32. Réveillon de 2002 no Rio de Janeiro. A
multidão lotava o Piscinão de Ramos para a festa da virada. Milhares de
pessoas. Fogos. Música. Cerveja quente. Esperança renovada. Tudo corria dentro
da normalidade prevista para uma comemoração popular brasileira. Até que alguém
resolveu elogiar Jamelão. Foi aí que o problema começou. No palco, o lendário
cantor se preparava para cantar quando surgiu um coro espontâneo no meio da
multidão:
– Lindo e
gostosão! Bonito é o Jamelão!
O coro cresceu.
– Lindo e
gostosão! Bonito é o Jamelão!
Mais gente
aderiu.
– Lindo e
gostosão! Bonito é o Jamelão!
Qualquer
artista normal teria aberto um sorriso. Alguns chorariam. Outros agradeceriam.
Jamelão não era um artista normal. Jamelão parecia ter sido fabricado numa
linha de montagem defeituosa, onde esqueceram de instalar o módulo responsável
por receber elogios. Seu semblante fechou imediatamente. Pegou o microfone.
Respirou fundo. E respondeu com a delicadeza de um fiscal da Receita cobrando
imposto atrasado:
– Menos, gente!
Menos! Eu disse menos!
A multidão caiu
na gargalhada. E o Brasil ganhou mais uma história para a coleção. Porque
Jamelão era provavelmente o único sujeito do planeta capaz de tomar uma cantada
coletiva de milhares de pessoas e responder como quem está repreendendo uma
turma de alunos bagunceiros.
Meses depois,
quando completou 90 anos, teve início uma verdadeira epidemia de homenagens.
Eis outro problema. Jamelão detestava homenagens. Na sua concepção filosófica,
homenagem era uma espécie de cheque sem fundos. Todo mundo entregava. Ninguém
conseguia descontar. Quando um jornalista perguntou o que ele achava das
celebrações, respondeu:
– Homenagem é
dinheiro no bolso. E isso eu não tenho.
Era sua maneira
elegante de dizer: “Obrigado pelo carinho. Agora paguem minhas contas.”
A própria
Mangueira resolveu torná-lo presidente de honra. Os dirigentes convocaram
veteranos históricos da escola. Discutiram. Analisaram. Refletiram. E
concluíram que o nome de Jamelão era unanimidade. Foi aclamado sem necessidade
de votação. Qualquer mangueirense morreria de felicidade. Jamelão não. Ao saber
da novidade, limitou-se a resmungar:
– Isso não me
diz nada. Não paga meu aluguel.
A frase
produziu o mesmo efeito de jogar um balde de água gelada numa festa de
casamento. Mas ninguém se surpreendeu. Os mangueirenses já estavam vacinados.
Conviver com Jamelão era como criar um tigre de estimação. Você sabia que
existia carinho ali dentro. Só não esperava demonstrações públicas.
Enquanto outros
intérpretes trocavam de escola como jogadores de futebol trocam de clube,
Jamelão permaneceu décadas na Mangueira. Quando alguém elogiava sua fidelidade,
ele reagia quase ofendido: “– E daí? O que tem de mais?” Era como se um sujeito
escalasse o Everest descalço e depois comentasse: “Foi uma caminhadinha.” Mas o
auge da lenda talvez esteja nas histórias de convivência.
Certa vez,
durante uma viagem de ônibus, o pesquisador Sérgio Cabral encontrou o amigo Nei
Lopes ao desembarcar.
– Dei sorte.
Passei a viagem inteira conversando com Djavan – avisou Sérgio Cabral.
Nei respondeu:
– Pois eu
viajei ao lado de Jamelão.
– E aí?
– Assim que o
ônibus saiu, eu disse que estava morando perto da casa dele.
– E ele?
– Respondeu:
“Sei.”
E foi isso. Fim
da conversa. Durante horas. Jamelão conseguiu transformar uma viagem
interestadual numa experiência monástica de silêncio absoluto.
Mas nada supera
a história envolvendo Cauby Peixoto. Os dois estavam num estúdio. Jamelão
cochilava. Cauby passou e resolveu brincar:
– Dorminhoco,
hein, professor?
Jamelão abriu
os olhos. Olhou para Cauby. Pensou por um segundo. E disparou:
– Posso até ser
dorminhoco. Mas pelo menos sou homem. Nunca sentei em cadeira ocupada.
A frase
atravessou o estúdio como um míssil terra-ar. Provavelmente até os microfones
ficaram constrangidos. E o mais impressionante é que ninguém guardava mágoa.
Porque por trás da casca de lixa número 80 existia um sujeito generoso, leal à
Mangueira e apaixonado pelo samba.
O problema era
que Deus distribuiu simpatia quando Jamelão estava ocupado cantando. Assim,
passou nove décadas colecionando admiradores, homenagens, títulos, reverências
e elogios. E passou as mesmas nove décadas reclamando de todos eles. Talvez
porque, no fundo, ele acreditasse que aplauso é muito bonito. Mas boleto
quitado é mais bonito ainda.

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