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sexta-feira, agosto 04, 2017

ABC do Fausto Wolff (Parte 34)


ILEGÍTIMOS (filhos) – Em verdade poderia estar na letra B de bastardo, mas quando lembrei-me dele já estava na letra “I”. O filho ilegítimo é aquele produzido fora do casamento, também conhecido pelos mais grossos (e verdadeiros filhos da puta) como filhos das putas. 
Hoje em dia qualquer garotinha que decida ter um filho não pensa duas vezes: faz e carrega pra casa dos pais que, moderninhos, tomam conta do garoto enquanto a menina, muitas vezes continua badalando por aí. 
Assim como na época do progresso “o revólver teve ingresso pra acabar com a valentia”, o ingresso da pílula anticoncepcional serviu pra provar que muita garota não prezava tanto assim a virgindade e nem muita senhora casada prezava tanto assim a testa do marido. Nos países escandinavos, porém, atitude liberal e progressista em relação ao sexo vem de muito antes da pílula.
Lembro que eu não tinha ainda trinta anos e uma colega (professora) da Universidade de Copenhague me convidou a passar a noite com ela. Fui e, ao chegarmos à sua casa, ela pediu que eu não fizesse barulho para não acordar os pais e os irmãos menores.
Na manhã seguinte a mãe nos despertou e fui apresentado à família na mesa do café, tudo muito natural.
Depois me habituei com a mentalidade e até achei estranho que um arquiteto, amigo meu, me dissesse: “Minha filha tem dezoito anos e está trepando com o namorado. Até aí tudo bem, mas na minha casa, não! Disse isso a ela e ela me chamou de troglodita reacionário”. “E o que é que você fez?” “Informei que ela estava invadindo a minha privacidade. Afinal de contas, a casa é minha, eu pago as contas, dou-lhe uma mesada e não me parece justo que, ao acordar, tenha que dar de cara com um namorado dela que pode ser hoje um e outro amanhã. Ela entendeu, mas a verdade mesmo é que no fundo ia ser muito duro saber que minha filhinha estava sendo comida por um merda qualquer no quarto ao lado do meu.”
Mas, apesar do arquiteto, a Escandinávia sempre foi conhecida por ser tolerante em relação às relações sexuais pré-maritais. O preço: na Suécia, por exemplo, de cada seis crianças, uma é bastarda. No Brasil, também, mas aqui, como se sabe, o povo não entra nas estatísticas.

IMPOTÊNCIA – Negócio chato este. Eu, quase, pulo por cima deste verbete, mas como já havia pulado pelo verbete da broxura (*), resolvi enfrentar o drama. A palavra “drama” vem do grego e quer dizer ação. No caso específico da broxura ou impotência, o que causa o drama é a falta de ação. Mas vamos falar logo deste assunto desagradável esperando não ter que sofrê-lo muito na vida real.
A impotência é a prova definitiva de que Deus caprichou mais na mulher do que no homem. Enquanto o homem tem que provar, através da ereção contínua até a hora da ejaculação, que realmente deseja sua companheira, ela pode se limitar a abrir as pernas, suspirar um pouco mais alto e tudo bem, pois é muito difícil, a não ser em casos anatômicos excepcionais, verificar a ereção clitorídea (clitoriana? clitoriense?).
Com a exceção de alguns colunistas sociais, qualquer débil mental sabe que a impotência é a incapacidade masculina de manter relações sexuais, embora o impotente eventualmente possa bater punheta. O que tem de gente chutando a este respeito faria inveja ao ministro Bresser Pereira.
A verdade mesmo é que, cedo ou tarde, todo mundo dá a sua broxada, principalmente depois de derrubar duas garrafas de uísque ou fumar um chaminé da chamada erva maldita ou cheirar aquele pozinho que custa 10 dólares a grama.
Tem nego, porém, que nunca conseguiu manter uma ereção.
Um taradão americano chamado Kinsey descobriu em suas pesquisas que 0,4% da população masculina americana já não levantava aos 25 anos; 6,7% aos 55 anos e 25% aos 65. A maioria tira o time depois dos 75 anos.
Eu disse maioria e não grande maioria e nem todos.
De qualquer forma, os filhos de Picasso e de Chaplin estão aí mesmo para provar que tem muito velhinho que dá uma sem tirar de dentro com a maior facilidade.
Master e Johnson (ver verbete), um casal que ficou milionário ouvindo histórias de sacanagem, trataram trinta e dois casos de impotência primária (freguês que nunca deu sequer uma levantadinha pra ver o que havia por trás do muro) e 213 casos de impotência secundária, ou seja, sujeitos que demonstraram interesse pelo menos uma vez. Problema de cuca.
O cérebro manda a ordem, há o desejo, mas o palhação do andar de baixo não obedece e insiste em manter uma timidez que faria inveja a qualquer ninfa neoclássica.
Há, é claro, o caso dos mastruços que se mostram indiferentes às mulheres peladas porque só se assanham à vista de outros mastruços. Esses, porém, são viados e não broxas.
Mas passemos a algumas das causas mais corriqueiras da impotência:
1) experiência traumátíca com prostituta. É o caso do pai imbecil que leva o filho prum puteiro porque se considera moderninho, sem saber que está fabricando um belo Antônio;
2) brincar de ficar invisível atrás da moita com um amiguinho durante a adolescência;
3) educação hipócrita e puritana da mãe burra (e do pai indiferente), que durante anos ensina ao filho que sexo é sujeira. Na hora em que o garoto se apaixona por uma namorada, o brucutu do andar inferior se nega a “fazer aquela 'porcaria' com ela”;
4) psicanalista babaca ou grosso ou as duas coisas (eita profissãozinha que se omitiu completamente de qualquer engajamento político durante a redentora brasileira), que informa ao paciente que ele broxou por ser um homossexual latente.
Tem ainda muito médico cretino que diagnostica impotência num sujeito de quarenta e cinco anos sem investigar as causas.
O problema central é o medo do homem de falhar e o que o médico (que é também um humanista) deve fazer é remover as causas dessa ansiedade.
Num tratamento de duas semanas com casais, Master e Johnson conseguiram sucesso cm 59 % dos casos de impotência primária e 73% em casos de impotência secundária.
Eu, pessoalmente, quando acontece comigo, dou uma gargalhada e procuro esquecer o assunto, ou seja, esculhambo a broxura.
Alguns minutos depois, meu pau, envergonhado, está pronto para entrar em ação. Ou isso ou esperar pela tesão de mijo matinal.
(*) Aparentemente não há grandes diferenças entre o broxa com “x” e o brocha com “ch”, exceto o fato do último também servir para pintar paredes. Já a brochura, quando com “ch”, ela é o contrário de encadernação. Quanto à impotência, ela vem do latim impotentia, ou seja, ausência de poder.

Finalmente, cuidado com os charlatães. Nego acha que está broxa e corre pro primeiro vigarista. Está assim de vagabundo enriquecendo às custas dos BB (Broxas Burros), como o famoso Dr. John Brinldey, que punha anúncios nos jornais por onde passava: “Você é um homem macho e cheio de vigor?...”

Quem achava que não era, mediante 25 dólares recebia uma injeção de água colorida. O sacana ganhou mais de 12 milhões de dólares em vinte anos e não foi preso porque muitos broxas ficavam curados depois de receber a injeção de água. O que é a cuca, né? Esses não acreditavam no próprio pau, mas acreditavam na água do doutor.

INCESTO – Prática muito comum nas favelas do Brasil inteiro e entre o high society. Já na infeliz classe média... Trata-se da relação sexual entre parentes próximos: um homem e sua neta, filha, irmã, mãe ou avó ou uma mulher e seu neto, filho, irmã, pai ou avô. 
Embora pouca gente seja condenada por incesto (e a vergonha de dizer “mamãe me comeu”?), a maioria dos assistentes sociais acredita que a incidência é bem maior do que dizem as estatísticas.
Há alguns anos, em Chicago, descobriram que de setenta meninas delinquentes trinta e duas havia tido relações sexuais com o papai.
Vocês têm dúvida de que se alguém se der ao trabalho de fazer essa pesquisa no Rio de Janeiro descobrirá um número maior?
O famoso Dr. Kinsey (que já foi apresentado a quem está lendo este livro como ele deve ser lido – do começo ao fim – e não como um dicionário, apenas para consultas) descobriu que 16% dos casos de iniciação sexual em jovens pré-adolescentes foram provocados pelo titio.
Eu estou aqui brincando, mas o negócio é sério.
Atenção, portanto, senhoras e senhores chegados a um incesto: o Instituto de Saúde Infantil, de Londres, examinou treze crianças nascidas de relações incestuosas e descobriu que apenas cinco eram física e mentalmente normais.
Mas o incesto tem quem o defenda. Em 1967, um membro do Parlamento sueco apresentou uma lei permitindo o casamento entre irmãos.
Segundo ele, de pois da pílula, desde que eles não fizessem filhos, podiam casar e trepar à vontade.
Não passou. Não se quebra um dos maiores tabus da humanidade (Lot e suas filhas; Jocasta e Édipo) com uma penada, pois virtualmente todas as civilizações sempre se protegeram com leis contra o incesto, com exceções ocasionais para as famílias reais.
Viram a cara de cavalo tuberculoso do príncipe Charles? Muitos casamentos na mesma família.
O faraó Ramsés II (é a cara do pianista Artur Rubinstein , não é mesmo?) teve cinquenta filhas e casou com uma porção delas. Os mais inteligentezinhos já compreenderam o porquê do incesto real, não é mesmo? Manter a coroa (e a grana) em casa, bicho!
Há, porém, algumas tribos na Africa entre as quais a prática do papai-filhinha e do mamãe-filhinho não tem nada a ver com poder e dinheiro mas com prazer e experiência.
O pai, antes de entregar a filha ao pretendente, ensina lhe na prática tudo o que sabe e a mãe faz o mesmo com o filho antes de entregá-lo à nora. “Afinal, tivemos tanto trabalho para criar as crianças que merecemos uma compensação.”
E, subitamente, alguém inventou a pílula e – podem crer – a moda do incesto ganhou novo alento. Tanto que se Jocasta tivesse comido Édipo hoje em dia não teria filhos e os nossos Sófocles escreveriam, no máximo, um draminha para a telenovela das oito em vez da maior tragédia do Ocidente.
Leram até aqui? Vocês acreditam que, originalmente, este verbete foi publicado no Pasquim em 1980, muito antes de Dias Gomes escrever a sua novela em cima do Édipo, de Sófocles? E na novela o casal XX não tem filhos.
Em Roma, embora houvesse leis condenando os incestuosos à morte, a coisa não valia para a classe dominante: Calígula cansou de comer a irmã Agripina que, posteriormente, como esposa de Cláudio, trepou com seu filho Nero. Gostava, o que se podia fazer?

ABC do Fausto Wolff (Parte 35)


ÍNCUBO E SÚCUBO – São que nem tique-taque, ziguezague, pingue-pongue, não dá pra falar de um sem falar do outro. Há quem diga que eles não existem, mas o que tem de nego em terreno de macumba que parece estar sendo enrabado pelo diabo, não é brincadeira.

Negócio é o seguinte: o íncubo, que quer dizer literalmente “pesadelo” em italiano (embora isto não tenha nada a ver com as calças deste verbete), é um diabo que mantém relações sexuais com mulheres. Diz a lenda que o mago Merlin (lembram do filme Excalibur?) era filho de um íncubo.

Já o súcubo (devia chamar-se súcuba, pois é uma diaba) gosta de trepar com homens. Daí a mulher incubar e o homem sucumbir. Eu, entre um casamento e outro, vivo sucumbindo. Sério: não precisa me cantar muito pra eu sucumbir. Mas vamos voltar ao que interessa e por isso vou fazer até um parágrafo.
Os verdadeiros criadores dos súcubos e dos íncubos foram os cristãos da Idade Média que reprimiam o sexo.
Não sei quem inventou que Jesus Cristo alguma vez foi contra o ato de fazer amor. Pessoalmente, até desconfio que ele traçou a Madalena.
Aliás, não foi ele quem defendeu a adúltera contra os atiradores de pedras que, como a turma do Monty Python nos mostrou no filme A Vida de Brian, era composta de mulheres usando barbas postiças? Nada mais sujo que a cabecinha de um puritano!
No período pré-renascentista, os sacanas dos íncubos infestavam os conventos. Era só alguém abrir uma frestinha que entravam íncubos de todos os tamanhos, marcas, tipos e jeitos.
Gostavam muito de freiras e também de virgens e viúvas. As virgens, então, viviam se queixando: “Eu estava distraída na cama quando um incubo me comeu”.
É lógico que os médicos mais esclarecidos (havia alguns, podeis crer) viam nesses íncubos e súcubos nada mais que a realização histérica de fantasias sexuais.
Até uns duzentos anos atrás, porém, a Igreja garantia que se tratava de diabos com a aparência humana.
Lembram daquelas freirinhas do convento de Loudun lideradas por madre Joana dos Anjos sobre as quais Aldous Huxley escreveu tão bem? Todas possuídas por íncubos!
Se sexo não é a mola que move a humanidade, pra que grana, pra que poder, pra que sucesso?
Tinha, é lógico, muita mulherinha da pá virada (deve fazer uns vinte anos que eu não escrevo “pá virada” e vai levar outros vinte para eu escrever “pá virada” e nesta brincadeira já escrevi “pá virada” quatro vezes) que fantasiava o vizinho de íncubo e fazia tudo o que o diabo gosta, enquanto os chifres do marido cresciam.
A maioria, porém, acreditava que estava possuída pelo demônio.
R. Scott, um médico do século XVI, deixou escrita a sua opinião de que íncubos e súcubos não passam de males do corpo que causam problemas à mente. Foi chamado de burro pelos intelectuais da época e gozado pra cacete.
Enquanto isso as mulheres histéricas, que diziam ter sido possuídas por íncubos, apresentavam sintomas de falsa gravidez. A barriga realmente inchava e ao fim de nove meses ela dava à luz ar em profusão.
Vocês me desculpem, mas tem uma súcuba aqui do meu lado que, por acaso, é minha mulher e eu pretendo sucumbir à ela. Boas sucumbidas e boas incubadas, aliás, é o que desejo a todos vocês.

INSEMINAÇÃO (e Inovolução) Artificial Não vai doer nada. Primeiro vou inseminá-la e depois inovulá-la. É quase como brincar de papai-mamãe. Aparentemente, a inseminação é apenas a introdução do esperma na vagina da mulher por qualquer outro meio que não a ejaculação propriamente dita. Mas apenas aparentemente. 
Na Umbria (Itália), mais de dez anos atrás, vi como inseminam as vacas. As coitadas ficam em fila, rabo para cima. Chega o veterinário e enfia todo o braço envolto em plástico dentro das clarabelas. Depositam o esperma direitinho nos ovários. O esperma, não só de touros como de cavalos e cães puro sangue é vendido – principalmente quando o exemplar é campeão de exposição – a preço altíssimo. Em Minas Gerais tem um cidadão que vive de porra de boi que exporta para o mundo todo.
A inseminação artificial serve também para engravidar mulheres cujos maridos são estéreis e mais: para engravidar mães de aluguel com esperma de um homem cuja mulher não pode ter filhos.
Tudo começou em 1972, quando um casal londrino que não podia ter filhos procurou o Dr. John Hunter. Ele verificou que por causa de um problema na uretra o marido não conseguia ejacular dentro da mulher.
Não teve dúvidas: mandou ele bater uma punheta, botou o esperma ainda quente numa seringa e o injetou na parte posterior da vagina da mulher. Sucesso absoluto. Nove meses depois, nascia a primeira criança produzida por inseminação artificial.
Outro dia, ao dar uma palestra para uma turma de jornalistas, parodiei Jefferson e disse que entre um país sem governo e um país sem jornais, eu preferia um país sem governo.
Infelizmente, em termos de Brasil, deram-me mais do que pedi: um país sem governo e sem jornais.
O jornalismo deveria informar o povo o que faz o governo e não o contrário.
Exatamente por isso a população vive na maior ignorância no que diz respeito à física nuclear. Só soubemos da existência do césio depois dele ter matado um bocado de gente.
No que diz respeito à engenharia genética, a nossa ignorância ainda é maior, pois o progresso científico envolve fatores éticos, morais, religiosos, econômicos e, como sempre, políticos.
Um aspecto positivo: uma senhora casada com quarenta anos espera um filho. Ela tem uma chance em sessenta de que a criança nasça com a síndrome de Down, ou seja, com defeitos internos, retardamento mental e uma morte prematura.
Se tivesse vinte e cinco anos, a chance da criança nascer com a doença seria de uma em 1.500.
A gigantesca maioria, que é pobre, enfrenta os riscos no escuro, mas esta senhora de que estamos falando vai a um médico especialista quando está no quarto mês de gravidez.
Ele tira uma prova do fluido amniótico do seu útero e em seguida conta os cromossomos. Se tiver um extra, a criança nascerá com a síndrome de Down.
O casal pode optar pelo aborto. E a síndrome de Down é apenas uma das mais de 1.800 doenças congênitas capazes de produzir até mesmo monstros sem cérebro.
Se o médico constata que o marido carrega um gene perigoso, o casal pode optar pela inseminação artificial.
Geralmente, nesses casos o doador é um estudante de medicina que ganha uma graninha para bater punhetas e dar ao hospital esperma sem defeitos.
Discretamente, o médico que trata da mulher que quer ter um filho através da inseminação, procura um doador saudável que se pareça com o marido dela.
Eu pergunto: e se ela escolhesse – porque essas mulheres de um modo geral têm dinheiro – numa sala, entre vinte doadores, o esperma de um determinado cidadão, não estaria implícito o adultério?
Há menos de oito anos uma clínica especializada na Noruega fez uma pesquisa, com trezentas mulheres que queriam ser inseminadas, sobre quais qualidades preferiam que tivesse o doador do sêmen.
Duzentas e trinta queriam que ele fosse inteligente, física e mentalmente saudável e reconhecidamente honesto.
Setenta queriam que eles fossem parecidos com os respectivos maridos.
Se não houver uma legislação muito séria sobre este assunto, podemos muito bem cair (se é que já não caímos sem saber) no fascismo genético.
Por exemplo: um cavalo campeão de corridas, com seu esperma, pode engravidar num ano 10 mil éguas. E se começarem a vender esperma de prêmios Nobel, campeões de atletismo, artistas de cinema? Teríamos, de repente, milhões de Paul Newmans, Milton Friedmans, Pelés e Alexander Flemmings e – é preciso contar, principalmente, com as imbecis – Silvester Stallones e Josés Sarneys? E o homem comum, o operário comum, se tornaria ainda mais parte de uma raça inferior à parte? E quando irmãos começassem a trepar entre si?
E o que é que vocês pensam da inovulação artificial?
É o seguinte: mulheres com bloqueio nas trompas não podem engravidar. Entretanto, a medicina genética, há mais de dez anos estimula os ovários da mulher com hormônios. Depois disso, remove os óvulos, que são fertilizados em laboratório com o esperma do marido.
Os óvulos crescem numa solução morna, rica e nutritiva durante oito dias. Em seguida os médicos escolhem um óvulo que se transformará numa criança e os demais são jogados na lata de lixo.
O óvulo escolhido, já embrião, é colocado no útero da mulher e nove meses depois nascerá uma criança, filha de alguém que em princípio não poderia ter filhos. Ao escolher qual dos óvulos vingará, os médicos não estão brincando de Deus?
A complexidade, porém não pára aí.
Uma vez fertilizado, o óvulo pode ser depositado em qualquer útero. Quem garante que já não existem mulheres ricas e comodistas que preferem ter os óvulos fertilizados fora do útero e depois colocalos no útero de uma mulher que ganharia dinheiro para carregar o filho alheio?
Isso já acontece com animais. Os veterinários retiram, por exemplo, os óvulos de uma vaca (algumas dezenas) que são fertilizados pelo esperma de um touro campeão. Um óvulo é recolocado na vaca original e os demais em outras.
Se elas estão longe, o óvulo viaja agarrado no útero de uma coelha e, posteriormente, é transferido para a vaca.
Com bichos, tudo bem, mas numa luta judicial para a posse de uma criança de quem é o filho? Da dona do óvulo ou da que carregou a criança por meses? Isso para não falar do bebê de proveta, que cresce fora do útero.
Quem sabe dentro de algum tempo poderemos ter um feto num vaso, como decoração, em nossa sala de visitas? Ficamos todos batendo papo vendo-o crescer lentamente.
Levando-se em conta a ignorância irresponsável dos políticos que dominam o mundo neste fim de século, pensem o que cientistas loucos, físicos e biólogos com mania de grandeza podem fazer! Bum!

ISHERWOOD, Christopher (1904-1987) – Eu poderia escrever um verbete sobre Somerset Maugham (O Fio da Navalha), ou Edward Morgan Forster (Passagem Para a Índia), ou qualquer grande escritor menor inglês nascido no fim do século passado ou princípios deste que fosse bem-comportado e tia velha como Isherwood. Acontece que a letra “I” está muito pobre de personagens. Sobrou pra ele, portanto.
Garoto da alta classe média, ele descobriu sua preferência aos doze anos, quando gozou ao lutar com um coleguinha. Na mesma escola, aliás, estudava o excelente poeta Hugh Wystan Auden, três anos mais moço, também viadinho e que chegou a ser seu amante por muitos anos.
Isherwood, que gostava de ver seu pai – que morreu durante a Primeira Guerra Mundial – fazer ginástica meio pelado no quarto, só conseguiu convencer sua mãe de que era chegado a um trolho quando tinha quase cinquenta anos. Ele, Maugham, Forster e muitos escritores britânicos eram enrustidíssimos.
Quem ler seus livros com atenção verá, porém, que tanto o professor de Forster de Passagem Para a Índia, como o escritor de Maugham de Fio da Navalha e o jovem professo de The Berlin Stories, de Isherwood, são completamente assexuados. Aliás, isso fica mais ou menos claro pelo menos na transposição de Passagem Para a Índia e The Berlin Stories (Cabaré), para o cinema.
Depois de passar alguns anos dando muito nos bares gay de Berlim pra Hitler, Isherwood entrou para o partido comunista, mais porque era moda que por ideologia.
Mudou para os Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial, mas só aos sessenta e cinco anos confessou publicamente seu homossexualismo.
Eis um trecho de uma entrevista que deu para o Gay Sunshine (O Raiar do Sol Bichal), de São Francisco:

“Apaixonei me quando ainda adolescente, mas nunca fiz nada a respeito. Só na universidade tive um affair deveras físico. Não tinha qualquer dúvida sobre minha homossexualidade. Era como uma escolha que minha mente e meu corpo tinham feito em caráter definitivo. Estava pronto a admitir que poderia ser igualmente heterossexual se quisesse. Cheguei a fazer uns dois testes. Tudo funcionou direitinho, mas eu preferia garotos e já sabia que podia amá-los. Sempre fui perfeitamente feliz como sou. Se minha mãe é responsável por isso, sou-lhe grato... Foi em Berlim que conheci André Gide (autor de Os Moedeiros Falsos, prêmio Nobel). O francês também gostava de meninos. No bar que frequentávamos, na ausência de alguém suficientemente jovem para ele, arranjaram-lhe um rapazinho que tinha de fato vinte anos mas que aparentava ter quinze. Não houve reclamações”.
Até sua morte não houve uma bichinha bem-comportada que não o adorasse, quer nos Estados Unidos, quer na Inglaterra.
Apesar de andar sempre com viados (“Sinto-me asfixiado quando estou longe de minhas irmãs e irmãos”), apesar de nunca ter tido uma namorada, apesar de desmunhecar pacas e apesar dos personagens centrais dos seus livros serem sempre indefinidos, Isherwood ficou muito surpreso ao saber que sua confissão de profissão de fé homossexual não apanhou ninguém de surpresa.

Morre aos 66 anos Luiz Melodia


Por Mauro Ferreira

O cantor, compositor e músico carioca Luiz Carlos dos Santos, o Luiz Melodia, morreu na cidade natal do Rio de Janeiro (RJ), aos 66 anos, em decorrência de complicações de um câncer que atacou a medula óssea.

Melodia morreu na madrugada de hoje, 4 de agosto, por volta das cinco horas da manhã.

A informação foi confirmada ao colunista musical do G1 por Renato Piau, guitarrista que tocou com Melodia, após ligação para a família do artista.

Melodia chegou a fazer um transplante de medula óssea e resistiu ao procedimento, mas não vinha respondendo bem à quimioterapia.

O câncer voltou e o estado de saúde de Melodia se agravou bastante ontem.

O artista estava internado no hospital Quinta D'Or.

quinta-feira, agosto 03, 2017

ABC do Fausto Wolff (Parte 26)


FUDER – Finalmente! Calma, revisor, que é fuder mesmo! Não é foder, não! Sei que convencionou-se esta última forma, mas eu acho muito chato fuder com “u” falando e foder com “o” escrevendo. Aliás, no meu primeiro romance, as provas tipográficas voltaram para mim duas vezes, pois eu insistia em escrever o verbo com “u” e o revisor o devolvia com “o”. Ora, cada um deve fuder da maneira que melhor entende e sabe.
Creio que a raiz é latina. Não posso garantir, pois os dicionaristas que tenho ao meu lado simplesmente ignoram o verbo quer com “u” quer com “o”.
Acho que em termos de literatura brasileira não-clandestina fui o primeiro a utilizá-lo em 1962 em O Acrobata Pede Desculpas e Cai e acho que é aqui neste verbete que ele faz sua estreia em dicionário.
No ABC do Fausto Wolff que publiquei durante anos no Pasquim, a primeira vez em que escrevi fuder com “u”, o famoso cartunista Jaguar, que comigo editava o hebdomadário, borrou de tinta as três primeiras letras e fez um comentário no final: “Artigo censurado por Jaguar, um burguês hipócrita”. Nem burguês nem hipócrita. Na época, apenas cagão.
O que quer dizer o verbo fuder todos sabem. Seu equivalente inglês, to fuck, provavelmente deriva do alemão ficken (copular).
A hipocrisia burguesa é um troço tão violento que creio que to fuck nunca foi usado em literatura não-clandestina até a publicação de O Amante de Lady Chatterley, de David Herbert Lawrence, seguido de Ulisses, de James Joyce, e O Trópico de Câncer, de Henry Miller.
O primeiro e o último podem ser lidos por quem quer. O segundo hoje pode ser lido por quem pode. Apenas nas últimas duas décadas é que o verbo vem sendo publicado na matriz sem que o editor leve um processo pela proa.
O lapso mais famoso em relação ao verbo ocorreu no London Times, de janeiro de 1882, onde um gráfico gozador, depois de reproduzir um soporífero discurso de um membro do Parlamento, concluiu desta maneira: “Ao final, o orador declarou-se inclinado a dar uma fodinha”. Foi despedido, mas entrou para a História.
Nos Estados Unidos, Norman Mailer manteve a autenticidade dos diálogos entre os personagens-soldados do seu livro de estreia, Os Nus e os Mortos, cujo tema era a campanha americana no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial. Mas usou to fug e fugging em lugar de to fuck e fucking.
A atriz Talulah Bankhead, a língua mais ferina do teatro e do cinema americanos, que andou dizendo que “Katherine Hepburn é o pai de Audrey Hepburn”, ao ser apresentada a Mailer, foi logo chutando em gol: “Ah, você é o rapaz que não sabe como se escreve fuder?”
Muito bem, meus chapinhas e minhas chapinhas, vocês leram até aqui e não enlouqueceram, não sentiram súbitas ânsias homicidas e nem estão pensando em assaltar um banco, não é verdade?
Pois é: fuder, além de inofensivo é salutar (desde que com a mulherinha certa e de preferência com aquela que amamos), e caso nossos pais não houvessem fudido nem eu estaria escrevendo e nem vocês estariam lendo.
É phoda, que é como se escrevia foda no tempo em que alguns senadores-constituintes de direita phodiam!

GAY, John (1685-1732) – Dramaturgo inglês, autor da Ópera dos Mendigos, na qual Bertold Brecht inspirou-se para escrever a sua Ópera dos Três Vinténs.

GAY – Americanismo. Vários adjetivos, tais como excitado, feliz, alegre, exibido, brilhante, colorido, sociável, agradável, licencioso, etc. que acabaram por transformar-se em vários substantivos, todos sinônimos de homossexual, ou seja, pederasta, sodomita, baitola, perobo, mágico, escondedor, fresco, puto, xibungo, fruta, qualira, frango e assim por diante.
O poder colonialista americano é tão grande que hoje gay virou uma palavra internacional como hotel, táxi ou champanhe.

ABC do Fausto Wolff (Parte 27)


GENITAIS – Quem disse “são os órgãos reprodutores” acertou. Especialmente os que ficam de fora. Nos homens mais pendurados que nas mulheres, cuja decoração é interna. Na fachada apenas os pentelhos que, geralmente, escondem o clitóris. No caso masculino, os genitais são os testículos, ovos, bagos, culhões, que ficam se movendo dentro do escroto.
Ao contrário da classe dominante brasileira, que possui centenas de milhares de escrotos, cada homem possui apenas um escroto e dentro dele dois testículos.
O outro genital masculino é o pênis, que tem representantes nos três reinos, como ferro (mineral), ganso (animal), quiabo (vegetal). Exemplos: “Fulaninha, se engraçou, levou ferro e agora está grávida”; “Rapaz, tô a periguete: há três semanas que não afogo o ganso”; “Sei não, mas o Reginaldo tem pinta de quem escorrega no quiabo”.
Os genitais femininos, apesar de serem apenas um, são mais. Às ignorantezinhas que me honram com seus olhos apresento agora a vulva.
Eu falei que os genitais, embora dois, eram mais porque a vulva se compõe do romântico monte de vênus (aquele triângulo inchadinho que, depois dos doze, treze anos, se cobre de pentelhos louros, castanhos, pretos, ruivos, lisos ou sararás, dependendo da etnia); do clitóris, labia magiora (aqueles lábios grandes parecidos com roast-beafs, ou seja, bifes grelhados, mas que em verdade são rose-lips, lábios rosados), labia minora, uretra, vagina, períneo e ânus. Este último não deve ser confundido com uma porção de anus pretos em louca revoada.
Quando eu chegar na letra “V”, de vulva, explicarei tudo aquilo que as moças têm e que lhes (nos) dá tanto prazer e elas não sabem.
Por enquanto direi apenas às minhas leitoras que se quiserem ser apresentadas às respectivas vulvas em sua totalidade, devem deitar-se em frente a um espelho de tamanho razoável com as pernas bem abertas e a cabeça levantada. Dizem, mas não provam, que na Bahia tem uma jovem que não precisa deitar e abrir as pernas para ver o clitóris. Fica de pé e olha pra baixo. No lo creo.
Muito antes de Homero narrar as sacanagens entre deuses, semideuses, mortais, aristocratas, seres humanos em geral e militares e políticos, o homem já tentava criar um paralelo entre o tamanho da manjuba e outras características físicas. Aquele negócio: nariz grande = pau grande; boca grande = xota grande. (Aproveito para esclarecer que as xotas que conheci jamais se incomodaram em serem escritas também com “ch”); clitóris grandes = muita siririca ou masturbação.
O que há de certo no ramo é o seguinte:
1) ectomorfos, ou seja, homens altos e ossudos tendem a ter palhações maiores que os endomorfos, senhores troncudos e baixinhos;
2) os americanos aterrorizavam suas mulheres e filhas, logo após a chegada dos escravos à América, com o tamanho das jebas crioulas, que seria descomunal. Cientistas que se dedicam a esta desagradável pesquisa informam que a mala negra só é maior que a caucasiana ou branca quando em posição de descanso;
3) os japoneses que me lêem, por favor, me perdoem, mas vou dedar: o deles é menor, como bem prova o herói (que acaba sem o dele) do filme O Império dos Sentidos. Em compensação, como trepa o pequeninho: no filme dá, pelo menos, umas vinte bimbadas, sem contar os ensaios feitos atrás das câmeras;
4) as vaginas tornam-se, realmente, mais largas com o exercício da maternidade;
5) o tamanho dos órgãos sexuais do homem não tem nada a ver com potência, maior ou menor prazer. Mas uma amiga minha me confidenciou ao ouvido outro dia: “Pode não ter, mas eu prefiro um visual bem visível”.

GESTAÇÃO – O período em que a fêmea carrega a criatura do momento da concepção até o parto. Pode também ser usada como metáfora: “Imaginem que o Ibrahim ficou com este livro em gestação durante trinta anos e saiu esta merda”. Mas a gestação que nos interessa é a primeira.
Na grande maioria dos mamíferos há uma definitiva relação entre o tempo de gestação e o tamanho e peso com que nascerá o rebento. A mulher carrega o feto por nove meses, a égua por onze, as camelas por doze, as girafas por quatorze, os rinocerontes por dezoito e as elefantas (eu sou chato: elefoas) por vinte e dois meses.
Surpreendentemente, o bebê da baleia azul se desenvolve no mesmo período que o bebê do golfinho: dez meses. Já um porquinho-da-índia se desenvolve plenamente em apenas uma semana. Se trepasse o tempo todo, poderia ter ninhadas a cada dezoito dias e teoricamente ter quase 100 mil filhotes em um ano.

GOETHE, Johann Wolfgang von (1749-1832) – Entra aqui por ter escrito o Fausto e, de lambuja, As Tristezas do Jovem Werther, quatorze livros científicos e outros tantos de poesia, além de peças teatrais. Foi ainda o fundador da morfologia e seu trabalho sobre botânica é anterior ao de Darwin. Considerado o Shakespeare da Alemanha, foi, sem dúvida, o homem mais brilhante do seu tempo.
Curioso: era artista, rico e não se sabe de nenhum momento em sua vida que tenha tomado uma atitude canalha. Comeu muitas mulheres ricas, pobres, aristocratas, plebeias, camponesas, urbanas – Charlotee Buff, Katchen Schõnkopf (que, literalmente, quer dizer cabeça bonita), Friederike Brion, Lili Schõneman (que quer dizer homens bonitos), Christiane Vulpius – mas sempre com a maior discrição.
Vivia o tempo todo envolvido com mais de uma, pois aparentemente uma era para adoração e a outra para fuder. Eventualmente compreendeu que podia fazer as duas coisas com a mesma mulher.
Já viúvo aos setenta e quatro anos, propôs casamento a Ultrike von Lewetzov, que ainda não tinha vinte anos. Ela não topou, embora ele garantisse que “cabelos brancos ou não, ainda posso fazer amor”.
Todas as traduções de Fausto que passaram por mim, com exceção da inglesa, de Ralph Tenner, são ilegíveis. Fiquem com este verso de Augusto de Lima:
“Ó Fausto, sonhador Quixote da Ciência/ Quando buscavas ler no livro do futuro/ nos antros da Matéria, o verbo da Existência/ mais absurdo que tu, mais sibilino e escuro/ talvez no seu jardim a mais bela das mulheres/ entre os risos azuis da natureza nua/ regasse a Margarida os brancos malmequeres/ que depois desfolhou por ti, à luz da lua”.
Só para vocês não dizerem que este verbete está bem-comportado demais: uma das muitas amantes de Goethe – Christiane Vulpius – chamava o pau dele de Herr Schönfuss, ou seja, Sr. do Pé Bonito. O motivo do apelido, o velho J. W. v. G. levou para o túmulo.
Finalmente, o verdadeiro Fausto existiu sim. 
Chamava-se Johann Faustus, um mágico, alquimista e astrólogo alemão do século XVI que, desesperado com os limites do conhecimento humano, teria vendido a alma a Mefistófeles em troca da imortalidade. 
Depois de virar peça de Marlowe, virou poema dramático de Goethe.

ABC do Fausto Wolff (Parte 28)


GOGH, Vincent van (1853-1890) – No verbete sobre Goethe pedi auxílio ao Dicionário Universal de Citações de Paulo Rónai, o grande intelectual tupi-magiar. Ele ficou aberto ao lado da máquina de escrever, quando vi de relance que, antes do Fausto, havia um verbete sobre fatalidade e quem o assinava era o meu querido amigo, o humorista Leon Eliachar, covardemente assassinado em junho de 1987 no Rio de Janeiro. Eis o que disse Leon sobre fatalidade: “Tudo aquilo que a gente prevê depois que aconteceu”.
Fiquei gelado, pois, algum tempo antes de ser assassinado a tiros a mando de um fazendeiro do interior do Paraná e cuja mulher fazia visitas costumeiras ao seu apartamento (todos sabem quem é e onde mora o mandante do crime, mas como é rico, não será preso nunca), ele almoçou comigo e Millôr Fernandes.
Na volta me deu uma carona de carro e eu, já não lembro por que, disse a ele: “Leon, se Deus aparecesse e me garantisse dez anos de vida, eu topava. E você?” Resposta dele: “Não topava não, pois quando faltassem uns seis meses para acabar o prazo, eu ia enlouquecer de desespero”. Foi morto quinze dias depois. Sentiram?
Esta história entra no verbete do maior pintor produzido pela Holanda (na minha opinião, maior mesmo que Rembrandt, Bosch e Breughel) pelo seguinte: como Leon, Vincent era carente pacas. Tudo que queria na vida era ser amado por uma mulher. Se apaixonou de tal maneira por Ursula Loyer e equivocou-se tanto em relação ao amor dela que, quando ela lhe apresentou o verdadeiro noivo, ele pirou.
Coitado, todo sábado de manhã caminhava até a casa dela. Eram mais de 45 quilômetros. E ele fazia isso apenas para vê-la de longe. Depois de dormir um pouco na estrada mesmo, voltava a pé para casa. Mais 45 quilômetros.
Um dia Ursula viu que ele a observava e entrou correndo para dentro da pensão da sua mãe. Eu me pergunto o seguinte: será que se esta idiota da Ursula soubesse que menos de cem anos depois da morte de Vincent, os seus quadros seriam vendidos por 40 milhões de dólares, ela o desprezaria da mesma maneira?
Por outro lado: será que Van Gogh seria o pintor que foi se ela o aceitasse, casasse com ele e tivesse filhos?
Um dos artistas mais infelizes do mundo, Van Gogh foi desprezado por todas as mulheres pelas quais se apaixonou.
Meio louco, cortou uma orelha e a enviou dentro de um envelope para uma prostituta pela qual se engraçara.
Nos últimos cem anos, milhares de pintores cortaram as orelhas nos cinco continentes, mas nenhum jamais voltou a pintar como ele.
Acabou dando um tiro na barriga atrás de um monte de merda no quintal de uma fazenda. Tinha trinta e sete anos.

GONORRÉIA – Chateação antiga. Imaginem que foi o médico romano Galeno que cunhou a palavra em 130. Ela não existiria não fora um microorganismo, o gonococo, gostar de se acomodar nas membranas mucosas encontráveis nas áreas genito-urinárias de homens e mulheres. Com exceção de raríssimos casos em que o gonococo vai se instalar nos olhos, a transmissão da gonorréia só é possível através de contato sexual. Isso complica as coisas principalmente para homens e mulheres casados.
Um conhecido meu apanhou uma gonorréia num puteiro quando viajava a negócios. Voltou pra casa, comeu a mulher e só no dia seguinte, quando o pau começou a pingar, foi que descobriu a lembrança que trouxera de viagem.
Por sorte sua, naquela mesma tarde sua mulher tinha que ir ao dentista. Ele passou um pouco antes por lá e já com a penicilina, dose cavalar, nas mãos, convenceu o dentista a dá-la para sua mulher.
Ele também tomou sua dose e, para evitar trepar com a mulher, o que considerava inevitável, arranjou outra viagem de uma semana.
Até hoje, e isso já aconteceu há alguns anos, ela não sabe de nada.
Outro conhecido amanheceu com o pau pingando e se separou imediatamente da mulher, pois fazia anos que só trepava com ela.
Tão ou mais comum que o resfriado em adultos, é impossível dizer quantas pessoas pegam gonorréia por ano, pois a grande maioria se automedica. Entretanto, quando não tratada, em muitos casos ela regride e acaba por si mesmo em pouco mais de um ano.
Nos homens ela é descoberta três dias após o contágio. As mulheres, porém, podem passar meses infectadas sem se darem conta. Eventualmente a infecção progride – quando as condições higiénicas são péssimas – e se transforma em gonorréia de gancho, responsável por lesões epidérmicas e até mesmo pela meningite.
Moisés descobriu a gonorréia entre os judeus e recomendou que suas vítimas fossem mortas.
Sofreram a visita de madame Gonô, entre outros: Abrahão, Tibério, Herodes, Carlos Magno, o papa Alexandre VI, Benvenuto Celini, Richelieu, Casanova (naturalmente), Van Gogh, Nietzsche, Mussolini, Hitler, Kennedy, etc.
De cada cinco homens que nasceram, se tornaram adultos e fuderam, três tiveram gonorréia certamente. Gonorréia vem do latim e quer dizer fluxo de sementes.

GOODWIFE NORMAN (?-?) – Em 1649, os vizinhos dedaram a nossa Goodwife (que quer dizer boa esposa em inglês) Norman e o xerife de Plimouth mandou dois esbirros até a casa dela. Os caras arrombaram a porta e encontraram a Goodwife beijando tudo aquilo que existia entre as pernas de Mary Hammond, de 16 anos, quase tão boa quanto ela. 
Goodwife estava vestida, mas Mary estava com a saia para cima, as pernas bem abertas e sem calcinhas, o que, também, é natural, pois elas ainda não haviam sido inventadas. 
Isto resultou no primeiro julgamento por lesbianismo na América.
As duas foram acusadas de “lude behaviour upon a bed, with divers lascivius speeches also spoken”, ou seja, de se comportarem mal sobre uma cama e ainda dizerem sacanagens. 
Aqueles troços: “Continua chupando, meu bem, que eu vou gozar!”
Goodwife foi condenada a ir para o centro da cidade durante dois meses ao meio-dia e repetir: “Nunca mais chupo buceta”. 
Estranhamente, Mary Hammond foi absolvida. 
Se fosse na cidade de Salem, as duas teriam sido queimadas. 
Tiveram realmente sorte, pois apenas quatro anos depois, na Inglaterra, uma mulher de oitenta e nove anos foi enforcada sob a acusação de... adultério.

ABC do Fausto Wolff (Parte 29)


GRAFITE – Alguns meses depois que cheguei de Porto Alegre, em 1958, garotão de 18 anos, fui trabalhar na Manchete (o que é que há? Ninguém é perfeito) e morar numa espécie de hotel que havia ao lado do Forte Copacabana, em frente à antiga TV-Rio. Disse espécie de hotel porque eu, graça a uma combinação com o espanhol dono do estabelecimento, era o único hóspede fixo, com atestado de residência e tudo.
Para os comuns mortais tratava-se de um pétél (assim mesmo, com dois acentos agudos para parecer verbo tchecoslovaco), ou motel a pé. Nego a perigo, pegava a moça, profissional ou amadora que fosse, dava a sua bimbada e se mandava. Era o único pétél em toda a zona sul da cidade.
Também era um bom negócio tanto para o espanhol quanto pra mim. Minhas vantagens: além de pagar uma micharia por mês, ele me havia dado permissão para fazer dois buracos nas portas que davam para os quartos que ladeavam o meu. As melhores mulheres o espanhol mandava para aqueles quartos.
Eu não tinha (e não gostava de) televisão. Vocês já viram, né? Às vezes o cara ia embora depois da performance. Era quando eu visitava as moças.
A vantagem do espanhol: sempre que a polícia dava uma batida, o mulherio corria para o meu quarto. Às vezes havia mais de dez mulheres, todas meio peladas, que eu, mostrando meu registro de jornalista e meu atestado de residência, dizia serem minhas convidadas.
O delegado era o Padilha, que se divertia mandando cortar o cabelo de malandro e deixando uma laranja correr pelo lado de dentro da calça do marginal. Se ela ficasse presa na boca da bainha, o cara ia em cana. O Padilha tinha um estranho senso de humor.
Como, porém, isto se passou antes de 1964,o presidente era o Juscelino, os guardas não podiam tirar as mulheres do meu quarto na marra. Fiquei muito amigo das moças até que mudei de lá para me casar em 61.
A maioria delas sabia que eu estava olhando pelo buraco do outro lado da porta enquanto elas fudiam. Gentis, insistiam em deixar a luz acesa durante toda a sessão. Uma mão lava a outra.
“O que é isto tem a ver com grafite? Está mais para voyeurismo” – dirá o leitor impaciente. E eu, calmão, vos digo: eu chego lá.
Não era moleza apanhar mulher naquela época. Ainda mais eu, que recebia uma miséria na Manchete e vivia mais duro que pau de náufrago em ilha deserta. Foi quando comecei a frequentar o La Gôndola, um bar-restaurante que existe até hoje na Sá Ferreira, entre a Avenida Copacabana e a Atlântica.
Na época, ele era frequentado pela classe teatral que, como vocês sabem, não é exatamente a classe mais masculina do mundo. Paradoxalmente, embora eu não trabalhe no ramo, o número enorme de bichas no bar era um bom negócio, pois diminuía a concorrência.
Bolei um plano diabólico para comer atrizes: pedi ao Floriano, dono do boteco, que deixasse eu escrever umas frases no banheiro das mulheres e fiz ele jurar que não diria nada a ninguém.
Munido de lápis, de tarde, quando não havia freguês no estabelecimento, eu escrevi no banheiro das moças: “O Fausto Wolff é um tesão”. Embaixo, numa caligrafia diferente: “É verdade. Grande trepada!”
Eu, rapaz desconhecido, quando dizia o meu nome para as atrizes que só o conheciam de lavabo, os olhinhos delas piscavam de pura pré-excitação. Foi assim que comecei a minha carreira teatral.
Algumas senhoras de meia-idade que ainda hoje aparecem em palcos, telas e TV devem lembrar como eram discretamente turbulentos aqueles verdes anos. Viram?, grafite puro! Mas tem mais.
O que são os grafites além do mineral que, envolto em madeira, forma o lápis e vive quebrando? São mensagens sexuais e escatológicas, geralmente deixadas nas paredes dos banheiros públicos.
Robert Reisner, em 2000 Anos de Grafite, nos informa da antiguidade do hábito ao qual as mulheres, embora menos que os homens, também são afeitas. Eis um exemplo de grafite feminino: “Êi, você aí que faz pipi com essa cara tão chateada, por que não dá um pulo no banheiro dos homens?”
No banheiro dos homens, com raras exceções, o que há mesmo é propaganda viadal. Aliás, pelas inscrições na parede, dá pra se ver quando um boteco é frequentado pelos rapazes alegres que fungam muito e não deixam ninguém mijar em paz.
Muitos escrevem as suas preferências e deixam até telefone. Outros botam lá: “O meu tem 22 centímetros. E o teu?” Este, certamente, estava a fim de bater espadas.
Os donos de botecos detestam grafites a ponto de pintarem a parede de dois em dois meses. Quando Manoel Capão, o dono do Veloso, mandou pintar o banheiro, no dia seguinte apareceu na parede: “Manoel Capão odeia literatura”.
Os grafites mais conhecidos do Brasil são de autoria de poetas desconhecidos. Eis o primeiro: “Neste lugar solitário/ onde toda vaidade se acaba/ todo covarde faz força/ todo valente se caga”. O segundo: “Merda não é tinta/ Dedo não é pincel/ Quem quiser cagar aqui/ É favor trazer papel”.
Mas o grafite mais poético foi descoberto por Ferdy Carneiro e o falecido Darwin Brandão num boteco na Penha, perto da fábrica de sutiãs De Millus: “Desconfio que o Toninho Bíblia é Veado”. Que tal?

GRAHAM, Silvester (1794-1851) – Autor do livro mais engraçado já escrito sobre sexo até o dia em que este meu estiver nas livrarias. Eis o título: Palestra Para Jovens em Estado de Castidade e Dirigida Também à Atenção de Pais e Tutores.
Segundo ele, casais que trepassem demais estavam sujeitos a aumento de peso, depressão, debilidade geral, fraqueza muscular, perda de apetite, indigestão, desmaios, ânsias de vómito, inflamação da pele, tosse, má circulação do sangue, melancolia, dores de cabeça, hipocondria (?), histerismo, cegueira parcial, doenças pulmonares, tosse nervosa, desordens no fígado e nos intestinos, dificuldades para mijar, dor na coluna vertebral, debilidade mental, perda de memória, epilepsia, apoplexia, abortos, mórbidas disposições, morte prematura e, por último, mas nem por isso menos importante, caganeira.
Temendo que tudo isso não fosse suficiente para evitar que os casais fudessem, ele ainda preveniu: “Cada ejaculada diminui consideravelmente a expectativa de vida”.
O pessoal não se impressionou.

GRILO – Não fiquem grilados porque é grilo mesmo. Esses bichinhos quando querem fuder são capazes de produzir canções complexas e com intenções sofisticadas e específicas. A coisa é mais ou menos assim: sentiu vontade de dar uma fodinha, o macho roça as pernas de trás contra as asas. Produz com isso uma série de notas, faz uma pausa e volta a produzir mais notas com pequenas variantes, seguidas de outra pausa.
Uma grila que está a fim responde num tom mais suave. Em seguida macho e fêmea produzem sons alternados.
A canção do macho, mais uma vez levemente modificada, segundo os especialistas, quer dizer agora: “Então está a fim? Olha que eu vou te comer!”
As pesquisas de Perdeck demonstraram que as canções dos grilos são sexualmente estimulantes para ambos sexos.
Tanto isto é verdade que se o grilo-cantor para o qual ela respondeu não aparecer logo, a grila parte pra cima do primeiro que estiver quietinho no seu canto, mesmo que ele não seja da mesma espécie.
Quando alguém chegar perto de sua mulher e perguntar “Qual é o grilo?”, responda depressa: “O grilo sou eu”.

ABC do Fausto Wolff (Parte 30)


GROUPIE ou Tiete – Como é mais conhecida nos trópicos. Maluquetes entre onze e vinte e cinco anos, geralmente. Eu disse geralmente porque tem também muita velha debilóide. O negócio das groupies, pelo menos nos tempos que andei pela Inglaterra, era dar pra cantor de rock, artista de cinema e jogador de futebol.
Em 1974 estive numa festa onde também estava o Mick Jagger. O mulherio quase arrancou o peru do cara.
Frank Zappa, que foi o líder do conjunto Mothers of Invention, disse para a revista Rolling Stone que suas groupies tinham entre doze e quatorze anos. E mais: “Um dia gravei uma doidinha dessas em delírio dizendo que ia esfaquear a minha mulher para poder ficar comigo”.
Certas groupies mantêm cadernos de anotações sobre o seu ídolo, como tamanho do pau, comprimento do cabelo, cheiro do corpo, número de ejaculações, droga preferida, etc.

Countryjoe, que fez a trilha sonora do filme dinamarquês Quite Days in Clichy, baseado no livro de Henry Miller, me disse: “Essas garotas são incríveis. Se você tirar o pau pra fora e pedir para chupar, as outras fazem fila”.
No Brasil vocês viram mães idiotas levarem as filhas para mostrar os peitinhos para esse grupo de viadinhos chamado Menudos.
Não percebem que quando transformam suas meninas em adultas antes do tempo, estão fazendo o jogo da sociedade de consumo.
Sociedade que quer que garotas que deveriam estar brincando com bonecos comecem logo a comprar cosméticos, saias, sapatos, camisetas e vestidos caros.
A maioria é pobre, não tem pai pra pagar esses luxos. Daí a encontrar um pedófilo (tarado que se amarra em criança) qualquer e partir para a prostituição é um pulo.
Na Europa e nos Estados Unidos as garotas vítimas dessa doença viajam por vários países e estados na esperança de deitarem na mesma cama que seu cantor, ator ou atleta preferido.
Chegam a se prostituir para não perderem o ônibus, trem ou avião e – parece mentira – depois de algum tempo, viajando sempre em grupos, as groupies ou tietes acabam por comer umas às outras e verificam que bom mesmo é mulher.
Estão duvidando? Então dêem uma olhada na fila do gargarejo quando algumas das nossas cantoras se apresentam.
Para mim é uma forma de fanatismo masoquista: transferem a responsabilidade da vida delas para um cantor ou uma cantora que precisam das groupies quando estão em início de carreira, mas que quando estão no auge botam os cachorros atrás delas.
Vão por mim, leitorinhas: ser tiete não é uma boa.

GUEIXA – Jovem japonesa treinada para diversão e prazer sexual. Aliás, usei mal o verbo treinar, pois a verdade é que essas moças estudam durante anos para a prática da profissão e só depois de diplomadas é que podem exercê-la. Negócio de profissional.
A palavra teve origem no século XVIII e no princípio havia duas classes de gueixas: as haori e as korobi.
Haori quer dizer jaqueta em japonês e essas moças permaneciam vestidas o tempo todo e recusavam-se a vender seu corpo, ou seja, não eram completas. O ramo delas era contar anedotas, tocar harpa, cantar, servir chá, escrever poemas, etc. Tudo menos botar aquilo naquilo.
korobi quer dizer sexualmente disponível, ou seja, historinhas, musiquinhas, dancinhas, chazinhos, harpinhas e mais aquilo naquilo. Para dizer a verdade, hoje em dia só existem korobis. Também era muita covardia.
A maiko, aprendiz de gueixa, é levada por seus pais, ainda criança, para a okazan (gerenta) de uma universidade gueixal legalmente reconhecida e que um ou outro leitor mais grosso chamaria de randevu ou puteiro, simplesmente. Lá, durante sete ou oito anos, aprendem as artes da feminilidade (nada a ver com feminismo), quer dizer, aprendem o que devem fazer para agradar ao homem.
Há as que ficam para a segunda época ou levam pau no vestibular, o que, no caso japonês, significa que não levarão pau.
Durante o curso elas aprendem a manejar o harigata, uma espécie de piroca de marfim que pode ter de 15 a 30 centímetros, e o knomichinju, também conhecido como pérolas do prazer.
Trata-se de um cordão com bolas de jade a 5 centímetros umas das outras. O cordão, com todas as bolas é colocado no popô da gueixa (às vezes do freguês, no caso dele ser meio perobo) e puxado para fora com muitas ternura na hora do orgasmo ou ejaculação ou – como elas preferem dizer – na “hora da nuvem e da chuva”.
Aprendem ainda a colocar na base da iguaba do senhor e mestre o himitsu-kava, um anel de couro (não o que vocês estão pensando, seus tarados) que mantém a ereção após a primeira, a segunda, a terceira e, às vezes, até depois da quarta.
São ensinadas a manejar dezenas de outros instrumentos de sacanagem que não vou enumerar por falta de saco.
Finalmente diplomada aos quinze, dezesseis anos, a gueixa é rebatizada, ocasião em que ganha nomes como “lágrimas de jade”, “orvalho suave”, “botão de cerejeira”.
Então ela pode escolher ser vendida para um senhor pela soma equivalente a uns 5 milhões de cruzados ou receber clientes na casa da gerenta, ou cafetina para os leitores menos sofisticados.
Se for vendida, ela vai para a residência do comprador como concubina e é recebida com todas as honras pela esposa legítima.
Experts em todo o tipo de escalada sexual, até hoje, porém, as verdadeiras gueixas não admitem nem o fellatio nem o cunnilingus, pois, segundo elas, a boca foi feita para comer e fim de papo.
Aliás, os primeiros beijos no Japão foram vistos através dos filmes americanos depois da Segunda Guerra Mundial.
Embora a linha que separa a gueixa da jono (prostituta) seja cada vez mais tênue, ainda existem cerca de 18 mil delas em Tóquio: sete para cada mil japoneses.

HAMILTON, Alexander (1755-1804) – Filho ilegítimo, foi educado para ser um aristocrata pela família de seus pais adotivos. Nascido e criado nas Ilhas Britânicas Ocidentais, em 1772 já estava em New York, no King’s College (hoje a Universidade de Columbia). Foi o panfletário mais brilhante do seu tempo a defender a causa da independência americana e aos vinte e um anos era capitão de artilharia de New York.
Foi tão competente que em menos de um ano já era o auxiliar nº 1 do general George Washington.
Depois da guerra, casou-se Alice Schuyler, dedicou-se à advocacia e foi o representante de New York na convenção constitucional da Filadélfia em 1787.
Para assegurar a aprovação da nova Constituição (ela existe até hoje. Nada a ver, portanto, com a colcha de retalhos brasileira, uma autorização aos ricos para sugar o sangue dos pobres até a morte) escreveu juntamente com James Madison e John Jay os oitenta e cinco ensaios de O Federalista, que se tornaram clássicos da literatura política e deram forma política aos Estados Unidos.
Aprovada a Constituição, ele serviu sob as ordens do presidente Washington como primeiro secretário do Tesouro (1789-95), criou o Banco dos Estados Unidos e estabeleceu o crédito interno e externo da nova nação.
Líder do Partido Federalista, se viu preterido como candidato a presidente da República em favor de John Adams, que foi eleito e novamente reeleito em 1800.
Quando Jefferson e Burr receberam o mesmo número de votos na campanha daquele ano, Hamilton persuadiu os federalistas que queriam votar em Burr a transferirem seus votos para Jefferson.
Em 1804, igualmente, prejudicou a campanha de Burr para o governo de New York. Desta vez Burr o desafiou para um duelo e contra todas as expectativas (era um excelente esgrimista e um atirador melhor ainda), acabou sendo morto por ele.
Em todas as universidades americanas, este jovem revolucionário, advogado, político, guerreiro, homem de letras, economista, corajoso e boa-pinta, desde há muito é considerado uma das dez personalidades mais importantes da história americana.
Certamente figuraria neste dicionário não fora uma carta que escreveu ao seu companheiro de armas John Laurens, um ano mais velho:
“Meu querido Laurens... eu gostaria de ter o poder – quer por ações, quer por palavras – de convencê-lo do meu amor. Te digo apenas que até você me dar adeus eu mal sabia o quanto você havia ensinado ao meu coração. Você sabe minha opinião sobre os homens, o quanto desejo preservar minha liberdade de qualquer compromisso e manter minha felicidade independente do capricho dos outros. Você não deveria aproveitar-se da minha sensibilidade e roubar o meu afeto sem o meu consentimento. Mas uma vez que você trabalhou muito bem e como devemos ser indulgentes em relação àqueles que amamos, eu não terei escrúpulos em perdoar a fraude que você cometeu com a condição de que por mim, senão por você, você continue a merecer essa parcialidade que com tanto engenho instilou dentro de mim”.
E esta foi apenas uma das muitas cartas que Hamilton escreveu a Laurens que, estranhamente, também foi morto num duelo vinte e dois anos depois.
O que disse o biógrafo de Hamilton, John C. Miller, quando as cartas foram descobertas: “A amizade dos dois rapazes era como a de Damon e Pythias”.
Estes eram filósofos gregos da escola pitagórica que viviam em Siracusa cerca de 400 a.C. Eram famosos pela estreita amizade que os unia. Em virtude de falsas testemunhas, o rei Dionísio condenou Pythias à morte.
Ele pediu ao rei o tempo equivalente a duas semanas para saldar alguns compromissos. Durante a sua ausência, Damon ficaria em seu lugar e em seu lugar seria morto, caso ele não voltasse.
No dia marcado, Pythias retornou e o rei admirou tanto o seu procedimento que perdoou tudo e pediu para ser amigo dos dois filósofos.
Eram viados? Só sei que ambos teriam respondido: “Ser seu amigo, majestade? Preferimos a morte!”
E agora?

Tortura


Por Luis Fernando Verissimo

Depois do ataque ao World Trade Center, discute-se muito no Congresso, na imprensa e nos tribunais americanos os limites do permitido na busca da informação antiterror.

O presidente Bush foi reticente ao tratar do assunto no seu governo.
Já o Trump declarou-se abertamente a favor da tortura.

Sob Bush, os suspeitos de terrorismo eram interrogados em países amigos sem muitos escrúpulos quanto aos seus métodos. Era a tortura terceirizada.

Trump pelo menos não é hipócrita. Autorizou a tortura em solo americano, sem disfarces.

Torturar pela mão dos outros não era exatamente uma prática nova para os Estados Unidos. Tivemos uma prova disso num passado nem tão remoto.

Na School of the Americas, mantida pelos americanos, policiais e militares latino-americanos iam aprender métodos de interrogatório e contrainsurgência para combater o comunismo no continente.

A Escola das Américas chegou a ser chamada ironicamente de braço armado da Escola de Chicago, produzindo técnicos em repressão para garantir os teóricos do neoliberalismo que saíam do Departamento de Economia da universidade onde Milton Friedman era a estrela para nos catequizar.

É bom lembrar, nestes tempos de entusiasmo renovado pelo fascismo e de reacionarismo ostensivo e festejado, no que deu tudo aquilo.

Coisas como a Operação Bandeirantes, a aliança de empresários paulistas com policiais e militares na caça, literalmente, à esquerda, que deixou mortos e mutilados por toda parte — menos, aparentemente, na consciência dos responsáveis ou, presumivelmente, no livro de realizações dos formandos da Escola das Américas. 

Que continua no mesmo lugar, Fort Benning, no estado da Geórgia, agora com o nome mais específico de Instituto de Cooperação para a Segurança do Hemisfério Ocidental. Não se sabe se o currículo ainda é o mesmo.

Nossa imprensa investigativa bem que poderia investigar a influência dos irmãos Koch, multimilionários americanos que gastam seus milhões promovendo uma agenda ultraconservadora, na chamada nova direita brasileira.

Detalhes sobre a possível intervenção dos irmãos no movimento não estão mais longe do que o Google mais próximo.