domingo, agosto 16, 2015

Guerra urbana na fronteira econômica


No tempo da Guerra Fria haviam as fronteiras ideológicas que atravessavam países e continentes, separando o “mundo livre” do outro e dos simpatizantes do outro. Foi para defender a fronteira ideológica na América Latina que a política de contra-insurgência americana patrocinou os nossos governos militares, treinou os nossos torturadores e zelou pelas nossas respectivas seguranças nacionais.

Se apoiou tiranos, pelo menos eram “tiranos do nosso lado”, como os descreveu Jeanne Fitzpatrick, ex-delegada americana na ONU e na época a Passionaria da direita deles. A não ser que visitasse um país comunista ou frequentasse algum aparelho clandestino, você nunca cruzava a fronteira ideológica. Sequer a via. Independente das suas simpatias ou eventuais rebeldias, vivia dentro de um perímetro comum delimitado e firme.

Quando a Guerra Fria amainou e as fronteiras ideológicas começaram a desaparecer, nos vimos livres dos generais, mas dentro de outra macrogeografia, a das fronteiras econômicas. Estas são visíveis demais. Separam bairros, dividem ruas, são fluidas e ondulantes – e você as cruza todos os dias. No trajeto entre seu condomínio fechado e seu escritório, ar-condicionado dentro do seu carro importado, você a cruza mais de uma vez. Passa por flóridas, suíças, bangladeshes, algumas bolívias, e em cada sinal que para, está na Somália.

É impossível defender esta fronteira. A grande questão deste novo século é como defender seu perímetro pessoal da miséria impaciente e predadora. Os americanos não podem ajudar desta vez. A fronteira maluca ziguezagueia dentro dos Estados Unidos também. E, afinal, eles não conseguiram invadir todas as somálias.

No Brasil da criminalidade crescente experimenta-se com uma versão da teoria da segurança nacional adaptada às fronteiras econômicas. Enfrenta-se ao mesmo tempo uma bandidagem organizada e a falência de uma organização policial. Mas no fim é uma guerra de contenção, de proteção de perímetro. E os excessos cometidos podem ser defendidos como a sra. Fitzpatrick defendia a política americana: os fins justificam as barbaridades.

As chacinas no campo e na cidade, a liberdade de pequenos tiranos de uniforme para serem arbitrariamente violentos, até as condições subumanas de nossas cadeias, tudo é permitido porque não se está apenas mantendo a ordem, está-se defendendo uma pátria ameaçada, a pátria do privilégio e da insensibilidade social. Tudo é escaramuça na fronteira.

E quem sabe não seremos um laboratório para o mundo? A mão da história indica uma sociedade em que a única solução para os excluídos será mata-los. A não ser, claro, que de uma hora para outra todos os pobres decidam renunciar à sua condição e tornar-se capitalistas instantâneos, como fizeram os comunistas, naquela outra guerra.

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