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quinta-feira, agosto 20, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 28

 


28. Um dos maiores talentos produzidos pelo Morro da Liberdade, o compositor, ritmista e designer gráfico Jorge Halen – conhecido em todos os continentes civilizados como Mestre Chocolate – sempre teve uma vida amorosa tão tranquila quanto uma convenção de anarquistas armados.

Mulherengo desde a mais tenra infância, Chocolate era daqueles sujeitos que, ao passar por uma maternidade, já saía distribuindo piscadelas para as enfermeiras. Aos 19 anos, porém, aconteceu o impensável. Cupido, aquele delinquente reincidente que vive destruindo a vida dos outros em nome do romantismo, acertou-lhe uma flechada em cheio.

A vítima era uma passista do Morro da Liberdade cuja padaria, segundo testemunhas da época, possuía atributos arquitetônicos capazes de provocar acidentes de trânsito. Chocolate apaixonou-se imediatamente. Namorou. Noivou. Casou. Tudo em menos de seis meses. Tempo insuficiente para amadurecer um abacate, mas aparentemente suficiente para tomar decisões irreversíveis.

Para a cerimônia, escolheu pessoalmente um magnífico paletó marrom. Não era um simples paletó. Era uma entidade. Uma instituição. Uma obra de arte têxtil. Segundo o poeta Gilsinho Nogueira, a cor era “mel com areia”. Segundo o resto da humanidade, era simplesmente marrom. O traje possuía revestimento em seda chinesa, bolsos de pele de chinchila e uma aparência geral que sugeria a união estética entre um diplomata soviético e um cantor de bolero.

No dia do casamento, Chocolate estava feliz. Ridiculamente feliz. Perigosamente feliz. A lua de mel aconteceu numa pousada do Paraná do Ramos e durou mais de uma semana. Menos de um ano depois, a esposa resolveu terceirizar os serviços afetivos. Quando Chocolate descobriu que o novo ocupante da concessão amorosa era um dono de panificadora, cogitou incendiar uma padaria inteira apenas por coerência temática. Foi impedido pelos amigos Carlão, Gilsinho, Jairo, Ivan, Bosco e Luizinho, homens que passariam boa parte da vida exercendo a função de contenção de danos emocionais.

Passado algum tempo, as lágrimas secaram. As feridas cicatrizaram. E Chocolate voltou ao mercado. Conheceu outra passista. Apaixonou-se novamente. Namorou. Noivou. Casou. Tudo em menos de seis meses. Porque a experiência é uma professora excelente, mas alguns alunos faltam às aulas.

Mais uma vez surgiu o lendário paletó cor de mel com areia. Mais uma vez a cerimônia foi realizada. Mais uma vez a lua de mel foi um sucesso. E mais uma vez a esposa resolveu fazer intercâmbio afetivo. Desta vez o contemplado foi um violonista de bossa nova.

Ao saber da notícia, Chocolate cogitou destruir sua coleção de discos de João Gilberto. Não por raiva do cantor. Por associação criminosa de estilo musical. Novamente os amigos intervieram. Novamente evitaram uma tragédia. Novamente recolheram os pedaços do coração do companheiro.

Depois do segundo desastre conjugal, Chocolate desenvolveu uma teoria revolucionária. Virou vegetariano. Ninguém sabe exatamente qual a relação entre alface e fidelidade matrimonial, mas ele acreditou firmemente no método. Passou a consumir apenas “brotinhos” prestes a desabrochar. Foi nessa época que um amigo resolveu casar.

Como era um homem generoso, Chocolate emprestou ao compadre seu velho paletó marrom. Sim. O mesmo. O lendário. O maldito. O cor de mel com areia. O equivalente amazônico do Anel de Sauron.

O compadre usou o traje. Casou-se. Sorriu. Posou para fotos. Foi feliz. Durante aproximadamente seis meses. Quando completou meio ano de matrimônio, tornou-se membro efetivo da Confraria Internacional de São Cornélio, padroeiro informal dos maridos surpreendidos pelos fatos. Foi aí que a situação começou a parecer estatisticamente suspeita.

Carlão Nascimento, engenheiro, juiz de futebol, sambista e estudante de parapsicologia nas horas vagas – currículo que sozinho já justificaria uma tese acadêmica –, resolveu investigar. Pediu as fotografias dos dois casamentos de Chocolate. Analisou tudo cuidadosamente. E quase teve um infarto. Com exceção do padre e de dois coroinhas, praticamente todos os homens que apareciam nas fotos haviam sido corneados em algum momento da vida. Aquilo já não era coincidência. Era uma epidemia.

Carlão passou uma semana inteira estudando o fenômeno. Fez anotações. Traçou diagramas. Levantou hipóteses. Nada fazia sentido. Até que tomou a única atitude possível diante de um problema científico dessa magnitude. Consultou Mãe Zulmira.

A respeitada líder espiritual ouviu o relato. Jogou búzios. Conversou com entidades. Consultou forças invisíveis. Fez uma auditoria completa no além. E apresentou o diagnóstico:

– Mande meu zifio jogar fora esse paletó. Esse troço atrai desgraça.

Estava encerrada a investigação. O culpado havia sido identificado. Não eram as esposas. Não eram os amantes. Não era Cupido. Era o paletó.

Convencer Chocolate a se desfazer da peça, entretanto, revelou-se tarefa quase impossível. Foi necessária uma operação conjunta. Enquanto Carlão aplicava um mata-leão digno de campeonato mundial, Bosco Saraiva segurava as pernas. Gilsinho e Ivan invadiram a residência. Localizaram o artefato. E conduziram sua execução sumária.

O paletó foi queimado no cruzamento das ruas São Pedro e Martins Santana sob circunstâncias que lembravam um exorcismo medieval. Houve pólvora. Houve cachaça. Houve galinhas pretas. Faltou apenas chamar o Vaticano. Mas funcionou. O descarrego deu certo.

Alguns anos depois, Chocolate conheceu uma mulher maravilhosa. Constituiu família. Encontrou paz. Nunca mais foi traído. Nunca mais foi corneado. E nunca mais chegou a menos de cinquenta metros de qualquer vitrine que exibisse um paletó marrom. Porque certas lições a vida ensina. Outras, ela esfrega na sua cara duas vezes. E algumas vêm forradas em seda chinesa, com bolsos de pele de chinchila e uma maldição conjugal embutida no preço.

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