sexta-feira, maio 13, 2011

Aula 87 do Curso Intensivo de Rock: R.E.M.


Para quem teve o corpo congelado há duas décadas e acaba de despertar de um sono criogênico, R.E.M. é a banda que possibilitou a existência do rock alternativo na América.

Ao fim da estética new wave, foi o conjunto que se destacou entre a leva de grupos independentes do interior dos EUA, saindo em 1980 de Athens, na Georgia, terra dos B-52’s, para tornar-se o favorito das rádios universitárias e devolver as guitarras ao alto da parada – na metade dos 80, dominada por bandas inglesas de synth pop, como Culture Club e Duran Duran.

Reciclando o country psicodélico do grupo Byrds com instrumentos acústicos, distorção, senso pop, letras elípticas e engajamento político, R.E.M. serviu de modelo para o rock atual.

A Rolling Stone já o chamou de principal grupo de rock da América.

Um de seus álbuns, “Automatic For The People” (1992), entrou com destaque em duas listas entre os dez melhores discos de todos os tempos.

A banda foi fundada por John Michael Stipe, um estudante de pintura e fotografia que exercitava o gogó no banheiro, e seus amigos Peter Buck, um balconista de loja que virou guitarrista, e dois outros sujeitos que encontraram em uma festa (Mike Mills, baixo, e Bill Berry, bateria).

O nome R.E.M. vem da expressão “Rapid Eye Movement”, um termo de fisiologia usado para descrever ciclos de sono durante os quais os sonhos ocorrem.


Depois de alguns ensaios, eles fizeram seu primeiro show durante uma festa, com o nome de Twisted Kites, numa antiga igreja episcopal, sendo bastante aplaudidos.

Em 1981, gravaram um single, “Radio Free Europe”, que os projetou nas rádios universitárias e o levou a ser escolhido, numa votação do Village Voice, como o melhor single independente daquele ano.

A partir daí, cresceu a lenda.

O primeiro disco, “Murmur”, foi gravado em 1983 e é um cult da música independente.

Desde então, tiveram colaborações com gente como o escritor William S. Burroughs, Patti Smith, Sonic Youth e outros.



Em 1991, o álbum “Out Of Time” ganhou o 34º Grammy em três categorias e vendeu quatro milhões de exemplares nos Estados Unidos, graças ao hit “Losing My Religion”, tocado exaustivamente em todas as rádios do planeta.

Estava enterrado o sonho alternativo, mas não a convicção alternativa.

O vocalista Michael Stipe, notório vegetariano, passou a militar contra a matança de animais e tornou-se um ícone das causas politicamente corretas.

Eles tocaram em diversos concertos beneficentes em sua carreira, em prol de causas como a dos monges do Tibete, os doentes mentais de Athens, os aidéticos do continente africano e por aí afora.


Mas o R.E.M quase se acabou em 1998, em conseqüência de uma queda drástica de vendas e à saída do baterista Bill Berry, em outubro de 1997.

Eles estavam há 17 anos tocando juntos.

“Berry quis deixar a banda para se dedicar à família, tornar-se um fazendeiro”, disse Peter Buck. “Foi uma decisão pessoal, não envolveu brigas ou disputas, e nós continuamos amigos”.

A gravação do álbum “Up” deixou o grupo tão esgotado que seus integrantes cancelaram as turnês indefinidamente.

Ironicamente, o título do disco deveria expressar alegria e otimismo.

Um dos motivos para a aparente exaustão foi uma volta inesperada ao estúdio, para regravar partes do álbum.

O disco “Up” era a esperada “volta por cima” depois do álbum de pior vendagem da carreira da banda, cujo fracasso, ao lado de desastre semelhante ocorrido com o grupo Pearl Jam, assinalou oficialmente o fim do interesse da indústria fonográfica pela estética alternativa.

O impacto foi ainda maior porque “New Adventures In Hi-Fi”, o disco anterior, tinha sido o primeiro lançamento de um contrato de US$ 80 milhões, firmado em 1996 com a multinacional Warner.


Em “Up”, o R.E.M. procurava uma nova estética.

Era uma banda nova, reduzida ao trio formado por Stipe, Mills e Buck.

No lugar de Berry, baterias eletrônicas da década de 80 e músicos convidados – Barret Martin, do Screaming Trees, e Joey Waronker, da banda de Beck.

O primeiro single, “Daysleeper”, que empregava guitarra slide e órgão, tinha o refrão mais pegajoso desde “Losing My Religion”.

Gravado com uma proposta de renovação sonora, o álbum registrou o primeiro solo de guitarra de Michael Stipe, na faixa “Why Not Smile”, dedicada a Patti Smith.

Apesar de ter sido um fracasso de vendas e detonado pelos críticos das revistas especializadas, “New Adventures In Hi- Fi” era uma polaroid efetiva.

Ali estavam as distorções, as gravações rústicas em camarins, a microfonia dissonante, as baladas lamuriosas, o estúdio de Seattle, a sensação de álbum desleixado de superbanda e um descaso com faixas de apelo comercial.

É curioso como a abordagem do grupo se tornara oposta a do outro grande nome dos anos 80, o megalômano U2.

Ambas as bandas cresceram com cenas universitárias, mas, talvez por ser americana, só R.E.M. pareceu preocupada em preservar um perfil “alternativo”.



Gravado na estrada, durante uma turnê – em estúdios disponíveis ao longo do itinerário, em passagens de som, em algumas poucas horas antes dos shows, ou até mesmo em camarins –, “New Adventures In Hi-Fi” registra as músicas fora do ambiente hermético das grandes salas de gravação.

Apesar do “hi-fi” do título, a idéia de que qualquer buraco servia para se gravar vinha da escola “low fi”, que insiste na equação “menos é mais”.

Foi o que sobrou de mais influente do punk nos anos 90.

Que o R.E.M. tivesse entrado nessa roubada, mostrava o quanto a tendência dominava o rock americano naquele período.

As aventuras em “low fi” renderam o som mais pesado da carreira do guitarrista Peter Buck. O disco é dele.

Carregado de distorções e microfonias, o álbum afunda com o peso, necessitando muito de Prozac.

É verdade que Buck está morando em Seattle, atualmente. Mas não é o caso de chamar “New Adventures In Hi-Fi” de o álbum grunge do R.E.M.



Mesmo preservando a aura rústica, as faixas variam muito entre si. A banda se permitiu experimentar de verdade.

Já na faixa de abertura, “How The West Was Won And Where It Got Us”, entrava um piano dodecafônico. A música tinha uma marcação dançante e um arranjo sombrio, que sugeria que R.E.M. andava ouvindo até trip hop.

“Leave” era outra mudança radical. Os ruídos sequenciais remetiam à música eletrônica. Mas a voz de Michael Stipe não deixava dúvidas de que se tratava de uma canção do R.E.M.

Por mais que testassem novas águas, a banda sempre retornava aos elementos que a consagraram, ou seja, vocais murmurados, sotaque caipira, viola country e arranjo ligeiramente psicodélico, ainda inspirado por Velvet Underground e Byrds, como nos 80.

A identidade era garantida pelo fato de a banda não mudar de produtor, Scott Litt, há nove anos segurando a onda.

Mesmo assim, Lou Reed pode ter tido um susto ao ouvir “Departure” e não se lembrar de quando gravou a música. O R.E.M. exagerou na influência.



Patti Smith participou da faixa “E-Bow The Letter”. O título se referia a um efeito que Buck tirava na guitarra – o som de um violino.

Era a música de trabalho, mas não tinha refrão assobiável.

Stipe atropelava as palavras de forma discursiva, como Bob Dylan, e Patti Smith apenas murmurava. Havia melhores opções para o segundo single.

“So Fast, So Numb”, por exemplo, era animada como o hit “Stand” (1989).

Em “Electrolite”, Stipe lembrava o estilo de uma amiga, Natalie Merchant.

Mas a matadora era mesmo “Be Mine”.

Acompanhado a maior parte do tempo apenas pela guitarra de Buck, Stipe mostrava para Soundgarden e companhia como se faz uma baladona distorcida até na alma.

A atmosfera geral era soturna.

A paisagem desolada do interior americano, capturada em fotos preto-e-branco, na capa e no encarte do disco, conseguia ser lida pelo laser.

Os títulos, “Departure”, “Leave”, “Low Desert” e “How The West Was Won And Where It Got Us”, carregavam a poeira da estrada.

A verdade é que a turnê foi uma sucessão de acidentes e doenças, que colocaram em risco a vida de alguns dos integrantes do grupo.



De bem com a vida, após o sucesso de “Up”, o R.E.M voltou ao estúdio e lançou um disco emblemático, “Reveal”, que chegou às lojas em 2002.

“Eu não quero pisar na minha própria sombra”, diz Stipe na letra de “Summer Turns To High”, uma das melhores faixas do álbum.

Por conta do propósito de não se repetir, a fórmula de melancolia chuvosa do grupo cedeu lugar a um ensolarado conceito no qual se embaralham canções de influências diversas.

O techno encontra o folk, um simulacro de Brian Ferry flerta com eflúvios de James Taylor, o fantasma de Paul McCartney dedilha violões sob uma base de teclados: tudo lembra algo no disco do R.E.M., ao mesmo tempo que é uma espécie de “imitação da vida” deliberada, “como um show fashion adolescente de sexta-feira à noite”.

Em sua letra, a canção “Imitation Of Life” dá algumas pistas para a interpretação sonora do puzzle de Stipe, Buck e Mills.



O arco-íris sonoro do R.E.M. começa com “The Lifting”, na qual já se anuncia uma enxurrada de teclados e véus sonoros, mas que não pisa nem um milímetro no interior da fronteira do que se pode chamar de música eletrônica.

É a velha guitarra alternativa de Peter Buck que dá a marcação à música.

“The Lifting”, como diz o nome, é para cima, alto-astral, vigoroso tour de force do R.E.M.

“Uma vez você teve um sonho, de oceanos e cidades afundadas, memórias de coisas que nunca conheceu”, canta Stipe.

A música “Chorus And The Ring” é puro James Taylor, uma baladona redonda, fofa e agridoce da melhor cepa.



“Beat A Drum” tem um senso melódico digno de Paul McCartney.

Já a faixa “I’ve Been High” tem a cor de Brian Ferry, ex-Roxy Music, naquela interpretação que é escandalosamente fingida, lembrando um cantor de boate caída de strip-tease que usa ternos Armani.

Ao fundo, os efeitos de teclado permanecem afirmando certa obsolescência eletrônica, necessária, porém não mais fundamental.

“I’ll Take The Rain” evoca os primeiros tempos do grupo, um clássico lamento folk: “Se os pássaros cantam sobre a vida, por que não podemos?”.

E então vem “Beachball”, com uma levada meio easy listening, música para ouvir preso num congestionamento durante uma tarde chuvosa.


Com a ajuda de um time de instrumentistas all star, que inclui o baterista Joey Waronker e os tecladistas Scott McCaughey e Ken Stringfellow, do grupo Posies, o álbum tem produção de Pat McCarthy, que foi engenheiro de produção no disco “Ray Of Light”, de Madonna.

Desde 1983 na estrada, quando lançou o disco “Murmur”, o R.E.M. revela-se por inteiro na sua nova obra.

A revelação, no entanto, não esgota o admirável manancial criativo da banda.

Pelo contrário: só mostra que sua compreensão do universo da música pop é infinitamente mais abrangente do que supúnhamos.

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