76. Fevereiro de 1985. Apesar de ser apenas um bloco de empolgação, o Reino Unido da Liberdade promovia animadas rodas de pagode na sua quadra improvisada nas tardes de sábado.
Em um desses pagodes, um
sujeito de bermudas, sandálias havaianas e camisa de meia sobre um dos ombros,
tentou entrar na quadra da escola, mas foi barrado pelo porteiro.
O sujeito se
afastou silenciosamente e ficou parado no canto da rua observando a agitação,
mais perdido do que cachorro quando cai do carro de mudança. Jairo Beira-mar,
que estava acompanhando a cena de dentro da quadra da escola, foi falar com o
porteiro.
– Porra, Buião,
eu estava só vendo o teu jeito! Por que foi que você não deixou aquele cidadão
entrar? Eu não já falei que todo mundo é bem-vindo aqui na nossa escola?... –
detonou Jairo Beira-mar.
– Ah, bicho,
ele chegou aqui procurando por uma pessoa que nunca ouvi falar, um cara de nome
invocado! – explicou o porteiro. – Eu não dei nem confiança, falei apenas que
não conhecia o sujeito. Agora vê se eu tenho cara de mané pra adular macho pra
entrar na quadra. Fiquei na minha. Ele não entrou porque não quis...
Jairo Beira-mar
atravessou a rua e foi conversar com o cidadão.
– Meu amigo, eu
sou diretor do bloco Reino Unido e queria pedir desculpas pelo ocorrido, mas se
você quiser entrar na quadra pra participar do nosso pagode, fique à vontade!
– Tudo bem,
bicho, tudo bem! É que eu sou do Rio de Janeiro e não conheço ninguém aqui.
Quem me convidou pra esse pagode foi um amigo aqui de Manaus, o compositor
Paulo Onça, mas parece que ele ainda não chegou...
– O Paulo Onça
é meu amigo. Se você quiser, a gente pode esperar por ele lá dentro da quadra.
Meu nome é Jairo de Paula Beira-mar!
– Tudo bem,
bicho, tudo bem! Meu nome é Zeca Pagodinho!
Os dois entraram juntos na quadra e ficaram conversando até a chegada do compositor Paulo Onça, que fez uma festa quando encontrou o amigo.
No ano seguinte, o sambista “barrado” pelo Buião estreava em disco
solo, “Zeca Pagodinho”, onde emplacou os sucessos “SPC”, “Coração em
Desalinho”, “Quando Eu Contar (Iaiá)”, “Judia de Mim” e “Brincadeira tem Hora”,
atingindo a marca de um milhão de cópias vendidas.
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