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quarta-feira, dezembro 11, 2019

A história do famigerado bloco de sujos Aluga-se Moças



Marlon Pinheiro, Inácio Oliveira, Simas Pessoa, Anibal Beça 
e Simão Pessoa se preparando para a guerra

Março de 1980. Por volta do meio-dia do domingo gordo de Carnaval, o contabilista Olíbio Trindade (aka “Olíbio Xiri”), acompanhado do gorducho advogado Zé Augusto, apareceu no Bar do Aristides fantasiado de mulher totalmente “divina maravilhosa”.

Olíbio estava de saia rodada estampada, bustiê amarelo-canário, colares, pulseiras (“escravas”) e brincos de argola, que lhe davam um insuspeitíssimo ar de cartomante cigana.

Zé Augusto estava fantasiado de melindrosa de cinema mudo, com direito a piteira e peruca Chanel.

Dali a meia hora, dois cunhados de Olíbio, os irmãos Mazinho e Nilsinho, também apareceram no boteco, fantasiados do mesmo jeito – Mazinho de tailleur de executiva, o que incluía salto alto de 15 cm, e Nilsinho, de Carmem Miranda, com direito a turbante na cabeça com arranjos de frutas tropicais. Olíbio explicou a presepada:

– A Emamtur liberou a Avenida João Alfredo pro desfile de blocos de sujos até às 18h. Uns dez amigos do Nilsinho vão se fantasiar de mulher e a gente ficou de se encontrar com eles na avenida pra zoar um pouco. Nós quatro vamos no meu carro. A gente vai estacionar ali no Boulevard Amazonas e ir andando até cair na gandaia. Você não está a fim de ir não?…


A ficha custou a cair. Era o primeiro ano que o desfile carnavalesco seria feito na avenida João Alfredo. Pelas novas regras da Emamtur, 15 blocos desfilariam no domingo, 30 blocos na segunda-feira e os cinco blocos melhores classificados desfilariam na terça-feira, antes do desfile das escolas de samba. Desses cincos sairia o campeão do carnaval na categoria.


No domingo, desfilariam os seguintes blocos: Piratas, Aiatolá, Na Folia, Morro Pede Passagem, Uirapuru, Cordão das Lavadeiras, Taboca, Liberdade, Lira de Prata, Andanças de Ciganos, Caxangá na Folia, Coroas, Sem Compromisso, Mocidade Dependente do Beco Ipixuna e Árabes na Folia.


Na segunda-feira seria a vez dos Jovens Livres na Folia, Soretumar, São Raimundo, Sinal Verde, Feijão Maravilha, Onça, Cassino Tex, Vila Nova na Folia, Portugal sem Passaporte, Papel Bordado, Belezas Naturais, Unidos da Raiz, Acadêmicos do Morro, Unidos da Cophasa, Quem São Eles, Magistral na Folia, Linguarudos, Movido a Álcool, Consulado das Puras, Cadê o Mé?, Olha Nós Aí, Pipocas, Bloco dos Sujos, As Dengosas, Topless, Olívia Pinto, Magnatas das Arábias, Embalo’s, Som Colorido e Dismac.


Eu já estava meio calibrado, mas calculei que dava tempo de desfilar no bloco dos sujos até às 17h, voltar pra Caxuxa, e participar do desfile do Andanças de Ciganos às 21h. Para completar, o Olíbio Xiri estava com uma sacola dentro do carro que ainda continha meia dúzia de perucas. Arranjar um vestido era o de menos. Perguntei do Simas, que bebia comigo, o que ele achava da ideia:
Perguntei do meu irmão Simas Pessoa, que bebia comigo, o que ele achava da ideia:

– Bicho, se tu fores eu também vou! – garantiu.

Cada um de nós dois colocou uma peruca na cabeça e continuamos bebendo.

Dali a pouco, surgiu no boteco o Rubens Bentes e estranhou o fato de estarmos usando perucas de mulher. Expliquei o plano. Ele já foi pegando uma peruca na sacola e colocando na cabeça.

O Arlindo Jorge chegou dali a pouco, se inteirou da história e também colocou uma peruca na cabeça.

O Rubens providenciou vestidos, saias e blusas de suas irmãs.

Nós trocamos de roupa no próprio bar, sob o olhar de reprovação do pessoal que jogava sinuca.

Meia hora depois, Raquel, uma das irmãs do Rubens, subiu a ladeira e entrou no boteco para nos maquiar.

Haja sombras, cílios postiços, pó-compacto, blush, glass, delineador e batons em cores escandalosas.

Ela gastou metade do seu estojo da Avon, mas nos transformou em travestis de classe mundial.

Compramos quatro caixas de cerveja em lata, colocamos duas em cada carro e fomos pra guerra.

No carro do Arlindo, ele, Simas, eu e Rubens. No do Olíbio, ele, Mazinho, Nilsinho e Zé Augusto.

Em pé: Simão Pessoa, Olíbio Trindade, Zé Carlos, Erivam Cabocão, Sargento Roberto, Cacheto, Boanerges, Jones Cunha, Chico Cavalinho, Áureo Petita e Petrônio Aguiar. Agachados: Mazinho, Zeca Boy, Bebeto, Zezinho, Roberto, Dinho e Rubens Bentes.

Deixamos os carros ao lado do cemitério São João Batista e assim que começamos a caminhar em direção ao fuzuê, Rubens teve uma ideia brilhante:

– Vamos protestar contra a política econômica do general Figueiredo. Em vez de jogar confete na multidão, nós vamos jogar feijão e arroz…

Nem discutimos. Entramos em uma mercearia e cada um comprou um saco de 10 kg de feijão jalo (o mais caro) e outro de arroz agulhinha perbolizado (também o mais caro).

Nos juntamos a uma turma de uns vinte sujeitos também fantasiados de mulher, que estavam vindo do centro da cidade e possuíam alguns instrumentos de percussão, e adentramos a passarela do samba. Viramos amigos de infância dos sujeitos.

Sici Pirangy e Arlindo Jorge no meio da zoeira

Desconfio de que o nosso bloco de sujos foi o que causou mais confusão interativa com a plateia.

É que em vez de jogar feijão e arroz sobre a assistência, nossos novos amigos nos convenceram a dar o alimento para os interessados.

A gente parava em frente a um lance da arquibancada e perguntava:

– Vocês querem feijão? Vocês querem arroz?…

Sei lá como, mas de repente apareciam vários sacos plásticos vazios estendidos pelos populares.

A gente colocava uns 200 gramas de feijão e de arroz em cada um deles e prosseguíamos a caminhada.

No meio do desfile, o nosso estoque acabou.

Sem querer, havíamos distribuído 160 kg de alimentos para as pessoas carentes.

Se tivessem 500 blocos iguais ao nosso, teríamos erradicado a fome da cidade naquele dia.

Por volta das 18h, retornamos pra Cachoeirinha. Quando passávamos em frente ao Cine Ypiranga, Olíbio fez sinal pra gente parar. Estacionamos os carros e fomos tomar a saideira em frente ao Clube Ypiranga, que estava ultimando os preparativos para seu carnaval daquela noite. 

Aos nos verem daquele jeito, a Turma do Pitombão, ali da Castelo Branco, foi à loucura. Muito deles tinha vontade de fazer aquilo, mas nunca tinham tido coragem. Conversaram animadamente com a gente, querendo saber detalhes daquela experiência inédita.

Socorro Batalha e Alvatir Carolino no Quilombo São Benedito

Quem também já estava com a ideia de colocar um bloco de sujos na rua eram os brincantes da quadrilha Juventude na Roça, que ensaiavam na casa do Alvadir Assunção (sua esposa, Terezinha Peixoto, era a responsável pela quadrilha). 

Eles já desfilavam no bloco Andanças de Ciganos e no GRES Em Cima da Hora, de Educandos. Bastava pegar as fantasias femininas da quadrilha caipira e dar um trato, que o bloco estava pronto para desfilar.

O folião Jucimar Barroso de Souza deu o nome do bloco: “Aluga-se Moças”. O estudante Alvatir Carolino arregimentou os brincantes: Onesmo Gomes Jr., João Jururu, Tonny e Dennys Santos, Junior Perturbado, Preto Fernando, Raimundo Pinho, etc. Dona Zoraide Mota, tia do Alvatir, remodelou as roupas femininas da quadrilha para caber na macharada.

Em 1981, a Turma da Juventude na Roça se juntou com a Turma do Pitombão (Romito, Reinaldo, Jairo Caramanho, Belisca, Gilberto, Edinho, Fonseca, Mimico, etc), todos eles fantasiados de mulher, alugaram um trio elétrico, colocaram uma Miss Simpatia em cima do trio elétrico (o fantástico Gilson Brabo, de biquíni prateado, peruca loura, coroa, cetro e faixa) e se dirigiram ao Bar do Aristides, onde já havia uns cem sujeitos fantasiados de mulher.

Nascia o bloco “Aluga-se Moças”, que desfilava pelas ruas da Caxuxa, depois se dirigia até a Av. João Alfredo, atravessava a passarela do samba de ponta a ponta e retornava para o Clube Ypiranga, numa verdadeira maratona etílica.

O nome do bloco, com aquele espetacular erro de concordância, era uma homenagem ao filme homônimo de pornochanchada estrelado por Gretchen, Rita Cadillac e Xuxa Meneghel.


Para desfilar pelo famigerado bloco era preciso ter fôlego de maratonista. A procissão começava no Cine Ypiranga (Carvalho Leal com Barcelos), seguia até o Top Bar (Parintins com a Borba), ia até a Rua Manicoré (onde hoje está o Terminal Rodoviário), descia em direção à Castelo Branco, entrava na avenida, subia até a Rua Belém (onde está o Grupo Escolar Getúlio Vargas), subia pela Belém até a Praça Chile, contornva o Cemitério São João Batista, descia o Boulevard Amazonas e subia a Av. João Alfredo. Uma pernada de quase três horas sob um sol saariano.

Nos últimos desfiles em que participei, no final dos anos 80, o gigantismo do bloco já começava a assustar os desavisados.

Eram cerca de três mil foliões, os homens invariavelmente fantasiados de mulheres e as mulheres, fantasiadas de homens.

Apesar do grande consumo de álcool nunca houve brigas, provavelmente porque quase todos os brincantes também desfilavam no GRES Andanças de Ciganos.

O desfile do bloco, entretanto, dava muita dor de cabeça para a nossa eterna Miss Simpatia.

Espada-matador juramentado em cartório, Gilson Brabo não bebia e nem fumava, mas aceitava desfilar de miss, numa boa.

Pra complicar, sua família era evangélica.

Depois de quatro horas sob um sol escaldante, as marcas brancas do minúsculo sutiã e da faixa de miss em sua pele bronzeada eram uma bandeira e tanto.

Gilson Brabo passava seis meses sem tirar a camisa na frente dos parentes, para não ser excomungado pelo seu “suposto” homossexualismo enrustido.

Mas, no ano seguinte, se apresentava espontaneamente para passar pela mesma provação. Um santo!

Vladimir Brother e Romito no Canto do Fuxico

Em meados dos anos 90, Arlindo Jorge e Sici Pirangy deram um golpe de estado na agremiação informal, apearam Romito da direção do bloco e eles próprios assumiram o controle da brincadeira.

Desde a sua fundação, era Romito que contratava o trio elétrico, convocava os brincantes e providenciava a documentação necessária para o bloco desfilar pelas ruas.

Injuriado com a desfeita, Romito abandonou o barco.

Ocorre que Sici e Arlindo não conseguiram contratar um trio elétrico, não convocaram os brincantes e nem providenciaram a documentação necessária para a zoeira ocupar as ruas da cidade.

Resultado: o bloco simplesmente deixou de existir. Choses.

Pirarucu, outro abestado



Fevereiro de 1968. Magro, alto, bem-apessoado, José Carlos Azevedo, o “Zé da Voz”, lembrava um pouco o ator Clint Eastwood em início de carreira.

Ele ganhara esse apelido porque era o principal animador e DJ da Voz Continental, localizada em um pequeno quiosque no cruzamento das ruas Urucará e J. Carlos Antony, na Cachoeirinha.

Zé da Voz era parceiro de gandaia de João Carlos Weil, o “Bazam”, irmão mais velho de Antídio Weil, e de Bobby Nelson, irmão mais velho de Alberto Gordo, ex-diretor do Sindicato dos Metalúrgicos. Eles formavam um trio da pá virada.

Quando estava cheio da manguaça, o que não era novidade, Zé da Voz andava devagar como quem procura, com os pés, um penico no escuro.

Já Bobby Nelson e Bazam, no mesmo estado, andavam ligeiro que só peba em areia frouxa.

A irmandade dos três vinha de um fato em comum: ambos gostavam do cigarro de índio.

Uma noite, logo após deixar os estúdios da Voz Continental, Zé da Voz foi abordado pelo Aderbal Pirarucu: ele havia recebido uma erva de Maués que era “só camarão” e convidou o locutor para experimentarem o produto.

Os dois se embrenharam no matagal existente atrás do Sanatório Adriano Jorge e começaram a apertar um “fino” atrás do outro.

Zé da Voz e Pirarucu estavam ali, observando as estrelas junto à fogueirinha de papel, quando, subitamente, estacionou um carro da rádio patrulha na Rua Codajás e dois meganhas armados de trêsoitão entraram correndo no mato em direção à dupla.

Desconfiado como cachorro que quebrou louça, o primeiro policial foi logo pagando geral:

– O que qui vocês dois estão fazendo aqui nessa escuridão, seus filhos da puta! Falem logo, se não eu vou atirar!

O galã Zé da Voz, com a calma de um experimentado rastafári, tentou contemporizar:

– Que é isso, meu amigo? Eu vim aqui só fazer uma caridade pro meu parceiro. Eu estava apenas comendo o cuzinho dele e isso não é crime…

Ouvindo aquilo, Pirarucu deu um pulo:

– Que comendo meu cu o quê, porra? Eu sou sujeito homem! Jamais gostei de pica! Fala a verdade, porra, fala a verdade! A gente estava mesmo era fumando maconha!

Os dois foram em cana. Dar o cu não era crime, mas fumar maconha era.

Pirarucu era outro abestado.

O Don Juan da Velha Caxuxa



Sadok Pirangy e Ivan Chibata fazendo baque...

O bicheiro Ivan Chibata era casado com a Milka Albuquerque, com quem tinha dois filhos espertíssimos, Iguatemi e Ivana. O garoto Iguatemi era o Homem-Rocha, porque possuía uma força descomunal pra sua idade. A menina Ivana era a Princesa de Xanadu. O casal de moleques era o quindim do bicheiro.

Enquanto Ivan Chibata tinha um tipo físico mirradinho, quase raquítico, Milka era exuberante, grandona, poderosa. Os braços dela eram mais grossos do que as coxas dele.

Não bastasse isso, a Milka tinha um ciúme doentio do Ivan Chibata. O bicheiro devia saber dar conta do recado nos embates de Eros, o que talvez funcionasse como precioso combustível para realizar sua obsessão de se transformar em um novo Don Juan da Cachoeirinha.

Ivan Chibata foi o primeiro sujeito a me explicar didaticamente que mulher gosta mesmo é de dinheiro, quem gosta de pica é viado.

Cheio da grana da noite pro dia, depois que se transformou em bicheiro, ele devia saber do que estava falando.

Se ainda hoje as pessoas se escandalizam com isso, imaginem naquela época.

O diabo é que esse aforisma dele permanece mais atual do que nunca, para desespero de alguns românticos tardios.

Algumas pequenas histórias dão bem a medida do temperamento do Ivan Chibata, que sempre lutou para manter a família longe da linha de fogo.

Uma madrugada qualquer, ele saiu da sua banca no Conjunto Dom Pedro II, passou na boate Catedral (uma espécie de boate Rêmulo’s da época), pegou sua musa favorita e foi para o Bar Porta Aberta (que tem esse nome exatamente porque não tem portas, funcionando 24 horas por dia, de segunda a segunda, desde que foi aberto já se vão uns bons 25 anos), localizado ali na Rua Silves, próximo do Conjunto Jardim Brasil.

O Ivan Chibata estava ali, beijando ardorosamente a sua princesinha enquanto esperava uma sopa de mocotó, quando a Milka, que ia passando em seu carro pela rua, reconheceu o “Trovão Azul” (o famoso Opala azul-turquesa do bicheiro).

Na maior calma do mundo, Milka estacionou seu carro e, sorrateiramente, se aproximou da mesa.

Aí, não contou conversa: deu um incrementado telefone duplo nos dois pombinhos, e, como se nada tivesse acontecido, saiu do bar, entrou no seu carro e foi embora.

A porrada no pé do ouvido do casal, entretanto, tinha sido violentíssima. Os dentes do Ivan quase haviam decepado os lábios da moça.

Ele também havia batido com a testa no supercílio da menina, de onde agora descia uma cachoeira de sangue.

Ainda meio grogue, a garota limitou-se a esbravejar, no seu linguajar específico:

– Puta que pariu, Ivan, quem é essa filha da puta?…

Ivan Chibata, encolerizado, não tergiversou:

– Respeite a doutora Milka Vaz de Albuquerque, mãe dos meus filhos, sua vagabunda!

E, cataplum! – meteu um uppercut no meio da lata da sua acompanhante, que quase lhe quebrou a metade dos dentes.

Imediatamente, os seguranças do bicheiro levaram a menina para uma clínica particular, com a recomendação expressa de fazer uma lanternagem completa na fuselagem da vadia.

Ivan Chibata pagou a conta e se mandou do boteco em busca do perdão da esposa.

Uns seis meses depois, o empresário Frank Cavalcante para em frente da casa da Milka e avisa:

– O Ivan Chibata está ali no Bar da Alzira com uma gatinha de 16 anos…

Milka nem pensou duas vezes. Entrou no primeiro carro estacionado na porta da sua casa e se mandou pra lá.

Ela parou em frente à casa do Sici Pirangy e, sorrateiramente, se aproximou da mesa onde o bicheiro conversava animadamente com Sadok Pirangy.

Havia três garotas na mesa, provavelmente apontadoras da banca de bicho, já que eram feinhas de dar dó.

Cara a cara com o marido, Milka, sem dizer uma palavra, deu-lhe um tapão de mão aberta no meio do rosto, que quase lhe arrancou a cabeça do pescoço, tal a violência da porrada.

Aí, do jeito que chegou, foi embora.

O clima na mesa era de velório.

Passando a mão no rosto, Ivan Chibata minimizou o incidente:

– Porra, Sadok, tu já pensou se eu tivesse caído, hein? Que mico, hein? Que mico, cara, que mico? Eu ia ficar desmoralizado aqui na Alzira, não ia não? O foda é que eu sou duro na queda! Eu sou que nem bambu: envergo, mas não quebro.

Aí, se levantou da mesa e começou a recitar uma quadrinha vagabunda que aprendera em uma de suas viagens por Minas Gerais, como se estivesse dançando consigo mesmo: “Nóis enverga mais não quebra, nóis chacoalha e não derrama / Nóis balança mais não cai, nóis é brabo e bom de cama / De bobo nóis não tem nada, só a cara de coitado / Nóis se finge de leitão, pra poder mamar deitado”.

Depois, pediu mais uma cerveja e passou o resto da noite morrendo de rir da presepada.

Em outra ocasião, durante uma conferência de apostas na fortaleza do bicheiro, o casal iniciou um bate-boca na frente dos funcionários provocado, evidentemente, por mais uma crise de ciúmes da fêmea.

No meio da discussão, Milka pegou na gaveta o Colt 45 de cabo de madrepérola, apontou pro bicheiro e avisou:

– Ou de hoje em diante você aprende a me respeitar como sua esposa, seu Ivan Albuquerque, ou eu vou agora mesmo lhe encher o peito de chumbo!

O bicheiro não se avexou. Abrindo a camisa, ele ofertou seu raquítico peito à esposa:

– Vamos! Atira! Silencia esse coração que tanto te ama…

Ouvindo aquilo, Milka guardou nervosamente o revólver na gaveta, ensaiou um pedido de desculpas e se abraçou emocionada com o marido.

Ivan Chibata acabara de conquistar um salvo conduto para mais uma semana de aprontos inimagináveis. Era um gênio.

Um bar-família de respeito!


Edinês, Afonso, Luiz Lobão, Lucio Preto e Maurílio no Jacundá Clube de Campo

Fevereiro de 1984. Fazendo hora para participar do desfile do GRES Andanças de Ciganos, Maurílio, Sici Pirangy e Luiz Lobão foram para o Bar do Caxuxa detonar um frasco de lança-perfume Universitária, recém-chegado do Panamá.

O bar estava quase vazio. O barman Selmo Nogueira limitava-se a limpar as mesas e, de vez em quando, servir uma batida para a única mesa ocupada pelos três.

Quando ele se aproximava da mesa, o frasco era escondido, os lenços eram embolsados e a conversa mudava de rumo. O barman nem aí.

Sici Pirangy, o mais precavido dos três, ponderava:

– Porra, bicho, o Selmo é nosso brother. Não vamos marcar pra ele senão vai sujar a fama do boteco. Vamos devagar com o andor! Esse Luiz Lobão está dando muita bandeira! Vamos baixar a bola e cafungar devagar. O Caxuxa não gosta dessas paradas não. Isso aqui é um bar-família de respeito!…

Os lenços eram encharcados, narizes aspiravam freneticamente, disfarces eram utilizados, e, de vez em quando, alguém dava o toque:

– Esconde, esconde, que o Caxuxa vem aí…

Indiferente a tudo, Selmo continuava no seu pique habitual.

Servia a batida de coco solicitada, o sanduíche misto-quente, trocava uma ou duas palavras afetuosas e continuava a limpar as outras mesas.

De repente, Selmo se aproximou da mesa, decidido, e detonou:

– Porra, Maurílio, vê se deixa de frescura e coloca uma prize aqui que eu também quero cheirar! Ou vocês acham que essa porra foi feita só pra vocês?…

E estendeu um lenço do tamanho de uma toalha de mesa.

Cafungou quase metade do frasco em menos de dois minutos.

Os outros três cafungeiros ficaram pasmos com a desenvoltura profissional do barman.

Aquilo, sim, era um bar-família de respeito!

O Cliente Golden do Dr. Menescal



O farmacêutico Francisco Menescal Filho herdou a drogaria do pai, também farmacêutico, no início dos anos 70. Localizada no canto da Rua J. Carlos Antony com a Avenida Carvalho Leal, em frente ao Posto de Gasolina LM, a Drogaria Menescal se transformou rapidamente na Meca dos cristãos-novos recém-iniciados em doenças venéreas.

Bonachão, prestativo e homossexual enrustido, Dr. Menescal tinha na ponta da língua a cura para todos os males, de gonorreia a cancro mole, de cavalo de crista a esquentamento:

– Dois tetrex de 500 mg, uma dose de manhã outra de tarde, durante sete dias… Não coma nada reimoso e evite as frutas cítricas como laranja, tangerina e limão… Nada de comida pesada, está ouvindo?… Pescadinha branca, em água e sal, ou grelhada, até parar de sair secreção do moço…

Em caso de recidiva da doença, ele era peremptório:

– Uma injeção de benzetacil de 4.800.000 unidades de três em três dias durante duas semanas… Não coma nada reimoso e evite as frutas cítricas como laranja, tangerina e limão… Nada de comida pesada, está ouvindo?… Pescadinha branca, em água e sal, ou grelhada, até parar de sair secreção do moço…

As injeções eram aplicadas por Valdir Corrêa, Gaudêncio Neto ou Edy Silva, todos eles balconistas da drogaria.

O putanheiro Nego Walter era Cliente Golden do Menescal e, praticamente, foi contemplado com todas as doenças venéreas existentes naquela época. É um sobrevivente.

De quinze em quinze dias, sempre na segunda feira pela manhã, Nego Walter batia ponto na drogaria.

Era atendido pessoalmente pelo Dr. Menescal numa salinha reservada, nos fundos do estabelecimento.

Nego Walter apresentava as armas. O farmacêutico examinava detidamente o equipamento avariado, receitava o tratamento, entregava um recibo nas mãos do paciente e avisava:

– Vá lá no caixa, pague essa importância e volte aqui!

Como a drogaria estava sempre cheia de gente, Nego Walter implorava:

– Dr. Menescal, pelo amor de Deus, seja discreto e fale baixo a respeito do meu problema…

Assim que Nego Walter saía da salinha e se dirigia ao caixa, Dr. Menescal dava um berro, que dava pra ser ouvido no bairro inteiro:

– Waldir Corrêa, recebe essa mixaria aí no caixa! Edy Silva prepara uma benzetacil de 4.800.000 unidades, que o cliente pegou uma gonorreia de gancho!

Nego Walter não sabia onde se esconder.

Ressabiado, acabou se transformando em Cliente Vip da Farmácia Nunes, no centro da cidade, onde não era muito conhecido.

Falando nisso, peço vênia às senhoras que inadvertidamente estejam frequentando estes escritos, mas o assunto seguinte, a despeito do seu teor chocante, faz mais parte da história dos tempos de antanho do que possam supor seus vãos recatos: a gonorreia.

Os nossos jovens putanheiros que, tangidos pela doce onda da permissividade, contraíram e disseminaram a famosa gonorreia na Cachoeirinha, deveriam esculpir com as próprias unhas a cabeça de sir Alexander Fleming na Pedreira do Tarumã – à maneira do Monte Rushmore, nos EUA.

Por sua causa, hoje em dia, o gonococo está mais desmoralizado do que os ideólogos do mensalão e os trambiqueiros da Lava Jato.

Antes da penicilina, a gonorreia simples era tratada (curada, jamais!) com recursos patenteados pelo demônio: lavagens de uretra com permanganato de potássio, nitrato de prata e até Lugolina, cujos primeiros anúncios do produto ressaltavam, entre outros atributos, a sua eficiência no tratamento das manchas na pele provocadas pelas “bexigas”, denominação da época para a varíola.

Isso durante seis meses a um ano, semanalmente.

Depois, o Capiroto em pessoa arrematava o serviço com a sonda Binoquet, um alargador de uretra cujo gabarito ia da grossura do dedo mínimo ao do dedo indicador.

Eu disse gonorreia simples, porque tinha a de gancho.

Esta curvava o pinto do artista para cima, obrigando-o a urinar no próprio umbigo.

Tratava-se a gonorreia de gancho com martelo, malhando a frio a peça ensandecida até retificá-la, como quer e fez a mãe Natureza.

A anestesia era berro, palavrão e blasfêmia.

A penicilina, descoberta por sir Alexander Fleming e depois comercializada como benzetacil, colocou um fim nessa tortura medieval.

terça-feira, dezembro 10, 2019

Um peixeiro muito abestado



Novembro de 1967. A voz inconfundível ecoava na subida da ladeira da Rua Parintins, se aproximando da Rua Borba, na velha Caxuxa:

– Peixeeeiro! Olha o peixe fresco! Eita jaraqui, tambaqui e tucunaré! Peixeeeiro! Eita branquinha, pescada e matrinchã! Peixeeeiro! Eita curimatã, acari-bodó e sardinha! Peixeeeiro! Eita surubim, cará-açu e piramutaba! Peixeeeiro! Eita piraíba, pirara e pirarucu! Peixeeeiro! Olha o peixe fresco! Peixeeeiro!

O dono da voz era um caboco baixo, atarracado, chamado por todo mundo de Bacaba.

Nunca soubemos o nome dele, mas era o peixeiro mais popular da Cachoeirinha.

Ele saía da Feira da Rua Maués, com seu tabuleiro na cabeça, equilibrado em uma rodilha de pano, e percorria as principais ruas do bairro.

Começava a labuta por volta das 6h da manhã e só retornava pra casa depois do meio-dia, com o tabuleiro completamente vazio.

Era quando se permitia um único momento de lazer: tomar duas doses de branquinha no Bar do Aristides, localizado no cruzamento das ruas Borba e Parintins.

Um dia, quando subia a ladeira da Rua Parintins, Bacaba foi colhido por um temporal diluviano.

Para fugir do aguaceiro, ele se refugiou no Bar do Aristides, onde descansou seu tabuleiro no chão, cheio de peixes novinhos em folha.

Como ainda era por volta das 9h da manhã, havia poucos biriteiros no bar.

Bacaba resolveu tomar uma dose de branquinha. Depois, tomou a segunda. Dali a pouco, a terceira. E o aguaceiro nada de parar.

Lá pelas tantas, um sujeito entrou no bar, viu o tabuleiro de peixes no chão e não teve dúvidas: improvisou uma rodilha de pano, colocou o tabuleiro na cabeça e começou a conversar animadamente com Bacaba, equilibrando o dito tabuleiro na cabeça. Coisa de profissional.

Os dois, além de peixeiros, eram compadres e resolveram dividir uma garrafa de Brandicana.

Quando o dilúvio arrefeceu, por volta das 11h, Bacaba já estava completamente mamado.

Ele começou a procurar o seu tabuleiro de peixes no chão, mais agoniado do que cobra quando perde a peçonha.

– Caralho! Buceta! Puta que pariu! Roubaram o meu tabuleiro que estava bem aqui! – gemia ele, apontando para o local.

– Também, tu é muito abestado, compadre! – avisou o sujeito. – Vê se eu tiro o meu tabuleiro da cabeça quando estou bebendo! Nem pelo caralho! O que mais tem aqui nessa área é ladrão!

Dito isso, ele se despediu do Bacaba e foi embora com o tabuleiro de peixe na cabeça.

No dia seguinte, o compadre devolveu o tabuleiro do amigo.

Sem os peixes e sem a grana apurada, que era pro Bacaba aprender a lição e deixar de ser abestado.

Martinho da Vila e o tapa da pantera



Agosto de 1982. O sambista Martinho da Vila desembarca em Manaus, a convite do GRES Vitória Régia, para fazer um show exclusivo na quadra da escola. Durante um mês, um carro volante alugado pela escola verde-e-rosa percorreu todos os bairros da cidade anunciando o espetáculo do renomado partideiro de Vila Isabel, que havia acabado de lançar um novo disco (“Verso e Reverso”). A previsão dos dirigentes da escola era de “casa cheia”.

Faltando algumas horas para começar o show, ainda no hotel, Martinho da Vila chama um de seus assessores em particular e avisa que está precisando fumar um cigarro de índio para relaxar um pouco antes de dar início à cantoria. O sujeito dispara meia dúzia de telefonemas, aí embarca o pagodeiro em um táxi e os dois seguem para a casa do Chico Padeiro, na Cachoeirinha, localizada na Rua General Glicério, quase canto com a Rua Parintins. Chico Padeiro era reputado como fornecedor da melhor erva maldita da região.

Os dois são recebidos na varanda da modesta residência pelo próprio Chico Padeiro, que os trata com distinção e cortesia. Feitas as apresentações iniciais e o motivo da visita, Chico Padeiro entra na casa e retorna, depois de alguns minutos, trazendo uma pequena mala de couro. Martinho da Vila está se balançando em uma cadeira de macarrão na varanda bastante ventilada. Chico Padeiro abre a pequena mala aos pés de Martinho da Vila. Ela está abarrotada de maconha até a boca.

– Pode fazer uma presença pra saber se o produto é bom! – explica timidamente Chico Padeiro.

Martinho da Vila mete a mão na mala, pega um pouco de erva, tira do bolso um papel de seda, faz o “finório”, coloca o cigarro na boca, acende, dá uma, duas, três tragadas de responsa, com sofreguidão, prende a respiração e fica esperando o tapa da pantera.

O sambista não deve ter se decepcionado porque, na sequência, como se ainda fosse um gourmet saboreando o buquê de um vinho raro, avisa, peremptório:

– A mala é minha! A mala é minha!

Pronto. O show na quadra da escola foi pras cucuias porque o sambista não se levantou mais da cadeira de balanço. A multidão enfurecida pelo súbito cancelamento da apresentação do artista teve de ser contida à força pela Polícia de Choque.

Indiferente ao quiproquó que se desenrolava na Praça 14, Martinho da Vila passou o resto da noite degustando a maconha de qualidade mundial vendida pelo Chico Padeiro. Culpa da varanda bastante ventilada, que se convertia em oásis durante um dos meses mais quentes do ano. Choses.

Os xexeiros da Red Zone de Manaus


Odivaldo Guerra e Simas Pessoa no Canto do Fuxico

Março de 1960. Divaldo Martins, hoje juiz aposentado, e Odivaldo Guerra, hoje despachante aposentado, eram dois jovens estudantes do Colégio Estadual e parceiros de gandaia.

Divaldo morava no Conjunto Kubistchek, na Rua Waupés, entre a Barcelos e a Codajás, e Guerra, na Rua Parintins, entre a Borba e a Urucará, ambos na Cachoeirinha.

Uma determinada noite de fevereiro, os dois resolveram tirar o atraso juvenil com as raparigas da Boate Belvedere, no coração da Red Zone de Manaus (o quadrilátero compreendido entre as ruas da Instalação, Frei José dos Inocentes, Itamaracá e Leonardo Antony).

Como eram lisos e confiados, a situação exigia o famoso xexo, ou seja, depois do serviço consumado, pernas pra que te quero e as vadias que fossem se queixar ao bispo.

Guerra deixou a sua lambreta estacionada num ponto estratégico da rua da Instalação e combinou com Divaldo, o garupa, os detalhes da presepada. Os dois foram à luta.

Meia hora depois, Guerra saiu vazado a mil por hora do cafofo onde abatera a lebre, montou na lambreta, ligou a máquina e ficou esperando pelo parceiro.

Três minutos depois, lá vem Divaldo na carreira, sendo perseguido por uma puta armada de “jiquitaia” (uma lâmina de barbear encastoada entre dois palitos de picolé, que funcionava como uma navalha Solingen afiadíssima).

Nessa noite, Divaldo estava estreando um bonito mocassim Ballet e, correndo em cima de paralelepípedos, o sapato do pé esquerdo ficou preso numa das reentrâncias da rua e se perdeu no meio do caminho.

A puta apanhou o sapato como se fosse um troféu de guerra, mas continuou a perseguição.

Para sorte de Divaldo, estava passando o último ônibus da meia noite pela rua da Instalação.

Ágil como um gato, ele conseguiu subir no ônibus em movimento, sentou-se em uma das janelas sério que só cachorro andando de canoa, enquanto a puta corria ao lado do ônibus, gritando toda sorte de imprecações e triturando o mocassim com sua “jiquitaia” amoladíssima.

A puta desistiu da perseguição na rua Sete de Setembro.

Guerra acompanhou a presepada montado na lambreta e seguindo o ônibus.

No Canto do Quintela, Divaldo desceu do ônibus, subiu na garupa da lambreta e os dois foram para casa.

Naquela época, os pais só davam sapatos para os filhos uma vez por ano, quase sempre no Natal.

Divaldo passou o resto do ano enfaixando diariamente o dedão do pé esquerdo com esparadrapo, para poder sair de casa usando em um dos pés o mocassim e, no outro, o do dedão enfaixado, uma reles sandália havaiana.

Lambança cigana na Avenida do Samba



Janeiro de 1988. Responsável pela confecção dos carros alegóricos do GRES Andanças de Ciganos, o engenheiro Chico Costa chamou um ajudante de ordem no barracão e foi peremptório:

– Zé Bernaldo, pega essa trena e vai lá na Djalma Batista medir a largura da avenida, que o nosso último carro alegórico vai revolucionar o carnaval de Manaus…

O sujeito foi, fez a medição solicitada e retornou uma hora depois:

– Medi de ponta a ponta duas vezes. Tem 16 metros!

Chico Costa fez os cálculos:

– Deixando uma folga de dois metros para cada lado, dá para fazer um carro alegórico com 12 metros de largura e 20 metros de extensão. Mãos à obra, moçada!

Em um mês, o carro alegórico estava pronto. Era um colosso inimaginável. Todo o lendário amazônico (curupira, mapinguari, iara, boto tucuxi, juma, cobra grande, lagarta de fogo, etc) estava presente no carro alegórico, em seu máximo esplendor, por meio de alegorias gigantescas executadas pessoalmente pelo mago Jair Mendes.

Foi preciso duas carretas de três eixos para transportar o carro alegórico do barracão para o início da Av. Djalma Batista, numa operação de guerra que envolveu o Corpo de Bombeiros, Detran, Polícia Militar, Defesa Civil, Médicos Sem Fronteiras, Greenpeace e o Exército da Salvação Nacional.

Na entrada da avenida, uma surpresa: a colocação de arquibancadas dos dois lados da pista havia “encolhido” a passarela do samba em seis metros.

É que o ajudante de ordens do Chico Costa, o famoso Zé Bernaldo, havia medido a avenida de ponta a ponta, isto é, de uma sarjeta a outra, sem se dar conta desse pequeno detalhe das arquibancadas.

Para o gigantesco carro alegórico entrar na avenida seria necessário serrar dois metros de cada lado de sua base fixa.

Chico Costa refez os cálculos e explicou timidamente aos dirigentes da escola, que queriam comer seu fígado:

– A base do carro foi feita de pau de ferro. Mesmo que a gente arrume uma serra elétrica de última geração, nós vamos levar duas horas para serrar esses 20 metros de cada lado do carro e até lá a escola já desfilou. Melhor deixar essa porra aqui mesmo…

E assim foi feito. O gigantesco carro foi abandonado na área de concentração, deixando o mago Jair Mendes à beira de um ataque de nervos.

O responsável pela lambança, Zé Bernaldo, foi demitido sumariamente da escola, à base de pescoções, e nunca mais colocou os pés no barracão.

Zeca Pagodinho dança feio na Caxuxa



Fevereiro de 1984. Amigos desde o tempo em que moravam no subúrbio carioca de Irajá, Nei Viana e Zeca Pagodinho desembarcaram em Manaus para dar uma força nos ensaios do GRES Andanças de Ciganos, que tinha como puxador de samba Carlinhos de Pilares. A fama da maconha vendida pelo Chico Padeiro e consumida fartamente pelos batuqueiros da Cachoeirinha já havia chegado à Cidade Maravilhosa.

Numa noite de sábado, Zeca Pagodinho estava parado no canto das ruas Parintins e Borba, do outro lado do Top Bar, esperando alguma alma caridosa que lhe fizesse uma presença. Seus parceiros, Nei Viana, Carlinhos de Pilares e Roxinho, haviam saído na caça ao tesouro, mas estavam demorando a retornar com o bagulho.

De repente, o pagodeiro avista Jacó Fernandes, com duas baquetas na mão, se dirigindo para o ensaio na quadra do GRES Andanças de Ciganos. Ele não conhecia o Jacó, mas a fissura falou mais alto.

– Êi, gente boa, será que você podia me fazer um favor? – disparou Zeca Pagodinho.

– Aí, depende… – avisou Jacó Fernandes. – Se estiver dentro do meu alcance…

– É o seguinte, cara! Eu estou a fim de apertar um beise, entendeu? Será que você conseguiria alguma coisa pra mim, de preferência do Chico Padeiro?… – explicou Zeca Pagodinho.

– Chico Padeiro?! Aquilo só vende palha, coentro e bosta de vaca, porra! Bagulho bom quem tem é o Pirarucu, ali no Bodozal da Maués… – avisou Jacó Fernandes, com a experiência de um autêntico rastafári.

Os olhos de Zeca Pagodinho se iluminaram. Ele deu cerca de 200 pilas para o Jacó, que desceu apressadamente a ladeira da Rua Parintins, em direção à Rua Maués.

Duas horas depois, Nego Keko encontra Zeca Pagodinho ainda postado solitariamente no canto da rua, esperando pelo bagulho. O pagodeiro relatou a conversa que teve com Jacó. Nego Keko foi de uma sinceridade cruel:

– Você perdeu, playboy, você perdeu! O cara não volta mais aqui contigo nem pelo caralho… A essa altura do campeonato, ele já deve estar apertando o black com a turma dele… Conheço essa raça!

Zeca Pagodinho ficou mordido:

– Caraco, mano, eu vir lá do Rio de Janeiro pra tomar banho em Manaus… Porra, assim é foda…

E, puto da vida, voltou para a quadra dos Ciganos ainda na maior fissura.

Foi salvo pela chegada providencial de Carlinhos de Pilares com uma pacoteira de erva do Chico Padeiro.

sexta-feira, dezembro 06, 2019

É mister John Daniel’s pra você



Por Rafael Galvão

Ah, Adriano… A primeira reação que tive ao ver seu comentário foi pensar: como alguém pode não gostar de Jack Daniel’s? Eu reconheço em todos o direito a seus gostos. Mas não admito que alguém ouse não venerar a Lady Day, e não reconheço que se não goste de Jack.

Mas é John Daniel’s para você, Adriano. Cuidado aí com a intimidade. Jack só se deixa chamar por esse nome por quem realmente gosta dele. Por quem o conheceu aos poucos, em noites longas em que risos se misturaram a lágrimas; mas principalmente por quem ele conhece de verdade, por aqueles de quem ele conhece a alma. Não vá afetando uma intimidade que você não tem nem quer ter. Mister John Daniel’s.

Há umas poucas coisas na vida que precisam de ritual. Um ritual simples, porque rituais complicados tiram a alegria do viver, e os prazeres se perdem na necessidade de seguir os passos dos outros. Jack sabe disso. Ele não lhe diz o que fazer. Sequer coloca a mão no seu ombro, porque sabe que a sua dor não passará com isso; em vez disso, apenas fica do seu lado, calado, olhando para você. É só disso que você precisa.

Aquele que lhe apresento como John Daniel’s só pode ser entendido por quem sabe que se fechar os olhos pode ter pesadelos. Sonhos ruins, perversos, que lhe farão acordar com medo, procurando um ar que lhe pareceu faltar. Por quem, como um Ebenezer Scrooge atormentado pelo passado, está sempre sujeito a fantasmas que chicoteiam com lembranças que você queria enterradas.

Existem poucas coisas que se deve fazer sozinho nesta vida. Uma delas é deitar em um sofá no escuro, só você e os milhões de demônios que atormentam a sua consciência, que lhe fazem ter calafrios pela canalhice que você cometeu um pouco antes, pela mulher que você machucou, pelo amigo que você ofendeu.

É só ali, naquele sofá, que você pode entender por que sabe que vai magoar uma mulher, sabe que é errado, ao mesmo tempo em que admite resignado que não conseguirá evitar.

E nessas horas, nesse sofá no escuro, só duas companhias lhe são permitidas. Uma delas é Billie Holiday ou Chet Baker; você pode escolher qualquer um dos dois porque eles, como ninguém mais, sabem cantar o que se passa em sua alma.

Quando Chet com voz tão pequena canta I Fall in Love Too Easily, ou Billie que não tem mais esperanças destroça o seu coração com Solitude, então você entende, e não são necessárias outras palavras.

Só eles sabem quem você é, só eles olham para você sem raiva, sem pena ou sem censura. Certo, eles dizem “mas que merda você fez, hein?” Mas dizem também “tudo bem, eu também fiz.”

E então, por alguns instantes, você sente que não está sozinho no mundo; que alguém consegue entender tudo aquilo que passa tão rápido por sua cabeça, tão rápido que nem você consegue compreender.

Só eles podem traduzir, em palavras que dizem mais do que parecem dizer, aquilo que você jamais teria coragem de falar. E mesmo assim apenas naquele momento, num sofá no escuro, apenas você, a música, a fumaça azulada do cigarro e o perfume que vem de um copo.

Esse copo de Jack Daniel’s é a sua outra companhia, Adriano, e só ela. Cada dose tem que ser dupla; se você vai colocar gelo que seja apenas o suficiente apenas para esfriar. Só isso. Mais nada.

Ninguém para falar que essa merda foi envelhecida em barris de carvalho no cu da Escócia. Ninguém para vir com viadagem sobre a qualidade da água das highlands. Ninguém para encher seu saco. Só você, a música e seu copo.

E os seus demônios.

Jack é diferente, Adriano. É diferente, por exemplo, de um Johnny Walker com roupinha de nojentinho dizendo em falsete keep walking, keep walking. Johnny é um filhinho de mamãe inglês que anda por diletantismo, porque cansou do Bentley com motorista, um maricas que nunca precisou pegar um ônibus na vida.

Jack é alguém que sofreu e fez sofrer, que desaba na mesa do boteco depois de chorar por ela, e que se conseguir voltar para casa vai voltar a pé, mas não porque tem que “keep walking”: vai voltar a pé porque é assim que as coisas são.

Johnny se acha grande, se acha o dono do mundo. Jack, e todos nós, sabemos que porra nenhuma interessa, que é tudo uma grande brincadeira, e que a gente às vezes chora enquanto ela não acaba. Sabemos que não somos nada, mas que nossas pequenas tragédias são enormes.

Só Jack entende o que há de inexorável nesta vida; as suas tantas promessas não cumpridas, os compromissos a que você não compareceu, só ele entende que você mente sendo sincero. Jack sabe; Johnny não fala nossa língua.

Jack Daniel’s é para quem se arrepende. Não acredite em quem diz não se arrepender de nada nesta vida, porque esse é um idiota, não merece sequer sentir o cheiro do milho. Ou então, pior, não viveu, tem o orgulho néscio de nunca ter errado porque só tomou as decisões certas na vida e não sabe de nada, de nada. De nada. É só outro idiota. E de idiotas o mundo está cheio, é contra eles que Jack nos protege.

Só não gosta de Jack Daniel’s quem nunca fez nada errado; quem nunca se arrependeu de nada. Quem nunca viu uma mulher chorar na sua frente, por sua causa, e só sentiu enfado; quem nunca jurou um amor que não sentia por causa de um rabo maravilhoso e peitos que precisavam ser engolidos por sua boca; só não gosta de Jack Daniel’s quem nunca puxou os cabelos dela sabendo que ela ia gostar, quem nunca deixou o seu colo marcado de vermelho como quem diz você é minha. Só não gosta de Jack Daniel’s quem nunca ouviu “desse jeito você acaba comigo”.

O resto não vale a pena. O resto é Logan, nome que não merece sequer um sobrenome, bastardo que é.

Por isso não, Adriano. Jack Daniel’s, não. É mister John Daniel’s para você. Marque hora com antecedência. E então pode falar mal o quanto quiser, porque ele não vai se importar.

Aquela bola



Por Luis Fernando Veríssimo

Na volta do jogo, o pai dirigindo o carro, a mãe ao seu lado, o garoto no banco de trás, ninguém dizia nada. Finalmente o pai não se aguentou e falou:

– Você não podia ter perdido aquela bola, Rogério.

– Luiz Otávio… – começou a dizer a mãe, mas o pai continuou:

– Foi a bola do jogo. Você não dividiu, perdeu a bola e eles fizeram o gol.

– Deixa o menino, Luiz Otávio.

– Não. Deixa o menino não. Ele tem que aprender que, numa bola dividida como aquela, se entra pra rachar. O outro, o loirinho, que é do mesmo tamanho dele, dividiu, ficou com a bola, fez o passe para o gol e eles ganharam o jogo.

– O loirinho se chama Rubem. É o melhor amigo dele.

– Não interessa, Margarete. Nessas horas não tem amigo. Em bola dividida, não existe amigo.

– E se ele machucasse o Rubem?

– E se machucasse? O Rubem teve medo de machucá-lo? Não teve. Entrou mais decidido do que ele na bola, ficou com ela e eles ganharam o jogo.

– Você está dizendo para o seu filho que é mais importante ficar com a bola do que não machucar um amigo?

– Estou dizendo que em bola dividida ganha quem entra com mais decisão. Amigo ou não.

– Vale rachar a canela de um amigo pra ficar com a bola?

– Vale entrar com firmeza, só isso. Pé de ferro. Doa a quem doer.

– É apenas futebol, Luiz Otávio.

– Aí é que você se engana. Não é apenas futebol. É a vida. Ele tem que aprender que na vida dele haverão várias ocasiões em que ele terá que dividir a bola pra rachar e….

– Haverá – disse Rogério, no banco de trás.

– O quê?

– Acho que não é “haverão”. É “haverá”. O verbo haver não…

– Ah, agora estão corrigindo meu português. Muito bem! Eu não sou apenas o pai insensível, que quer ver o filho quebrando pernas pra vencer na vida. Também não sei gramática.

– Luiz Otávio…

– Pois fiquem sabendo que o que se aprende na vida é muito mais importante do que o que se aprende na escola. Está me ouvindo, Rogério? Um dia você ainda vai agradecer ao seu pai por ter lhe ensinado que na vida vence quem entra nas divididas pra valer.

– Como você, Luiz Otávio?

– O quê?

– Você dividiu muitas bolas pra subir na vida, Luiz Otávio? Não parece, porque não subiu.

– Ora, Margarete…

– Conta pro Rogério em quantas divididas você entrou na sua vida. Conta por que o Simão acabou chefe da sua seção enquanto você continuou onde estava. Conta!

– Margarete…

– Conta!

– Eu estava falando em tese…

O que eles disseram antes do último suspiro



Por Sérgio Augusto

Ainda vão dizer que a morte nunca mais foi a mesma depois que o psicodélico Timothy Leary a curtiu numa boa, via Internet. Ao contrário de Woody Allen, ele não só não temia a morte como adorou estar vivo quando ela bateu à sua porta. Como ela há muito se anunciara, sobrou tempo para Leary bolar suas últimas palavras com o mesmo capricho de quem vai, não para os campos elíseos, mas para a entrega do Oscar. Na hora h, preferiu ser breve: “Why not? Yeah!” (Por que não? Sim!).

Breve, impávido, mas nada brilhante.

Em seu lugar, Woody Allen talvez dissesse algo mais inteligente ou mais engraçado. “Rosebud”, por exemplo. Ou, então, “Misericórdia divina, será que Rico chegou ao fim?”

(Quase todo mundo sabe que “Rosebud” foi a última coisa que o personagem de Orson Welles em Cidadão Kane pronunciou antes de morrer. Poucos, no entanto, ainda se lembram do epílogo de Alma no Lodo, quando o gângster Rico Bandello, aliás Edward G. Robinson, crivado de balas pela polícia, perguntava aos céus se sua hora afinal havia chegado.)

Mas é bem possível que Woody Allen, ao bater as botas, trema nas bases, perca o senso de humor e não se saia tão galhardamente quanto o poeta americano Hart Crane e o romancista inglês H.H. Munro, mais conhecido como Saki.

Ao se jogar ao mar de um navio que o trazia do México, em 1932, Crane não se esqueceu de se despedir da turma do convés: “Adeus, pessoal!” Saki, apesar de atingido mortalmente por um tiro, em plena guerra, ainda encontrou forças para ordenar a um tabagista a seu lado: “Apague a porcaria desse cigarro!”

Bravos rapazes. Enfrentar a morte com galhardia é proeza pra macho. Apesar das aparências, Oscar Wilde era um deles. Segundos antes de abotoar o paletó, pediu mais uma taça de champanhe e, sem perder o velho aplomb, comentou: “Estou morrendo como sempre vivi, além das minhas posses.”

A despedida de Wilde é uma das minhas favoritas. Páreo duro com a de Goethe (“Mais luz!”), talvez a mais conhecida de todas depois do perdão que Cristo reivindicou na cruz para seus algozes.

Parece que sempre escurece quando entregamos a alma a Deus. “Acendam as luzes”, ordenou o escritor O. Henry em seu leito de morte. “Eu não quero ir pra casa no escuro”, acrescentou – e em seguida esticou as canelas.

Acontece que na casa para onde ele ia tampouco havia luz, pois, segundo consta, do “outro lado” reinam as trevas – ao menos enquanto não decidem o nosso destino final, se o paraíso ou o inferno. Precavido, o filósofo Jean-Jacques Rousseau, ao empacotar, anunciou: “Vou ver o sol pela última vez.”

Dorothy Parker morreu dormindo. É de se esperar que ela fizesse alguma gracinha antes de dar seu último suspiro. Na verdade ela fez, porém muito antes de vestir a camisola de madeira, quando escolheu os dizeres de sua lápide: “Pardon my dust” (Desculpe o pó), debochada alusão à substância a que a morte nos remete.

Nisso igualou-se ao poeta inglês John Keats, que embora tenha sucumbido à tuberculose na presença de uma testemunha (o pintor Joseph Severn, a quem disse: “Vou morrer naturalmente. Não se assuste. Graças a Deus chegou a minha hora”, tendo ao fundo uma sonata de Brahms), será sempre lembrado pela inscrição que sugeriu para a sua tumba: “Sinto as flores crescendo em cima de mim.”

A propósito, nem todas as pessoas engraçadas que não morrem dormindo expiram com um chiste na ponta da língua. Sérgio Porto, o saudoso Stanislaw Ponte Preta, não soltou uma piada ao ser fulminado por um enfarte em 1968, mas a maneira como pediu à empregada que se comportasse naquele momento traiu o humorista: “Não olhe para mim, não, Lena, que eu estou apagando.”

Também era uma criada que o ex-campeão mundial de pesos pesados Max Baer tinha a seu lado quando, no ano seguinte, entregou suas luvas ao Todo Poderoso: “Oh, Deus, lá vou eu.”

O estilo é o homem. Assis Chateaubriand exibiu sua autoridade até o fim: “Não vou escrever nem editar mais nada!”. Se Voltaire foi trivial (“Me deixem morrer em paz”), Diderot nem a um passo da eternidade parou de filosofar. “O primeiro passo rumo à filosofia é a incredulidade”, sentenciou em seu leito de morte.

Charles Darwin mostrou-se modesto na hora de ajustar suas contas com o Criador. “Eu não tenho menos medo de morrer que os outros”, confessou – e, como os outros, foi virar comida de minhoca.

No extremo oposto, encontramos Hegel, que mordeu o pó com a seguinte observação: “Só um homem conseguiu me entender… e não me entendeu direito.” Um século mais tarde, outro gênio da opacidade, James Joyce, se despediria desta com uma pergunta enigmática: “Será que ninguém entende?”. Joyce foi fiel a si mesmo até na hora de entregar a rapadura.

Seu conterrâneo George Bernard Shaw não ficou atrás. Ranzinza como ele só, irritou-se com a enfermeira que se esfalfava para mantê-lo vivo: “Irmã, você está tentando me manter vivo como uma peça de antiguidade, mas eu já acabei, cheguei ao fim, estou morrendo.” E morreu mesmo. Com uma antiga idade, 94 anos.

Outro modelo de autenticidade, o empresário P.T. Barnum, dono dos mais luxuosos picadeiros da América no final do século passado, despediu-se do mundo dos vivos falando do que mais entendia: negócios. “Como foi a venda de ingressos hoje no Madison Square Garden?”, perguntou a um assistente – e apagou. Se não me engano, demorou a morrer, padecendo um longo coma, do qual nunca emergiu.

Tal não foi o caso do teatrólogo e grande frasista da Broadway Wilson Mizner, que ao sair do coma ainda teve cabeça para dar um fora no padre que tentava convencê-lo dos benefícios da confissão: “Por que me abrir com você se já falei com o seu patrão?”

As últimas palavras de Graciliano Ramos também foram proferidas na volta de um coma. Não, ele não se queixou de estar perto do fim (“Estou acabado”, teria dito, segundo algumas versões). A viúva do escritor, Heloísa Ramos, conta que na verdade ele saiu do coma, olhou para ela, deu um sorriso crivado de ternura e dor, encostou a mão espalmada no rosto dela, sussurrou “mamãezinha” e dormiu para sempre.

A morte do velho Graça não foi a única a ter mais de uma versão. Há quem sustente que Rabelais, ao morrer, disse estar indo “para o grande talvez”. Outros, no entanto, asseguram que ele, bem ao seu estilo, ordenou aos circunstantes: “Desçam as cortinas, a farsa acabou.”

As last words de Byron também produziram discussões, a meu ver irrelevantes. Afinal, que diferença existe entre “agora, vou dormir” e “tenho de dormir agora”? Controvérsia mais procedente suscitaram as últimas palavras de Edgar Allan Poe. Para uns, ele teria clamado “Deus tenha pena de minha pobre alma”. Segundo outros, Poe implorou que lhe estourassem os miolos com um tiro.

O dramaturgo norueguês Henrik Ibsen e o compositor alemão Arnold Schoenberg saíram de cena do mesmo jeito. A enfermeira entra no quarto e diz que ele (Ibsen, em 1906; Schoenberg, em 1951) está melhorando. “Ao contrário”, contesta o moribundo, morrendo logo depois.

Com o escritor inglês D.H. Lawrence ocorreu justamente o inverso. Suas últimas palavras traíam um otimismo descabido: “Estou melhor agora.”

Tolstói preocupou-se mais com a forma de sua morte (“E os camponeses? Como é que os camponeses morrem?”) do que com o seu, digamos, conteúdo. Sócrates revelou-se um moribundo tão pragmático quanto P.T. Barnum. Antes de baixar sepultura, pediu a Cristo que saldasse uma dívida para ele. Platão? Limitou-se a agradecer por ter nascido homem, grego e contemporâneo de Péricles.

Nossa maior glória literária, Machado de Assis, foi mais abrangente que Platão. Cercado por seis amigos, entre os quais Euclides da Cunha, José Veríssimo e Coelho Neto, reservou o que ainda restava de seu fôlego para admitir que “a vida é boa”. E só então partiu de vez.

Para amainar um pouco o tom forçosamente fúnebre desta página, ressuscito a mais divertida de todas as despedidas desta vida. Protagonista: o trêfego José do Patrocínio Filho, finado em 1929. Quando estava nas últimas, arruinado por drogas e biritas, sem apetite para nada, seu médico apelou para um alimento especial: leite humano.

Ao ver a dificuldade com que a enfermeira tirava o leite dos belos e fartos seios de uma doadora profissional, para depositá-lo numa minúscula colher, Zequinha do Patrocínio arregalou os olhos e sugeriu: “Doutor, não é melhor eu mamar?”. E em seguida foi mamar no além.

(Publicado originalmente pelo jornal OESP em 15 de junho de 1996)

quinta-feira, dezembro 05, 2019

Epa, oba e quá-quará-quaquá



Por José Carlos Fernandes

Eu somava 9-10 anos de idade quando aconteceu a minha “primeira vez com O Pasquim”. Foi em 1977. Meu pai – um português que saiu aos seus patrícios e encontrou alegria atrás de um balcão – tinha uma banca de jornais e revistas no bairro Água Verde, em Curitiba.

Do lado do caixa – seu posto de comando – instalou umas traquitanas de ferro, feitas por ele mesmo, nas quais pendurava material que a qualquer momento poderia ser apreendido pela Polícia Federal. O local era estratégico para amenizar o impacto da correria, a cada batida dos emissários do governo, cena comum em tempos de regime militar.

Mesmo com o fim da censura prévia, em 1975, ele pendurava ali os jornais Opinião, Movimento e, claro, O Pasquim, presos com grampo de roupa para ninguém bisbilhotar.

Usava das mesmas estratégias para as revistinhas pornôs da editora Grafipar, como a Peteca, a Playboy dos paranaenses – vendida em herméticos saquinhos plásticos. E para os livros de bolso eróticos assinados por Cassandra Rios – também embalados quase que a vácuo. Ao lado desses “malditos” todos, lembro de ver as edições nacionais da obra de Dalton Trevisan.

Ocorreu que naquela ocasião não se falava de outra coisa no Brasil senão no assassinato da socialite Ângela Diniz, por seu companheiro, Doca Street, ocorrido em dezembro de 1976. Manchete, Cruzeiro, Fatos & Fotos – parecia não haver outro assunto senão o novelão trágico que vitimou a “Pantera de Minas”, como Diniz ficou conhecida.

Na capa de O Pasquim, a chamada não deixava barato: “Veja Ângela Diniz nua, na página 6”. Fiquei curioso – e quando o pai se exilou no banheiro, arranquei o grampo de roupa e procurei a matéria. Foi quando tomei um tabefe, não do dono da banca, mas dos editores do jornal. Era uma “pegadinha”, escrita mais ou menos assim: “Seu sem vergonha, a mulher morre com um monte de tiros e você vem aqui para vê-la sem roupa”.

Esse era O Pasquim. E olhe que não estava na sua melhor fase. De meados dos anos 1970 em diante, o mais célebre jornal nanico brasileiro em todos os tempos acumulava desventuras em série. Tinha provado o cálice amargo da censura mais de uma vez, o que lhe cobrava com juros no desempenho comercial; via seus membros se acotovelarem, em meio a rusgas que o tempo não apagou, pondo no ringue brizolistas e os demais; driblava os credores e assistia à queda livre das tiragens.

Recuperou-se, em parte, ao criar em 1974 a editora Codecri, boa de vender livros. Mas não houve milagres. Dos 200 mil exemplares dos anos de ouro, passou a amargar 40 mil semanais, até beijar a lona no final da década de 1980, com edições modestas, de 3 mil exemplares e cada vez mais distantes uma da outra. Ao encerrar as atividades, o que mais se ouvia é que O Pasquim devia ter imitado Greta Garbo, jogado a toalha quando se via no auge e saído aos gritos de “bravo”.

Mas o palpite estava errado. Na prática, O Pasquim nunca morreu. Parou de circular, mas jamais deixou de ser citado, na maioria das vezes com reverência. A começar pela trupe que o produziu, fazendo o melhor do jornalismo e do humor brasileiro em tempos de ditadura – a dizer: Paulo Francis, Ivan Lessa, Millôr Fernandes, Sérgio Cabral (o pai), Henfil e Jaguar...

A lista é longa e um luxo, passando pelo controvertido Tarso de Castro – cuja gestão regada aos melhores uísques sacolejou a contabilidade daquele misto de empresa, cooperativa, sociedade alternativa e clube de amigos. Ou “patota”, como se autodenominavam, unida em torno do “jornaleco”, substantivo de preferência geral, obediente à regra magna: avacalhar.

Reza a lenda que a cada nova crise financeira, mudava-se o estatuto da casa, num sobe e desce tão anticorporativo que ficou difícil sustentar a tese de que O Pasquim foi fechado pela ditadura. O AI-5 ajudou, é fato, mas se trata de um caso clássico de autossabotagem.


 Em prol da tese da imortalidade, some-se o fato de que a maneira de fazer jornalismo no Brasil ficou marcada pelo antes e depois de O Pasquim. Não por menos, seus santos protetores eram o Barão de Itararé e Sérgio Porto, mestres na arte de demolir catedrais na base do sarro. O estilo coloquial – como uma fala – deu um pé nas afetações praticadas de forma “democrática”, nos piores e nos melhores programas de rádio e tevê.

A linguagem empostada, à Repórter Esso, pairava também nos jornais impressos, que ainda tropeçavam no uso das regras de elegância exportadas do jornalismo norte- -americano, no final dos anos 1940.

“O Pasquim tirou as aspas da imprensa brasileira”, declarou certa vez Ivan Lessa, diretamente de seu autoexílio londrino, ao se referir ao estilo direto e divertido do hebdomadário – como um dia se falou.

O jornaleco também colocou asteriscos – a exemplo dos usados para sinalizar os palavrões que saíram feito confete da boca da atriz Leila Diniz, na famosa entrevista da edição 22, no final de 1969. Some-se à receita o uso divertido das expressões como “epa” e “oba”, cuja variedade de sentidos se encarregava de dizer tudo com míseras três letras.

Em miúdos, não se deixou de, em alguma medida, copiar O Pasquim. Nada foi mais contracultura, contra a cultura da imprensa, inclusive. Atingidos sem dó por tanta personalidade, os jornalões tiveram de encarar a notícia encharcada de cinismo e hedonismo. Alguém era capaz de entrevistar do colunista Ibrahim Sued a dom Hélder Câmara, sem cair do salto. Mais. Aprendeu na marra a falar palavrão. Melhor, aprendeu a falar.

Uma entrevista à moda do jornal ipanemense, por exemplo, permite a participação de três entrevistadores, perguntas indiscretas e edição ligeira, de modo a levar o leitor para dentro da cena e do modo de dizer, para alegria dos analistas de discurso e de conteúdo.

Se um título de matéria em qualquer jornal ou revista é bem-humorado, outra coisa não fez senão “beber n’O Pasquim. É imitado. E inimitável. Um jornal de chargistas – um Charlie Hebdo tropical.

Encontrar um exemplar para saber como era, pelo visto, nunca constituiu uma dificuldade: num sebo perto de você sempre tem um exemplar à venda, empacotado, mas não mais pela censura. Quem tem um exemplar, cuida.

Houve casos de facilitações flagrantes – no início dos anos 1990, a jornalista Valéria Prochmann, então diretora da Biblioteca Pública do Paraná, comprou uma coleção completa para pesquisa. A partir de 2006, para alegria geral da nação, a editora Desiderata lançou três livros com os melhores momentos d’O Pasquim. Pura ironia pensar que tudo aquilo nasceu para ser um jornal do bairro de Ipanema.

Agora a coleção estará toda na internet – à disposição de quem não viu e não viveu nos anos do chumbo, ou nem faz ideia da trabalheira que dava fazer rir debaixo de cassetetes. O beneplácito é da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e não tem cortes, o que deve servir de pasto para pesquisadores.

Não há incursão à imprensa brasileira que não contemple O Pasquim. Melhor, difícil não ilustrar essa história sem recorrer a alguma página dentre as muitas antológicas produzidas pelos editores — a da travesti Rogéria em poses de Monalisa, por exemplo. Ou a provocação machista aos paulistas, chamados de “bichas”, numa blague alimentada pela velha contenda entre Rio de Janeiro e São Paulo.

Não raro, o julgamento dessas proezas se mostra extemporâneo, o que é uma solene sacanagem. Difícil um jovem de hoje que não se horrorize, senão com o palavreado, com o sexismo típico dos garotões que conduziam a redação.

Em definitivo, O Pasquim era incorreto aos olhos de hoje em dia, mas fiel ao gênero satírico, bebido na fonte de Sade e Voltaire. Melhor não bani-lo sem considerar que forneceu oxigênio à nação em boa parte dos 21 anos da mais escura noite que atravessamos. A gente lhe deve respeito, mesmo quando O Pasquim errava a mão.


De tudo o que se escreveu sobre o jornal, nada se equipara ao superlativo Jornalistas e revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa, do pesquisador Bernardo Kucinski. A obra teve duas ruidosas edições. E ainda que faça um apanhado da nata da imprensa nanica surgida a partir de 1964 – um conjunto de aproximados 300 títulos a partir da revista Pif-Paf, de Millôr Fernandes – é n’O Pasquim que o autor faz suas melhores embaixadinhas. Explico.

Kucinski é de esquerda e seu objeto de estudo um produto fidedigno da então chamada “esquerda festiva”, “esquerda caviar”, “esquerda pornográfica” ou “desbunde”. O termo é a gosto do freguês, e todos autoexplicativos.

K. poderia ter lá suas questões paralelas com uma equipe formada por sujeitos geniais, mas que estavam a léguas do espírito espartano dos comunas de carteirinha, em geral desconfiados daquele deboche regado no caldo da Inteligência. A turma fazia festa, e muita, nem sempre levando a acreditar que aquilo era revolução.

Mas Jornalistas e revolucionários não se nutre de preconceito. É preciso. Evita duas cascas de banana: o ressentimento dos que viram em jornais undergroud sérios, como Movimento e Opinião, muito mais bravura; e a mitificação. Reconhece que o O Pasquim promoveu o que de melhor se podia fazer na ocasião, na maior parte dos casos: o riso. O humor ridicularizou o poder, e aí reside o grande mérito do jornalzinho.

Em um dos documentos mais marcantes sobre o jornal, a série de vídeos Resistir é preciso, produzida pelo Instituto Vladimir Herzog, o cartunista Ziraldo conta em vídeo algumas das muitas historietas sobre O Pasquim. É genial. Quem despachava as edições para a censura era ninguém menos do que Juarez Paz, pai de Helô Pinheiro, inspiradora oficial da canção “Garota de Ipanema”.

Descrito como bonitão, praieiro e pavio curto, fazia o papel do Santo Ofício ali mesmo, na praia, ou numa garçonière. Ralhava vez ou outra diante das piadas que não entendia. Alertava que não toleraria gozação com cardeais e generais – ele mesmo ocupava patente de general no Exército –, mas privava a turma da redação de passar por um beija-mão insuportável, corredores do poder adentro, para conseguir liberação. Não gozou de 100% de liberdade, talvez nem 80%, como se podia conferir até na banquinha do seu Fernandes, na Água Verde, volta e meia visitada pelos agentes. Mas que sambou, sambou. 

É como se cada personagem que passou pela redação d’O Pasquim fosse um livro. Estava lá a jornalista Marta Alencar, uma das únicas mulheres no meio do homerio. O ratinho Sig, invenção de Jaguar em homenagem a Sigmund Freud. As cartas aos leitores respondidas por um doidivanas Ivan Lessa. A resistência da cambada toda ao feminismo – por temer que acabasse com o romantismo. O personagem fictício que circulava pela redação. Tinha nome – Pedro Ferreti. Era citado, escrevia cartas e nunca existiu. E explicar isso para a ditadura, quando procurou o sujeito, para prendê-lo.

(*) José Carlos Fernandes é jornalista e professor universitário. Leciona na Universidade Federal do Paraná e escreve crônicas semanais para o jornal Gazeta do Povo.

terça-feira, dezembro 03, 2019

Antigas namoradas



Por Luis Fernando Verissimo

De vez em quando as pessoas têm vontade de se inventariar. É natural. Acham que devem fazer uma recapitulação crítica da sua vida. Isso geralmente ocorre quando se chega a uma certa idade, pois a primeira condição para examinar o passado é ter um passado. A segunda condição é ter tempo.

Foi o que aconteceu com o Plínio quando se aposentou. Não tinha nada para fazer, e um dia se viu pensando nas suas namoradas. Todas as namoradas que tivera, desde a primeira. Quem fora a primeira? A Maria Augusta, claro. Nunca mais pensara na Maria Augusta. Foi uma lembrança tão forte que ele chegou a exclamar em voz alta:

– Gugu!

A mulher pensou: pronto. O Plinio ficou gagá. Só estava esperando se aposentar para ficar gagá. Senilidade instantânea. O Plinio não era de perder tempo.

Mas ele continuou:

– Que coisa. Como eu fui me esquecer?

– Quem?

– A minha primeira namorada. Maria Augusta. Gugu.

– A primeira?

– É. Nós tínhamos 12 anos. O primeiro beijo na boca. Ela que me deu. Namoramos escondidos. Uma vez combinamos que um ia sonhar com o outro. Seria um sonho só. Nos encontraríamos no sonho. Engraçado, as coisas que a gente começa a se lembrar…

– E sonharam?

– Hein? Não, claro que não. Mas mentimos que sim. O namoro durou um verão. Nunca mais soube dela. Depois veio a … a … Sulamita!

– Você namorou uma Sulamita?!

– Preciso fazer uma lista.

O Plínio saiu atrás de papel e caneta. Pronto, pensou a mulher. O Plínio encontrou uma ocupação.

– Então, vamos ver. Gugu, Sulamita…

– Que idade tinha essa Sulamita?

– Uns 14. Primeiro beijo de língua. Primeira mão no peito. Mas só por fora. Ela não queria fazer mais nada. Meu Deus, as negociações! As intermináveis negociações. Deixa. Não deixo. Pega aqui. Eu não. Só um pouquinho. Não. Você não me ama! Sexo, sexo mesmo, ou uma simulação razoável, foi só com a seguinte, que se chamava… Não. Antes do sexo teve um anjo. A Liselote. Loira, magra, alta. Pele de alabastro. O que é mesmo alabastro?

– Não sei, acho que é uma espécie de…

– Não importa. A pele da Liselote era de alabastro. Ela me disse que era um templo e que nenhum homem jamais a penetraria, e que só fazia uma exceção para o meu dedo porque eu a respeitava. E um dia mordeu a minha orelha de tirar sangue! As coisas que a gente se lembra… Liselote… Acabamos quando fizemos um pacto suicida mas eu levei tanto tempo para escrever o bilhete que ela achou que era má vontade. Anos depois nos encontramos e ela me disse que era psicóloga e tinha quatro filhos. Depois da Liselote, então, sexo animal!

– Como era o nome dela? Do sexo animal?

– Marina. Não, Regina. Cristina. Por aí. Fizemos de tudo, ou quase tudo. Foi a primeira namorada oficial, daquelas de ficar de mão dada na sala. Nossas famílias se conheciam. Durou quatro anos. Engraçado eu não me lembrar do nome dela. Me lembro de um sinalzinho na nádega, estou vendo ele agora, mas não me lembro do nome. Era para acabar em noivado, casamento assim que eu me formasse, o pai dela nos ajudaria… Mas um dia ela me viu descascando uma laranja e teve uma crise. Por alguma razão, o meu jeito de descascar uma laranja desencadeou uma crise. Ela disse que não podia se imaginar casada comigo, com alguém que descascava laranja daquele jeito. Foi um escândalo na família. Mandaram ela para a Europa, para ver se ela se recuperava e, na volta, noivasse comigo. Mas não teve jeito.

– Priscila.

– O quê?

– O nome dela é Priscila.

– Como você sabe?

– Você me apresentou, não lembra? Só não me contou a história da laranja.

– Nem sei se foi laranja. Alguma coisa que eu fazia que… Bom, Priscila. Depois dela, deixa ver… Mercedes. A boliviana. Colega na faculdade. Baixinha. Grandes seios. Vivia cantarolando. Não parava de cantarolar. Um dia eu reclamei e ela atirou um vaso na minha cabeça. Depois, depois…

– Não teve uma Isis?

– Isis! Claro. Eu falei da Isis pra você? Era corretora de móveis. Bem mais velha do que eu. Foi quem me ajudou a escolher um escritório, depois da formatura. Não chegou a ser namoro. Fizemos sexo em várias salas vazias da cidade, e ela nunca chegou a tirar o vestido. Não era bonita, mas tinha pernas longas, usava meias pretas e rosnava quando tinha um orgasmo. Rosnava. Era assustador. O negócio acabou quando eu encontrei o escritório que queria. Grande Isis… Olha aí, até que não foram muitas. Gugu, Sulamita, Liselote, Priscila, Mercedes a boliviana… Ah, teve uma, eu já contei? Uma que fazia voz de criancinha quando a gente estava na cama. Falava como criança, me chamava de paizinho, toda melosa, já pensou o ridículo? Como era o nome dela?

– Era eu, Plínio.

– O quê? Não. O que é isso?

– Era eu.

– Não era não. Que absurdo. Nós, inclusive, não transamos antes de casar.

– Transamos, namoramos, e eu falava como criancinha porque você pedia.

– Era outra pessoa.

– Era eu, Plínio. Bota o meu nome na sua lista.

– Não. Nem sei por que eu comecei esta bobagem…

– E quer saber de uma coisa? Não é o seu modo de descascar laranja, Plínio. É o seu modo de chupar laranja. A Priscila tinha razão. A Priscila tinha razão!

O Pasquim faz 50 anos e ganha exposição em São Paulo



Para festejar meio século de lançamento do jornal, o Sesc Ipiranga recebe a exposição O Pasquim 50 Anos, com curadoria de Zélio Alves Pinto e Fernando Coelho dos Santos. Trata-se de um conjunto de edições originais, além de fotos, livros e revistas que mostra como um time de craques (como Jaguar, Sérgio Cabral, Tarso de Castro, Claudius, Ziraldo, Fortuna, Henfil, Ivan Lessa, Paulo Francis, Luiz Carlos Maciel, Sérgio Augusto, além do próprio Millôr) confrontava o governo militar usando a escrita e o desenho como armas.

“O Pasquim foi único – não houve e ainda não há nada parecido, na forma, no conteúdo, no impacto, na insolência, na irresponsabilidade, e na absoluta e completa irreverência”, comenta o curador Fernando Coelho dos Santos.

De fato, pressionada – como de resto toda a imprensa brasileira – pela censura imposta pelo AI-5, decretado no final de 1968, a equipe do Pasquim evitava o confronto direto e cutucava o governo militar pelo deboche na área dos costumes e da cultura.

Para constatar isso diretamente, o público poderá, além de visitar a exposição, ter acesso a todas as 1.072 edições que foram digitalizadas e já estão disponíveis no site da Biblioteca Nacional. 

Em sua primeira fase, o tabloide trazia a fina flor do bairro carioca de Ipanema, a chamada “esquerda festiva”, cuja escrita mais oralizada e o olhar jovial e escrachado para a vida surpreendiam semanalmente o leitor.

“Não foi só a linguagem que a patota do Pasquim mudou”, observa Jaguar, na introdução de um dos volumes comemorativos lançado pela editora Desiderata, a partir de 2007. “As capas também. O nosso negócio era ser do contra. Contra a ditadura, contra as capas (não confundir com contracapas) e a linguagem solene dos jornalões no final dos anos 1960. Os militares não gostaram da brincadeira e, em 1970, boa parte da redação foi presa”.

Em novembro de 1970, onze integrantes da redação do Pasquim foram presos a mando do regime militar, irritado com a edição de número 71, que reproduzia o famoso quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo, mas com um balão sobre a cabeça de Dom Pedro I que dizia: “Eu quero mocotó!”.


O humor incomodava justamente por ser inteligente. Afinal, em todos os cantos do jornal era possível encontrar algo novo que, além de provocar risadas, transmitia uma mensagem subliminar.

Bastava, por exemplo, ler o lema que tradicionalmente aparecia abaixo do logotipo e que mudava a cada semana como uma coleção de bofetadas: “Quem é vivo sempre desaparece”, “Tesoura sim, alicate não”, “Pasquim – um folião no velório”.

Ou a famosa seção Gip Gip Nheco Nheco, cartuns para os quais Ivan Lessa criava frases lapidares, um mosaico de ‘desaforismos’ que ganharam notoriedade com o tempo: “No Brasil, morre-se muito de médico”, “O brasileiro é um povo com os pés no chão e as mãos também”, “Vomitar no Nordeste é símbolo de status” e aquele que se tornou lema para muitos historiadores: “A cada 15 anos, os brasileiros esquecem o que aconteceu nos últimos 15 anos”.

O Pasquim testava os limites do humor e da contestação, era um jornal sempre no ataque contra tudo aquilo que era desfavorável às pessoas.

“O humor, ao contrário da raiva ou apatia, era a principal arma daqueles artistas”, observa a cineasta e cenógrafa Daniela Thomas, que assina a expografia da mostra Pasquim 50 Anos ao lado de Felipe Tassara e Stella Tennenbaum. “O jornal era um manual de sobrevivência contra a ditadura, pois oferecia repertório para que o leitor soubesse contestar e não se vitimizar.”

Quando pequena, Daniela frequentava a redação do Pasquim, acompanhada do pai, Ziraldo. Lá, também encontrava o tio, Zélio. “Era um ambiente muito festivo e eu, criança, ficava com medo de que meu pai não quisesse mais voltar para casa”, diverte-se.

Tamanha intimidade favoreceu Daniela a criar os espaços expositivos que se espalham pelo Sesc Ipiranga.


A começar pela ala chamada A Gripe do Pasquim, que se refere justamente à prisão da cúpula do jornal, em 1970. Foi proibido publicar a notícia sobre a prisão. Assim, em janeiro de 1971, quando todos foram soltos, uma nota no Pasquim informava que finalmente havia passado o surto de gripe que assolou toda a equipe.

Mas, para mostrar que a cadeia não intimidou a trupe, a edição seguinte à soltura dos jornalistas trouxe a atriz Maria Claudia na capa, com a língua de fora e uma legenda sugestiva: “Estamos aqui, ó!”.

Tal extroversão marcava principalmente a entrevista da semana, encontros cuja conversa era reproduzida na íntegra, inclusive com falas secundárias, como alguém se desculpando por ir ao banheiro.

A mais notória foi a de Leila Diniz, em 1969, cujos 72 palavrões foram prudentemente substituídos por asteriscos para não irritar a censura – e Ziraldo teve a genial ideia de compactar palavras criando neologismos como ‘duca’ e ‘sifu’. 

A exposição traz ainda 33 totens que reproduzem em tamanho natural os colaboradores mais proeminentes, além de uma Redação com 26 rotativas de diversos trabalhos publicados para o público imergir na realidade do periódico, que chegou a atingir a tiragem de 200 mil exemplares semanais.

E se, de repente, o Pasquim pudesse a voltar a assombrar o Bananão Bolsonarista, como ele seria hoje? O crítico de cinema, escritor e jornalista Sérgio Augusto, que foi editor-adjunto do semanário por quase duas décadas, explica em detalhes:

– Como seria o Pasquim hoje? Uma revista eletrônica, sem periodicidade fixa e em permanente atualização, uma mídia social, com o punch e a dinâmica do Twitter e o generoso espaço do Facebook. As bombas com que, durante a ditadura, vez por outra os militantes da extrema-direita jogaram nas bancas de jornais para forçá-las a não vender o Pasquim seriam substituídas pelos torpedos e fake news da milícia digital que ajudou a eleger Bolsonaro. Seu humor continuaria cáustico e debochado, porém menos “incorreto” como, naquela época, era o de todos os humoristas, daqui e d’além-mar. Mesmo sem o tacão da censura, não teria mais condições de ser a válvula de escape, a catarse que o Pasquim foi desde o primeiro número, por falta de concorrência, pois a internet já atende bem – e de graça – essa demanda.



domingo, dezembro 01, 2019

Fantasma, o Espírito-que-anda



Por Rafael Galvão

O Fantasma foi criado por Lee Falk em 1936. Era uma época em que o mundo começava a ver imagens em movimento da África, e o continente negro se consolidou como sinônimo de mistério e exotismo, uma relíquia do colonialismo inglês e reflexo do sucesso de Tarzan nas telas.

Que eu saiba foi o primeiro super-herói a se casar nos quadrinhos, na década de 70, mas a essa altura ele já não tinha praticamente nenhuma relevância.

Um pouco depois, nos anos 90, virou moda “matar” os super-heróis, a partir da morte do Super-Homem que precisava desesperadamente de um aumento de vendas.

Nessa época eu defendia uma solução para o Fantasma que, modestamente, considerava brilhante: ele também devia morrer. Mas, ao contrário do Superman e tantos outros, devia morrer de verdade.

Era simples. Ele era o único super-herói que realmente podia morrer, porque sua estrutura permitia isso.

A lenda do Fantasma é uma das mais interessantes do mundo dos quadrinhos: tudo começou quando um navio foi atacado pelos piratas Singh, no século XVI, e Christopher Walker foi o único sobrevivente. Nas praias de Bengala (um absurdo geográfico interessantíssimo) ele fez o juramento de dedicar sua vida (e, sem consultá-los, as dos seus descendentes também) a combater a pirataria e o Mal.

A partir daí se sucederam Fantasmas. Quando um Fantasma morria e seu filho (todos recebiam o nome do pai, ou seja, Kit Walker) assumia o seu lugar; daí a lenda do “Espírito-Que-Anda”. Aquele cujas aventuras líamos era o vigésimo segundo.

Essa estrutura, para quem gosta de quadrinhos, é perfeita. Porque permite a renovação do personagem a cada 20 anos. Na minha concepção, o Fantasma seria o primeiro super-herói cujas aventuras poderiam transcorrer em tempo real, envelhecendo com seus leitores, morrendo e cedendo lugar à nova geração quando fosse perdendo força.

Por exemplo, hoje praticamente todos os personagens em quadrinhos têm dificuldades em explicar sua cronologia (no Homem-Aranha, Flash Thompson lutou na Guerra do Vietnã, que acabou há quase meio século).


Com o Fantasma isso não precisaria acontecer, ele podia simplesmente começar um novo personagem do zero. Sempre que o personagem estivesse cansado, poderia se casar sem problemas, porque daqui a alguns anos ele poderia se casar novamente, ou melhor, o seu filho poderia.

Para o público adolescente, as aventuras de cada sucessor trariam, renovadas, as mesmas emoções que seus pais haviam lido tempos atrás.

Era o plano perfeito, mesmo, e só idiotas como os donos do Fantasma não percebiam. Ahn… Eu disse perfeito? Que bobagem.

Àquela altura aquilo era impraticável. O Fantasma perdeu força simplesmente porque a África não existe mais no imaginário mundial. Os autores bem que tentaram atualizar o personagem, com Diana Palmer, por exemplo, passando a trabalhar na ONU. Mas o problema do Fantasma era estrutural, era o fato de ser indissociável de um lugar que perdia gradualmente o seu interesse.

Na década de 30 ainda era o continente negro, cheio de mistério e animais enormes, e gigantes Masai e anões pigmeus. Cecil Rhodes e Livingstone eram personagens recentes. Os safáris eram chiques.

Resumindo, o mundo do início do século XX permitia a existência do Fantasma, tornava-o crível e factível, qualidades fundamentais para o sucesso de qualquer personagem.

Hoje a África não tem mistério nenhum. Tem tutsis e hutus massacrando-se uns aos outros, tem a África do Sul recuperando-se do apartheid, tem a Libéria e a Somália, tem o Ebola e uma população miserável condenada a morrer de Aids.

Quando dizemos que a África é selvagem, certamente não é no mesmo sentido que dizíamos há um século.

A tecnologia e a informação já tinha assassinado outro personagem de Lee Falk, Mandrake (surgido na esteira do sucesso dos ilusionistas no início do século passado, com gente como Houdini, em quem era descaradamente baseado), porque suas mágicas já não convenciam, e porque aquele mundo com princesas Narda e príncipes negros Lothar servis tinha acabado.

Demorou um pouco mais para a vida matar o Fantasma. Mas conseguiu.