sábado, outubro 24, 2015

Thiago de Mello: poesia a serviço da vida (final)


Em setembro de 2013, Thiago de Mello levou uma equipe de jornalistas da Folha de São Paulo para conhecer as casas que Lucio Costa projetou para ele e que, entregues ao poder público se deterioravam na floresta. A casa do Paraná de Ramos foi o ponto inicial do roteiro. Nela funciona precariamente um Memorial Thiago de Mello, mas, no acervo, não restou nenhuma obra do homenageado.

O secretário municipal de Cultura, Aderaldo Tavares, relatou que a luz estava cortada até janeiro último, quando ele assumiu o cargo. Tavares afirma que encontrou as casas “totalmente abandonadas”.

“Conseguimos abrir para os estudantes que procuram o Memorial. Já solicitamos ao governo um projeto de restauração de todas as casas. Tivemos uma resposta de que vai ser feito”, explicou.

A Secretaria de Cultura do Estado informou que a casa do Paraná do Ramos é a única das construções de Lúcio Costa que foi “incorporada ao patrimônio do Estado”.







“Além de recuperada, foi transformada em espaço de cultura e concedida em comodato à Prefeitura de Barreirinha, responsável até então pelo imóvel”.

A informação não condizia com os fatos. No segundo andar do que deveria ser seu memorial, Thiago recolheu do chão os desenhos originais de Lúcio. Ia levá-los para o restauro. A cama, quebrada, foi confinada a um quarto minúsculo.


“Uma das maiores tristezas que já tive em minha vida é isso acontecer na terra onde nasci. É a expressão da cultura do Brasil”, reagiu, indignado. “Eu não devia ter voltado”.

A equipe de jornalistas foi depois ao Porantim do Bom Socorro. Constatou que o sítio não possui segurança. Construída com madeira, a casa tem poças d’água, escadas vacilantes, infiltrações, marimbondos.

Lucio Costa traçou apenas o corrimão esquerdo da escada, mas a prefeitura acrescentou o direito e jogou um piso ladrilhado sobre a terra batida. Demolida, a biblioteca virou um prédio de concreto. O torreão está pichado com palavrões.

“Demoliram a biblioteca em que trabalhei! Demoliram!”, lamentou Thiago, ao verificar o avanço da degradação.









A destruição de casas e livros reavivou dores da ditadura chilena. “Perdi muita coisa de grande valor quando a casa em que eu morava foi invadida pelos primatas de Pinochet, três dias depois do golpe, em setembro de 73. Eu era refugiado, desde 1970, ano da eleição do meu Salvador Allende, a cujo governo servi como diretor de comunicação da Reforma Agrária”, narrou Thiago.

Ele lembra ter retornado um mês depois à casa onde vivia, no bairro santiaguino de Vitacura, para constatar que não havia mais quadros. Uma fogueira de livros ardeu no jardim, segundo a proprietária. O poeta conta que sumiram com as provas de uma obra que escrevia sobre a ilha de Páscoa. E jamais encontrou uma pasta de pelica que guardava as cartas de Bandeira e Neruda.


Na Freguesia do Andirá, na praia da Ponta da Gaivota, já na zona rural de Barreirinha, está localizada a atual residência do poeta, a única bem conservada do conjunto de construções de Lúcio Costa. Thiago explicou aos jornalistas a demora de 17 anos para denunciar o início da depredação.

“Sou filho de Barreirinha. Sou um homem de bem. Para denunciar, eu teria que envolver meu povo”. “Voltar às origens amazônicas é um gesto corajoso”, avalia o romancista amazonense Milton Hatoum, julgando que a província pode ser cruel com os que regressam. “Mas quando você fica longe do seu lugar, às vezes sua literatura esmorece”.

Hatoum destaca o engajamento de Thiago nas manifestações contra as “barbáries urbanas” em Manaus.

Os gaviões espreitam o poeta e guincham entre as copas das árvores, no barranco do rio Andirá. Corpo nas águas escuras, enfiado num calção de rapazote, Thiago de Mello impõe silêncio e indica o ninho, imita-lhes os chiados. E celebra: “Ela veio me ver, rapaz. Não disse que a gaviã me conhecia? Bem, ao menos inventei que me conhece. Querida gaviã!”.

A Freguesia do Andirá possui pouco mais de 4 mil habitantes, esse casal de gaviões e três acapuranas geminadas, com flores rosadas, em frente à casa do poeta. Distrito de Barreirinha, o vilarejo fica próximo da reserva dos índios Sateré-Maué.


No mês anterior, Thiago havia revisado um livro de poemas inéditos, “Ajuste de Contas”. “Se eu não deixar alguns dormindo, vão beirar uns cem poemas”, avisou. Escreveu-os no Chile, na Bolívia, no Peru, na ilha de Páscoa, em Portugal, na França, na Alemanha, na Espanha e na Amazônia.

Na floresta, desafia as complicações coronarianas e prepara um livro de memórias, “Eu e os outros comigo”, e mais dois de prosa, um deles no estilo dos cronistas antigos.

“Livro narrativo da situação quase desenhável do meu corpo, ao qual devo tanta felicidade, escrito com a ajuda fascinante da memória e certas impertinências da imaginação”, adianta. Haverá ainda um volume de conversas com o músico Manduka, “pássaro-cantor que se calou” – seu primogênito morreu em 2004, aos 52 anos, vítima de um acidente vascular cerebral.

Alguns poemas estão zangados, adverte Thiago, tornando à superfície do rio, cabelos de caboclo molhados. “Manuel Bandeira era um danado”, retoma. “Ele me dizia: ‘Às vezes um poema fica zangado. É só dar atenção que a zanga passa’.”

Na estrofe final do inédito “Cântico de Júbilo”, Thiago ausculta suas batidas de octogenário: “Como fulgor de aurora, me levanta / a alegria de ouvir meu coração / batendo firme, cântico de júbilo, / por me ver perseguir, perseverante. / Ele não sabe que algo se germina, / conspira escuro contra esse fervor. / Nem poderá prever o instante certo / do seu silêncio. Que não seja perto.”

Um apartamento no centro de Manaus é seu único pouso urbano. Em Barreirinha, sozinho ou ao lado da mulher, a poeta Polyanna Furtado, 34, Thiago se dedica a poemas, leituras, música e banhos de água doce.

Nas cheias, o rio Andirá sobe acima da metade dos pilotis de 2,25 metros das casas – além da residência do escritor, há outras duas construções nas laterais repletas de livro. O projeto é um dos cinco que o arquiteto e urbanista Lúcio Costa, autor do Plano Piloto de Brasília, fez no Amazonas – todos para o poeta.

Na casa da Freguesia, traçou uma varanda de madeira, de onde Thiago conversa “com as acapuranas e com o rio”.


O “vago mago”, como o definiu o chileno Pablo Neruda, conhece os sortilégios medicinais. Três vezes ao dia, bebe chá de unha-de-gato, para enfrentar sua neuropatia. Adiciona ao guaraná dos Sateré-Maué uma colher de mirantã, o pó usado no tratamento de nevralgias e fraquezas do estômago.

Seus amigos podem receber, pelo correio, pacotes de ervas amazônicas. Assim fez com o jornalista Armando Nogueira (1927-2010), que usou a unha-de-gato para fortalecer o sistema imunológico durante o tratamento para o câncer. 

Thiago ouve Mozart no café da manhã. No quarto de música, além de fotografias de Pixinguinha, Tom Jobim, Gilberto Gil, Villa-Lobos e Pablo Milanés, há um mural de mulheres amadas, cujos rostos são contemplados no momento de escolher um disco ou de mexer os gelos do uísque.

Dez casamentos, “uns de papel, outros só de amor”, e quatro filhos: além de Manduka, é pai de Carlos Henrique (com Ayla), 56, Isabella (com Maria de Lourdes), 45, e Thiago Thiago (com Ana Helena), 34.

A coletânea de traduções “Poetas da América de Canto Castelhano” testemunha suas andanças na América Latina. Depois de Jorge Amado, Thiago talvez seja o escritor brasileiro que mais conquistou amizades com artistas, políticos e grandes autores do continente.

Do colombiano Gabriel Garcia Márquez, recebeu, numa dedicatória de 1978, o epíteto de “guru grande”.

Do argentino Jorge Luís Borges, ganhou um ensinamento, numa entrevista realizada em Buenos Aires, em 1981: “Deveríamos talvez com todas as pessoas como se já estivessem mortas, deveríamos trata-las com a máxima bondade”. 

Nas paredes, há lembranças de encontros com Ernesto Cardenal, Fidel Castro, Garcia Márquez, Borges, Mario Benedetti, Pablo Neruda, Salvador Allende e Violeta Parra. Em qualquer desvio de papo, sorri lembrando uma advertência de Neruda, na Isla Negra, onde vivia o Nobel chileno: “’Compañerito’, a árvore de tua conversa tem muitos ramos”.

Nas águas mornas do rio Andirá, o poeta cantarola “Les Feuilles Mortes”, de Jaques Prévert, e divaga: “Quero comemorar os meus 90 anos. O que vier depois, como diria Dom Quixote, serão mercês”. E mergulha no rio como um autêntico caboco suburucu.


No início de 2015, Thiago de Mello recebeu uma correspondência mais do que especial. Nela estavam o Título de Membro de Honra da Academia de Letras Internacional da Romênia “Mihai Eminescu”, juntamente com alguns exemplares da Antologia Universal da Poesia Atual, publicação recém lançada pelo país e que traz o poeta da floresta como solitário representante do Brasil. Feliz pela homenagem, Thiago sorriu como uma criança.

“Quando recebi a carta do poeta romeno Ion Deaconescu, organizador e tradutor da antologia, comunicando que eu havia sido escolhido para essa Antologia Universal, respondi que havia muitos poetas brasileiros maravilhosos da minha geração e que ele meditasse bem. O poeta me respondeu que me considerava o patriarca da poesia contemporânea. Então fiquei calado e mandei os poemas”, relembra, sobre o convite recebido em 2014. “Como recebi o exemplar da antologia? Achei muito bom. Acredito que os meus leitores vão ficar felizes”, resumiu.

A coletânea de mais de 600 páginas organizada pela Academia de Letras Internacional da Romênia é um volume extremamente seleto que foi lançado oficialmente durante a segunda edição do Festival Mundial da Poesia “Mihai Eminescu”, no final de setembro de 2014.

A Antologia reúne obras de 100 poetas ao redor do mundo, entre eles o alemão Günter Grass, o chileno Oscar Hahn, o português Casimiro de Brito e a grega Katerina Anghelaki-Rooke. Na abertura das páginas de cada poeta, há um perfil sobre a vida e a obra, além de uma reprodução de um poema manuscrito.

Ela traz 15 poemas de Thiago de Mello, entre eles “Os Estatutos do Homem”, “Os Barcos” (Les Bateaux); “A Vida Verdadeira” (La Vraie Vie); “Cantiga Quase de Roda” (Ronde presque Enfantine) e “Aprendizagem Amarga” (Apprentissage Amer).

Um belo atestado de qualidade para um dos maiores poetas que o Amazonas já produziu. Axé, mano velho!

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