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sexta-feira, setembro 18, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 79

 


79. Jessé Gomes da Silva Filho, conhecido no planeta Terra como Zeca Pagodinho, nasceu em Irajá, subúrbio do Rio de Janeiro, onde aprendeu samba do jeito certo: em roda de botequim, cercado de mestres que sabiam mais de partido alto do que muito professor sabe de gramática.

Ainda garoto, já improvisava versos com uma facilidade que fazia parecer que rimar era uma função biológica, como respirar ou pedir mais uma cerveja. Em pouco tempo, virou um fenômeno nas rodas de partido alto, disparando estrofes na velocidade de uma metralhadora desregulada.

Em 1981, Beth Carvalho apareceu numa roda do Cacique de Ramos, ouviu aquele rapaz magricela cuspindo versos sem respirar e concluiu que ali havia ouro puro. Levou-o para gravar “Camarão que Dorme a Onda Leva”, parceria dele com Arlindo Cruz. Foi o equivalente sambístico a um jogador ser convocado direto da pelada para a Seleção.

Logo depois, a gravadora RGE reuniu quatro novatos num disco chamado “Raça Brasileira”: Jovelina Pérola Negra, Mauro Diniz, Pedrinho da Flor e Zeca Pagodinho. A ideia era apresentar quatro promessas. O disco vendeu mais de cem mil cópias e tratou de avisar que eles já tinham deixado de ser promessas.

Em 1988, Zeca iria desembarcar pela primeira vez em Manaus para um show exclusivo no Clube do Samba, na Cachoeirinha, numa noite de sábado. Exclusivo. Essa palavra durou pouco.

Quando soube da novidade, Almerinho Botelho, presidente do Olímpico Clube, resolveu que exclusividade era um conceito bastante flexível. Procurou Carlos Moutinho, empresário e um dos sócios do Clube do Samba, e perguntou se havia alguma brecha na agenda. Havia. A sexta-feira.

Carlos Moutinho explicou que bastava pagar o cachê do artista: 600 mil cruzados, divididos em duas parcelas. Almerinho entregou 300 mil na hora e saiu da reunião acreditando que tinha fechado um excelente negócio. Também acreditava em Papai Noel.

A partir daí, entrou em modo campanha eleitoral. Espalhou dez mil cartazes, colocou Kombis com alto-falantes para rodar a cidade, deu entrevistas, distribuiu releases e fez tanta propaganda que, quinze dias depois, metade de Manaus jurava que o verdadeiro show de Zeca Pagodinho seria no Olímpico. A outra metade também.

Os outros sócios do Clube do Samba (Vilson Benayon e Aluísio Brasil) perceberam que a criatura criada pela publicidade estava escapando do laboratório e resolveram melar o contrato. A discussão foi parar nas mãos do advogado Alberto Simonetti Filho, contratado por Almerinho.

Depois de muita conversa, muito bico, muita cara feia e muita matemática criativa, firmou-se um acordo: toda a divulgação passaria a ser responsabilidade do Clube do Samba.

Foi um desastre. Os empresários fizeram tanta economia na propaganda que o público quase concluiu que Zeca Pagodinho tinha desistido da carreira artística para abrir uma peixaria.

No dia do show, Almerinho e Edu do Banjo foram visitar Zeca no hotel. O pagodeiro recebeu os dois já distribuindo sinceridade:

– Porra, Edu... por que vocês não falaram direto comigo? Esse Carlos Moutinho é o maior embaço...

Almerinho explicou:

– Disseram que tinham exclusividade contigo. Só cobraram teu cachê. Seiscentos paus.

Zeca quase caiu da cadeira.

– Seiscentos?! Meu show custa duzentos! Se embolsaram o resto, vão devolver.

A comissão seguiu imediatamente para o escritório de Carlos Moutinho. O clima ficou tão amistoso quanto um clássico Flamengo e Vasco aos 48 minutos do segundo tempo. Depois de muita discussão e de Zeca ameaçar cancelar os dois shows, o empresário devolveu cem mil cruzados da entrada e rasgou, ali mesmo, a duplicata da segunda parcela. Paz selada. Ou quase.

Na noite de sexta-feira, São Pedro resolveu testar a resistência da população de Manaus. Caiu um temporal daqueles que faria Noé pedir abrigo. Quem estava em casa permaneceu em casa. O Olímpico parecia mais um retiro espiritual do que um show de Zeca Pagodinho.

Pontualmente às onze da noite, o cantor subiu ao palco como se estivesse diante de um Maracanã lotado. Cantou “Manera Mané”, “Feira de Acari”, “Pisa Como Eu Pisei” e todos os sucessos do recém-lançado “Jeito Moleque”.

Na plateia, exatas 79 pessoas pagantes e 13 mesas ocupadas. Era praticamente um show personalizado.

Às duas da manhã, enquanto Almerinho fazia contas para descobrir quantos carnavais precisaria organizar para pagar aquele prejuízo, apareceu um emissário do Ecad trazendo a conta dos direitos autorais. Valor da facada: 150 mil cruzados.

Almerinho ficou tão furioso que cogitou resolver a questão com uma navalha – solução pouco recomendada, mas muito popular nas fantasias produzidas pelo desespero. Depois de longa negociação, surgiu um acordo digno de roteiro de comédia. Se Zeca aceitasse fazer uma roda de pagode só para aquela turma, a cobrança desapareceria como dinheiro em bolso de político desonesto.

Zeca topou. Mas estabeleceu suas condições, dignas de um astro internacional:

– Quero uma pizza de muçarela com catupiry... e Brahma bem gelada. Gelada mesmo. Na temperatura véu de noiva.

Pedido atendido. Com a pizza numa mão, a cerveja na outra e o cavaquinho correndo solto, Zeca comandou uma roda de samba até cinco da manhã. O representante do Ecad saiu dali mais feliz do que auditor em promoção de supermercado. E nunca mais apareceu para importunar Almerinho.

No dia seguinte, o show do Clube do Samba lotou. E Manaus adotou Zeca Pagodinho como patrimônio afetivo da cidade. Depois dessa estreia atribulada, ele virou arroz de festa nas rodas de pagode amazonenses – daqueles que ninguém reclama quando aparece de novo no prato.

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