77. De todas as brincadeiras de antigamente (bolinha, pião, cangapé, patinete, cemitério, barra-bandeira, camone boy, garrafão, perna de pau, bicicleta, celotex, etc.), a que me dá mais saudade eram as animadas partidas de futebol de caroço de tucumã nas calçadas, que comecei a disputar com 12 anos.
Lembro que para sair em busca de tucumãs nas áreas de ocorrência natural, a gente montava verdadeiras expedições de guerra, com 15, 16 moleques dispostos a matar ou morrer. Os deslocamentos eram feitos a pé.
Às
vezes, essas expedições duravam um dia inteiro, o que deixava nossas mães à
beira de um ataque de nervos. Havia perigos de todos os tipos nos rondando, de
picadas de cobras a afogamentos acidentais nos inúmeros igarapés que tínhamos
de atravessar (e eu nunca aprendi a nadar).
Para se ter uma ideia, basta lembrar que no final dos anos 60 a zona urbana da cidade terminava na Cohab-Am da Raiz, tendo como marco final o Igarapé do Crespo. Dali em diante, na direção do Japiim e Distrito Industrial, era terra de ninguém – leia-se floresta fechada.
Pra complicar, os grandes tucumanzais nativos estavam
no Morro da Liberdade, mas a mão de obra que dava para atravessar o Igarapé da
Cachoeirinha por meio de catraias, ali no final da Rua Maués, desestimulava
qualquer Jim das Selvas. Sem contar que os moleques de Santa Luzia costumavam
receber os forasteiros na base da baladeira e tinham uma pontaria infernal.
Na minha época,
o tucumã-arara era, mais ou menos, do tamanho de uma mexerica. Hoje, não passa
do tamanho de um limão. Eles eram selecionados para serem atacantes. O
tucumã-açu tinha o diâmetro de um pequeno ouriço de castanha. Eram selecionados
para serem zagueiros (os famosos “beques”). O tucumã-piririca era pequeno, mas
dava os melhores pontas e armadores. O tucumã-purupuru era a escolha certa para
a linha de médios, principalmente para o volante, vulgo “cabeça de área”. O
tucumã-do-mato ou tucumã-babão era escolhido apenas pela sua beleza física –
fornecia bons jogadores albinos.
A fabricação
dos jogadores era feita em série. Normalmente, a molecada possuía alguém que
fosse bom no manejo do terçado (na nossa turma, os irmãos Popó, Zezinho e Vico,
todos eles halterofilistas militantes). A gente entregava o caroço de tucumã e
avisava: atacante! O sujeito posicionava o caroço em um cepo de madeira e dava
uma terçadada acima da metade do coquinho. Ou então: linha média! O sujeito
dava uma terçada abaixo da metade do coquinho. Ou ainda: beque! A terçadada era
dada a um dedo da extremidade do coquinho.
Partíamos então
pra fase de ralação. A escolha recaía nas ruas de asfalto mais recente, onde o
atrito era maior. Pra retificar a base dos jogadores era mais simples: bastava
calçar uma sandália japonesa, pisar em cima do botão, e sair arrastando por uns
duzentos metros. Pra raspar as fibras da superfície dos caroços, não tinha
jeito: era na base da ralação manual, também no asfalto.
Nessa fase, era comum alguém se entreter na tarefa e acabar ralando o dedo, que, dependendo da força aplicada nos caroços, podia expor o osso das juntas. Presenciei vários acidentes desse tipo. Somente nessa fase é que a gente descobria as imperfeições do jogador, traduzida em buracos abertos por brocas e outros inimigos naturais.
Dependendo do grau de imperfeição (até três buracos eram
admitidos), a gente ia em frente – os buracos seriam corrigidos,
posteriormente, com a adição de cera proveniente de velas derretidas. Caso
contrário, eles seriam sumariamente descartados.
Após a ralação,
começava a fase do polimento. No início, com lixa grossa. Depois, com lixa
d’água. Finalmente, com lixa fina. Quando os jogadores estivessem perfeitamente
lisos, eram pintados com tinta de sapateiro e ficavam alguns dias ao sol. Mais
tarde, ficavam submersos n’água – para liberar a amêndoa e absorver umidade. Só
então eram engraxados, com graxa de sapateiro, e depois recebiam uma camada de
carnaúba. Estavam prontos pros embates.
Com os beques,
o buraco era mais embaixo. Depois que o miolo do coquinho era retirado, eles
eram enterrados na terra. Em uma lata, derretíamos chumbo e depois derramávamos
o chumbo quente no interior dos beques, jogando em seguida água fria para que o
choque térmico solidificasse o chumbo. Algumas vezes, o beque não aguentava a
parada e se quebrava. O jeito era começar tudo de novo.
Pra fabricar os goleiros, havia uma espécie de molde escavado no barro, semelhante a uma caixa de fósforos. Era só derramar o chumbo derretido ali dentro e jogar água fria. Depois de retirar o molde de chumbo do buraco, era só retificá-lo para caber dentro de uma caixa de fósforos, e depois enfeitá-lo com as cores do clube.
As
traves eram de madeira com redes de pano (normalmente voal transparente ou
rendinha), tendo, nas suas dimensões, o dobro do goleiro de altura e cinco
vezes o tamanho dele de largura. A bola, redonda e com desenhos imitando os
gomos das bolas de verdade, era feita de cortiça ou de lã. Os jogadores eram
acionados por pentes (o pente Flamengo era o favorito, mas havia pentes
artesanais feitos de osso que tiravam qualquer um do sério, em termos de
potência, funcionalidade e direção).
Os times eram
dispostos em campo quase sempre do mesmo jeito. Os dois beques chumbados
embaixo da trave, ao lado do goleiro, um volante grandão na cabeça da área,
dois médios se passando por laterais, e cinco atacantes. A regra adotada era a
baiana (um toque). O resto, igual ao celotex. Por exemplo, rebatida do goleiro
pertence ao time que está atacando.
Aí, um dos
inventores de ocasião (Heraldo Cacau ou Airton Caju, não lembro) conseguiu
introduzir vários alfinetes no peito do goleiro com o chumbo ainda derretido. O
goleiro ficou parecido um porco-espinho, mas encaixava qualquer bola – e quanto
mais forte o chute, melhor. Tivemos de proibir a presepada. Brincadeira tem
hora.


Nenhum comentário:
Postar um comentário