75. Junho de 1981. Jogando de
meia-esquerda, Áureo Petita logo conquistou a torcida de Itacoatiara. Seu
entendimento com o centroavante Índio, oriundo de Parintins, lembrava a dupla
Pelé-Coutinho. O Peñarol estava fazendo uma das melhores campanhas da história,
quando os dirigentes dos times da capital resolveram melar a competição.
O Fast Clube,
que havia perdido de 3 a zero para o Peñarol, descobriu que Áureo Petita ainda
era jogador do Náutico e que, por ser amador, não poderia disputar o campeonato
de profissionais. Os pontos perdidos em campo foram reconquistados no Tribunal
de Justiça Desportiva (TJD).
Áureo Petita
pegou 60 dias de suspensão. Os torcedores do Peñarol ficaram revoltados.
Derrotado pelo Nacional, o Peñarol teria de vencer o Rio Negro, em Itacoatiara,
ou seria eliminado do quadrangular do 1º turno e o Fast, que estava fora,
entraria por meio do “tapetão”. A Velha Serpa se preparou para a guerra.
Chefe da
torcida do Rio Negro e eterno chefe de Segurança da Câmara Municipal de Manaus,
Enédio Negreiros procurou o motorista Ronaldo Redman, irmão mais velho do Didi
Redman, presidente do GRES Vitória Régia
.
– Ô, negão, tu
não quer ganhar um troco?
– Pra quê? – os
olhos de Redman brilharam.
– Pra dirigir o
ônibus do Rio Negro até Itacoatiara!
Depois de
pensar um pouco, Redman aceitou a missão, cobrou um determinado valor pela
tarefa, Enédio topou e ficou de lhe passar a grana quando a delegação chegasse
na Velha Serpa. O ônibus era uma “lata velha”, comprido que nem vara de bater
pecado, com câmbio do tipo “alavanca suporta-sovaco”. Não desenvolvia mais de
60 km/h.
Em uma manhã de
domingo, no horário combinado, Redman assumiu o cockpit da “lata velha”.
Começaram a entrar no ônibus os jogadores, a comissão técnica, os dirigentes e
nada do Enédio. Pelo retrovisor, Redman tentava localizar o amigo. Nada. Lá
atrás, em um dos bancos, estava um galo gigantesco, de mais de dois metros de
altura, usando o uniforme do clube.
Redman ficou
apreensivo. Sem Enédio na parada, de quem ele iria cobrar pela viagem, já que
não conhecia ninguém? Pensou em desistir. Depois, achou melhor fazer o serviço,
e, quando retornasse a Manaus, se acertaria com o amigo. Os jogadores começaram
a vestir o uniforme dentro do ônibus e Redman meteu o pé na estrada.
Chegaram ao
estádio Floro de Mendonça dez minutos antes da partida começar. Uma multidão de
torcedores do Peñarol aguardava pelo time inimigo do lado de fora do estádio,
formando um imenso corredor polonês na entrada do túnel destinado aos
visitantes.
Os jogadores desceram do ônibus correndo e, enquanto atravessavam o corredor polonês, iam recebendo pescoções, chutes na bunda, cusparadas, dedadas e xingamentos desmoralizantes.
O último a sair do ônibus foi o gigantesco galo carijó, andando com as pernas meio abertas por causa dos esporões de quase 20 centímetros, o que lhe dava um estranho gingado de urubu malandro.
Quando ele
colocou o bico pra fora da porta, um sujeito deu-lhe um murro no meio da fuça.
Foi um soco tão violento que esbagaçou o bico do galináceo. Ele caiu de
cu-trancado na escada do ônibus e embicou no chão. Alguém gritou:
– Pega o galo e
péla e joga na panela...
A multidão
enfurecida avançou em cima do infeliz. Em vez de entrar no ônibus e trancar a
porta para se proteger, o galo, ainda grogue, se levantou do chão e desembestou
a correr em direção à saída da cidade, sendo perseguido por mais de cem
torcedores armados de mangarás de banana, cabos de embreagem e galhos de cuieira.
No estádio, a partida era interrompida a cada cinco minutos por causa de invasão de campo. Os torcedores do Peñarol quebraram mais de 200 ovos podres na cabeça dos jogadores rionegrinos e infernizaram a vida do goleiro com morteiros de três tiros.
O
Peñarol ganhou de 2 a 1, gols do centroavante Índio e do ponta direita Erasmo
para o time da casa, enquanto Raulino descontou para os visitantes.
No retorno do time, um dos dirigentes estranhou a ausência do mascote do clube, que sequer havia entrado em campo. Redman relatou o ocorrido. Pediram que ele metesse o pé na estrada para resgatar o infeliz.
O galo carijó foi encontrado correndo na
rodovia AM-010, dessa vez sendo perseguido por cachorros e crianças armadas de
baladeiras já cruzando o município do Rio Preto da Eva.
Pelo buraco na cara do galináceo, onde antes havia um bico, Redman reconheceu Enédio Negreiros, pálido que nem um defunto e a ponto de colocar os bofes pela boca.
O motorista ficou com tanta pena do galo maratonista que parou o ônibus, embarcou o galináceo, continuou dirigindo a “lata velha” até Manaus e nem cobrou pelo serviço.
Falecido em março de 2019, o saudoso e querido Enédio Negreiros ficou lhe devendo essa.
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