inúteis. Rapidamente foram atacados pelo frio (o uso de lã também era proibido), por desnutrição e doenças.

Pior de tudo: a comunidade “utópica” atraía todo tipo de pervertidos e lunáticos, alguns dos quais tiveram de ser expulsos à força por um Conselho de Anciãos ad hoc. O grupo durou menos de seis meses, até que a maioria dos seus integrantes – incluindo os Alcotts – simplesmente desistiram de tudo e abandonaram o barco.

Loucos por Graham

Papai Bronson não era o único Alcott com idéias malucas. Sua esposa. Abba, era seguidora do dr. Sylvester Graham, criador do graham cracker, que a convenceu da sua teoria de que o cérebro e os pulmões dos homens ficavam enfraquecidos pela perda de sêmen durante as relações sexuais. Talvez Abba estivesse apenas procurando uma desculpa para evitar o “rala-e-rola” com o marido, depois de ter enfrentado quatro partos difíceis e dolorosos.

Meus Heróis

Isso sim é que é paixão transcendental. Quando jovem, Alcott nutriu paixões tanto por Henry David Thoreau quanto por Ralph Waldo Emerson, também residentes em Concord, Massachusetts.

Seu primeiro amor foi Thoreau, o sonhador amante de espaços abertos que lhe ensinou tudo sobre pássaros e abelhas – literalmente. Thoreau era um ávido naturalista que sabia muito bem como fazer poesia sobre o canto dos pássaros e os insetos e também era conhecido por “tocar uma flauta” por Louisa, mas apenas no sentido estritamente musical.

Por Emerson, mais velho e mais encrostado, Louisa desenvolveu uma paixonite mais do tipo aluna por professor. O chamado “Platão Ianque” a presenteou com uma cópia de Goethe’s correspondence with a chid, no qual uma jovem casadoura se apaixona loucamente por um poeta idoso – seria um recado? Ao que parece, Alcott achou que sim.

Passava horas compondo apaixonadas cartas de amor para Emerson, porém nunca as enviou. Nas noites de lua cheia, ela se sentava sob a nogueira diante da janela dele e entoava canções em alemão. Às vezes deixava flores na soleira da porta da casa dele, mas Emerson, um homem casado, jamais deu mostras de ter percebido ou retribuído a gentileza. Afinal, Alcott tinha apenas seis anos a mais do que sua filha mais velha.

Ai, Poppy!

O ópio desempenhou um papel de destaque na ficção de Alcott, talvez porque o consumisse na vida real. Tudo começou quando seu médico lhe prescreveu o láudano, um remédio à base de ópio muito popular durante todo o século XIX. Ela o usava para ajudar a dormir durante a sua longa batalha contra os efeitos do envenenamento por mercúrio.
Não demorou muito para que Alcott estivesse totalmente viciada. Muitos dos personagens das suas obras de mistério são consumidores de ópio, bem como a heroína jogadora e viciada em drogas do seu romance autobiográfico de 1872, Work: a story of experience.

Mascate obsceno

Histórias integrais para crianças podem ter pago as contas, mas, lá no fundo, Alcott preferia escrever coisas mais “quentes” e vendáveis. Sempre que desejava realmente se soltar ela adotava o pseudônimo A.M. Barnard e criava longas histórias de suspenses e intrigas, conhecidas como “contos de sangue e trovão” no linguajar da época. Tais livros, que ostentavam títulos lúbricos como A whiser in the dark e Pauline’s passion and punishment, foram serializados em periódicos sensacionalistas, incluindo Frank Leslie’s chimmey corner.

Suas protagonistas faziam coisas que eram decididamente “indignas de uma dama” pelos padrões vitorianos, como consumir ópio e fumar haxixe. Um dos romances começa com a heroína proclamando: “De bom grado eu venderia minha alma a Satã por um ano de liberdade!” Dificilmente alguém imaginaria Jo March, de Mulherzinha, fazendo uma declaração como essa.

“Haxixando”

Louisa May Alcott chegou ao vício em ópio de maneira honesta – ela ingeria droga por motivos de saúde. Seus personagens de ficção, por outro lado, não tinha a mesma culpa. Em seu conto de 1869, Perilous play, um grupo de jovens e entediadas socialites se empanturra de bombons de haxixe. E em seu romance A modern mephistopheles, de 1877, o vilão Jasper Hewyze seduz uma jovem e inocente esposa com seu “sonífero” patenteado – um confeito à base de ópio que ele retira de um estojo de prata e casca de tartaruga. Em pouco tempo a desventurada mulher está “deslizando rapidamente ao estágio de inconsciência do sonho provocado pelo haxixe, cuja chegada ninguém pode prever, exceto aqueles acostumados a seu uso”, como Louisa May Alcott, por exemplo.

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