sábado, outubro 24, 2015

Thiago de Mello: poesia a serviço da vida (3)


Em 1968, em virtude das perseguições constantes do governo militar, Thiago de Mello parte como exilado para Santiago, no Chile. Os reveses também o surpreenderiam no novo país, com a eclosão do golpe militar de 11 de setembro de 1973.

O consagrado Victor Jara, cantor do povo chileno e uma espécie de “Chico Buarque local”, foi preso, torturado e fuzilado em pleno Estádio Nacional, na frente de milhares de pessoas, cinco dias após o ignominioso golpe militar. Neruda morreria menos de duas semanas depois.

O poeta amazonense teve mais uma vez de se evadir. Ainda hoje, Thiago de Mello se emociona quando recorda aqueles dias de terror:


“Antes de mais nada é preciso lembrar que o Estádio Nacional foi transformado em campo de concentração e lá aconteceram fatos terríveis, tanta foi a ferocidade do golpe militar chileno, promovido, como se sabe, pelo governo norte-americano, que, nove anos antes, já organizara o golpe brasileiro. Lá foi assassinado o poeta e cantor Victor Jara (foto). Antes de matá-lo, cortaram-lhe as mãos. Filho de camponeses, Victor Jara surgiu como menestrel e ganhou o coração chileno. Quando o levaram para o estádio, não sabiam que ele era o querido cantor. Foi identificado quando outro preso, ao reconhecê-lo, começou a entoar uma de suas canções mais populares. Ouvi contar que até alguns soldados cantaram. Tenho um poema, “Canção para Victor Jara”, musicado por Pablo Milanês, o lindo poeta e cantor cubano, em que digo: “pensavam que cortando as tuas mãos e calando a tua voz, matavam a tua esperança”.

No dia 11 de setembro de 1973, dia do terror chileno, eu estava em Santiago, refugiado político. Servia ao governo de Salvador Allende, como diretor de Comunicação do Instituto de Reforma Agrária. Trabalhava com os camponeses em Temuco, região de muito conflito entre latifundiários e os valentes índios araucanos, os mapuches. Eu era pessoa muito visada, estrangeiro, muito conhecido e até querido no Chile. Porque durante cinco anos fora adido cultural da Embaixada do Brasil e fiquei conhecido na pátria do Neruda, pelo meu labor, com pintores, músicos e poetas, a serviço da integração cultural latino-americana.


Quando me refugiei no Chile, em fins de 1968, o meu filho primogênito, Alexandre Manuel, o Manduka, veio me ver (um presente de Salvador Allende). Ele era músico, um pássaro cantor. Foi um lindo companheiro que a vida me deu. Já atravessou o rio, canta lá nas estrelas. Manduka era um carinhoso apelido de família.

Ele se chamava Manuel em homenagem ao padrinho, o doce Manuel Bandeira, que celebrizou o menino logo ao nascer com um poema em seu “Mafuá de Malungo”. Manduka tinha 16 anos, veio de violão. Alegria que durou duas semanas.

Quando voltou, foi preso no aeroporto do Galeão. Os agentes do SNI no Chile avisaram os gorilas brasileiros. Maltrataram o menino. Só por ser meu filho. Sua mãe, a jornalista Pomona Politis, conseguiu tirá-lo das grades. Quando saiu, ele passou a ter medo de carro de polícia, de gente fardada. Deu no pé do Brasil. Viveu sete anos comigo no exílio. Cantando, sempre cantando.


Volto ao dia do golpe. Estava a caminho da Gran Avenida, quando ouvi que estavam metralhando o La Moneda. Corri para estar ao lado de meu presidente, meu amigo, Salvador Allende. Quando fui me aproximado do palácio, alguém me agarrou e disse veemente: “Poeta, ande, vayase!”. Um desconhecido. Quis reagir e ele me empurrou. Me salvou.

Um ano depois, já no exílio, amparado pelas Nações Unidas, a Acnur, dediquei assim o poema “Lição de Cordilheira”, que está no “Mormaço na Floresta”: A Salvador Allende, / O fogo comendo, / O sonho cantando. / O povo vai fazer o resto. (O último verso é a frase final do discurso que ele fez antes de morrer.)

Nos primeiros dias do golpe, a casa onde eu morava, em Vitacura, foi invadida pelos primatas de Pinochet. Ninguém dentro dela. Fizeram uma fogueira com os livros (até as provas gráficas do que eu levara anos para escrever, sobre a Ilha de Páscoa; a editora foi empastelada) rasgaram telas de Portinari, Djanira, gravuras de Anna Letycia.

Até hoje me dá uma agonia no corpo todo, quando lembro que levaram (rasgaram, queimaram, será que guardaram?) uma pasta encadernada com rótulo bem desenhado por mim: Cartas de Bandeira e de Neruda.

Manduka e eu estávamos bem guardados na casa da família Bertonatti, gente fina, de coração do tamanho de um bonde, como dizia minha mãe dona Maria. Era fim de outubro de 1973. Decidimos pedir asilo na Embaixada do Peru. Eu tinha um livro publicado lá na pátria de Arturo Corcuera e Chabuca Granda, Manduka ali recebera o prêmio maior do Festival Internacional de Águas Claras, cantando “Pátria Amada, Idolatrada, Salve-Salve”, dele e do querido Geraldo Vandré.

Chegamos à Embaixada, o portão estava escancarado. O casarão lá no fundo do jardim. Entramos. Escondida, rente ao muro, estava uma patrulha de carabineiros chilenos. Dentro, sim, do território peruano. Na portaria, pedi para falar com o embaixador. Não estava. Veio o encarregado de negócios. Mal comecei a falar, ele foi cortando: “A embaixada não concede asilo”.

Acudi que apenas queríamos um visto para viajar a Lima. “Meu filho tem de dar um recital, vou trabalhar na Universidade de San Marcos, estou traduzindo César Vallejo”, expliquei. Ele pediu os passaportes. O diplomata olhou meu documento (chileno, de refugiado) e, com a maior desfaçatez deste mundo, levantou o braço e chamou os carabineiros. Assim mesmo, como estou contando.


Fomos presos e levados, não para o estádio, mas para a delegacia do bairro. Ficamos trancados numa sala. Levaram nossos documentos. Veio el capitán, sozinho e sério, mas não nos insultou. Interrogatório. Contei que precisávamos viajar ao Peru, a trabalho. Fomos à embaixada pedir visto e fomos presos. Quando ele viu o violão, que Manduka não largava, seus olhos se acenderam. Perguntou se eu tocava. Apontei para o menino. A quem ele fez uma pergunta que salvou a pátria: “Por si acaso, tocas la Bossa Nova?”

Com muita calma, o Manduka (já com 21 anos) tirou uns acordes com aquela batida de João Gilberto, cantou o Desafinado, depois ofereceu o pinho ao militar, que não se fez de rogado. Dedilhou uns acordes, elogiou o instrumento, agradecido. O militar nos deixou. Abracei meu filho. Demorou um tempão, anoiteceu, o capitão voltou com nossos documentos e, como se nada tivesse acontecido, se referiu a minha amizade com Neruda.

Mandou a gente embora, e ainda advertiu: “Vão depressa, porque o toque de recolher começa às 10 horas e já passa das nove”. Me olhou nos olhos: “Seja mais cuidadoso”. Não cabiam dúvidas. O oficial chileno só podia ser um allendista. A guarda do palácio presidencial era feita por carabineiros.

No dia seguinte ao enterro de Neruda... (faço um parêntese, ou um ramo, como o poeta me dizia: “Compañero, haces demasiadas ramas en el árbol de tu conversación”. Eu lhe respondia que era verdade, pero advertia que os ramos da conversa dele eram mais grossos e mais bonitos do que os meus. Quero recordar o enterro do bardo: “Pablo Neruda!”, bradava um coração chileno. “Presente!”, respondia a multidão corajosa, cercada de soldados. Fecho o parêntese.)

No dia seguinte ao enterro de Neruda, cometi uma audácia. Era preciso socorrer um brasileiro, também refugiado, para ele sair do Chile. Estava escondido num bairro proletário de Santiago, cruzado pela Grande Avenida. Tinha papéis bons. Dei o lugar e a senha onde uma mulher o esperava, de vestido branco. Lembro neste instante que a senha era Madrugada Campesina. Abracei-o: “Ela vai te ajudar”. Ajudou muito.

Tornei a vê-lo, anos depois, quando voltei do exílio. Estava sentado na primeira fila do Teatro da PUC, em São Paulo, na estreia do “Faz Escuro Mas Eu Canto”, título do show, com poemas e canções, que Sergio Ricardo me chamou para fazer com ele. Varamos durante um ano por mais de dez capitais brasileiras clamando pela anistia. Onde chegávamos, a censura nos esperava. Chegávamos armados com os Direitos Humanos.”


Depois que conseguiu sair de Santiago, Thiago de Mello peregrinou por Buenos Aires, Paris, Lisboa, Berlim e Frankfurt, até fixar residência na cidade de Mainz, na Alemanha, para trabalhar como professor visitante na Universidade Johann Guttenberg. Foi quando encontrou a tranqüilidade necessária para lapidar os poemas que vinha elaborando nesse meio tempo e publicou um novo livro, “Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida” (Civilização Brasileira, 1975).


Dono da editora Civilização Brasileira e amigo particular de Thiago de Mello, Ênio Silveira (foto) era um homem de cultura ampla, poder-se-ia mesmo dizer que era um cosmopolita daquele tipo de pessoa viajada e que, no caso dele, parecia pertencer a uma geração de brasileiros – hoje quase extinta – que acreditava ser a França a capital cultural do mundo e jurar que Nova York não passava de uma aldeia de nouveau-riches avaros e kitsch, ou seja, em bom português, de novos-ricos avarentos e cafonas.

Elegante e bem-apessoado, Ênio tinha aquele porte que no Brasil se convencionou chamar de britânico, embora demonstrasse uma educação mais próxima daquilo que o brasileiro de classe média alta classifica como européia continental.

Nascido em 18 de novembro de 1925, em São Paulo, Ênio Silveira se formou em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) e logo seguiu para Nova York, onde estudou editoração na Universidade de Columbia e fez estágio na Editora Alfred Knopf.

De volta ao Brasil, passa a morar no Rio de Janeiro e inicia sua carreira na Editora Civilização Brasileira, fundada em 1929 e incorporada três anos mais tarde pela Companhia Editora Nacional, do escritor Monteiro Lobato (1882-1948).

Ênio assume a direção da editora em 1948, realiza mudanças na linha editorial e na área gráfica, com a introdução de gravuras nas capas e interior dos livros e o uso de brochura. A editora se torna então uma das maiores do Brasil.

Em 1965, ele cria a Revista Civilização Brasileira, marco do pensamento político e cultural e de resistência à ditadura militar, fechada após o Ato Institucional nº 5 (AI-5), no fim de 1968. Entre 1964 e 1969, Ênio Silveira é preso sete vezes por sua filiação ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e pela resistência democrática que lidera no campo editorial, com a publicação de títulos sobre temas políticos e sociais de pensadores como Karl Marx e Antonio Gramsci, e jovens autores brasileiros.

Por conta de suas crenças políticas, Ênio editava livros que raramente chegavam ao Brasil, obras vistas como polêmicas aos olhos de parte da sociedade brasileira. Na seção “Cadernos do Povo Brasileiro”, escrevia sobre temas da política nacional, de intervenção nas lutas sociais, como a Reforma Agrária, por exemplo. Quem comprava a coleção ainda recebia um caderninho de poemas chamado “Violão de Rua”, em que publicava obras de importantes artistas do Brasil, como o famoso poema de Vinícius de Morais, o “Operário em Construção”.

O sociólogo foi uma das personalidades mais influentes dos meios editoriais do Brasil durante décadas, principalmente durante a ditadura militar. À época do regime militar, chegou a editar um livro por dia tendo, ao longo de sua vida, editado cerca de seis mil livros.

Por todo o seu trabalho à frente da Editora Civilização Brasileira, Ênio Silveira tornou-se um verdadeiro marco na sociedade brasileira, encantando até o filósofo Jean-Paul Sartre. Sua morte, em 1996, foi uma grande perda para as letras nacionais, sobretudo por sua defesa intransigente da democracia, da cultura e da intelectualidade tipicamente brasileira.

O livro “Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida” foi apresentado por Ênio Silveira:

Esses versos do poeta são uma síntese do que se propõe, depois de muito sofrimento, ao longo de caminhos e descaminhos: “Cada vez mais sozinho e mais feroz, a ternura extraviada de si mesma, / o homem está perdido em seu caminho. / É preciso fazer alguma coisa / para ajudá-lo. Ainda é tempo.” Thiago de Mello, poeta, caboclo do Amazonas e cidadão do mundo, não se limita, porém, a conclamar-nos para essa campanha de re-humanização do homem: ele próprio já partiu, “eu que também me sei ferido e só, / mas que conheço esse animal sonoro / que profundo e feroz reina em meu peito”, porque foi testemunha de crueldade e violência, sentiu no coração a dor imensa de ver irmão contra irmão no “incêndio monstruoso que lavou a cordilheira dos Andes, em setembro de 1973”. E. no entanto, sabe que ainda é tempo. Ainda é tempo de amar, ainda é tempo de viver. Mesmo que os massacres no Vietnam ou no Chile nos infundam momentânea desesperança e frustração, ainda é tempo.

A mesma sede de paz, justiça e liberdade que armou para a vitória um dos povos mais desvalidos e pobres do mundo, fazendo-o derrotar nos arrozais do sudeste asiático a maior potência militar que a história já conheceu, pode armar a cada um de nós para a luta pelo direito de viver com dignidade. O desafio foi aceito: os humilhados e ofendidos, em toda parte, se preparem para enfrentar e liquidar o anti-humano. Se não o fizessem, a humanidade inteira – opressores e oprimidos – pereceria. A luta não será breve, nem fácil, e dela ninguém poderá fugir.  Mas como diz o poeta, “não importa que doa: é tempo / de avançar de mão dada / com quem vai no mesmo rumo, / mesmo que longe ainda esteja / de aprender a conjugar / o verbo amar.”

Este seu novo livro, Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida, é como uma flâmula balouçante ao vento, conclamando-nos a cerrar fileiras, mobilizando nossas cabeças, nossos corações e nossos braços. Thiago de Mello, andando pelo mundo, avança: “o rumo é o do amor. / Sabendo certo por onde / vou com quem e a que vou.” As horas amargas que viveu no Chile, depois do assassinato de Allende, cuja experiência de governo era bela promessa que o medo, a ignorância, a traição e a violência cruel e estúpida impediram de colher seus frutos, não lhe abateram o ânimo. Os poetas, mais do que os estadistas, os políticos e os administradores, têm a capacidade de perceber o amanhã. E o caboclo de Barreirinha já sabe que a luz romperá as trevas antes do que pensam os tímidos e os derrotistas: “Pois eu prefiro ficar / contigo, estrelada terra, / não me canso de esperar. / Fique de tudo o que dei, / conjugando o verbo amar, / o rastro de uma esperança / que o homem precisa achar.”

Como já havia acontecido nas últimas vezes, o novo livro de Thiago também obteve boa aceitação no mercado editorial brasileiro, tendo conquistado um importante prêmio concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte e ocupado por vários meses a lista dos dez livros mais vendidos do ano.

Na Alemanha, o poeta havia ficado fascinado com a consciência ecológica dos militantes do Partido Verde, que haviam superado a dicotomia socialismo-capitalismo e agora defendiam um desenvolvimento sustentável, ambientalmente correto e socialmente justo.

Em outubro de 1977, dois anos antes da “anistia ampla, geral e irrestrita” ser promulgada pelo general Ernesto Geisel, Thiago de Mello resolve voltar ao Brasil para iniciar uma nova etapa de sua vida: a luta ecológica em defesa da Amazônia.


“Sei que é preciso sonhar. / Campo sem orvalho, seca / A fronte de quem não sonha. / Quem não sonha o azul do voo / perde seu poder de pássaro. / A realidade da relva / cresce em sonho no sereno / para não ser relva apenas, / mas a relva que se sonha. / Não vinga o sonho da folha / se não crescer incrustado / no sonho que se fez árvore. / Sonhar, mas sem deixar nunca / que o sol do sonho se arraste / pelas campinas do vento. / É sonhar, mas cavalgando / o sonho e inventando o chão / para o sonho florescer”.

O sonho de retornar ao Brasil contado num de seus poemas escritos no exílio na Alemanha, um dos países onde residira nos últimos anos, havia, enfim, se tornado realidade, para Thiago de Mello, que chegou ao país como um refugiado das Nações Unidas. Mas, entre a alegria da volta e os abraços de parentes, foi detido pela Polícia Federal, logo ao desembarcar no Galeão, no início de uma manhã de outubro, só sendo liberado no final da noite.

Com 51 anos e vestindo camisa e calças brancas, cor de sua preferência pelo significado de “festa, paz e tranquilidade”, o poeta trouxe na bagagem sérios problemas de saúde: dois enfartes no intervalo de poucos meses e uma angina, quadro validado por três laudos médicos entregues às autoridades. E também um testamento, com pedido de ser cremado.

De volta ao Brasil, anunciou que havia escolhido a cidade de Barreirinha, encravada no meio da floresta amazônica, para viver, “para aprender com a própria floresta e, sobretudo, com o homem que vive nela e vive dela” e para servir à causa ecológica (lançaria “Mormaço na Floresta”, em 1981, e “Amazonas, Pátria das Águas”, em 1991, para referendar essa decisão). Sua bagagem sentimental era composta de livros, esculturas e quadros, presenteados a ele pelos mais representativos intelectuais do planeta. O poeta resolveu compartilhar aquele tesouro com seus irmãos da selva.


Em 1978, ao lado do cantor e compositor Sérgio Ricardo, Thiago de Mello participa do show “Faz Escuro Mas Eu Canto”, dirigido pelo cronista e dramaturgo Flávio Rangel (1934-1988) e apresentado em dez capitais brasileiras.

Um dos presentes na plateia do show realizado no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, era o arquiteto Lúcio Costa, “o homem mais delicado que já conheci”, diz Thiago. Apresentados por Drummond, em 1948, se tornariam carne e unha pelo resto da vida. “Lúcio Costa gostava de mim, vivo dizendo isso, sozinho”, explica o poeta.

“Quando voltei do exilio, ele foi ao teatro assistir ao show de poemas e canções, meu e do Sergio Ricardo. Entrou na fila dos abraços e me disse ‘bienvenu’. Não escondi as lágrimas. Soube que eu ia voltar a viver na floresta e alguns dias depois me ligou: ‘Venha buscar a sua casa, ela já está pronta’. E me entregou um projeto arquitetônico maravilhoso.”





O arquiteto, cuja mãe, Alina, era amazonense, assim anota o fato no livro “Registro de uma Vivência” (1995): “Finalmente, numa como que volta às origens, dei o risco da casa que, em Barreirinha, no coração da Amazônia, o poeta nativo constrói com zelo e amor”.

Nos anos posteriores, sairiam da prancheta ainda uma biblioteca e um “torreão”, com janelas quebra-vento, para servir de local de trabalho.

Em 1978, Thiago de Mello edificou com as próprias mãos – utilizando madeiras nativas – o sonho de sua casa amazônica. O conjunto foi chamado de Porantim do Bom Socorro, em homenagem ao lugar onde Thiago e seu pai haviam nascido. O refúgio do poeta, um dos últimos projetos do arquiteto Lucio Costa, era composto de três imóveis.

Em um deles, que funcionava, também, como residência, Thiago instalou a Biblioteca Moronguetá e uma Biblioteca de Literatura Universal.

Em outro, a Biblioteca Amazônica, com 800 volumes, a Biblioteca Latino-Americana e uma Biblioteca de Artes Plásticas.

No terceiro, um Museu Universal e um Museu de Usos Humanos da Madeira Amazônica, atendendo a uma sugestão do antropólogo Gilberto Freyre.


As joias da coroa estavam na Biblioteca Latino-Americana. Constituída de 1.500 volumes, ela continha, entre outras preciosidades, a coleção completa das revistas Crisis, da Argentina, Casa de Las Américas, de Cuba, e Plural, do México, além das obras completas de Alejo Carpentier, Nicolas Guillén, Octavio Paz, Gabriel García Márquez, Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Pablo Neruda, Jose Lezama Lima, Mario Vargas Llosa, Cíntio Vitier, Guillermo Cabrera Infante, Eduardo Galeano e Osvaldo Soriano, entre outros, a maioria delas com dedicatórias afetuosas ao poeta feitas de próprio punho pelos autores.

Na Biblioteca de Artes Plásticas, com 500 volumes, era possível consultar livros sobre Picasso, Miró, Salvador Dalí, Chagall, Paul Klee, Henri Cartier-Bresson, Man Ray, William Klein, Sebastião Salgado, Robert Doisneau, Mario Giacomelli e muitos outros. Havia, ainda, um exemplar original da Expedição Langsdorff ao Brasil, com ilustrações de Rugendas, Taunay e Florence, e outro da Colonização dos Holandeses no Recife, com ilustrações de Franz Prost e Barleus. Cada uma destas duas últimas obras citadas está avaliada, por baixo, em 20 mil dólares.


No Museu Universal, o destaque era uma gravura em bronze de Miró, da série Constelações (as demais estão no Louvre, de Paris), e várias aquarelas de Roberto Sambonet, considerado o maior pintor italiano do século vinte e morto em 1999. Sambonet, durante quase uma década, foi presidente da Sociedade Internacional de Design. Havia, ainda, serigrafias de Volpi, gravuras de Ana Letícia (considerada a maior gravadora do Brasil), xilogravuras da mineira Iara Tupinambá, aquarelas de Fernando Fiúza (que já foi premiado na Bienal de São Paulo) e diversos quadros de Moacir Andrade, Jair Jacqmont, Rufino Tamoyo, Rosé Bru e Venturelli (premiado na Bienal de Veneza), para só citarmos os mais conhecidos.

No Museu da Madeira, Thiago havia conseguido dezenas de remos antigos de formatos diferentes, arpões de maçaranduba desenvolvidos para a pesca de poronga, várias almanjarras (um tipo primitivo de moenda de espremer cana), canoas esculpidas pelos índios diretamente no tronco de árvores, bancos, pilões e gareiras, uma espécie de recipiente do bagaço da macaxeira após o tipiti. O destaque do museu ficava por conta de uma série esplendorosa de adoquinis – beirais de madeiras ucranianos pintados à mão –, que Thiago havia recebido de presente do ex-ministro de Turismo Rafael Grecca.


Nesse ambiente acolhedor, Thiago recebia, vindos de todos os quadrantes do planeta, os seus milhares de amigos aos quais revelava, pouco a pouco, alguns dos mistérios de um mundo ainda em estado de graça.

As viagens de barco que o poeta empreende pelo Paraná de Ramos, as visitações às comunidades ribeirinhas do Andirá, Negro, Amazonas e Solimões, o contato amigável com os índios sateré-mawé, as pescarias, caçadas e histórias de assombrações, tudo se transforma em matéria-prima de uma nova aventura literária, dessa vez em defesa do meio ambiente.


O resultado é o livro “Mormaço na Floresta” (Civilização Brasileira, 1981), que ganhou uma bela apresentação de Ênio Silveira:

Maiakovsky tinha plena consciência de sua natureza: “Comigo a anatomia se vê louca: sou todo coração”. Thiago de Mello, igualmente lírico e dedicado ao seu povo define-se como um rio que flui, não um rio qualquer, mas o seu rio, o seu Amazonas – natural e simbólico –, que nasce nas geleiras eternas dos Andes, atravessa um continente e vai lançar no Atlântico a carga ciclópica de areia e húmus, de grandeza e miséria humana que recolheu ao longo de cem mil barrancos. Onde quer que tenha andado, nas horas de alegria ou de sofrimento que tenha vivido, o poeta sempre se desejou “ser capaz como um rio / que leva sozinho / a canoa que se cansa, / de servir de caminho / para a esperança / (...) / E de lavar o límpido / a mágoa da mancha, / como o rio que leva, / e lava.”

“Como o rio decifra / o segredo do chão”, o poeta tem sempre o coração aberto, os ouvidos atentos. Seu irmão em dificuldades jamais necessitou pedir-lhe ajuda, pois que ele, constante e deliberado como o rio intemporal, sabe “crescer para entregar / na distância calada / um poder de canção”. O companheirismo fraternal é, de fato, um dos traços marcantes da personalidade e da obra poética de Thiago de Mello. 

Mão estendida, abraço cordial e solidário tanto nas horas de perigo e infortúnio quanto nas de comemoração festiva, ele está sempre disposto a ajudar os humilhados e ofendidos. Com o poder da canção e a força do corpo. Por mais sombria que a noite seja, com ele ao nosso lado temos a certeza de que a manhã não tarda e sentimos renascer a esperança, mesmo quando os dados de triste realidade tudo façam por sufocá-la.

Na dedicatória poética com que abre este seu novo livro e belo livro, trabalho pleno de maturidade que as chamas da juventude aparentemente eterna temperam, o Ulisses caboclo retornado à sua Ítaca fluvial nos diz que não está em paz no centro da floresta amazônica porque vive e convive com crianças que dormem com fome, mas que, apesar disso, trata de repartir a esperança. E é precisamente isso o que vem fazendo, ao longo de sua vida. 

Embora tenha enfrentado mais vezes do que desejaria essa desafortunada situação, qual seja a de tentar manter resistentes e combativos, sob o estímulo da esperança na justiça e em dias melhores, aos seus irmãos e companheiros de jornada sobre quem o abuso ou a desgraça hajam tombado, Thiago de Mello não se deixa dominar pelo desânimo e a todos dá, sempre, o auxílio de seu canto solidário, mesmo quando esteja ele próprio sob a mira da adversidade. 

Assim como o rio, ele lava a mágoa da mancha e, armado de amor, “reparte sua esperança e canta a clara certeza da vida nova que vem”. Nele, juntos e afinados, o homem e o poeta, crescem límpidos a cada novo livro.


Em 1981, a editora Civilização Brasileira publicou “Vento Geral – Poesia 1951-1981”, mas apressou-se a esclarecer:

Com este mesmo e belo título, Vento Geral, a Livraria Editora José Olympio publicou em 1960 a opera omnia até então do poeta amazonense, que nove anos antes, com Silêncio e Palavra, irrompera vigorosamente no cenário cultural brasileiro e de pronto recebera a melhor acolhida da crítica. Álvaro Lins, Tristão de Ataíde, Manuel Bandeira, Sérgio Milliet e José Lins do Rego, para citar alguns nomes ilustres, viram nele e em sua obra poética duas presenças que, substanciosas e duradouras, enriqueceram a literatura nacional. “(...) Thiago de Mello é um poeta de verdade e, coisa rara no momento, tem o que dizer”, escreveu Sérgio Milliet.

O correr dos anos só fez confirmar suas qualidades e justificar os elogios com que fora recebido pela intelligentsia brasileira. O amadurecimento permitiu ao poeta mergulhar profundamente as raízes da sensibilidade e da consciência crítica na rica seiva humana de um povo ao mesmo tempo tão explorado, tão sofrido e tão generoso como o nosso, e sua poesia, sem perder o sóbrio lirismo que a inflamava, ganhou densidade e concentração, pondo-se por inteiro a serviço de relevantes causas sociais.

Faz Escuro Mas Eu Canto, A Canção do Amor Armado, Horóscopo Para Os Que São Vivos, Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida realizam, por isso, a bela síntese do poeta e do homem que jamais deixou ficar indeciso em cima do muro de confortável neutralidade. O poeta e o partisan eram uma só pessoa, dedicada sem medir esforços ou riscos à luta pela emancipação do homem, tanto dos grilhões que injustas estruturas do poder econômico-político lhe impõem quanto das limitações com que individualismos, ignorância ou timidez lhe tolhem os passos.

A biografia de um poeta assim concebido e a tanto cometido não poderia jamais desenvolver-se num plano de tranqüila rotina. A de Thiago de Mello teve, por isso mesmo, suas fases sombrias e borrascosas, realçadas por arbitrária prisão e longo e doloroso exílio da pátria a que tanto ama e serve.

Essas provações, que enfrentou com a serena firmeza de quem as sabe inevitáveis e delas não foge, enriqueceram-no ainda mais como poeta e ser humano. Alargando sua weltanschauung, permitiram-lhe comprovar o acerto de sua intuição de que o geral passa pelo particular e de que, como dizia seu grande colega Fernando Pessoa, “tudo vale a pena / se a alma não é pequena”.

No livro mais recentemente publicado, Mormaço na Floresta, todas as linhas marcantes de sua poesia, o lirismo, a sensibilidade humana, a alegria de viver, a luta contra a opressão, o amor constante à Amazônia natal se reúnem harmonicamente, num tecido de rara força e beleza. O poeta não escreve seus poemas apenas em busca de elegância formal: neles se joga por inteiro, coração, cabeça e sentimento, e isso lhes dá autenticidade e força interior.

Soma de todos eles, este novo Vento Geral que mais forte e oloroso sopra, dá-nos o retrato bem contrastando do poeta e do homem Thiago de Mello. Mas o homem é o seu processo, e este segundo patamar, já tão alto, é apenas uma prestação de contas até agora e, mais do que promessa, a garantia de que sua obra se elevará sempre, na medida em que continua a aprofundar-se no que há de mais rico e estimulante no difíci mestiere di vivere.


“O senhor acredita que o exílio no Chile foi uma porta aberta para seu sucesso no mundo da literatura? Ou, além disso, outros fatores contribuíram para sua consagração como nosso grande poeta popular, com reedições constantes de sua obra ao longo das décadas?”, questionou um jornalista, supostamente especialista na literatura de Thiago de Mello, durante uma das sessões de autógrafos do “Vento Geral”. O poeta de Barreirinha abriu o coração:

“Não acho, não. Nem o Chile, nem o exílio. Vejo que você sabe muito do que fiz e pouco do que fizeram comigo. Já levei carão de meus amados editores José Olympio e Ênio Silveira porque não sei me promover. Mas minha mãe me educou a não me fazer de rogado.

Já que você quer saber quem me abriu a porta vou lhe contar. Não faz mal o que o ninho de cobras vai dizer depois. Foram brasileiros de alto valor. O Álvaro Lins foi o primeiro. Em 1952, no seu rodapé semanal de crítica literária sobre o ‘Silêncio e Palavra’, meu primeiro livro, simplesmente pediu aos principais poetas do Brasil um lugar para mim ao lado deles.

Conto isso, mas também conto que dias depois eu o encontrei na Livraria São José do Rio de Janeiro e lhe disse que dano iria me fazer se eu acreditasse naquilo... Eu estava mal começando, queria caminho e trabalho pela frente. Ele me abraçou rindo.

O outro foi Gilberto Freyre, quando eu ainda nem conhecia o mestre de Apipucos. Em 1952, ano do ‘Narciso Cego’, ele achou de dizer no seu artigo semanal em O Cruzeiro. Só copiando o começo: ‘O poeta Thiago toma tão de assalto o seu lugar entre os melhores poetas do Brasil que até parece um salteador ou um ladrão. Mas não. O que ele fez foi guardar os seus cadernos de caligrafia poética e só aparecer com a letra já segura de um mestre. Um jovem e admirável mestre é o que ele é’.

Sabe a minha reação? Achei tão bonito, tão bem escrito, que gostei, sim, mas concedo que me comovi mais com a beleza do dizer em si do que com o seu dizer de mim. De mim, consciente, feliz de ser um aprendiz de Drummond, o primeiro dos poetas célebres a quem, principiante de 19 anos, procurei no 9º andar do Ministério de Educação para mostrar, manuscritos, alguns de meus primeiros versos, ele foi carinhoso, gabou o meu domínio do idioma, falou da tara pela palavra, saí de lá conhecendo a delicadeza de Lúcio Costa e com os originais datilografados do ‘Claro Enigma’ e com o começo de uma amizade que ia durar a vida inteira. Uma benção. A dele e a do Bandeira, a quem Drummond me levou, caminhando pela Avenida Beira-Mar, até o edifício do apartamento dele, no oitavo andar. Me chamou de pardal novo. E acabou sendo o terceiro que abriu a porta, isso sim, do meu coração, quando na sua crônica do JB, me disse ‘um poeta de grande estro e um homem de grande coração’. Isso sim que deve ser chamado de sucesso, no sentido verdadeiro, de um grande acontecimento, na minha vida.

Não me incomodei quando o Dr. Alceu – o Tristão de Athayde – lavou qualquer sombra de dúvida: eu estava entre os grandes do meu tempo. Sei que não estou. Mas ele achava, acabou-se. O Manuel, meu mestre, amigo e padrinho, foi a inteireza do dom da amizade na convivência de cada dia, que permite a naturalidade da confidência, o gosto de folgar, de estar com, de saber o que dá a alegria do outro, cantar juntos, contar a mesma historia uma porção de vezes, a discrepância sem zanga. Como foi com, dos tantos, o Armando Nogueira, em tudo amigo do princípio ao fim.

Verdade seja dita que levei do Manuel Bandeira já no fim da vida dele um chega pra lá por escrito que me tirou do lugar o centro de gravidade do sofrimento, verdade também que o abraço do encontro no retorno foi outro sucesso sensacional, ele recitando de memória o meu poema, dizendo ‘esquece aquela carta’. O que aconteceu não vou dizer, acho que nem nas páginas dele no meu livro de memórias, ainda não sei.

Bem que eu poderia dar o doce empurrão que me deu na porta o querido Carpeaux, quando apresentou o ‘Faz Escuro’ com o poder do seu pulso. Mas temo atiçar de novo o rapaz concretista que em vez de me chamar de feio faltou com o devido respeito a um verdadeiro mestre das nossas e de outras letras.”

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