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sábado, julho 10, 2010

A História dos Quadrinhos (Final)

Na virada para a década de 40, o conceito de justiceiro mascarado estava em voga. Os dramas radiofônicos haviam introduzido Lone Ranger. O Fantasma fazia sucesso nos jornais e Hollywood acabara de realizar “A Máscara do Zorro”.

Dá-se na Detective Comics 27 (maio de 1939) a primeira aparição de Batman. Imaginado por Bob Kane e Bill Finger, Batman foi o primeiro herói a usar uniforme como parte integrante de sua personalidade.

Logo vieram outros super-heróis, que como Superman e Batman seriam totalmente reformulados com o passar dos anos. Na verdade, apenas Batman não partia de uma concepção ingênua e juvenil. Muito pelo contrário.

Flash, cujo uniforme lembrava Hermes, o mensageiro dos deuses, foi o primeiro super-herói com um poder específico: super-velocidade, adquirida num acidente com substâncias químicas.

Flash Comics 1 também apresentou o Gavião Negro (Hawkman) de Gardner Fox, que era a reencarnação de um príncipe egípcio traído pelo deus-ave Anubis. Seu uniforme possuía um par de asas artificiais que lhe permitiam voar. Em Flash Comics 24, sua namorada, Shiera, adotou traje similar e se tornou a Mulher-Gavião.

Mulher-Maravilha, a primeira heroína a ter revista própria, era a Amazona vencedora do torneio de Afrodite, escolhida para lutar contra Ares. Claro que Hitler estava do lado do deus da guerra. O background mitológico era apenas um pano de fundo para Charles Moulton, que pretendia ensinar através das aventuras de Mulher-Maravilha que o amor é mais forte do que a violência. Mas o autor morreu antes de completar sua saga e a história ganhou outros rumos.

O Espectro, criado em 1940 por Bernard Bailey, a partir de uma idéia de Joe Shuster, era o fantasma de um policial assassinado por gângsteres, que usava poderes sobrenaturais no combate ao crime.

Foram os super-heróis que iniciaram a era de ouro dos quadrinhos. Sua popularidade detonou um boom criativo, a partir dos anos 40, que acabou fixando os quadrinhos como uma forma própria de Literatura.

O primeiro super-herói dos Comics Books surgiu num fanzine de ficção científica, cinco anos antes de sua aparição na capa de estréia da revista Action Comics. Tratava-se de um fantástico ser do espaço com super-poderes, recusado por inúmeras editoras sob a acusação de ser uma idéia infantil.

Seus autores, Jerry Siegel e Joe Shuster, tinham apenas 17 anos quando convenceram a National Periodical a publicá-lo.

Sua concepção original era bastante juvenil e combinavam características de diversos personagens dos pulps, que costumavam ter centenas de seres espaciais, duplas identidades, repórteres e heróis invencíveis no combate ao crime.

Sua própria identidade secreta é uma pista. Não seria Clark Kent a junção dos nomes de Clark Savage Jr. (Doc Savage) e Kent Alard (Sombra)?

As páginas de Action Comics também serviram de berço para O Vigilante, o cowboy do Oeste que montava uma moto ao invés de um cavalo, assim como Mr. América, o primeiro super-herói patriótico, além de aventuras da selva (Congo Bill), box (Pep Morgan), mágicos (Zatara), policiais (Scoop Scanlon), quadrinhos históricos (Marco Polo) e até mesmo funnies (Estica e Espicha).

Mas nada superava o entusiasmo despertado por Super-Homem, a primeira revista a publicar aventuras totalmente inéditas (desde 1937).

Suas histórias eram publicadas na revista More Fun Comics, que também lançou Aqua-man, Arqueiro Verde, Superboy e Senhor Destino (Dr. Fate), outro super-herói com poderes sobrenaturais, adquiridos graças à intervenção de um alienígena que viveu entre os faraós.

O Lanterna Verde, de Martin Modell, também possuía poderes incríveis, adquiridos de uma fonte alienígena: um anel de energia verde que poderia transformar todos os desejos em realidade...

A lista de heróis da National dos anos 40 é interminável. A National foi também a primeira editora a reunir vários heróis numa mesma história.

O primeiro grupo de super-heróis, a Sociedade de Justiça da América foi fundada em 1940 com oito integrantes: Flash, Gavião Negro, Lanterna Verde, Senhor Destino, Espectro, Átomo, Homem-Hora e Sandman.

Com o passar dos anos, a equipe sofreu reformulações, até cair no limbo em 1949.

Mas os super-heróis não eram uma exclusividade da National. Na primeira edição de Police Comics (agosto 1941), debutava o Homem-Borracha (Plastic Man), de Jack Cole, que podia se esticar como um elástico e assumir mil e uma formas.

O curioso é que o personagem era originalmente um criminoso, que adquiriu seus super-poderes num assalto frustrado a um indústria química, derrubando pingos de um misterioso ácido sobre seu corpo.

A Fawcett, por sua vez, explodiu nos Comics com seis letras: SHAZAM!, invenção do artista C. C. Beck, que deu origem ao Capitão Marvel em 1940.

O pequeno Billy Batson se tornava o mortal mais poderoso do mundo pronunciando a palavra mágica, que era acróstico de Salomão, Hércules, Atlas, Zeus, Aquiles e Mercúrio, entidades que lhe forneciam super-poderes idênticos aos de super-homem.

Logo surgiram o Capitão Marvel Jr. e Mary Marvel. Seu sucesso chegou a ameaçar o vôo solitário de seu concorrente de Krypton, tornando-se o primeiro super-herói adaptado por um seriado de aventura de cinema.

Os super-poderes da National, porém se mostraram implacáveis. Acionada por plágio e vencida na Corte, a Fawcett teve de desistir de seu herói, entregando os direitos de publicação para a editora do primeiro Super-Homem.

A Fox Features Syndicate possuía um cast invejável de super-heróis, como o exótico Flame (1940) de Basil Bertold e Lou Fine, iniciado por monges tibetanos na arte da auto-defesa e dos segredos dos lamas, que incluíam o poder místico sobre o fogo, ou o Besouro Azul (Blue Beetle) de Charles Nicholas, que possuía um traje a prova de balas e aprofundava suas habilidades tomando uma dose periódica de um componente farmacêutico secreto.

Junto a Sansão, a dupla chegou a formar um grupo chamado Big 3 (1940), que entrou para a história por debochar de Roosevelt, Churchill e Stalin. Os congressistas americanos, porém, não gostaram muito da piada e votaram pela suspensão da revista, bem como dos títulos individuais dos personagens.

Nos anos, 60, o Besouro Azul voltou a ação através da Charlton Comics, editora que, por sua vez, teve seus personagens adquiridos pela DC. Atualmente, o Besouro Azul integra a reformulada Liga da Justiça, grupo sucessor da Sociedade de Justiça da América.

A maior curiosidade da Fox, porém se chamava Thor, um super-herói baseado na mitologia nórdica.

Thor surgiu em 1940, quando um jovem cientista chamado Dr. Grant foi quase eletrocutado em uma experiência com novo condutor elétrico. O acidente revelou que ele era herdeiro do poder sobrenatural antigo Deus do Trovão.

A partir de então, sempre que a vida de Grant era exposta ao perigo, o espírito de Thor se apossava de seu corpo e lhe conferia super-poderes. Duas décadas depois, o personagem e o conceito de Thor seriam revividos pela Marvel Comics Group. Mas isto é tema para outra bat-hora e outro bat-canal, a ser contada pelo gênio Stan Lee.

Galeria de Personagens

A luta de Flash Gordon contra o tirano do planeta Mongo é o maior épico dos quadrinhos. Seu estilo kitsch mistura cenários medievais com naves futuristas, pinceladas seguras e traços turbilhonados. Na Itália, Flash Gordon chegou a ser desenhado por Fellini. Após a Segunda Guerra, Alex Raymond foi o primeiro autor de quadrinhos a expor suas telas na National Gallery (Washington).

Mandrake, o mágico criado por Lee Falk e Phil Davis em 1934, era um gentleman aventureiro e detetive que usava poderes sobre naturais(posteriormente, hipnotismo). Mandrake era acompanhado por seu servo (depois, parceiro) Lothar, um príncipe africano, que foi o primeiro personagem negro importante dos quadrinhos.

Príncipe Valente de Hal Foster é mais do que um comic, é quase um romance. A trama começa com Val criança e continua através de seu filho mais velho, Arn, décadas após os eventos que tornaram o príncipe Cavaleiro da Távola Redonda. A mais impressionante inovação de seus desenhos hiper-realistas – que não usava balões mas legendas – eram os quadrinhos panorâmicos, que chegavam a ocupar dois terços de uma página.

Milton Caniff pesquisou exaustivamente antes de lançar Terry e os Piratas. Nessas pesquisas, encontrou o recorte de jornal sobre a mulher pirata que aterrorizou a China nos anos 30 e que inspirou a criação de Dragon Lady, a mais misteriosa mulher fatal de todos os quadrinhos. Caniff também foi um dos primeiros a explorar as possibilidades do sombreamento. Seu mérito, contudo, foi no trabalho de enquadramento, que antecipou princípios da linguagem cinematográfica.

Superman inaugurou a era dos super-heróis saltando sobre edifícios, levantando pesos “incríveis” e correndo mais rápido do que uma locomotiva. Além disso, Superman podia colocar todos os fortões em cima de edifícios e atrair as meninas mais bonitas da cidade (especialmente sua colega de trabalho, Lois Lane). Graças a esta idéia juvenil dos garotos de 17 anos Jerry Siegel e Joe Shuster, os quadrinhos nunca mais foram os mesmos.

Batman era mais barra pesada: sua origem estava ligada à vingança de um menino, que presenciara o assassinato dos pais por um assaltante num beco escuro. Pra piorar, ele ainda vestia um uniforme sinistro... A pressão acabou levando seu autor, Bob Kane, a conceber o primeiro parceiro juvenil dos super-heróis, Robin, um adolescente de 13 anos com quem o público podia se identificar.

The Spirit, criado por Will Eisner em 1944, possui muito mais violência, humor e maturidade que qualquer outro comic do seu tempo. Eisner foi um visionário. Em diversas ocasiões, desenhou Spirit apenas como um personagem secundário, como contraponto de crônicas urbanas.

Meter a língua onde não é chamado


Por Joaquim Ferreira dos Santos

Azeite, não é meu parente! Nem todos entendem, mas a língua que se falava antigamente era tranchã, era ou não era?

As palavras pareciam todas usar galocha, e eu me lembro como ficava cabreiro quando aquela tetéia da rua, sempre usando tank colegial, se aprochegava com a barra da anágua aparecendo, vendendo farinha, como se dizia. Só porque tinha me trocado pelo desgramado que charlava numa baratinha, ela sapecava expressões do tipo “Conheceu, papudo?!”. “Ora, vá lamber sabão”, eu devolvia de chofre, com toda a agressividade da época. “Deixa de trololó, sua bacurau.”

Era tempo do onça total. As garotas, algumas tão purgantes que pareciam eternamente de chico, não davam esse mole de escancarar o formato do V-8 sob a saia, e os homens, tirando uma chinfra, botavam pra jambrar com quedes e outras papas-finas. Eu, hein, Rosa?! Tanto quanto o telefone preto, a geladeira branca e o sebo para passar no couro da bola número 5, essas palavras foram sendo consideradas como as garotas feias de então – buchos. Aconteceu com elas, as palavras, o mesmo que ao Zé Trindade – empacotaram, bateram as botas. Tomaram um cascudo, levaram sopapo, catiripapo, e chisparam do vocabulário. Uma pena.

A língua mexe, pra frente e pra trás, e assim como o bacana retornou guaribado para servir de elogio nos tempos modernos, pode ser que breve, na legenda de uma foto da Carolina Dickmann, os jornais voltem a fazer como diante da Adalgisa Colombo outrora. Digam que ela tem it, que ela é linda, um chuchu. São coisas do arco da velha, vai entender?! Não é só o mistério da ossada da Dana de Teffé que nos une ao passado. Não saberemos nunca, também, quem matou o mequetrefe, a pinimba, o tomar tenência e o neca de pitibiribas, essas delícias vocabulares que, enxotadas pelo bom gosto gramatical, picaram a mula e foram dormitar, como ursos no inverno, numa página escondida do dicionário.

Outro dia eu disse para minhas filhas que o telefone estava escangalhado. Morreram de rir com esse maiô Catalina que botei na frase. Nada escangalha mais, no máximo não funciona. Me acharam, sem usar tamanho e tão cansativo polissílabo, um completo mocorongo. Como sempre, estavam certas. Eu tenho visto mulheres de botox, homens que escondem a idade, tenho visto todas as formas de burlar a passagem do tempo, mas o que sai da boca tem data. Cuidado, cinquentões, com o ato falho de pedir um ferro de engomar, achar tudo chinfrim, reclamar do galalau que senta na sua frente no cinema e a mania de dizer que a fila do banco está morrinha. Esse papo, por mais que você curta música techno e endívias, denuncia de que década você veio.

Acho maneiro que a Sônia Braga volte, curto às pamparras a Emilinha vendendo CD na praça. Mas por que não dar uma linguada no passado? Sem querer amolar, sem bololô, sem querer fazer arte, sem querer, em tempos já tão complicados, trazer mais angu de caroço para a vida das pessoas, eu torço, quer dizer, tenho a maior queda por um revival lingüístico. As mães costumavam passar sabão na língua do ranheta que falava palavrões. De vez em quando, todos sofremos essa limpeza e perdemos palavrinhas tão gostosas quanto aquele mingau de sagu com uma banana caramelada no meio. Será o Benedito?! Ninguém merece.

Da mesma maneira que se foi, parece que para sempre, o crescer a barba como sinônimo de passar vergonha, às vezes dá-se a ressurreição de uma dessas espoletas estabanadas. Eram palavrinhas catitas, todas do tempo em que as moças ficavam incomodadas mas não dormiam de touca. O borogodó, por exemplo, tem tudo para ser um novo mantra de felicidade solar com seus redondos abertos e femininos. Seria uma coqueluche semântica, qual é o pó?! Por que não?! Se a bossa nova voltou, se a boca-de-sino também, por que não a moda da língua retrô? Haverá adjetivo mais correto para aquela vizinha sonsa do 302 do que songamonga? Batatolina. Ô mulherzinha pra gostar de um bafafá!

Essas palavrinhas das antigas, verdadeiros pitéus sonoros, podiam formar o MSL, Movimento dos Sem Língua, e exigir assentamento no papo do dia-a-dia ao lado de pamonhas, patas chocas do tipo disponibilizar, fidelizar, maximizar e outras gaiatas que andam fazendo uma interface lambisgóia, totalmente lengalenga, na fala cotidiana. Ficaria, como se diz, um mix contemporâneo.

Uma língua bem exercida é metida, jamais galinha morta. É feita de avanços e recuos, e se isso parece reclame de algum filme apimentado, digamos que, sim, pode ser. Língua, seja qual for, é erótica. Dá prazer brincar com ela. Uma lambida no passado envernizaria novamente palavras que estavam lá, macambúzias e abandonadas, como quizumba, alaúza e jururu, expressões da pá virada como na maciota, onde é que nós estamos! E ir pra cucuia. Certamente, por mais cara de emplastro Sabiá que tenham, elas dariam uma viagrada numa língua que tem sido sacudida apenas pelo que é acessado do cybercafé e o demorô dos manos e das minas.

Meter a língua onde não se é chamado pode ser divertido. Lembro do Oscarito passando a mão na barriga depois de botar pra dentro uma feijoada completa e dizer, todo preguiçoso, pimpão e feliz, “tô com uma idiossincrasia!”. Estava com o bucho cheio, empaturrado de palavras gordas, compridas e nonsenses como um paio de porco. É o banquete que eu sugiro. Troque essa dieta de alface americana de palavra transgênica, que anda na moda mas não vale um caracol. Caia de boca num sarrabulho com assistência na porta, um pifão de tirar uma pestana do caramba, uma carraspana batuta. Essa idiossincrasia vai fazer sentido.

Se alguém, depois de ouvir todas essas palavras de lambuja, repetir mamãe das antigas, gritar menino, dobre a língua, não se faça de rogado – estique.

Sobre o Pato Fu e outras futricas midiáticas


A atual formação do Pato Fu inclui Fernanda Takai (vocal e violão), John Uchoa (guitarra, programações e vocais), Ricardo Koctus (baixo e vocais), Xande Tamietti (bateria) e Lulu Camargo (teclados)


Setembro de 1995. No papel de editor de Cultura do jornal Amazonas Em Tempo, onde estava trabalhando há quase um ano, a minha única preocupação diária era não repetir o rame-rame, a mesmice, a pauta sem imaginação dos suplementos locais, sempre anunciando os mesmos shows das mesmas bandas nos mesmos locais.

A minha editoria possuía apenas dois jornalistas (o saudoso Marcos Figueira e a querida Amélia Loureiro, ela mais focada em matérias de turismo e comportamento) e uma estagiária (a lovely Trícia Cabral, atual editora executiva do jornal).


Encontrar um fotógrafo disponível para cobrir nossas pautas só com a ajuda de São Judas Tadeu, o padroeiro das causas impossíveis.


Para ilustrar as matérias locais, na maioria das vezes eu me valia de fotografias dos arquivos pessoais de nossos brilhantes colunistas sociais (a saudosa Elaine Ramos e os abnegados Alexandre Prata, Fernando Coelho e César Seixas, que nunca me deixaram na mão).


Naquelas circunstâncias, era quase impossível querer disputar espaço com as bem-fornidas editorias de cultura dos jornais A Crítica, Diário do Amazonas, Jornal do Norte, etc, cobrindo os mesmos assuntos.


A gente preferia publicar coisas mais interessantes e inventivas, que estivessem na terceira margem, no acostamento ou a léguas de distância do mainstream local. É claro que isso nos causava alguns problemas.


Aliás, aqui cabe fazer, antes, um pequeno registro.


Apesar do suposto glamour de trabalhar com cultura, moda e comportamento, o suplemento cultural dos jornalões sempre foi o patinho feio de qualquer redação.


Os jornalistas das demais editoriais olham para a turma da Cultura com um misto de ódio, inveja, rancor e ressentimento. E todo mundo dá palpite nas matérias publicadas.


Eu nunca vi um repórter de Cultura pegar uma página de Cidade, ir lá com o editor e dizer: “Essa matéria está uma merda! Não gostei não!”


Mas qualquer estagiariozinho do caderno de Esportes se acha com o direito de falar desse jeito com um editor de Cultura ou, durante o cafezinho, com um repórter da referida editoria responsável pela tal matéria que lhe deu engulhos.


Bom, pelo menos era assim há 15 anos. Não faço a menor idéia se mudou alguma coisa de lá pra cá. Desconfio que não.


Naquela época, nas tardes de segunda-feira, a doce e enérgica jornalista Hermengarda Junqueira, diretora executiva do Amazonas Em Tempo, se reunia com todos os editores para discutir as falhas e os acertos da semana anterior (incluindo os “furos” dados ou tomados da concorrência) e pautar as edições da nova semana.


Era uma espécie de “lavagem de roupa suja”, mas de alto nível. Eu nunca dei palpite sobre as demais editorias, mas sempre tinha que me livrar de alguma saia justa provocada por um dos presentes.


Em uma dessas reuniões, a jornalista Solange Elias, editora de Economia, resolveu me detonar por conta de uma matéria publicada na sexta-feira anterior.


Exibindo os demais suplementos culturais da cidade, que abriram a primeira página anunciando um show da banda Carrapicho naquela noite, ela comparou com a primeira página do nosso suplemento: eu anunciava que a banda Pato Fu iria se apresentar em Nova York.


Como a Solange Elias nunca havia ouvido falar nos músicos mineiros, ela achava que o jornal estava prestando um desserviço à população amazonense por não informar direito sobre a cena cultural local e, o mais grave, levando um banho da concorrência.


Eu contra-argumentei explicando que o leitor queria saber de novidades (e o Pato Fu em Nova York era novidade), de informações quentes, de pautas fora da mesmice.


Se ela não conhecia o Pato Fu, aquilo era problema dela. E sua (dela) ignorância musical não era motivo suficiente para privar os leitores do jornal de conhecerem o trabalho de um dos mais inventivos grupos musicais da época.


“Não vai demorar muito pra todo mundo começar a elogiar o trabalho musical do Pato Fu. Que mal há em os nossos leitores tomarem contato primeiro com aquilo que só vai ser novidade daqui a um ano?”, ironizei.


O Augusto Banega, editor de Cidade, ficou do meu lado e comprou a briga. “O Simão está editando um caderno de Cultura, não um guia de shows da cidade. Eu também não conhecia o Pato Fu, mas agora já sei de quem se trata e vou tentar comprar o disco deles pra ver se é mesmo aquela maravilha toda!”, avisou.


A Solange Elias, evidentemente, ficou puta nas calças.


Também não precisava. A matéria sobre o show do Carrapicho havia sido publicada nas páginas internas do suplemento, logo, portanto, por conseguinte, a gente não estava “levando um banho da concorrência”. Pelo contrário. Só a gente tinha dado a matéria do Pato Fu.


Além disso, naquele ano, eu já havia dado quatro primeiras páginas para a banda Carrapicho. Eu era amigo dos músicos, mas eles só ganhariam a primeira página de novo se fossem apresentar algo inusitado naquele show (o vocalista Zezinho Corrêa praticar harakiri no palco durante a milionésima apresentação de “Tic Tic Tac”, por exemplo).


Como isso não estava previsto no script, optei pela divulgação da banda mineira. Simples assim.


As origens do Pato Fu


Se o senhor não está lembrado, dê licença, eu vou contar: Marcelo Dolabella sempre foi um dos grandes agitadores culturais de Belo Horizonte. Apesar de nunca nos termos conhecido pessoalmente, trocamos muitos livros de poesia via correio nos anos 80.


Ativo colaborador do vanguardista fanzine Gass, ele editou uma revista de poesia e textos, a Farenheit 451, foi dono de uma loja de livros usados, a Boogie Woogie, encabeçou vários cursos, como o “Da Poesia ao Rock”, ministrado no festival de inverno de São João del-Rey (MG), mas na mídia em geral ficou mais conhecido como autor do primeiro dicionário de rock brasileiro – o famoso “ABZ do Rock”.


Como se não bastasse ter participado de todos os aprontos citados anteriormente, aí por volta de 1984, Marcelo arquitetou um projeto musical intitulado Divergência Socialista.


O nome podia ser associado tanto a uma oposição à corrente política trotskista Convergência Socialista (hoje PSTU) como a uma dissidência do Sexo Explícito, um dos melhores grupos pop do país, que contava com Marcelo na primeira formação e tinha entre os colaboradores Gato Felix e Rubinho Troll.


Depois de ficar parado durante todo o ano de 85, o Divergência Socialista começou a sedimentar seu novo projeto em 1986, tendo lançado um CD com o nome da banda.


Devido a infinitas mesclas e referências, eles se transformaram em um dos poucos grupos de rock experimental daquela década que vingaram em termos de proposta, mas que não obtiveram a continuidade necessária para se manter na ativa. Coisas do Brasil.


Para dar maiores detalhes sobre o trabalho da banda Divergência Socialista, ninguém melhor do que o próprio Marcelo Dolabella, a partir desses toques pinçados de uma sua entrevista para a extinta revista Bizz:
“Miramos o rock-experiência, unido a outras formas de arte. Um trabalho de aglutinação: de Alice Cooper, passando pela discotéque e o punk dos anos 70, até a música contemporânea. Toda essa mescla se associa à linguagem cinematográfica e à poesia. Enfim, pegamos as coisas que todos já experimentaram no rock e as acrescentamos às que ainda não foram usadas”.


O quê, por exemplo?


“Fazer uma coisa que tenha peso, mas que seja dançante. Por questão de amadurecimento, utilizamos, também, o silêncio como interferência na massa sonora. O texto, meio minimalista, hai-kai, toma uma forma diferente quando cantado – muda... Como diz a letra: ‘Você não é muda, quem sabe muda...’ Politicamente não se refere à descrença. como normalmente ocorre quando se utilizam esses temas. Leva para o lado antiniilista, para cima, no sentido de fazer alguma coisa. Não tem que ficar chorando o leite derramado e achar que tudo é ruim e não há o que fazer.”


A argamassa sonora do Divergência Socialista incluía a utilização de instrumentos tradicionais, como baixo acústico, por conta do arranjador Mário (também Sexo Explícito), teclados, violão, baixo elétrico, mas também um computador rítmico, aos cuidados da graciosa Aleca, além de voz mais performance do desencanado Suma. O multimídia Marcelo Dolabella se incumbia dos “dada tapes” e textos.


A idéia de usar tapes veio da experiência do cineasta russo Dziga Vertov. No início do século 20 ele usava gravação de elementos da natureza e de vozes lúbricas para servir de fundo para suas declamações. Marcelo utilizava o mesmo recurso como uma nuvem ou tempestade que perpassava a massa sonora e o vocal.


“Gravo, por exemplo, um som de floresta, jogo em 45 rotações e fica como se fosse uma guerra”, explicava.


Entre os moleques que gravitavam em torno de Marcelo Dolabella estava um adolescente gaiato chamado John Ulhoa, que pode ser visto fazendo uma pequena participação neste vídeo caseiro abaixo:





O Pato Fu teve início em 1992, quando Fernanda Takai, até então vocalista da banda Fernanda & 3 Do Povo, decidiu formar uma banda com dois amigos de uma loja de guitarras onde ela costumava comprar encordoamentos.


Os amigos eram John Ulhoa e Ricardo Koctus, das bandas Sustados por Um Gesto e Sexo Explícito, respectivamente. Alguns anos depois, Fernandinha se casaria com John.


A proposta do trio era fazer música de forma não convencional, unindo bases eletrônicas a guitarras pesadas, música regional, baladas e o que mais aparecesse pela frente. Uma espécie de filho pródigo do Divergência Socialista.


Eles decidiram se chamar Pato Fu em alusão a uma tira de quadrinhos em que o preguiçoso gato Garfield lutava gato-fu.


Para não lembrar tanto a história original, trocaram a primeira letra, e ficaram com um nome tão estranho quanto o som que fariam mais tarde.


Em outubro de 1992, gravaram sua primeira fita demo, e, no final do ano, começaram a se apresentar no circuito universitário de Belo Horizonte.





Já no começo de 1993, participaram do show Rock Brasil, ao lado de bandas como Skank, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho e Titãs.


Em maio de 1993, o Pato Fu terminou de gravar o seu primeiro álbum – Rotomusic de Liquidificapum – no estúdio Ferreti, localizado em Belo Horizonte, atual estúdio Máquina do Haroldo Ferreti (baterista do Skank).


Embora o disco não tenha obtido o sucesso esperado, acabou despertando a atenção da gravadora BMG, durante uma apresentação do trio eletrônico no Rio de Janeiro, em 1994.


Em meio a outras bandas emergentes, o Pato Fu foi escolhido por Maurício Valadares (coordenador do selo Plug da BMG) para assinar um contrato com a gravadora.


Algum tempo depois, em 1995, gravaram o segundo CD – Gol de Quem? –, em apenas um mês, no estúdio Cia. de Técnicos, também no Rio de Janeiro.


Eles me enviaram os dois trabalhos (Rotomusic de Liquidificapum veio em fita K-7), um release e o anúncio de que iriam tocar em Nova York. De quebra, haviam trocado a sua bateria eletrônica por um músico de verdade: Xande Tamietti.


Pra quem gostava de boa música, aquilo era uma notícia e tanto, aqui ou na Conchichina. E merecia a primeira página de qualquer suplemento cultural digno do nome, independente do mau humor das demais editorias.


Em dezembro daquele ano, o Pato Fu voltaria a ocupar a primeira página dos suplementos culturais do país inteiro: músicas como “Sobre o tempo” e “Qualquer bobagem” deram à banda o prêmio de revelação no 1º Video Music Awards da MTV Brasil e também o 1º Prêmio Multishow de Música Brasileira.


Apesar de ter errado na previsão (em vez de um ano, o Pato Fu estourou em quatro meses), eu havia ganho a aposta da querida Solange Elias. Acontece.


O certo é que com uma sonoridade bem diferenciada, que fazia a ponte dos Mutantes ao Britpop, passando por elementos típicos de música brasileira e pelo pós-punk, a banda de Fernanda Takai, John Ulhôa e Ricardo Koctus, aos pouquinhos, foi entrando no dial das rádios e lançando sucessos que todos sabem de cor.


Os seus primeiros discos, mais experimentais, prepararam o terreno para o Pato Fu soar um pouco mais comercial a partir de “Televisão de Cachorro” (1998), mas sem perder a sua originalidade.


A partir daí o Pato Fu segue uma carreira de sucesso, com muitos shows e participações importantes, grava musicas que fazem sucesso no mundo inteiro, lança CDs e DVDs, excursiona pela “Bahia, Brasil e Oropas” e se transforma em queridinho da mídia.


Na nova década, os integrantes dão um tempo para se dedicar a projetos pessoais sem, no entanto, desfazer o grupo. John e Fernanda curtem o primeiro filho, enquanto Ricardo dedica-se a fotografia e assim seguem até 2005, quando lançam o CD “Toda cura para todo mal”, um trabalho que traz uma nova roupagem da banda, um som mais maduro, mais forte e que também marca a estréia do selo independente do Pato Fu: Rotomusic.


Em 2007, novo sucesso com o CD “Daqui para o futuro”, que vendeu como água pela internet antes mesmo de ser lançado nas lojas especializadas.


Resumo da ópera: com mais de 15 anos no cenário musical brasileiro, o Pato Fu já se consagrou como uma original banda de rock, tendo sido classificada pela revista Time entre as 10 melhores bandas do mundo. Não é pouca porcaria.


Curtam abaixo um novo vídeo de Rubinho Troll, de seu disco solo “Fedendo que nem Brasileiro” (2009), produzido por John Ulhoa:


sexta-feira, julho 09, 2010

Men of certain age: a nova aposta arriscada de Romano



Paulo Serpa Antunes

Ray Romano foi o primeiro comediante após Jerry Seinfeld a chegar ao topo. Eu tenho pena deles. Sério. Tenho medo do sucesso. Tenho medo de que, quando se chega lá em cima, lá no cume, logo após aquele suspiro de alívio, logo após o coração se encher de realização e desfrutarmos aquele dose imensa de felicidade, o cérebro dispare uma sinapse assustadora, lançando a pergunta: e agora?

Assim como Seinfeld, Romano tem mais dinheiro do que jamais conseguirá gastar em vida. Romano não precisa mais trabalhar. Romano pode fazer o que quiser. Quer dizer, em termos. Porque Romano, ao conduzir com brilhantismo por nove anos Everybody Loves Raymond, chegando ao alto da montanha, ele ganhou um bem precioso e frágil, chamado credibilidade.

Romano é relativamente jovem, não pode ficar parado, se aposentar. Mas cada movimento é um risco, e se a credibilidade se perde, quebra, desaparece? O que fazer?

Ele decidiu seguir os passos do Seinfeld. Primeiro sumiu da mídia por um tempo, pra diminuir a pressão. Depois percebeu que o caminho é fazer algo totalmente diferente do que fazia. Diversificar. Seinfeld fez desenho animado, tentou roubar alguns milhões do Bill Gates, relembrou os velhos tempos ao lado do Larry David e parece que vai investir em reality show.

Romano decidiu partir pro drama. E assim nasceu Men of a Certain Age.

O título da série, que estreou na segunda-feira, dia 7 de dezembro do ano passado, no canal americano TNT, é auto-explicativo. Men of a Certain Age gira em torno do universo masculino, em especial da vida de três baby boomers, membros desta geração de norte-americanos que comandou a economia do mundo e ditou as tendências culturais e, bom, não se deram por conta disto na época. Hoje assistem aos X e aos Y tomar conta do mundo que um dia foi deles e se debatem para recuperar a identidade e a dignidade perdida depois da crise financeira.

O tema é ótimo. E arriscado. Depois que Sex and the City se tornou uma máquina de fazer dinheiro muitos produtores pensaram: e se fizermos uma versão masculina, com homens de meia idade? Veja bem, a princípio a ideia é ótima, e comercialmente espetacular – estamos falando de fazer um show para esta horda de norte-americanos que assistem muita TV (Internet é para os jovens) e dão índices de audiência gigantescos para o Sunday Night Football e NCIS.

O melhor seriado nesta linha foi a comédia britânica Manchild. Houve recentemente uma tentativa de se fazer uma versão norte-americana, que ficou no piloto. Na época de Sex and the City tivemos The Mind of the Married Man, muito honesta, mas um pouco sem gás e às vezes um pouco rude. De lá pra cá esta temática vai e volta, geralmente resultando em séries medíocres como Big Shots ou estas comédias sem graça dos canais de TV paga, como Californication.

Men of a Certain Age, felizmente, consegue se descolar das acima logo na saída. Digo mais, ela se distingue já na vinheta de abertura, que me conquistou com imagens mostrando a infância dos três protagonistas, emulando de forma mais saudosa e menos grandiosa a bela abertura de Anos Incríveis. As imagens sugerem que o tema do universo masculino será abordado com sensibilidade. E a sensibilidade segue ao longo de 42 minutos, no roteiro despretensioso, na boa direção de atores, na trilha sonora setentista, na fotografia inteligente (belos planos fechados, sempre buscando as expressões faciais e as rugas dos atores).



Men of a Certain Age - Piloto

Dito isto vem o pavor de que Men of a Certain Age seja chata. Não, não é. É uma dramédia, cujos momentos cômicos funcionam razoavelmente bem no episódio piloto. Quem leu o livro de Ray Romano “Tudo e Mais uma Surpresa” (a venda no Submarino, recomendo), sabe que ele é muito bom stand up comedian, dono de um humor leve, ingênuo, construído em torno da observação do comportamento das pessoas. Em Men of a Certain Age este senso de humor gera bons diálogos de small talk – já nos primeiros minutos ele conta para os amigos que emagreceu um quilo depois de fazer xixi, iniciando uma divertida discussão tola.

Romano está incrivelmente bem na série, a vontade no papel de Joe, pai separado, dono de uma loja de artigos para festa e golfista frustrado. E bem acompanhado, ao lado do brilhante Andre Braugher (Hack, House) e do razoável Scott Bakula (Enterprise, Chuck), aqui meio canastrão, talvez por ter o personagem mais clichê dos três.



Eu não gostaria de correr o risco de apostar no sucesso ou fracasso de Men of a Certain Age. Até porque, apesar dos bons números de audiência da estreia, a série corre sério risco de sumir na grade de programação da TNT, construída em torno de The Closer, e que nos últimos anos tirou do ar, sem dó nem piedade, Saved, Heartland, Trust Me e agora Raising the Bar.

Pesa contra Men of a Certain Age ainda o fato da série não ter nenhuma grande trama, o que provavelmente causará desgosto no pessoal mais jovem (esta mesma turma que acha Mad Men um tédio). O que vemos são homens de meia idade zanzando pela tela, na maior parte do tempo desapontando suas famílias, seus colegas ou a si mesmos. Não há nada vagamente heróico na série (como por exemplo há em Friday Night Lights ou em qualquer drama médico ou policial) e estes personagens são inofensivos, no máximo mentirosos, bem distante dos anti-heróis amorais que hoje povoam o imaginário dos telespectadores ao redor do mundo.

Justamente por isto, pela simplicidade da fórmula e ao mesmo tempo a ousadia de ir contra a corrente, Men of a Certain Age me conquistou.

Há um diálogo na série em que o personagem de Bakula cita Sísifo, o mortal condenado pelos Deuses para rolar pela eternidade uma grande pedra até o cume de uma montanha, que por fim acabava caindo montanha abaixo. A história fica na cabeça de Joe e parece que o que veremos pelas próximas nove semanas é a sua tentativa de mudar as coisas em sua vida.

Men of a Certain Age pode fracassar ou não, mas o que posso afirmar com certeza é que a credibilidade de Ray Romano sairá intacta desta série, senão maior. A sensação que tenho, neste momento, é que Romano começou sua jornada particular para escalar a montanha de novo. Como Sísifo. Ele já é um exemplo pra mim e, vejam só, acho que acabo de perder um pouco daquele medo de chegar no topo.

NOTA: A série estréia no Brasil , no canal Warner, na próxima terça-feira, 13, às 22h

quarta-feira, julho 07, 2010

O troglodita e o poeta


Uma das obras de Afrânio de Castro pertencente ao acervo particular de Anibal Beça

Por conta de sua excentricidade e ao seu permanente ar de mistério, começou a circular na cidade uma história dando conta de que o poeta Luiz Bacellar virava morcego, à meia-noite, nas sextas-feiras. O troglodita Afrânio de Castro valia-se disso para inventar toda sorte de piadas sobre o circunspecto autor de Frauta de barro. Segue uma delas, recuperada pelo saudoso escritor Arthur Engrácio.

Entrando, uma manhã, no cemitério São João Batista, Afrânio de Castro avistou, a distância, o poeta. Ele foi se aproximando devagar, sem ser percebido, até que ficou bem perto dele, ocultando-se atrás de uma mangueira. Naquele instante, caía uma chuva fina e Afrânio pôde ouvir de repente a voz da mamãe Vampirella dirigindo-se a Luiz Bacellar:

– Bacellarzinho, meu filho, meu tesouro, acho bom você recolher-se ao seu mausoléu. Está começando a chover e você pode ficar gripado.

Ao que o poeta respondeu-lhe:

– Não tem problema, não, mãezinha querida. Não carece se preocupar comigo. Deixa eu ficar aqui fora, brincando mais um pouquinho com o meu priminho Frankstein...

Quando soube da história, Luiz Bacellar jurou matar o artista plástico. Não cumpriu a promessa. No dia 20 de setembro de 1981, num domingo à tarde, Afrânio de Castro morreu afogado na praia da Ponta Negra, durante um porre monumental.

Histórias do saudoso troglodita


Temperamental por excelência, o artista plástico Afrânio de Castro, apelidado amigavelmente de “Troglodita” pelos seus parceiros de Clube da Madrugada, estava enchendo a cara de birita em um boteco na rua Saldanha Marinho, quando percebeu que sua grana havia acabado. No mesmo instante, ele viu o conhecido radialista Josaphat Pires, que lhe devia alguns trocados, caminhando do outro lado da rua. Trajando um terno de linho branco, impecavelmente engomado, de sapatos e meias também brancos, Josaphat estava indo bater o ponto no Bar do Carmona, ali perto.

Pretendendo cobrar a dívida para continuar bebendo, Afrânio de Castro levantou-se, chegou até a porta e gritou pelo nome do amigo. Fingindo-se de surdo, Josaphat continuou o seu caminho. Afrânio deu outro grito. O radialista não deu a mínima. Afrânio repetiu o grito pela terceira vez. Imperturbável, Josaphat continuou na mesma pisada. Afrânio não se conteve.

Se posicionando na calçada do boteco, ele colocou as mãos em concha na boca e gritou bem alto, a plenos pulmões:

– Josaphat, ô Josaphat! Todo de branco, hein? Mas com a alma negra como a asa da graúna!

O radialista quase morreu de rir. Mas não atendeu aos apelos desesperados do troglodita e se afastou dali rapidamente.

segunda-feira, julho 05, 2010

Morre o poeta Roberto Piva



O poeta Roberto Piva morreu no último sábado (3), em São Paulo, aos 72 anos, com falência múltipla dos órgãos decorrente de insuficiência renal. Um câncer na próstata o havia levado ao Hospital das Clínicas, onde estava internado desde maio. O câncer atingiu os ossos. Roberto Piva sofria de Mal de Parkinson há dez anos.


Poeta de importância nacional, Piva nasceu em São Paulo, onde escreveu sua obra prima, a coleção de poemas Paranoia, publicada em 1963.

Ao retratar a capital paulista de maneira maldita, inspirado pelo movimento beatnik e pelo surrealismo, Piva começou a se destacar como uma voz dissonante nos meios artísticos da cidade, num tempo em que os escritores ainda se juntavam em grupos. A obra ganhou reedição neste ano pela editora Instituto Moreira Salles.

O autor fez parte da geração de escritores, como Jorge Mautner, Hilda Hist e Claudio Willer, descobertos pelo editor Massao Ohno. Durante sua carreira, o poeta destacou-se pela poética urbana. Suas obras foram divididas em três volumes.e relançadas pela Editora Globo há cinco anos.

Ele fez parte de uma geração brilhante, mas posteriormente marginalizada, com fortes influências dos poetas beats americanos. Apesar disso, Piva não era facilmente classificável.

O ministro da Cultura Juca Ferreira divulgou nota em que afirma: "Se a morte de um poeta é sempre uma tragédia, a morte de alguém como Piva é um imenso baque a mais, já que a energia que alimentava sua poesia era a exaltação da carnalidade. Essa sua energia enfrentou, nos anos 60 e 70, além da repressão, a estranheza que se voltava contra pregadores, como ele, de uma poética do desregramento. Piva assumiu a responsabilidade de expressar as nossas carências e delírios extremos".

O velório foi realizado na noite de sábado no Cemitério do Araçá e o corpo do poeta foi cremado na tarde deste domingo (4) no crematório da Vila Alpina.

sexta-feira, julho 02, 2010

Doze anos sem Graça

Carlos Castro (de violão), Arnaldo Garcez, Zemaria Pinto, Jackson Chaves, eu, Inácio Oliveira, Orlando Carioca e Antonio Paulo Graça (de óculos e chapéu estiloso, em primeiro plano), durante uma cachaçada no Bar do Armando

No verão de 1998, o rapper Puff Daddy lançou uma música onde usava uma base do grupo musical Police e uma letra emocionante, riscada em cima da batida, numa tentativa desesperada de homenagear seu mano Notorious B.I.G., assassinado em março de 97.

A música, “I’ll Be Missing You”, nos bate no coração na hora em que entra um coro feminino (com Faith Evans, viúva de Notorious, na voz principal) ensinando o bê-á-bá da bem-querência eterna: “Every step I take/ Every move I make/ Every single day/ Every time I pray/ I’ll be missing you/ Thinking of the day/ When you went away/ What a life to take/ What a bond to break/ I’ll be missing you”.

Mal traduzida, essa parte da letra diz o seguinte: “Todo passo que dou/ Cada movimento que faço/ Todo maldito dia/ Toda vez que rezo/ Eu vou sentir sua falta/ Fico pensando no dia/ Quando você foi embora/ Que vida para ser roubada/ Que laço para ser partido/ Eu vou sentir sua falta”.

Essa “apelação” foi só pra dizer que nós, que já somos tão pobres culturalmente, ainda levamos uma porrada na cabeça, que foi perder o escritor Antonio Paulo Graça no dia 9 de junho de 1998. A letra do Puffy Daddy explica tudo o que sinto em relação a ele.

Paulo Graça tinha gênio. Só posso pensar em dois outros sujeitos mais velhos do que eu de quem diria isso: Luiz Bacellar e Thiago de Mello.

Éramos, eu e Paulo, muito mais do que amigos, talvez meio-irmãos, e devo partilhar a culpa de muitos outros amigos que sentiram a tentação de “adotar” Paulo Graça, porque perceberam que ele estava se autodestruindo, mas que fizeram muito pouco para transformar a intenção em gesto.

O gênio de Paulo Graça, ou Paulinho, como a gente o chamava nas internas, era uma assinatura primorosa que aparecia em tudo, em artigos para jornais, ensaios literários, críticas de livros, peças de teatro, romances, composições musicais, poemas, cartas pessoais, o diabo a quatro.

Nunca conheci ninguém que dominasse com maestria tantas linguagens culturais distintas e que fosse, ao mesmo tempo, tão pródigo em dividir esse conhecimento com os outros.

Paulinho não temia a sombra de ninguém porque, simplesmente, ninguém lhe fazia sombra. Conheci-o pessoalmente por intermédio do jornalista Inácio Oliveira.

Em 1985, o jornal A Crítica lançou um suplemento cultural chamado “Caderno C”. Eu havia sido convidado pelo Mário Adolfo, que trabalhava no jornal, para ser um dos colaboradores, mas estava sem assunto.

Preferi esperar o bicho sair para ver a linha editorial, que, para minha surpresa, mostrou-se bastante pluralista. O subeditor do suplemento era o poeta Aldisio Filgueiras, simplesmente uma garantia de qualidade em tudo onde coloca as mãos.

No número de estreia do “Caderno C”, Paulinho publicou um artigo intitulado “A Lira Marginal”, falando, claro, sobre a “poesia marginal”, que vinha agitando o Brasil desde os anos 70. Usei o texto dele como gancho e escrevi um artigo corrigindo algumas informações que ele escrevera.

Na época, eu me correspondia com a maioria dos autores por ele citado (Chacal, Nicolas Behr, Leila Miccolis, Cacaso, Glauco Mattoso, Ulisses Tavares, Marcelo Dolabela etc.). Paulinho gostou do que escrevi e pediu ao Inácio Oliveira que nos apresentasse.

Nos encontramos no Bar Galvez, ali no canto da avenida Major Gabriel com a rua Ipixuna, e ficamos amigos na mesma hora. Passamos a noite enchendo a caveira de birita e conversando sobre literatura marginal, geração beat, dadaísmo, socialismo, política cultural, física quântica, metempsicose e religiões orientais.

Naquela noite, lhe dei de presente um exemplar do Porandubas, meu livro de poesia lançado em 84. As vendas do livro haviam ajudado a fundar a CUT estadual. O sindicalista Jaques Castro, que trabalhara arduamente na organização do evento, foi eleito o 1.º presidente da entidade.

No dia 31 de março de 1985, Paulo Graça escreveu uma resenha simpática sobre o livro no Suplemento Literário do Jornal do Comércio, intitulada “O poeta em pessoa”, que transcrevo a seguir:

Aprendemos com Octavio Paz que a criação poética se inicia como violência sobre a linguagem. E aprendemos, por conta própria, que culturas periféricas e colonizadas como a nossa acabam emasculando aquela violência e parindo apenas burocráticos diluidores da rebeldia criativa. Por isso, sempre nos surpreendemos com a descoberta de livros como o Porandubas, de Simão Pessoa. Nele, a lírica recupera e mesmo dramatiza seu impulso de rebeldia e oposição ao marasmo social que anestesia as consciências humanas.

A história da poesia amazonense asssemelha-se muito a um velho álbum de fotografias bolorentas. Torna-se um problema insolúvel enfileirar nessa galeria sonâmbula qualquer poeta mais inquieto. Aliás, os ébrios guardiões do templo poético da city estão sempre atentos para, num segundo, desenharem um círculo de silêncio em volta de qualquer artista que carregue na veia uma única gota de sangue. Foi o que aconteceu com Aldisio Filgueiras, com Narciso Lobo, talvez entre outros.

Porém foi o que aconteceu mais dramaticamente ainda com Simão Pessoa. Confesso que jamais ouvira falar de Porandubas, o próprio termo indígena, que significa notícia, aprendi-o em Sérgio Augusto. Mas como me impressionaram essas notícias poéticas, polêmicas e patéticas. Além de afirmar a contemporaneidade da nossa poesia, com um gesto rude ou com um grito selvagem, a pessoa do poeta mostra que as ideias são possíveis a 40º à sombra.

Pois não se espantem: o fato de Malarmé ter demonstrado a Degas que poesia não se faz com ideias, mas com palavras, tem servido de desculpa para alguns equivocados cometerem poemas no vazio absoluto. Ora, poesia se faz com palavras, mas também com ideias assentadas sobre seu próprio mundo e sobre o mundo da poesia. Simão Pessoa sabe disso. Não aceita tudo, com a ânsia do provinciano que pretende exibir falsa cultura. Tem coragem de riscar do mapa o cerebrino Mário de Andrade e soube, num salto tigrino (a expressão é de Benjamin), fazer a conexão entre uma consciência da problemática social e a técnica higiênica do poema concreto.

Quando tange sua lira em elegias à floresta agonizante, Simão Pessoa adota aquela poética dos concretistas, ensinado-nos que não pretende fazer discursos retóricos, mas poemas de uma essencialidade como o osso, crus e selvagens. É como se o poeta violentasse essa tradição bacharelesca de nossa poética que consegue dizer tudo, menos o que interessa e o que deseja dizer.

Há um personagem que passeia por quase todas as páginas do minúsculo livro de Simão, é o “ennui”, o tédio de Charles Baudelaire. Mas seu tédio não é transcendental, pois ele sabe “que só é possível filosofar em alemão”, seu tédio é uma denúncia contra o vazio dessa existenciazinha que se abate sobre uma comunidade que, por já ter perdido e renegado sua própria identidade, sabe-se incapaz de reagir contra o golpe dos alienígenas.

As Porandubas Poéticas, primeira parte do livro, revelam-se uma tentativa de atualização poética. O poeta, exibindo invejável mestria no uso da musicalidade canônica do verso e da plasticidade imagética, nos dá a notícia da defasagem daquela modorrenta temática do “âmago telúrico”, histeria ainda vigente em certas igrejas decadentes.

Vencido o desafio contra o descompasso temporal, Simão Pessoa parte para uma briga contra os cacoetes parnasianos que neurotizam uma certa poesia. Cria as Porandubas Polêmicas, onde já não se preocupa em mostrar que domina a técnica, inventa e desinventa, elimina alguns recursos tradicionais e mistura prosa e poesia, atualizando aquele dito de Schwitters segundo o qual, sendo um poeta, tudo o que produz é poesia, mesmo a prosa. Em seguida vem as Porandubas Patéticas, seção dedicada mais claramente ao combate social. Aqui o poeta não pretende apenas dar demonstrações do poder das palavras, mas, sobretudo, lançar uma palavra contra o poder.

Pescar exemplos de criatividade e da poeticidade de Porandubas é inútil e perigoso, quase todo o livro é brilhante, pois Simão Pessoa vive e convive com a poesia, sabe que não basta, num grande livro, um ou outro exemplar de inventividade e originalidade. Aliás, originalidade é um outro traço que distingue o autor em questão. Nessa história de imitação e diluição, o poeta em Pessoa até nos agride com tamanha independência: não imita ninguém, não pretende ser ninguém, senão a Pessoa do poeta.

Para Walter Benjamin, “sempre foi uma das tarefas essenciais da arte suscitar determinadas indagações num tempo ainda não maduro para que recebesse plena resposta”. Taí a explicação da incompreensão com que se olha o poeta Simão Pessoa.


Evidentemente, o artigo do Antonio Paulo Graça me deixou de ego inflado. Tinha sido a primeira vez que alguém se debruçara com seriedade sobre o meu trabalho e fazia uma crítica interessante.

Até então, apesar de já ter publicado seis livros de poesia e distribuído de mão em mão cerca de cinco mil exemplares, eu era mais conhecido no eixo Rio-São Paulo-Belo Horizonte do que aqui em Manaus. Nunca mais paramos de nos encontrar nos botecos para falar sobre as mesmas coisas.


Isaac Maciel, Paulinho, eu e Kádia Eneida durante uma cachaçada no Espaço Cultural Valer. De costas e de “rabo de cavalo”, o psiquiatra Rogelio Casado

O que aconteceu com Antonio Paulo Graça? Bem, há o público e o privado. Depois de concluir com êxito um mestrado e um doutorado em Literatura na UFRJ, publicar três livros (A razão selvagem, Catedral da impureza e Tango selvagem), deixar outros três prontos (Como funciona a poesia, Uma poética do genocídio e Manual de Literatura do Amazonas), escrever regularmente no Jornal do Brasil e n’O Globo e voltar a ser professor da Universidade do Amazonas, Paulinho era tratado com desprezo aqui na província. Achavam arrogância onde havia apenas discernimento.

Houve outros agravantes. Mesmo trabalhando como um mouro, Paulinho continuava sofrendo penosamente com uma permanente crise financeira. Ele nunca conseguiu assimilar como era possível um intelectual do seu porte enfrentar tão dura batalha pela sobrevivência enquanto semianalfabetos de todos os quadrantes viviam num fausto de verdadeiros marajás.

Paulinho buscava o mínimo, que é viver com dignidade à custa do próprio talento, mas até isso lhe foi negado.

Percebendo que jamais seria como os outros (o puxa-saquismo e a subserviência nunca fizeram parte do seu código de conduta), ele preferiu tirar o time de campo.

Em outras palavras, Paulinho optou, mais ou menos, pelo suicídio consciente, por meio da ingestão diária de álcool em quantidade industrial. Ele não conseguia mais se enquadrar dentro de um mundo em que o poder econômico dita as regras do jogo e que, em última análise, não tolera a insubmissão. Como também sofro isso na pele, sei exatamente pelo que ele passou e penou.

Difícil esquecer aquele homenzinho de voz rascante, óculos grandes com grossas lentes, um andar meio saltitante, a risada explodindo numa frase de efeito, um olhar inquieto e um ar de criança abandonada que inspirava sentimentos maternais permanentes no mulherio presente nas mesas de bar.

Quando sóbrio, era um veludo. Após alguns goles, podia atirar espinhos a torto e a direito. Com os amigos, ficava intolerante. Com os inimigos, ficava intolerável.

Tantos anos depois e a hora ainda é realmente de chorar pela brutalidade dessa ladroagem ilimitada que apressou a morte de Paulinho. E lamentar pela ausência do amigo leal e sempre solidário.

Sem contar essa imensa dor de nunca mais ouvir aquela voz insistente, sempre indagando, criticando, criando, produzindo, nos afagando a imaginação, nos excitando o intelecto e nos fazendo acreditar em um mundo melhor.

O nosso provincianismo ficou mais pobre e triste, quando eu pensava que nada mais era possível. Tudo é possível. Até que tenhamos tido um gênio raro como o de Antonio Paulo Graça e zelado tão mal por esse patrimônio.

quarta-feira, junho 30, 2010

Pra não esquecerem de Armandinho "Edson Piola" Nahmias


O supertime do Fast Club, uma das eternas paixões do meu brother Felix Valois. Em pé: Antônio Piola, Casemiro, Pompeu, Marialvo, Zezinho e Zequinha Piola. Agachados: Paulo Pernambucano, Rangel, Edson Piola, Simão e Adinamar. (foto by blog Bau Velho, do estimado Carlos Zamith)


Outubro de 1969. Dois anos mais velho do que eu, Armando Nahmias morava ao lado da casa do seu Aluisio Silva e foi um dos primeiros moleques com que fiz amizade quando fui morar na rua Parintins.

Fanático pelo futebol estiloso do ponta de lança Edson Piola, uma das glórias do futebol amazonense de todos os tempos, Armandinho era um dos poucos peladeiros que participava de “rachas” no meio da rua irradiando o jogo, como se tivesse incorporado o próprio craque fastiano: “Bola com Edson Piola. Driblou o primeiro, driblou o segundo. Tocou para Fuinha. Recebeu de volta na entrada da área. Vai chutar. Chutou. É gol. Goooollll de Edson Piola! Ele vai pra Copa! Em 70!”.

Ficou conhecido como Armandinho Edson Piola.

Nessa época, a imprensa amazonense estava forçando a barra para que Edson Piola fosse convocado para a seleção brasileira, como reserva do Tostão. Não colou. Mas o craque amazonense foi convidado para viajar ao México e ser comentarista esportivo de uma das rádios locais. Quer dizer, Edson Piola iria para a Copa do Mundo de qualquer jeito.

Armandinho aproveitava o mote para ironizar uma família de ribeirinhos pálidos e magricelas, tangidos pela cheia do rio Solimões, que estavam morando no bodozal da rua Maués e, salvo engano, eram parentes do Rui Assunção. Sempre que via um deles caminhando pela rua, Armandinho detonava: “Esse não vai ver o Edson Piola na Copa. Ele não vai pro México! Em 70!”. E caía na gargalhada.

Primo da Fátima Loura e do Antonio José (aka “Anzol”), Antonio Aluisio era um moleque de 14 anos que morava no final da rua Borba e pilotava uma motocicleta Honda C-125 com a disposição suicida de um praticante de “freestyle” encharcado de anfetaminas.

Saindo de sua casa na rua Borba em direção à rua Parintins, a 100 km/h, ele soltava as mãos do guidão e ficava em pé em cima da motocicleta, enquanto cortava todas as ruas transversais do bairro (Ajuricaba, Ipixuna, Santa Isabel, Silves, Manicoré, Itacoatiara e Tefé) sem dar confiança para os semáforos.

Em frente ao Top Bar, ele se sentava de novo sobre a moto e sem tocar no guidão, apenas com o auxílio do corpo, dobrava à direita, na rua Parintins, e ia até a rua Urucará na mesma velocidade.

Só então ele colocava as mãos no guidão, freava, fazia o retorno na rua Parintins, subia até a rua Borba, e embicava de novo em direção à sua casa em alta velocidade repetindo a mesma presepada.

Quando estava de bom humor, ele parava a moto em frente ao bar e convidava algum dos moleques presentes para subir na garupa. Luiz Lobão, Chico Porrada, Rubens Patinete, Sidão, Kepelé, Fábio Costa, Petrônio Aguiar e eu próprio foram alguns do que encararam aquela experiência kamikaze indescritível.

O bailado que ele fazia sem tocar no guidão, apenas inclinando o corpo para um lado e para outro fazendo com que a motocicleta em alta velocidade quase roçasse o chão, era verdadeiramente de tirar o fôlego. Antonio Aluisio desafiava a morte umas 50 vezes por dia. Era um louco.

Morador da Cohab-AM do Parque Dez, Marcus Lima (aka “Markito”) tinha 15 anos, possuía uma motocicleta Honda C-90 e também fazia as mesmas lambanças de Antonio Aluisio – apenas em uma velocidade mais baixa.

Quando os dois se encontravam em frente ao Top Bar para se desafiarem mutuamente sobre duas rodas, a molecada ia à loucura porque aquele era um duelo de titãs. Os dois eram exímios motoqueiros e, por incrível que pareça, jamais haviam se envolvido em acidentes.

No começo de uma noite de domingo daquele mês, entretanto, a ema gemeu no tronco da jurema. As cocotinhas Silane e Edna pediram ao Antonio Aluisio para dar um passeio de moto até o aeroporto de Ponta Pelada. O motoqueiro concordou e colocou as duas na garupa.

Markito resolveu acompanhá-los no passeio e Armandinho Edson Piola, que estava de bobeira me esperando para irmos juntos ao cinema, se aboletou na garupa de Markito.

Como a Honda C-90 estava com os faróis queimados, Markito sugeriu que Antonio Aluisio dirigisse um pouco mais devagar para ele aproveitar a iluminação da Honda C-125, já que a iluminação pública das ruas era quase ficção científica.

Os dois motoqueiros seguiram pela rua Borba, contornaram a Boca do Imboca, em Educandos, embicaram pela Leopoldo Peres e seguiram pela Presidente Kennedy até o aeroporto, sem sobressaltos.

Na volta, fizeram o mesmo trajeto. Em frente à igrejinha do Pobre Diabo, na rua Borba, Antonio Aluisio percebeu que o semáforo da rua Silves havia ficado no modo “laranja” e resolveu aproveitar o mesmo. Ele acelerou ao máximo e conseguiu passar pelo sinal na hora em que ele ficava “vermelho”.

Markito, que vinha um pouco mais atrás numa moto de menor potência e de faróis apagados, tentou fazer o mesmo. Infelizmente, embaixo do semáforo, a sua motocicleta foi atingida por um ônibus em alta velocidade, que estava vindo do Japiim em direção ao centro da cidade.

Markito foi cuspido a uns cinco metros de distância e fraturou as duas pernas. Armandinho ficou preso com a motocicleta embaixo do ônibus e foi arrastado por quase 10 metros.

Apesar de ter sido socorrido na mesma hora, ele não resistiu aos ferimentos e faleceu na mesa de operação da Beneficente Portuguesa. Seu corpo começou a ser velado na casa de seus pais na madrugada da segunda-feira.

Armandinho não viu Edson Piola na Copa nem o Brasil ser campeão no México. Em 70.

E pela primeira vez na vida eu percebi que a dama de negro não estava para brincadeiras.

Até então, eu acreditava piamente que moleques da nossa idade eram imortais. Não eram.

O big bang do teatro naturalista no Amazonas


Novembro de 1976. O Teatro Amazonas estava sendo palco da 1.ª Mostra de Teatro Cênico do Amazonas, com a apresentação de grupos teatrais dos quatro cantos da cidade. Como não era uma mostra competitiva, estavam participando do evento desde as famosas companhias Teatro Saltimbanco de Combate (Tesc), de Márcio Souza, e Grupo Universitário de Teatro do Amazonas (Gruta), de Marcos José, até obscuros grupos amadores da periferia.


Numa sexta-feira, com o teatro colocando gente pelo ladrão, começa a apresentação do grupo Sangue Novo, de Santo Antônio, formado por três moleques recém-saídos da adolescência: Orlando Farias, Sebastião Carril e Isaura Gonçalves.

Intitulada Embaixo do mosquiteiro, a peça tinha sido escrita por Orlando Farias e era uma crítica bastante ácida aos pastores evangelistas da época, com petardos metafóricos ao regime militar. O cenário era de uma pobreza franciscana: apenas uma rede armada embaixo de um mosquiteiro, onde a mulher do pastor passava a maior parte do tempo se embalando.

O clímax do espetáculo colocava em um canto do palco, sob um spot luminoso, o pastor (Sebastião Carril) pregando sobre o fim do mundo enquanto no outro canto, sob uma luz incidental, um soldado (Orlando Farias) passava o ferro na esposa do pastor (Isaura Gonçalves) embaixo do mosquiteiro.

Sentado na primeira fila da plateia, Antonio Paulo Graça levou um susto quando percebeu, dentro da rede, Orlando Farias levantar as duas pernas de Isaura na famosa posição “frango assado” e começar a remexer os quadris vigorosamente. Ele cutucou Guto Rodrigues, que estava sentado ao seu lado:

– Porra, Gutinho, aqueles dois atores estão trepando de verdade...

Guto minimizou a cena:

– Não é de verdade não, Paulo. Eles estão apenas simulando um coito e colocando muito realismo na representação...

Nesse momento, no palco, Orlando Farias colocou a atriz na posição “vaca atolada” e começou a dar vigorosas estocadas do tipo duas fundas e uma rasa. A rede só faltava virar. Não demorou muito para Isaura chegar ao orgasmo. Seu gemido rouco atingiu a plateia silenciosa com a força de uma bofetada. As luzes do palco se apagaram, dando o espetáculo por encerrado. Orlando nem deu bola e continuou castigando a infeliz até ele próprio soltar um gemido rouco, uns cinco minutos depois, e desabar dentro da rede.

No dia seguinte, os jornais locais deitaram e rolaram sobre a cena de sexo explícito ocorrida no palco do quase centenário Teatro Amazonas e garantiram que “o grupo Sangue Novo havia instituído o teatro naturalista em nossa terra”.

Os organizadores da mostra, evidentemente, ficaram putos da vida e proibiram uma segunda apresentação do grupo de Santo Antônio. Se quisessem apresentar aquele tipo de peça, eles que fossem se exibir no palco do Saramandaia, o basfond mais famoso de Manaus.

De qualquer forma, o feito histórico de Orlando Farias e Isaura Gonçalves jamais foi igualado ou superado por outros atores em cena. Pelo menos no palco do Teatro Amazonas.

Cine Ypiranga para principiantes


Pro meu amigo de infância José Fernandes Junior (aka “Barrote”), atualmente auto-exilado em Salvador (BA)


Nas décadas de 60 e 70, duas companhias exibidoras monopolizavam os cinemas locais: a de Luiz Severiano Ribeiro, dos cines Odeon, Polytheama e Éden, e a de Adriano Bernardino, dos cines Avenida, Guarany, Ypiranga, Popular, Vitória, Ideal e Palace.

O cine Odeon, localizado na Eduardo Ribeiro canto com a Saldanha Marinho, era o único que possuía ar condicionado central. Todos os demais possuíam gigantescos ventiladores com pás de quase dois metros.

O cine Avenida, também na Eduardo Ribeiro, e o Guarany, na Getúlio Vargas, possuíam uma espécie de frisa, no 2º andar, que logo se transformaram em “galerias do amor”, com pegações e armações ilimitadas de todos os tipos.

Eram os locais favoritos para a prática da caça esportiva dos famosos “bocas de fogo”, nome genérico dos mancebos que gostavam de bolinar garotinhos.

A partir dos anos 80, à medida que os cinemas tradicionais iam fechando as portas e dando lugar a empreendimentos bancários, comerciais ou templos evangélicos, dois novos exibidores entraram no mercado: Jesus Leong (Cinema 2, Cinema Novo e Cine Qua Non) e Joaquim Marinho (cines Chaplin, Cantinflas, Oscarito, Grande Otelo, Carmen Miranda e Renato Aragão).

Após a morte do empresário Adriano Bernardino, em meados dos anos 80, sua família foi se desfazendo da cadeia de cinemas até só restar o cine Studio Center, administrado por seu filho mais velho, Adrianinho, localizado nos altos de um edifício na Saldanha Marinho, que hoje também já faz parte do passado.

Na verdade, logo após a entrada em cena dos shoppings centers, os cinemas tradicionais foram rifados do mapa e substituídos pelas modernas (e minúsculas) salas do Amazonas Shopping, Millenium Center, Shopping São José e Studio 5.

Considerado a jóia da coroa em sua época, o cine Ypiranga, na Cachoeirinha, era o maior e o mais bonito de todos. Basta dizer que nas partes do fundo ficava a residência do empresário Adriano Bernardino, um rotundo filho de portugueses que havia erigido seu império cinematográfico trabalhando de sol a sol feito um burro de carga.

Sempre bem humorado, de voz pausada e elegante, Adriano Bernardino supervisionava pessoalmente as exibições nas sessões de matinê, aos domingos, no cine Ypiranga, e gostava de explicar didaticamente para a molecada o enredo dos filmes em cartaz.

O empresário costumava ficar sentado em um dos três gigantescos sofás de couro existentes no salão de entrada do cinema, onde ficavam as bomboniéres e os cartazes das próximas atrações do cinema.

Na parte externa do cinema ficavam as quatro bilheterias (do lado esquerdo), uma lanchonete (do lado direito) e as duas portas de saída, uma de cada lado.

Um imenso painel retratando o “Grito do Ipiranga”, de Pedro Américo, separava o salão de entrada do salão de exibição. Dois balcões de madeira envernizada, um de cada lado, delimitavam o início das fileiras de cadeiras.

O gigantesco salão era dividido por um grande corredor, que começava entre os balcões de madeira e terminava no palco. Do lado esquerdo do palco, ficavam os sanitários masculinos. Do lado direito, os femininos.

Havia dois outros corredores nas laterais, que davam diretamente nos sanitários. Dois imensos corredores horizontais cortavam o corredor principal, formando seis conjuntos de cadeiras.

Cada conjunto possuía 20 filas de cadeiras de madeira, marca Cimo, de assento dobrável, sendo que cada fila dispunha de 20 cadeiras. No total, 1.200 lugares. Uma festa!



A gente sabia que a sessão iria começar quando os funcionários do cinema começavam a fechar apressadamente as gigantescas portas laterais existentes em cada lado do salão.

As luzes internas se apagavam. As laterais do palco eram iluminadas por uma profusão de cores em ordem seqüencial (vermelho, roxo, amarelo, azul, verde, laranja, etc), enquanto as cortinas se abriam lentamente.

Os gritos e assovios da molecada eram ensurdecedores. A mesma zoeira acontecia quando a fita quebrava e era necessário fazer a substituição dos rolos.

Dessa vez, os gritos e assovios eram acompanhados de batidas frenéticas do assento das cadeiras nos encostos, o que deixava Adriano Bernardino e os lanterninhas à beira de um ataque de nervos.

De vez em quando, um moleque mais abusado flagrado durante a prática delituosa era expulso do recinto.

Nos cinemas do centro, rolava a chamada sessão contínua, com exibições do mesmo filme a partir do meio-dia e intervalo de duas horas entre o início de cada sessão. Nos cinemas dos bairros, a história era outra.

Havia a sessão matinal, das 9h ao meio-dia, com dois filmes em cartaz. Por causa do horário, o ingresso sofria uma redução de 50%. Havia a sessão matinê, das 13h às 15h45, também com dois filmes em cartaz, a sessão vespertina, das 16h às 18h, com um filme em cartaz, e a sessão noturna, das 20h às 23h, com dois filmes em cartaz.

Ou seja, um fanático pela sétima arte poderia assistir até seis filmes diferentes em um único dia (o filme da sessão vespertina, em geral, era um dos dois que seria exibido na sessão noturna).



Os seriados eram uma atração das sessões domingueiras, e seu público era infanto-juvenil em idade física ou mental. Compunham-se de doze ou quinze episódios de cerca de dezoito minutos (dois rolos) cada, exibidos semanalmente nas matinês como complemento a um filme do mesmo estúdio, quase sempre um faroeste de sessenta ou setenta minutos estrelado por um cowboy – alguém assim como Roy Rogers, Allan “Rocky” Lane ou Durango Kid.

O total perfazia a hora e meia de uma sessão normal. A meia hora restante para a sessão seguinte era o que levava para se recolher os papéis de bala, restos de pirulitos, chicletes no fundo do assento e outras nojeiras deixadas pelos garotos.

Depois de uma boa briga ou de um tiroteio em que as balas miavam, cada episódio do seriado terminava com o herói ou heroína pendurado no precipício (daí o nome pelo qual os seriados eram conhecidos em inglês: cliffhangers), amarrado dentro de um paiol que explodia ou desacordado num carro que voava pela ribanceira. A ação se interrompia e um aviso dizia: “Voltem na próxima semana para ver a continuação deste episódio!”.

Na dita volta, repetia-se o trecho decisivo do episódio anterior, com a diferença de que, dessa vez, via-se o herói desamarrando as cordas ou acordando a tempo de fugir do paiol ou de saltar do carro antes que ele se esbodegasse.

Tudo muito previsível até para os infantes daquele tempo, mas também muito bem-feito tecnicamente – o que pode ser constatado hoje em DVD por qualquer sobrevivente daquelas jornadas que tenha se tornado um cinéfilo respeitável.

Nos dias de sábado, no cine Ypiranga, ocorria um vesperal no estilo show de calouros, batizado de “Confusão na Taba”. Comandado pelos radialistas Geraldo Viana e Nicolau Libório, havia apresentações de bandas tocando ao vivo (Os Aristocratas, 5ª Dimensão, Good Boys, 4ª Projeção, etc), concurso de dublagem (Bridora, irmã do Wilson Fernandes, Careca e Ratinho eram imbatíveis), shows de ilusionismo, concurso de piadas, etc. Uma espécie de Programa Silvio Santos de baixo orçamento, mas cheio de surpresas.

De repente, Geraldo Viana interrompia a apresentação e avisava:

– Existe uma nota de mil cruzeiros colada embaixo de um assento. Verifique se não é no seu...

Era hilário ver aqueles 1.200 moleques virando pra cima os assentos das cadeiras na procura desesperada pela bendita cédula.

Para meninos e meninas com os hormônios à flor da pele, as sessões de matinê eram uma espécie de oásis salvador para a famigerada prática do “acocho”.

No figurino de impávidos bucaneiros, nós, os moleques, em grupos de três a cinco, ficávamos circulando pelos corredores antes de a sessão começar, com o olhar 43 vasculhando as fêmeas do salão, todas sentadinhas bem comportadas em seus lugares.

Com um gesto quase imperceptível, que podia ir de uma simples piscadela a uma levada do indicador à boca e depois em direção à fêmea, solicitávamos a aquiescência da donzela para sentar ao seu lado.

Quando as luzes se apagavam, os piratas iniciavam a abordagem. O normal era rolar beijos de língua e discretas pegadinhas nos seios, mas havia as mais liberais (poucas, evidentemente!) que consentiam em serem apalpadas por baixo das saias. Uma loucura!



Depois da matinê, nos reuníamos em bloco na frente do cinema para trocar gibis. Não havia nenhum interesse pecuniário nas trocas. Era comum você trocar um gibi novinho em folha por um outro já bem detonado, apenas porque você ainda não havia lido o mesmo.

Claro que os almanaques valiam no mínimo dois gibis e que ninguém era maluco de trocar um Pato Donald por um Tarzan. Os gibis trocados tinham que ser da mesma categoria, mas não necessariamente do mesmo gênero.

Você podia trocar um Kit Carson por um Fantasma ou um Buck Jones por um Águia Negra, mas não podia querer trocar um Sobrinhos do Capitão por um Mandrake, que isso era considerada ofensa pessoal. Sobrinhos do Capitão só podiam ser trocados por Brucutu, Recruta Zero, Pimentinha e outros gibis infantis.

Quando explodiu a febre dos monóculos, uma espécie de microluneta em formato de chaveiro, o lixo do cine Ypiranga se transformou em uma mina de ouro.

Considerado pela molecada da época uma das maiores invenções da humanidade depois do refresco em pó e do suporte atlético, o monóculo possuía uma das extremidades quadradas, que funcionava como uma tela de cinema.

Nessa extremidade era colocado o negativo de um filme e ele, quando observado pela outra extremidade do objeto, que era arredondada e possuía uma lente de aumento especial, ganhava a luminosidade e as cores de um cartão postal. O monóculo era uma espécie de sala de cinema em miniatura.

Sabedores de que, volta e meia, os operadores da sala de projeção cortavam pedaços de filmes e jogavam fora, brigadas de moleques se revezavam diariamente garimpando as caixas de lixo do cine Ypiranga, contribuindo enormemente para aumentar a sujeira das ruas no entorno do cinema.

Em pouco tempo, uma próspera atividade de escambo estava em marcha. “Troco King Kong pelo Ringo!”, gritava um. “Troco Maciste e Ursus pelo Sansão”, berrava outro. “Troco James Bond por Mabuse”, disparava um terceiro.



Quando, em vez dos mocinhos tradicionais, começaram a surgir nas mãos dos moleques diversos fotogramas das verdadeiras divas de cinema, a coisa pegou fogo.

Aliás, foi por meio dos inofensivos monóculos que nós fomos precocemente apresentados aos decotes de Gina Lolobrigida, Ava Gardner, Marilyn Monroe, Rita Hayworth e Brigite Bardot, privilégio então reservado apenas aos maiores de quatorze anos.

Para entrar nas sessões proibidas para menores de 14 anos valia tudo, principalmente falsificar a idade na caderneta escolar, apagando a data original com borracha azul e reescrevendo a nova data com caneta Bic escrita grossa.

Dependendo da qualidade da falsificação – as muito grosseiras, por exemplo, eram passíveis de fuzilamento em praça pública! –, você poderia ter problemas tanto na própria escola quanto com os despóticos e arrogantes vigilantes do Juizado de Menores, que tinha um prazer quase sádico em barrar adolescentes nas sessões noturnas.

O campo de prova dos falsificadores estava nas sessões das 16h, os famosos vesperais, que eram, digamos assim, para um público um pouco mais adulto que a molecada das matinês.

Normalmente era a sessão preferencial dos jovens casais com mais de 16 anos. A quantidade de mulheres desacompanhadas era reduzida drasticamente.

Mas ainda assim a gente resolvia se aventurar nessa mata fechada, principalmente quando eram exibidos filmes da Gigliola Cinquetti, um poderoso atrativo de garotas desinibidas em busca de algum príncipe encantado disponível.



Lembro que em um desses vesperais, Cassianinho Anunciação apostou comigo e Sidão Ribeiro que iria bater o recorde de “mergulho em piscina seca”, uma das brincadeiras mais cafajestes da época.

O famigerado “mergulho em piscina seca” exigia uma coragem quase suicida, já que consistia em dar um beijo de língua de mais de dois minutos em uma namoradinha ocasional escolhida aleatoriamente por um amigo do “mergulhador”.

Em média, as meninas consistiam em ter suas línguas chupadas por parceiros desconhecidos por, no máximo, um minuto. Mais do que isso, só se o sujeito já fosse namorado oficial.

Escolhemos uma garota de cabelos cor de fogo, que estava sentada sozinha e detonando um mentex atrás do outro. Podia ser um indicativo de que ela tinha mau hálito, o que tornaria a prova mais interessante.

Boa pinta e bom de papo, Cassianinho nem se avexou. Antes mesmo de as luzes se apagarem, ele já estava conversando animadamente com a menina.

Eu e Sidão nos sentamos exatamente atrás do casal, para evitar qualquer tipo de marmelada durante a prova.

Era comum, por exemplo, o sujeito sentado ao lado direito da menina abraçá-la por trás do pescoço e aí, no escurinho do cinema, inclinar a cabeça em sua direção, ficar cochichando abobrinhas no ouvido esquerdo da vagabunda e depois jurar que estava dando um beijo de língua.

Os primeiros dez minutos do filme (salvo engano, “O professor aloprado”, de Jerry Lewis) transcorreram na maior calmaria.

De repente, Cassianinho, que já havia colocado o braço direito sobre os ombros da vítima, deu um toque discreto no encosto da cadeira da menina. Era o sinal de que a tentativa de quebra do recorde iria começar.

Sidão consultou o relógio de pulso e deu dois toques discretos no encosto da cadeira do Cassianinho, autorizando o início da prova.

Ele imobilizou a cabeça da garota com uma espécie de gravata e caiu de boca. Eu me aproximei do casal para conferir se estava rolando mesmo um beijo de língua. Estava.

Cassianinho só desgrudou da menina depois de transcorridos exatos 3 minutos e 26 segundos. Estava estabelecido um novo recorde da prova.

Ele ainda tentaria melhorar o recorde mais cinco vezes, sem sucesso, porque na passagem dos 3 minutos a garota de cabelos cor de fogo arregalava os olhos como se estivesse se afogando e o beijo era prudentemente interrompido.

Depois da façanha, Cassianinho ficou conhecido na nossa turma como “mergulhão, primeiro e único”, título conferido a ele pelo próprio Sidão e jamais contestado pelos outros moleques.

Bons tempos, zifio, bons tempos!