30. Conforme qualquer sambista minimamente
traumatizado sabe, a alma de uma escola de samba não está no presidente, no
carnavalesco nem na rainha de bateria. A alma de uma escola de samba mora no
diretor de barracão, aquele cidadão que passa meses respirando tinta, solda,
cola de contato e desespero enquanto tenta transformar delírios carnavalescos
em objetos que não desabem antes da dispersão. O carnavalesco sonha. O diretor
de barracão sofre.
Para facilitar
a compreensão, pense em Brasília. Todo mundo conhece Oscar Niemeyer e Lúcio
Costa, os gênios responsáveis pelo projeto da cidade. Numa escola de samba,
eles seriam os carnavalescos: sujeitos que acordam às três da manhã com a
brilhante ideia de colocar um dragão voador de quinze metros cuspindo fogo e
cantando ópera.
Já Joaquim
Cardozo, o engenheiro responsável pelos cálculos estruturais, seria o diretor
de barracão. O homem que precisava ouvir a ideia do dragão e responder:
– Tá bom. Mas
onde é que eu vou arrumar a porra do parafuso?
Sem Cardozo,
Brasília seria apenas um belo conjunto de desenhos. Sem diretor de barracão, o
carnaval seria uma reunião de pessoas segurando croquis e chorando.
Em meados dos
anos 90, o GRES Reino Unido tinha como diretor de barracão o lendário
Sabazinho, um homem que possuía a estabilidade emocional de uma panela de
pressão esquecida no fogo. Sabazinho amava seus carros alegóricos mais do que a
maioria das pessoas ama seus próprios filhos. Na verdade, mais do que isso:
filhos crescem, respondem aos pais e dão despesas. Alegorias obedecem.
Ele tratava
cada peça produzida no barracão como se fosse patrimônio artístico da
humanidade. Se alguém arranhasse uma alegoria, Sabazinho reagia como se
estivesse assistindo ao incêndio da Biblioteca de Alexandria.
No dia do
desfile, sua delicadeza habitual desaparecia completamente. Naquelas horas, ele
passava a enxergar inimigos por toda parte. Motoristas, componentes, diretores,
jurados, vendedores de churrasquinho e possivelmente até o Papa eram suspeitos
de alguma conspiração para destruir suas obras-primas. Só não andava armado
porque a diretoria da escola, infelizmente, era contra.
Como toda
escola de samba digna desse nome, a Reino Unido chegou ao desfile com apenas
alguns detalhes pendentes. Entre esses detalhes estavam a pintura do último
carro alegórico, a montagem de algumas alegorias e, aparentemente, a conclusão
de metade do projeto. Enquanto as primeiras alas já avançavam pela Djalma
Batista, o último carro ainda recebia generosas borrifadas de spray dourado.
Lá em cima,
montado na alegoria como um imperador romano fiscalizando escravos, Sabazinho
distribuía ordens aos berros.
Foi nesse
cenário de absoluta normalidade que surgiu o recém-empossado diretor de
Harmonia, delegado Petrônio Carvalho. Engomado. Alinhado. Perfumado. Parecia
alguém prestes a participar de uma solenidade da Polícia Civil, não de uma
operação de guerra carnavalesca.
Naquele momento
havia um problema: o carro alegórico da Medusa era tão grande que não conseguia
passar pelo Boulevard Amazonas porque alguns cidadãos de bem haviam estacionado
seus veículos exatamente onde não deviam. A solução técnica encontrada foi a mesma
que os engenheiros da Nasa provavelmente utilizam em situações semelhantes:
empurrar tudo na força do ódio.
Enquanto
dezenas de homens tentavam deslocar a alegoria, Sabazinho avistou Petrônio
observando a cena. A reação foi imediata:
– Tu tá fazendo
o quê parado aí, ô Zé-Boceta? Mete a mão nessa porra e ajuda os outros! Quer
vender beleza? Vai pra praça da Prefeitura!
Petrônio ficou
tão surpreso que nem teve tempo de se ofender. Apenas entrou na operação. Cinco
minutos depois estava coberto de tinta dourada. De delegado elegante havia
evoluído para uma espécie de estátua ambulante do Oscar.
Mas o universo
ainda não havia terminado de humilhá-lo. Duzentos metros adiante surgiu novo
obstáculo: um Fusca estacionado em fila dupla. O carro da Medusa não passava. A
escola não podia esperar. A lógica carnavalesca entrou em ação. Sabazinho,
instalado na cabeça de Perseu como um general romano em surto psicótico, passou
a berrar:
– Peguem essa
porra desse carro de pobre e joguem do outro lado da rua! Joguem no quinto dos
infernos! A gente vai perder ponto!
A frase talvez
não constasse nos manuais de trânsito, mas foi recebida com entusiasmo pelos
presentes. Depois de quebrarem um vidro, destravarem a direção e realizarem
procedimentos que fariam qualquer corretora de seguros entrar em colapso
nervoso, cerca de vinte homens levantaram o Fusca nos braços. Entre eles estava
o delegado Petrônio Carvalho.
Sim. Um
delegado da Polícia Civil. Carregando um veículo alheio após participar da
invasão e depredação do mesmo. Foi então que ocorreu uma rara manifestação de
lucidez. Enquanto transportava o Fusca, Petrônio teve um pensamento
desconfortável:
– Espera aí...
Eu sou uma autoridade constituída. Passei a vida defendendo a legalidade. E
neste exato momento estou participando de um sequestro coletivo de automóvel.
A iluminação
foi instantânea. Largou o carro. Largou a escola. Largou o carnaval. Largou
provavelmente qualquer esperança de compreender a raça humana. Montou no seu
alazão e desapareceu no horizonte. Dizem que nunca mais voltou ao GRES Reino
Unido. Talvez porque tenha percebido que existe uma fronteira muito tênue entre
a organização de um desfile de carnaval e a prática de crimes patrimoniais em
grupo. E, naquele dia, essa fronteira foi atropelada por uma Medusa dourada.

Nenhum comentário:
Postar um comentário