Pesquisar este blog

quinta-feira, agosto 20, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 29

 


29. Fevereiro de 1984. Amigos desde os tempos heroicos de Irajá, quando ainda dividiam sonhos, sambas e provavelmente algumas dívidas, Nei Viana e Zeca Pagodinho desembarcaram em Manaus para ajudar nos ensaios de Carlinhos de Pilares, puxador de samba do GRES Andanças de Ciganos. 

A missão oficial era fortalecer o samba. A missão paralela era conferir se eram verdadeiras as lendas que chegavam ao Rio de Janeiro sobre um certo Chico Padeiro, personagem cercado por um misticismo que misturava traficante, alquimista e fornecedor oficial da alegria da Cachoeirinha.

Numa noite de sábado, enquanto a quadra fervilhava de ritmistas, passistas e bebedores profissionais, Zeca Pagodinho encontrava-se numa situação delicada. Muito delicada. Mais precisamente, estava parado na esquina das ruas Parintins e Borba, do outro lado do Top Bar, aguardando o retorno de seus companheiros. Nei Viana, Carlinhos de Pilares e Mestre Roxinho haviam saído numa expedição de abastecimento e demoravam além do razoável.

Zeca aguardava. Esperava. Suspirava. Consultava o relógio. Tornava a suspirar. O homem estava numa ansiedade capaz de envelhecer uma tartaruga. Foi então que surgiu Jacó Fernandes, caminhando tranquilamente em direção ao ensaio, duas baquetas na mão e zero preocupação na cabeça. Zeca viu nele uma luz no fim do túnel. Infelizmente, era um trem vindo na direção contrária.

– Ô, gente boa, será que você podia me fazer um favor? – perguntou.

Jacó respondeu com a cautela de quem já tinha visto muita coisa na vida:

– Depende...

– Tô querendo apertar um beise. Será que você consegue alguma coisa pra mim? De preferência do Chico Padeiro...

Ao ouvir aquele nome, Jacó quase se sentiu ofendido.

– Chico Padeiro?

Fez uma pausa dramática.

– Aquilo só vende palha, coentro e bosta de vaca, porra!

Zeca arregalou os olhos. Jacó continuou:

– Bagulho bom mesmo quem tem é o Pirarucu, lá no Bodozal da Maués.

A segurança com que ele falou era impressionante. Parecia um especialista apresentando um artigo científico num congresso internacional. Os olhos de Zeca brilharam. Finalmente encontrara uma solução. Sem hesitar, entregou cerca de 200 pilas ao emissário. Jacó guardou o dinheiro. Ajustou as baquetas. Desceu a ladeira da Rua Parintins em direção ao Bodozal da Maués e desapareceu. Como fumaça. Como miragem. Como promessa de político em ano eleitoral.

Passou uma hora. Passaram duas. Passou um tempo suficiente para um sujeito rever toda a própria existência. E nada de Jacó. Foi então que apareceu Nego Keko. Encontrou Zeca exatamente no mesmo lugar. Mesma esquina. Mesma posição. Mesma esperança. O mesmo prejuízo.

Depois de ouvir toda a história, Keko balançou a cabeça com pena. Era como um veterinário examinando um cachorro atropelado.

– Você perdeu, playboy. Você perdeu.

– Como assim?

– O cara não volta mais nem pelo caralho.

Zeca sentiu um arrepio.

– Não fala isso...

– A essa altura ele já deve estar apertando o black com a turma dele. Conheço essa raça...

O silêncio que se seguiu foi devastador. Zeca olhou para o horizonte. Olhou para a rua. Olhou para o bolso. Olhou novamente para a rua. E compreendeu. Havia sido vítima de um dos mais antigos golpes da humanidade. O famoso “vou ali e já volto”. Mordido pela indignação, resmungou:

– Caraco, mano... Eu vir lá do Rio de Janeiro pra tomar banho em Manaus...

Fez uma pausa.

– Assim é foda...

E voltou para a quadra dos Ciganos carregando apenas duas coisas: a decepção e a certeza de que Jacó Fernandes era mais rápido desaparecendo com dinheiro do que muito velocista olímpico.

Felizmente, quando tudo parecia perdido, surgiu Carlinhos de Pilares trazendo uma generosa pacoteira da famosa erva do Chico Padeiro. A paz voltou ao universo. O samba voltou a soar bonito. A vida voltou a fazer sentido.

E Zeca aprendeu uma importante lição sobre a fauna humana da Cachoeirinha: se um sujeito desconhecido disser que conhece um fornecedor melhor, primeiro exija referências. Ou, no mínimo, um fiador.

Nenhum comentário: