segunda-feira, outubro 12, 2015

Só o Gabeira voltou diferente


Kátia Flávia

Pena que a autora do comentário enviado à coluna às 12h28 deste domingo tenha optado pelo anonimato. Gostaria de saber quem escreveu o texto que, pela limpidez da forma e pela lucidez do conteúdo, merece ser reproduzido na seção Opinião. As observações sobre Fernando Gabeira feitas por Flavia, prenome extraído do email, compõem um elegante e inteligente contraponto ao artigo do Oliver publicado logo abaixo. Vale a pena ler os dois, amigos. (AN)

Parece que algumas pessoas ainda desconfiam da sinceridade e visão da política do Gabeira. Eu gostava dele enquanto ele lutava contra a ditadura militar, me perdi dele durante o exílio e achei o máximo quando ele ressurgiu no Rio de tanga roxa. Como dizia o Paulo Francis, pior que patrulha de ex-fumante é patrulha de ex-comunista. Acho que ele dizia ex-trotskista, mas dá no mesmo.

É preciso ter feito parte dos partidos clandestinos, é preciso ter ouvido as infindáveis discussões entre maoístas, trotskistas, e outros istas, é preciso ter ficado sem respostas ao fazer uma pergunta inteligente prá saber como funciona o PT, o Foro de SP, a cabeça da Marina e outras coisitas mais.

Lá nos meus 15 anos, durante uma daquelas intermináveis reuniões de centro acadêmico, eu disse e perguntei: Gente, eu acho que conquistar o poder é fácil. O que eu quero saber é o que vamos fazer depois. E me responderam: Você quer saber demais. Faça o que for decidido aqui e pare de querer saber demais. Ali eu vi que não tinha jeito. Nunca votei em comunista, porque é uma contradição.

Eu sonhava subir a rampa do Planalto num tanque de guerra, e quem viesse atrás saberia o que estava apoiando. A esquerda chegou ao poder via Gramsci, via engodo, mentira, distorção da realidade. Gabeira sabe disso. Ele também sabe, talvez mais do que alguns que ficam invocando seu passado de torturas, que quanto mais a pessoa se comprometia, menos chances tinha de voltar atrás, pensar, mudar de ideias.

Quando veio a Anistia, eu estava empolgadíssima, lendo e ouvindo todas as entrevistas dos nossos valentes que voltavam lá de mundos mais avançados e — principalmente — mais bem informados. Achava que estavam voltando cheios de novas propostas e soluções. Ledo engano! Voltaram todos iguais, como se tivessem passados o exílio em estado de vida suspensa, congelados e duros.

O único que voltou diferente foi o Gabeira. E voltou falando em ecologia, em verde, em temas que, não por acaso, são caros à esquerda alemã e europeia. Ele continuava na vanguarda, mas com um discurso melhor. É surreal, nós continuamos tentando ser de esquerda e somos taxados de coxinhas neoliberais! Bom, todos esses rótulos que se danem! Nós continuamos tentando ir prá frente e o PT é o atraso.

Isso desqualifica a análise que o Gabeira faz do PT? Acho que não. Ele conhece os companheiros. Sabe como são atrasados e tacanhas. Sabe como eles pensam. Eu tenho uma mágoa muito grande de ver a palavra democracia enxovalhada na boca do PT. Eu e o Gabeira estávamos lutando pelo fim da ditadura militar, mas não pensávamos o futuro como uma democracia, sinto muito.

O importante é que nós MUDAMOS. A nossa cabeça mudou. É isso que faz do ser humano uma criatura especial. Nós podemos aprender.

Hoje, nós sabemos que o PT nunca lutou nem luta pelos direitos de ninguém. Hoje está claro, até para os mais idealistas, que a esquerda só tinha um plano de PODER, conforme eu descobri em 1968. Chegaram lá e o futuro acabou. Ficaram desnorteados, nunca se deram conta que agora podiam pegar a caneta e fazer a reforma agrária. Em vez disso, criaram o MST, prá ficar em só um exemplo.

Enfim, viva o Gabeira.

Eu confio nele, porque nós temos a frustração de nunca ter realizado o nosso sonho de melhorar o Brasil. Ficamos votando no menos pior.

Lutamos contra a ditadura militar e agora nem temos como lutar claramente contra uma ditadura fantasma, que se faz de democracia. Nos sentimos meio loucos de dor, desesperados como aqueles que eram declarados loucos e despachados para hospícios siberianos.

Talvez um dia a gente chegue ao fundo do poço e comece a voltar à boa luta. Talvez ainda nos reste um tempo para ver a maré mudar. Mas são anos e anos, gerações de completo desperdício.

O que foi isso, companheiro?

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