79. Jessé Gomes da Silva Filho, conhecido
no planeta Terra como Zeca Pagodinho, nasceu em Irajá, subúrbio do Rio de
Janeiro, onde aprendeu samba do jeito certo: em roda de botequim, cercado de
mestres que sabiam mais de partido alto do que muito professor sabe de
gramática.
Ainda garoto,
já improvisava versos com uma facilidade que fazia parecer que rimar era uma
função biológica, como respirar ou pedir mais uma cerveja. Em pouco tempo,
virou um fenômeno nas rodas de partido alto, disparando estrofes na velocidade
de uma metralhadora desregulada.
Em 1981, Beth
Carvalho apareceu numa roda do Cacique de Ramos, ouviu aquele rapaz magricela
cuspindo versos sem respirar e concluiu que ali havia ouro puro. Levou-o para
gravar “Camarão que Dorme a Onda Leva”, parceria dele com Arlindo Cruz. Foi o
equivalente sambístico a um jogador ser convocado direto da pelada para a
Seleção.
Logo depois, a
gravadora RGE reuniu quatro novatos num disco chamado “Raça Brasileira”:
Jovelina Pérola Negra, Mauro Diniz, Pedrinho da Flor e Zeca Pagodinho. A ideia
era apresentar quatro promessas. O disco vendeu mais de cem mil cópias e tratou
de avisar que eles já tinham deixado de ser promessas.
Em 1988, Zeca
iria desembarcar pela primeira vez em Manaus para um show exclusivo no Clube do
Samba, na Cachoeirinha, numa noite de sábado. Exclusivo. Essa palavra durou
pouco.
Quando soube da
novidade, Almerinho Botelho, presidente do Olímpico Clube, resolveu que
exclusividade era um conceito bastante flexível. Procurou Carlos Moutinho,
empresário e um dos sócios do Clube do Samba, e perguntou se havia alguma
brecha na agenda. Havia. A sexta-feira.
Carlos Moutinho
explicou que bastava pagar o cachê do artista: 600 mil cruzados, divididos em
duas parcelas. Almerinho entregou 300 mil na hora e saiu da reunião acreditando
que tinha fechado um excelente negócio. Também acreditava em Papai Noel.
A partir daí,
entrou em modo campanha eleitoral. Espalhou dez mil cartazes, colocou Kombis
com alto-falantes para rodar a cidade, deu entrevistas, distribuiu releases e
fez tanta propaganda que, quinze dias depois, metade de Manaus jurava que o
verdadeiro show de Zeca Pagodinho seria no Olímpico. A outra metade também.
Os outros
sócios do Clube do Samba (Vilson Benayon e Aluísio Brasil) perceberam que a
criatura criada pela publicidade estava escapando do laboratório e resolveram
melar o contrato. A discussão foi parar nas mãos do advogado Alberto Simonetti
Filho, contratado por Almerinho.
Depois de muita
conversa, muito bico, muita cara feia e muita matemática criativa, firmou-se um
acordo: toda a divulgação passaria a ser responsabilidade do Clube do Samba.
Foi um
desastre. Os empresários fizeram tanta economia na propaganda que o público
quase concluiu que Zeca Pagodinho tinha desistido da carreira artística para
abrir uma peixaria.
No dia do show,
Almerinho e Edu do Banjo foram visitar Zeca no hotel. O pagodeiro recebeu os
dois já distribuindo sinceridade:
– Porra, Edu...
por que vocês não falaram direto comigo? Esse Carlos Moutinho é o maior
embaço...
Almerinho
explicou:
– Disseram que
tinham exclusividade contigo. Só cobraram teu cachê. Seiscentos paus.
Zeca quase caiu
da cadeira.
– Seiscentos?!
Meu show custa duzentos! Se embolsaram o resto, vão devolver.
A comissão
seguiu imediatamente para o escritório de Carlos Moutinho. O clima ficou tão
amistoso quanto um clássico Flamengo e Vasco aos 48 minutos do segundo tempo.
Depois de muita discussão e de Zeca ameaçar cancelar os dois shows, o
empresário devolveu cem mil cruzados da entrada e rasgou, ali mesmo, a
duplicata da segunda parcela. Paz selada. Ou quase.
Na noite de
sexta-feira, São Pedro resolveu testar a resistência da população de Manaus.
Caiu um temporal daqueles que faria Noé pedir abrigo. Quem estava em casa
permaneceu em casa. O Olímpico parecia mais um retiro espiritual do que um show
de Zeca Pagodinho.
Pontualmente às
onze da noite, o cantor subiu ao palco como se estivesse diante de um Maracanã
lotado. Cantou “Manera Mané”, “Feira de Acari”, “Pisa Como Eu Pisei” e todos os
sucessos do recém-lançado “Jeito Moleque”.
Na plateia,
exatas 79 pessoas pagantes e 13 mesas ocupadas. Era praticamente um show
personalizado.
Às duas da
manhã, enquanto Almerinho fazia contas para descobrir quantos carnavais
precisaria organizar para pagar aquele prejuízo, apareceu um emissário do Ecad
trazendo a conta dos direitos autorais. Valor da facada: 150 mil cruzados.
Almerinho ficou
tão furioso que cogitou resolver a questão com uma navalha – solução pouco
recomendada, mas muito popular nas fantasias produzidas pelo desespero. Depois
de longa negociação, surgiu um acordo digno de roteiro de comédia. Se Zeca
aceitasse fazer uma roda de pagode só para aquela turma, a cobrança
desapareceria como dinheiro em bolso de político desonesto.
Zeca topou. Mas
estabeleceu suas condições, dignas de um astro internacional:
– Quero uma
pizza de muçarela com catupiry... e Brahma bem gelada. Gelada mesmo. Na
temperatura véu de noiva.
Pedido
atendido. Com a pizza numa mão, a cerveja na outra e o cavaquinho correndo
solto, Zeca comandou uma roda de samba até cinco da manhã. O representante do
Ecad saiu dali mais feliz do que auditor em promoção de supermercado. E nunca
mais apareceu para importunar Almerinho.
No dia
seguinte, o show do Clube do Samba lotou. E Manaus adotou Zeca Pagodinho como
patrimônio afetivo da cidade. Depois dessa estreia atribulada, ele virou arroz
de festa nas rodas de pagode amazonenses – daqueles que ninguém reclama quando
aparece de novo no prato.
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