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segunda-feira, agosto 24, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 32

 


32. Réveillon de 2002 no Rio de Janeiro. A multidão lotava o Piscinão de Ramos para a festa da virada. Milhares de pessoas. Fogos. Música. Cerveja quente. Esperança renovada. Tudo corria dentro da normalidade prevista para uma comemoração popular brasileira. Até que alguém resolveu elogiar Jamelão. Foi aí que o problema começou. No palco, o lendário cantor se preparava para cantar quando surgiu um coro espontâneo no meio da multidão:

– Lindo e gostosão! Bonito é o Jamelão!

O coro cresceu.

– Lindo e gostosão! Bonito é o Jamelão!

Mais gente aderiu.

– Lindo e gostosão! Bonito é o Jamelão!

Qualquer artista normal teria aberto um sorriso. Alguns chorariam. Outros agradeceriam. Jamelão não era um artista normal. Jamelão parecia ter sido fabricado numa linha de montagem defeituosa, onde esqueceram de instalar o módulo responsável por receber elogios. Seu semblante fechou imediatamente. Pegou o microfone. Respirou fundo. E respondeu com a delicadeza de um fiscal da Receita cobrando imposto atrasado:

– Menos, gente! Menos! Eu disse menos!

A multidão caiu na gargalhada. E o Brasil ganhou mais uma história para a coleção. Porque Jamelão era provavelmente o único sujeito do planeta capaz de tomar uma cantada coletiva de milhares de pessoas e responder como quem está repreendendo uma turma de alunos bagunceiros.

Meses depois, quando completou 90 anos, teve início uma verdadeira epidemia de homenagens. Eis outro problema. Jamelão detestava homenagens. Na sua concepção filosófica, homenagem era uma espécie de cheque sem fundos. Todo mundo entregava. Ninguém conseguia descontar. Quando um jornalista perguntou o que ele achava das celebrações, respondeu:

– Homenagem é dinheiro no bolso. E isso eu não tenho.

Era sua maneira elegante de dizer: “Obrigado pelo carinho. Agora paguem minhas contas.”

A própria Mangueira resolveu torná-lo presidente de honra. Os dirigentes convocaram veteranos históricos da escola. Discutiram. Analisaram. Refletiram. E concluíram que o nome de Jamelão era unanimidade. Foi aclamado sem necessidade de votação. Qualquer mangueirense morreria de felicidade. Jamelão não. Ao saber da novidade, limitou-se a resmungar:

– Isso não me diz nada. Não paga meu aluguel.

A frase produziu o mesmo efeito de jogar um balde de água gelada numa festa de casamento. Mas ninguém se surpreendeu. Os mangueirenses já estavam vacinados. Conviver com Jamelão era como criar um tigre de estimação. Você sabia que existia carinho ali dentro. Só não esperava demonstrações públicas.

Enquanto outros intérpretes trocavam de escola como jogadores de futebol trocam de clube, Jamelão permaneceu décadas na Mangueira. Quando alguém elogiava sua fidelidade, ele reagia quase ofendido: “– E daí? O que tem de mais?” Era como se um sujeito escalasse o Everest descalço e depois comentasse: “Foi uma caminhadinha.” Mas o auge da lenda talvez esteja nas histórias de convivência.

Certa vez, durante uma viagem de ônibus, o pesquisador Sérgio Cabral encontrou o amigo Nei Lopes ao desembarcar.

– Dei sorte. Passei a viagem inteira conversando com Djavan – avisou Sérgio Cabral.

Nei respondeu:

– Pois eu viajei ao lado de Jamelão.

– E aí?

– Assim que o ônibus saiu, eu disse que estava morando perto da casa dele.

– E ele?

– Respondeu: “Sei.”

E foi isso. Fim da conversa. Durante horas. Jamelão conseguiu transformar uma viagem interestadual numa experiência monástica de silêncio absoluto.

Mas nada supera a história envolvendo Cauby Peixoto. Os dois estavam num estúdio. Jamelão cochilava. Cauby passou e resolveu brincar:

– Dorminhoco, hein, professor?

Jamelão abriu os olhos. Olhou para Cauby. Pensou por um segundo. E disparou:

– Posso até ser dorminhoco. Mas pelo menos sou homem. Nunca sentei em cadeira ocupada.

A frase atravessou o estúdio como um míssil terra-ar. Provavelmente até os microfones ficaram constrangidos. E o mais impressionante é que ninguém guardava mágoa. Porque por trás da casca de lixa número 80 existia um sujeito generoso, leal à Mangueira e apaixonado pelo samba.

O problema era que Deus distribuiu simpatia quando Jamelão estava ocupado cantando. Assim, passou nove décadas colecionando admiradores, homenagens, títulos, reverências e elogios. E passou as mesmas nove décadas reclamando de todos eles. Talvez porque, no fundo, ele acreditasse que aplauso é muito bonito. Mas boleto quitado é mais bonito ainda.

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