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quinta-feira, setembro 17, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 74

 


74. Estou convencido ainda hoje de que até meados dos anos 70 o mais divertido e animado carnaval de Manaus não estava nas ruas, mas no circuito dos bailes de clubes, obedecendo ao seguinte rodízio: no sábado gordo, baile adulto a partir das 23h. No domingo, carnaval infantil a partir das 16h. Na segunda, folga geral – com exceção do Rio Negro (“Baile de Gala”). Na terça-feira, baile adulto a partir das 23h.

No período pré-carnavalesco (incluindo a chamada “semana magra”), os bailes ocorriam nas sextas, sábados e domingos. Os desfiles dos blocos de sujo e foliões isolados se davam no domingo gordo e na segunda-feira, a partir das 14h, sempre na Avenida Eduardo Ribeiro. As escolas de samba desfilavam na terça. A concentração dos blocos ocorria na Praça da Saudade. O percurso se iniciava na Praça do Congresso, descia a avenida, contornava o Relógio Municipal, subia a avenida e fazia a dispersão na Avenida Sete de Setembro, em direção à Avenida Getúlio Vargas.

Os bailes carnavalescos mais disputados localizavam-se no centro da cidade e eram considerados os “carnavais da elite”. As festas temáticas eram acessíveis somente aos sócios, que entravam de graça, e a quem pudesse pagar os preços exorbitantes cobrados pelas mesas ou pelos ingressos. A diversão dos jovens de origem operária era “furar” o esquema de segurança desses clubes para se divertir de graça junto com os “bacanas”.

Os bailes mais famosos ocorriam no Ideal Clube (“Baile de Máscaras”), Rio Negro (“Baile de Gala”), Bancrévea (“Vamos Pegar o Sol com as Mãos!”), Cheik (“Saara 40 Graus”), Olímpico (“Despedida da Kamélia”), Luso Sporting (“Viva o Zé-Pereira!”), União Esportiva Portuguesa (“Baile do Pierrô”) e Nacional (“Baile Azul e Branco”). No final da Quaresma, o Cheik ainda promovia um baile carnavalesco intitulado “Enterro dos Ossos”.

Nesses bailes mais elitistas, as mulheres compareciam ornamentadas de vestidos longos, plumas, lantejoulas e fantasias ricamente elaboradas, e os homens, de smoking ou camisas sociais de grife, no velho estilo “coronéis de barranco”. Claro que aqui e ali surgia um sujeito vestido de índio, pirata, mexicano, árabe, legionário, arlequim ou pierrô, mas os homens fantasiados eram uma minoria. Quem tinha obrigação de vender beleza era o mulherio. Os machos estavam ali pra pagar pelo fuzuê.

Quando a fuzarca acabava, os foliões se encontravam no Mercado Adolpho Lisboa para curar a bebedeira no famoso Mingau do Eusébio, escolhendo entre o mingau de banana verde com castanha, o mingau de crueira, feito de farinha de mandioca, e o mingau de milho branco, também conhecido como munguzá.

O artista plástico Inácio Evangelista era o decorador mais requisitado da cidade para produzir as ambientações temáticas dos clubes. Além de ser contratado exclusivo do Ideal, Rio Negro, Cheik e Nacional – e cada um deles fazia até três bailes diferentes a cada ano –, ele ainda encontrava tempo para decorar o Atlético Barés Clube (“Baile do Sapo Não Lava o Pé”), AABB (“Baile do Terror”), União Esportiva de Constantinopla (“Baile da Cidade Alta”) e Fast Club (“Baile do Rolo Compressor”).

Nos bairros, a população se divertia nos bailes carnavalescos dos clubes amadores ali existentes e nas sedes de associações sindicais e de times profissionais populares. Em Educandos, por exemplo, na União Esportiva de Constantinopla. Na Cachoeirinha, no Ypiranga, Botafogo, Cachoeirinha e no Círculo Operário. No Morro da Liberdade, no Libermorro e Olaria. No Seringal-Mirim, no Internacional (“Baile da Jardineira”). Em São Raimundo, nas sedes do São Raimundo e Sul América, e assim por diante. Havia ainda os clubes de campo, de frequência mista (Sírio-Libanês, Caiçara, Cetur, ASA, Municipal, Beasa, Cassam, AABB, etc.), que também realizavam bailes inesquecíveis.

Guardada as devidas proporções, o esquema nos bailes carnavalescos, tanto dos chamados “bailes de elite” quanto dos chamados “bailes populares”, seguia uma mesma dinâmica. Uma orquestra de metais (nome genérico dos instrumentos de sopro feito de metais), posicionada no fundo do palco, iniciava a fuzarca, na maioria das vezes, com a música “Ô Abre Alas”, aquele clássico da Chiquinha Gonzaga (“Ô abre alas, que eu quero passar / Ô abre alas, que eu quero passar / Eu sou da Lira, não posso negar / Rosa de Ouro é quem vai ganhar”).

Essa era a senha para as pessoas invadirem o salão abraçadas em dupla, trinca, quarteto ou até mesmo sozinhas. O bloco do eu-sozinho consistia em brincar o carnaval com os dois indicadores para cima, subindo e descendo na cadência dos quadris e aos gritos de “Skindô! Skindô!”. Não sei de onde veio, nem quando surgiu esse refrão, mas posso assegurar que não é uma corruptela de “skidoo”, gíria de preto americano para dar o fora, pegar o beco, sair vazado.



O cortejo dos foliões consistia em uma movimentação em círculo, obedecendo ao sentido horário – mas também havia alguns sujeitos, cheios da truaca, que preferiam brincar no sentido anti-horário, o que era sinônimo de confusão. As garotas desacompanhadas ficavam nas bordas do salão, observando aquele alegre panavueiro.

De repente, uma mão saindo do meio da turba lhe alcançava o pulso e a puxava para o salão. Se houvesse interesse recíproco, a foliona se enganchava no sujeito e ia pra guerra. Se não, ela dava um jeito de liberar o pulso das mãos do fariseu e voltava para o mesmo lugar de antes. Essas efêmeras conquistas carnavalescas se constituíam na glória (ou calvário) de qualquer moleque que buscava as folias de Momo.

O cortejo, evidentemente, se movimentava no salão de acordo com a música. Havia as marchinhas para uma evolução rápida – leia-se correria desenfreada e trombadas entre os participantes –, como “Marcha do Remador” (“Se a canoa não virar, olé, olé, olá / Eu chego lá”), “Turma do Funil” (“Chegou a Turma do Funil / Todo mundo bebe / Mas ninguém dorme no ponto”), “Alalaô” (“Alalaô ô ô ô / Mas que calor ô ô ô / Atravessamos o deserto do Saara / O sol estava ardente e queimou a nossa cara”) e a mais frenética de todas, que costumava causar quedas coletivas no salão, “Corre, corre, lambretinha” (“O vovô ia a cavalo / Para visitar vovó/ O papai de bicicleta / Pra ver mamãe, ora vejam só! / Hoje tudo está mudado / Mudou tudo, sim senhor / E eu tenho uma lambreta / Para ver o meu amor / Corre, corre, lambretinha / Pela estrada além / Corre, corre, lambretinha / Que eu vou ver meu bem”).

Havia as marchinhas para uma evolução devagar, quase parando – e aí os arranjos mistos de trincas, quartetos, quintetos ou sextetos davam vez para os casais. Quem ainda não estivesse descolado um par precisava correr contra o relógio, porque essas marchinhas começavam a ser tocadas na metade do baile. A mais clássica de todas era aquela criação genial de Zé Kéti, “Máscara Negra” (“Tanto riso, oh / Quanta alegria / Mais de mil palhaços no salão / Arlequim está chorando pelo amor da Colombina / No meio da multidão / Foi bom te ver outra vez / Tá fazendo um ano / Foi no carnaval que passou / Eu sou aquele Pierrô / Que te abraçou / Que te beijou, meu amor / A mesma máscara negra / Que esconde o teu rosto / Eu quero matar a saudade / Vou beijar-te agora / Não me leve a mal / Hoje é carnaval / Vou beijar-te agora / Não me leve a mal / Hoje é carnaval”). Era a senha para beijar a foliona recém-conquistada. Se houvesse correspondência, o sujeito havia ganho a noite. Se não, não.

Se tudo tivesse dado certo na etapa anterior (a garota não só consentira no beijo, como abrira levemente os lábios para você introduzir a língua), a próxima fase era levá-la para uma parte mais escura do clube, normalmente em corredores longes do salão, e iniciar a sessão de “acocho” (na época, era esse o nome do modernoso “ficar”), que consistia de beijos e abraços apertados. Só isso. As mais liberais ainda permitiam algumas alisadas nas coxas e alguns toques discretos no sutiã de cetim. Avançar mais do que isso era convite certo para uma tapa na cara e o fim, digamos assim, do relacionamento casual.

Os casais voltavam para o salão quando o baile já estava acabando. Os primeiros acordes de “Está chegando a hora” (“Quem parte / Leva saudades / De alguém / Que fica chorando de dor / Por isso eu não quero lembrar / Quando partiu / Meu grande amor / Ai ai ai ai / Está chegando a hora / O dia já vem raiando meu bem / E eu tenho que ir embora”) sinalizavam para os últimos beijos, abraços apertados e as juras de amor eterno. Pura balela. Na maioria das vezes, nem se sabia o nome da garota. E a possibilidade de encontrá-la novamente no carnaval seguinte era tão difícil quanto acertar na mega-sena acumulada. 

No dia seguinte, após a ressaca carnavalesca, a turma de moleques se reunia para contar vantagens sobre as conquistas efetuadas e fazer planos para os bailes do ano seguinte. Simples assim.

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