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quinta-feira, agosto 20, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 27

 


27. Agosto de 1982. O GRES Vitória Régia conseguiu um feito que, para a época, equivalia a contratar os Rolling Stones para tocar no quintal de casa: trazer Martinho da Vila para um show exclusivo em Manaus. Durante um mês inteiro, um carro volante percorreu a cidade anunciando o acontecimento histórico. O veículo atravessou becos, avenidas, igarapés, invasões, conjuntos habitacionais e provavelmente algumas dimensões paralelas, repetindo sem descanso:

– Grande show de Martinho da Vila! Grande show de Martinho da Vila!

A diretoria da escola fazia contas otimistas. Casa cheia. Lucro garantido. Prestígio em alta. Nada poderia dar errado. Naturalmente, tudo deu errado.

Poucas horas antes da apresentação, já instalado no hotel, Martinho da Vila chamou um assessor e comunicou uma necessidade que considerava tão importante quanto afinar os instrumentos ou testar o sistema de som. Precisava relaxar. Mais especificamente, precisava fumar um cigarro de índio.

O assessor entendeu a gravidade da situação. Afinal, havia missões impossíveis, missões suicidas e missões envolvendo artistas antes de um show. Depois de uma sequência frenética de telefonemas, surgiu um nome: Chico Padeiro. Morador da Cachoeirinha. Lenda viva. Fornecedor cuja reputação corria pela cidade com a mesma velocidade das fofocas e das contas atrasadas.

Os dois embarcaram num táxi e seguiram para a residência do mestre artesão botânico. Ao chegarem, foram recebidos pelo próprio Chico Padeiro, que os acolheu com a elegância de um sommelier francês recebendo a visita da realeza. Cumpridos os protocolos iniciais, Chico entrou na casa. Minutos depois retornou carregando uma pequena mala de couro.

Martinho observava tudo sentado numa cadeira de macarrão, dessas que transformam qualquer varanda em consultório de psicólogo. Chico pousou a mala aos seus pés. Abriu. O conteúdo era tão abundante que a mala parecia ter sido preparada para abastecer uma pequena república independente. Com humildade profissional, Chico explicou:

– Pode fazer uma presença pra saber se o produto é bom.

Era como oferecer uma colherada de sorvete ao cliente antes da compra. Martinho aprovou o procedimento. Pegou uma amostra. Preparou o finório com a precisão de um relojoeiro suíço. Acendeu. Deu uma tragada. Depois outra. Depois uma terceira, daquelas capazes de fazer um sujeito conversar amigavelmente com as cortinas da sala. Prendeu a respiração. Fechou os olhos. Esperou. E aguardou a chegada do famoso tapa da pantera. O tapa chegou. Chegou de caminhão. Chegou de carreta. Chegou acompanhado de banda de música.

Porque, segundos depois, Martinho abriu os olhos e pronunciou uma das mais importantes avaliações de qualidade já registradas na história do comércio informal amazônico:

– A mala é minha.

Fez uma pausa. Olhou novamente para a mercadoria. E reforçou:

– A mala é minha!

Negócio fechado.

Enquanto isso, na quadra da Vitória Régia, milhares de pessoas aguardavam o artista. O horário passou. Mais um pouco. Mais um tanto. E nada de Martinho. Os dirigentes começaram a suar em bicas. A plateia começou a reclamar. A reclamação virou revolta. A revolta começou a flertar com o motim. Em poucos minutos, a situação exigiu a presença da Polícia de Choque para convencer a multidão de que incendiar a quadra talvez não fosse a solução mais adequada.

Na Cachoeirinha, porém, o clima era completamente diferente. Ali reinava a paz. A serenidade. A contemplação. O estado zen. Indiferente ao caos que se instalava na Praça 14, Martinho permaneceu afundado na cadeira de macarrão, apreciando a brisa da varanda e estudando com rigor científico a qualidade extraordinária do produto fornecido por Chico Padeiro.

O show foi cancelado. A escola entrou em parafuso. A polícia trabalhou. O público esbravejou. E Martinho passou a noite inteira firme em sua missão de pesquisa. Porque existem artistas que cancelam apresentações por problemas técnicos. Outros por questões de saúde. E existe o raro caso do sujeito que encontra uma varanda ventilada, uma cadeira confortável e uma mercadoria de qualidade internacional. Contra uma combinação dessas, simplesmente não há produtor cultural que dê jeito.

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