29. Fevereiro de 1984. Amigos desde os tempos heroicos de Irajá, quando ainda dividiam sonhos, sambas e provavelmente algumas dívidas, Nei Viana e Zeca Pagodinho desembarcaram em Manaus para ajudar nos ensaios de Carlinhos de Pilares, puxador de samba do GRES Andanças de Ciganos.
A missão oficial era fortalecer o samba. A missão paralela era
conferir se eram verdadeiras as lendas que chegavam ao Rio de Janeiro sobre um
certo Chico Padeiro, personagem cercado por um misticismo que misturava
traficante, alquimista e fornecedor oficial da alegria da Cachoeirinha.
Numa noite de
sábado, enquanto a quadra fervilhava de ritmistas, passistas e bebedores
profissionais, Zeca Pagodinho encontrava-se numa situação delicada. Muito
delicada. Mais precisamente, estava parado na esquina das ruas Parintins e
Borba, do outro lado do Top Bar, aguardando o retorno de seus companheiros. Nei
Viana, Carlinhos de Pilares e Mestre Roxinho haviam saído numa expedição de
abastecimento e demoravam além do razoável.
Zeca aguardava.
Esperava. Suspirava. Consultava o relógio. Tornava a suspirar. O homem estava
numa ansiedade capaz de envelhecer uma tartaruga. Foi então que surgiu Jacó
Fernandes, caminhando tranquilamente em direção ao ensaio, duas baquetas na mão
e zero preocupação na cabeça. Zeca viu nele uma luz no fim do túnel.
Infelizmente, era um trem vindo na direção contrária.
– Ô, gente boa,
será que você podia me fazer um favor? – perguntou.
Jacó respondeu
com a cautela de quem já tinha visto muita coisa na vida:
– Depende...
– Tô querendo
apertar um beise. Será que você consegue alguma coisa pra mim? De preferência
do Chico Padeiro...
Ao ouvir aquele
nome, Jacó quase se sentiu ofendido.
– Chico
Padeiro?
Fez uma pausa
dramática.
– Aquilo só
vende palha, coentro e bosta de vaca, porra!
Zeca arregalou
os olhos. Jacó continuou:
– Bagulho bom
mesmo quem tem é o Pirarucu, lá no Bodozal da Maués.
A segurança com
que ele falou era impressionante. Parecia um especialista apresentando um
artigo científico num congresso internacional. Os olhos de Zeca brilharam.
Finalmente encontrara uma solução. Sem hesitar, entregou cerca de 200 pilas ao
emissário. Jacó guardou o dinheiro. Ajustou as baquetas. Desceu a ladeira da
Rua Parintins em direção ao Bodozal da Maués e desapareceu. Como fumaça. Como
miragem. Como promessa de político em ano eleitoral.
Passou uma
hora. Passaram duas. Passou um tempo suficiente para um sujeito rever toda a
própria existência. E nada de Jacó. Foi então que apareceu Nego Keko. Encontrou
Zeca exatamente no mesmo lugar. Mesma esquina. Mesma posição. Mesma esperança.
O mesmo prejuízo.
Depois de ouvir
toda a história, Keko balançou a cabeça com pena. Era como um veterinário
examinando um cachorro atropelado.
– Você perdeu,
playboy. Você perdeu.
– Como assim?
– O cara não
volta mais nem pelo caralho.
Zeca sentiu um
arrepio.
– Não fala
isso...
– A essa altura
ele já deve estar apertando o black com a turma dele. Conheço essa raça...
O silêncio que
se seguiu foi devastador. Zeca olhou para o horizonte. Olhou para a rua. Olhou
para o bolso. Olhou novamente para a rua. E compreendeu. Havia sido vítima de
um dos mais antigos golpes da humanidade. O famoso “vou ali e já volto”.
Mordido pela indignação, resmungou:
– Caraco,
mano... Eu vir lá do Rio de Janeiro pra tomar banho em Manaus...
Fez uma pausa.
– Assim é
foda...
E voltou para a
quadra dos Ciganos carregando apenas duas coisas: a decepção e a certeza de que
Jacó Fernandes era mais rápido desaparecendo com dinheiro do que muito
velocista olímpico.
Felizmente,
quando tudo parecia perdido, surgiu Carlinhos de Pilares trazendo uma generosa
pacoteira da famosa erva do Chico Padeiro. A paz voltou ao universo. O samba
voltou a soar bonito. A vida voltou a fazer sentido.
E Zeca aprendeu
uma importante lição sobre a fauna humana da Cachoeirinha: se um sujeito
desconhecido disser que conhece um fornecedor melhor, primeiro exija
referências. Ou, no mínimo, um fiador.
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