27. Agosto de 1982. O GRES Vitória Régia
conseguiu um feito que, para a época, equivalia a contratar os Rolling Stones
para tocar no quintal de casa: trazer Martinho da Vila para um show exclusivo
em Manaus. Durante um mês inteiro, um carro volante percorreu a cidade
anunciando o acontecimento histórico. O veículo atravessou becos, avenidas,
igarapés, invasões, conjuntos habitacionais e provavelmente algumas dimensões
paralelas, repetindo sem descanso:
– Grande show
de Martinho da Vila! Grande show de Martinho da Vila!
A diretoria da
escola fazia contas otimistas. Casa cheia. Lucro garantido. Prestígio em alta.
Nada poderia dar errado. Naturalmente, tudo deu errado.
Poucas horas
antes da apresentação, já instalado no hotel, Martinho da Vila chamou um
assessor e comunicou uma necessidade que considerava tão importante quanto
afinar os instrumentos ou testar o sistema de som. Precisava relaxar. Mais
especificamente, precisava fumar um cigarro de índio.
O assessor
entendeu a gravidade da situação. Afinal, havia missões impossíveis, missões
suicidas e missões envolvendo artistas antes de um show. Depois de uma
sequência frenética de telefonemas, surgiu um nome: Chico Padeiro. Morador da
Cachoeirinha. Lenda viva. Fornecedor cuja reputação corria pela cidade com a
mesma velocidade das fofocas e das contas atrasadas.
Os dois
embarcaram num táxi e seguiram para a residência do mestre artesão botânico. Ao
chegarem, foram recebidos pelo próprio Chico Padeiro, que os acolheu com a
elegância de um sommelier francês recebendo a visita da realeza. Cumpridos os
protocolos iniciais, Chico entrou na casa. Minutos depois retornou carregando
uma pequena mala de couro.
Martinho
observava tudo sentado numa cadeira de macarrão, dessas que transformam
qualquer varanda em consultório de psicólogo. Chico pousou a mala aos seus pés.
Abriu. O conteúdo era tão abundante que a mala parecia ter sido preparada para
abastecer uma pequena república independente. Com humildade profissional, Chico
explicou:
– Pode fazer
uma presença pra saber se o produto é bom.
Era como
oferecer uma colherada de sorvete ao cliente antes da compra. Martinho aprovou
o procedimento. Pegou uma amostra. Preparou o finório com a precisão de um
relojoeiro suíço. Acendeu. Deu uma tragada. Depois outra. Depois uma terceira,
daquelas capazes de fazer um sujeito conversar amigavelmente com as cortinas da
sala. Prendeu a respiração. Fechou os olhos. Esperou. E aguardou a chegada do
famoso tapa da pantera. O tapa chegou. Chegou de caminhão. Chegou de carreta.
Chegou acompanhado de banda de música.
Porque,
segundos depois, Martinho abriu os olhos e pronunciou uma das mais importantes
avaliações de qualidade já registradas na história do comércio informal
amazônico:
– A mala é
minha.
Fez uma pausa.
Olhou novamente para a mercadoria. E reforçou:
– A mala é
minha!
Negócio
fechado.
Enquanto isso,
na quadra da Vitória Régia, milhares de pessoas aguardavam o artista. O horário
passou. Mais um pouco. Mais um tanto. E nada de Martinho. Os dirigentes
começaram a suar em bicas. A plateia começou a reclamar. A reclamação virou
revolta. A revolta começou a flertar com o motim. Em poucos minutos, a situação
exigiu a presença da Polícia de Choque para convencer a multidão de que
incendiar a quadra talvez não fosse a solução mais adequada.
Na
Cachoeirinha, porém, o clima era completamente diferente. Ali reinava a paz. A
serenidade. A contemplação. O estado zen. Indiferente ao caos que se instalava
na Praça 14, Martinho permaneceu afundado na cadeira de macarrão, apreciando a
brisa da varanda e estudando com rigor científico a qualidade extraordinária do
produto fornecido por Chico Padeiro.
O show foi
cancelado. A escola entrou em parafuso. A polícia trabalhou. O público
esbravejou. E Martinho passou a noite inteira firme em sua missão de pesquisa.
Porque existem artistas que cancelam apresentações por problemas técnicos.
Outros por questões de saúde. E existe o raro caso do sujeito que encontra uma
varanda ventilada, uma cadeira confortável e uma mercadoria de qualidade
internacional. Contra uma combinação dessas, simplesmente não há produtor
cultural que dê jeito.
Nenhum comentário:
Postar um comentário