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segunda-feira, agosto 24, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 30

 


30. Conforme qualquer sambista minimamente traumatizado sabe, a alma de uma escola de samba não está no presidente, no carnavalesco nem na rainha de bateria. A alma de uma escola de samba mora no diretor de barracão, aquele cidadão que passa meses respirando tinta, solda, cola de contato e desespero enquanto tenta transformar delírios carnavalescos em objetos que não desabem antes da dispersão. O carnavalesco sonha. O diretor de barracão sofre.

Para facilitar a compreensão, pense em Brasília. Todo mundo conhece Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, os gênios responsáveis pelo projeto da cidade. Numa escola de samba, eles seriam os carnavalescos: sujeitos que acordam às três da manhã com a brilhante ideia de colocar um dragão voador de quinze metros cuspindo fogo e cantando ópera.

Já Joaquim Cardozo, o engenheiro responsável pelos cálculos estruturais, seria o diretor de barracão. O homem que precisava ouvir a ideia do dragão e responder:

– Tá bom. Mas onde é que eu vou arrumar a porra do parafuso?

Sem Cardozo, Brasília seria apenas um belo conjunto de desenhos. Sem diretor de barracão, o carnaval seria uma reunião de pessoas segurando croquis e chorando.

Em meados dos anos 90, o GRES Reino Unido tinha como diretor de barracão o lendário Sabazinho, um homem que possuía a estabilidade emocional de uma panela de pressão esquecida no fogo. Sabazinho amava seus carros alegóricos mais do que a maioria das pessoas ama seus próprios filhos. Na verdade, mais do que isso: filhos crescem, respondem aos pais e dão despesas. Alegorias obedecem.

Ele tratava cada peça produzida no barracão como se fosse patrimônio artístico da humanidade. Se alguém arranhasse uma alegoria, Sabazinho reagia como se estivesse assistindo ao incêndio da Biblioteca de Alexandria.

No dia do desfile, sua delicadeza habitual desaparecia completamente. Naquelas horas, ele passava a enxergar inimigos por toda parte. Motoristas, componentes, diretores, jurados, vendedores de churrasquinho e possivelmente até o Papa eram suspeitos de alguma conspiração para destruir suas obras-primas. Só não andava armado porque a diretoria da escola, infelizmente, era contra.

Como toda escola de samba digna desse nome, a Reino Unido chegou ao desfile com apenas alguns detalhes pendentes. Entre esses detalhes estavam a pintura do último carro alegórico, a montagem de algumas alegorias e, aparentemente, a conclusão de metade do projeto. Enquanto as primeiras alas já avançavam pela Djalma Batista, o último carro ainda recebia generosas borrifadas de spray dourado.

Lá em cima, montado na alegoria como um imperador romano fiscalizando escravos, Sabazinho distribuía ordens aos berros.

Foi nesse cenário de absoluta normalidade que surgiu o recém-empossado diretor de Harmonia, delegado Petrônio Carvalho. Engomado. Alinhado. Perfumado. Parecia alguém prestes a participar de uma solenidade da Polícia Civil, não de uma operação de guerra carnavalesca.

Naquele momento havia um problema: o carro alegórico da Medusa era tão grande que não conseguia passar pelo Boulevard Amazonas porque alguns cidadãos de bem haviam estacionado seus veículos exatamente onde não deviam. A solução técnica encontrada foi a mesma que os engenheiros da Nasa provavelmente utilizam em situações semelhantes: empurrar tudo na força do ódio.

Enquanto dezenas de homens tentavam deslocar a alegoria, Sabazinho avistou Petrônio observando a cena. A reação foi imediata:

– Tu tá fazendo o quê parado aí, ô Zé-Boceta? Mete a mão nessa porra e ajuda os outros! Quer vender beleza? Vai pra praça da Prefeitura!

Petrônio ficou tão surpreso que nem teve tempo de se ofender. Apenas entrou na operação. Cinco minutos depois estava coberto de tinta dourada. De delegado elegante havia evoluído para uma espécie de estátua ambulante do Oscar.

Mas o universo ainda não havia terminado de humilhá-lo. Duzentos metros adiante surgiu novo obstáculo: um Fusca estacionado em fila dupla. O carro da Medusa não passava. A escola não podia esperar. A lógica carnavalesca entrou em ação. Sabazinho, instalado na cabeça de Perseu como um general romano em surto psicótico, passou a berrar:

– Peguem essa porra desse carro de pobre e joguem do outro lado da rua! Joguem no quinto dos infernos! A gente vai perder ponto!

A frase talvez não constasse nos manuais de trânsito, mas foi recebida com entusiasmo pelos presentes. Depois de quebrarem um vidro, destravarem a direção e realizarem procedimentos que fariam qualquer corretora de seguros entrar em colapso nervoso, cerca de vinte homens levantaram o Fusca nos braços. Entre eles estava o delegado Petrônio Carvalho.

Sim. Um delegado da Polícia Civil. Carregando um veículo alheio após participar da invasão e depredação do mesmo. Foi então que ocorreu uma rara manifestação de lucidez. Enquanto transportava o Fusca, Petrônio teve um pensamento desconfortável:

– Espera aí... Eu sou uma autoridade constituída. Passei a vida defendendo a legalidade. E neste exato momento estou participando de um sequestro coletivo de automóvel.

A iluminação foi instantânea. Largou o carro. Largou a escola. Largou o carnaval. Largou provavelmente qualquer esperança de compreender a raça humana. Montou no seu alazão e desapareceu no horizonte. Dizem que nunca mais voltou ao GRES Reino Unido. Talvez porque tenha percebido que existe uma fronteira muito tênue entre a organização de um desfile de carnaval e a prática de crimes patrimoniais em grupo. E, naquele dia, essa fronteira foi atropelada por uma Medusa dourada.

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