33. O carnaval de 1915 foi o mais
extravagante que Manaus conheceu. A cidade inteira saiu às ruas, dançou nos
clubes, invadiu cafés e se comportou como se o futuro fosse uma entidade
abstrata que morava muito longe dali. Havia sete meses que a Europa estava
mergulhada na Primeira Guerra Mundial, mas o manauara médio estava tão
preocupado com as trincheiras da França quanto um pirarucu com a cotação da
bolsa de valores de Zurique.
O povo cantava
o “Maneiro-pau”, a “Cabocla de Caxangá” e a polca “Perepepê”, sucessos da época
que hoje soam como senhas de acesso a um manicômio folclórico. A alegria
atingiu o ápice quando desfilaram os Paladinos da Galhofa em onze carros
alegóricos. Num deles seguia a jovem violonista Áurea Ramos, considerada uma
das moças mais bonitas da cidade, espécie de celebridade amazonense antes de
existirem celebridades amazonenses.
À noite, no
Ideal Clube, houve baile. Áurea subiu ao palco. Então aconteceu algo tão
absurdo que parece invenção de roteirista preguiçoso: durante uma briga no
salão, um sujeito fantasiado de cowboy disparou acidentalmente uma arma e a
atingiu. A jovem caiu. Um cortejo formado por mascarados, palhaços, pastoras, negas-malucas
e piratas carregou a moça agonizante até a Santa Casa. A cena parecia uma
mistura de velório, desfile carnavalesco e surto coletivo. Mas Áurea não
resistiu.
Nos meses
seguintes, os poetas de Manaus fizeram o que os poetas fazem quando não podem
resolver um problema: escreveram sonetos. Muitos sonetos. Sonetos suficientes
para derrubar outra floresta amazônica se todos fossem impressos. O crime que
chocou a capital amazonense com seus quase 100 mil habitantes nunca foi
elucidado e silenciou para sempre o violino da artista prodígio no auge dos
seus 18 anos.
O ano de 1915
começava melancólico. O preço da borracha despencava sob a concorrência dos
seringais plantados pelos ingleses na Malásia com sementes brasileiras
contrabandeadas. Em outras palavras: o sujeito roubou a muda, abriu uma filial
do outro lado do planeta e ainda tomou o mercado do dono. Os seringais nativos
começaram a ser abandonados e os seringueiros desempregados migraram para
outros locais.
Em 1916 não
houve carnaval de rua. As francesas foram embora, os cafés fecharam as portas e
o mato começou a reassumir o controle da cidade, como um proprietário paciente
que havia saído para almoçar e voltava para cobrar o aluguel atrasado. A
efêmera Paris dos Trópicos começava a descobrir que era, antes de tudo, uma
cidade amazônica cercada de floresta por todos os lados.
Foi nesse
cenário que surgiram os blocos de sujos, ranchos e cordões populares. A
organização era praticamente inexistente. Cada grupo saía da própria comunidade
e Deus ajudava quem tentasse entender o regulamento. Entre os pioneiros estavam
o Cordão das Lavadeiras, Os Linguarudos, Caboclo Suraras, Cordão das
Jardineiras e o sempre ameaçador Comigo Ninguém Pode, que já parecia nome de
bloco e resposta de briga ao mesmo tempo.
Na metade da
Segunda Guerra Mundial, os japoneses ocuparam os seringais da Malásia e, por
alguns instantes, a Amazônia voltou a acreditar que o destino lhe devia uma
indenização. Getúlio Vargas organizou o Exército da Borracha e trouxe milhares
de nordestinos para a floresta. Parecia o retorno do esplendor. Durou mais ou
menos o tempo de um sorvete ao sol de meio-dia.
Terminada a
guerra, Manaus voltou à sua tradicional vocação para a pasmaceira. Mas os
blocos carnavalescos se multiplicaram numa velocidade que faria inveja a
coelhos sob efeito de energético. Surgiram Vai Ser Pra Mim, Holandesas na
Folia, Tá Bom Demais, Filhos de Momo, Bloco das Hawaianas, Periquitos da
Madame, Garotos Infernais, Anjos de Cara Suja e dezenas de outros nomes que
demonstram que o carnaval amazonense sempre tratou a coerência como mera
sugestão.
As batalhas de
confete no Bar Avenida, Leitaria Amazonas e Bar Americano atraíam multidões.
Também começaram a surgir marchinhas de sucesso, como “Casado Não Pode”. Era
uma composição revolucionária que defendia a tese de que o matrimônio era
incompatível com a felicidade carnavalesca, posição científica amplamente
debatida nos botequins da época.
Em 1946 surgiu
a primeira escola de samba da cidade: a Escola de Samba Mixta da Praça 14 de
Janeiro. Organizada nos moldes cariocas, ela dominou o carnaval local de forma
tão absoluta que conquistou quinze títulos seguidos. Hoje isso seria
investigado pela imprensa, pelo Ministério Público e provavelmente pela polícia
científica. Outros bairros correram atrás do prejuízo e criaram suas próprias
escolas. Nascia uma rivalidade que alimentaria gerações de sambistas,
fofoqueiros e especialistas em reclamar da nota dos jurados.
Os desfiles
daquela época tinham uma característica curiosa: eram cercados por cordas. Quem
estava dentro era o folião fantasiado. Quem estava fora era a chamada “pipoca”,
os descamisados que pulavam do lado de fora sonhando em participar. Era uma
espécie de versão carnavalesca do condomínio fechado.
O sistema
funcionou até que duas emissoras de rádio resolveram transmitir os desfiles ao
vivo. O palanque foi instalado exatamente no meio da avenida, atrás do Teatro
Amazonas. Assim, as escolas precisavam se dividir em dois grupos, contornar o
palanque e depois tentar se reencontrar do outro lado. A ideia tinha a mesma
lógica urbanística de construir uma rotatória no meio da sala de jantar. Naturalmente,
a corda virou um problema insolúvel.
O estilo
“cordão” foi aposentado, a Escola Mixta encerrou suas atividades e, pouco
depois, veio a ditadura militar. Entre 1962 e 1970, os desfiles continuaram
acontecendo na Avenida Eduardo Ribeiro, mas de maneira tão tímida que pareciam
ensaios gerais de uma festa que nunca começava. O carnaval amazonense
atravessava um de seus períodos mais difíceis, aguardando tempos melhores para
voltar a fazer aquilo que sempre soube fazer: transformar dificuldades
históricas em samba, confete e uma saudável dose de bagunça.

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