28. Um dos maiores talentos produzidos pelo
Morro da Liberdade, o compositor, ritmista e designer gráfico Jorge Halen – conhecido em
todos os continentes civilizados como Mestre Chocolate – sempre teve uma vida
amorosa tão tranquila quanto uma convenção de anarquistas armados.
Mulherengo
desde a mais tenra infância, Chocolate era daqueles sujeitos que, ao passar por
uma maternidade, já saía distribuindo piscadelas para as enfermeiras. Aos 19
anos, porém, aconteceu o impensável. Cupido, aquele delinquente reincidente que
vive destruindo a vida dos outros em nome do romantismo, acertou-lhe uma
flechada em cheio.
A vítima era
uma passista do Morro da Liberdade cuja padaria, segundo testemunhas da época,
possuía atributos arquitetônicos capazes de provocar acidentes de trânsito.
Chocolate apaixonou-se imediatamente. Namorou. Noivou. Casou. Tudo em menos de
seis meses. Tempo insuficiente para amadurecer um abacate, mas aparentemente
suficiente para tomar decisões irreversíveis.
Para a
cerimônia, escolheu pessoalmente um magnífico paletó marrom. Não era um simples
paletó. Era uma entidade. Uma instituição. Uma obra de arte têxtil. Segundo o
poeta Gilsinho Nogueira, a cor era “mel com areia”. Segundo o resto da
humanidade, era simplesmente marrom. O traje possuía revestimento em seda
chinesa, bolsos de pele de chinchila e uma aparência geral que sugeria a união
estética entre um diplomata soviético e um cantor de bolero.
No dia do
casamento, Chocolate estava feliz. Ridiculamente feliz. Perigosamente feliz. A
lua de mel aconteceu numa pousada do Paraná do Ramos e durou mais de uma
semana. Menos de um ano depois, a esposa resolveu terceirizar os serviços
afetivos. Quando Chocolate descobriu que o novo ocupante da concessão amorosa
era um dono de panificadora, cogitou incendiar uma padaria inteira apenas por
coerência temática. Foi impedido pelos amigos Carlão, Gilsinho, Jairo, Ivan,
Bosco e Luizinho, homens que passariam boa parte da vida exercendo a função de
contenção de danos emocionais.
Passado algum
tempo, as lágrimas secaram. As feridas cicatrizaram. E Chocolate voltou ao
mercado. Conheceu outra passista. Apaixonou-se novamente. Namorou. Noivou.
Casou. Tudo em menos de seis meses. Porque a experiência é uma professora
excelente, mas alguns alunos faltam às aulas.
Mais uma vez
surgiu o lendário paletó cor de mel com areia. Mais uma vez a cerimônia foi
realizada. Mais uma vez a lua de mel foi um sucesso. E mais uma vez a esposa
resolveu fazer intercâmbio afetivo. Desta vez o contemplado foi um violonista
de bossa nova.
Ao saber da
notícia, Chocolate cogitou destruir sua coleção de discos de João Gilberto. Não
por raiva do cantor. Por associação criminosa de estilo musical. Novamente os
amigos intervieram. Novamente evitaram uma tragédia. Novamente recolheram os
pedaços do coração do companheiro.
Depois do
segundo desastre conjugal, Chocolate desenvolveu uma teoria revolucionária.
Virou vegetariano. Ninguém sabe exatamente qual a relação entre alface e
fidelidade matrimonial, mas ele acreditou firmemente no método. Passou a
consumir apenas “brotinhos” prestes a desabrochar. Foi nessa época que um amigo
resolveu casar.
Como era um
homem generoso, Chocolate emprestou ao compadre seu velho paletó marrom. Sim. O
mesmo. O lendário. O maldito. O cor de mel com areia. O equivalente amazônico
do Anel de Sauron.
O compadre usou
o traje. Casou-se. Sorriu. Posou para fotos. Foi feliz. Durante aproximadamente
seis meses. Quando completou meio ano de matrimônio, tornou-se membro efetivo
da Confraria Internacional de São Cornélio, padroeiro informal dos maridos
surpreendidos pelos fatos. Foi aí que a situação começou a parecer
estatisticamente suspeita.
Carlão
Nascimento, engenheiro, juiz de futebol, sambista e estudante de parapsicologia
nas horas vagas – currículo que sozinho já justificaria uma tese acadêmica –,
resolveu investigar. Pediu as fotografias dos dois casamentos de Chocolate.
Analisou tudo cuidadosamente. E quase teve um infarto. Com exceção do padre e
de dois coroinhas, praticamente todos os homens que apareciam nas fotos haviam
sido corneados em algum momento da vida. Aquilo já não era coincidência. Era
uma epidemia.
Carlão passou
uma semana inteira estudando o fenômeno. Fez anotações. Traçou diagramas.
Levantou hipóteses. Nada fazia sentido. Até que tomou a única atitude possível
diante de um problema científico dessa magnitude. Consultou Mãe Zulmira.
A respeitada
líder espiritual ouviu o relato. Jogou búzios. Conversou com entidades.
Consultou forças invisíveis. Fez uma auditoria completa no além. E apresentou o
diagnóstico:
– Mande meu
zifio jogar fora esse paletó. Esse troço atrai desgraça.
Estava
encerrada a investigação. O culpado havia sido identificado. Não eram as
esposas. Não eram os amantes. Não era Cupido. Era o paletó.
Convencer
Chocolate a se desfazer da peça, entretanto, revelou-se tarefa quase
impossível. Foi necessária uma operação conjunta. Enquanto Carlão aplicava um
mata-leão digno de campeonato mundial, Bosco Saraiva segurava as pernas.
Gilsinho e Ivan invadiram a residência. Localizaram o artefato. E conduziram
sua execução sumária.
O paletó foi
queimado no cruzamento das ruas São Pedro e Martins Santana sob circunstâncias
que lembravam um exorcismo medieval. Houve pólvora. Houve cachaça. Houve
galinhas pretas. Faltou apenas chamar o Vaticano. Mas funcionou. O descarrego
deu certo.
Alguns anos
depois, Chocolate conheceu uma mulher maravilhosa. Constituiu família.
Encontrou paz. Nunca mais foi traído. Nunca mais foi corneado. E nunca mais
chegou a menos de cinquenta metros de qualquer vitrine que exibisse um paletó
marrom. Porque certas lições a vida ensina. Outras, ela esfrega na sua cara
duas vezes. E algumas vêm forradas em seda chinesa, com bolsos de pele de
chinchila e uma maldição conjugal embutida no preço.

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