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terça-feira, agosto 25, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 33

 


33. O carnaval de 1915 foi o mais extravagante que Manaus conheceu. A cidade inteira saiu às ruas, dançou nos clubes, invadiu cafés e se comportou como se o futuro fosse uma entidade abstrata que morava muito longe dali. Havia sete meses que a Europa estava mergulhada na Primeira Guerra Mundial, mas o manauara médio estava tão preocupado com as trincheiras da França quanto um pirarucu com a cotação da bolsa de valores de Zurique.

O povo cantava o “Maneiro-pau”, a “Cabocla de Caxangá” e a polca “Perepepê”, sucessos da época que hoje soam como senhas de acesso a um manicômio folclórico. A alegria atingiu o ápice quando desfilaram os Paladinos da Galhofa em onze carros alegóricos. Num deles seguia a jovem violonista Áurea Ramos, considerada uma das moças mais bonitas da cidade, espécie de celebridade amazonense antes de existirem celebridades amazonenses.

À noite, no Ideal Clube, houve baile. Áurea subiu ao palco. Então aconteceu algo tão absurdo que parece invenção de roteirista preguiçoso: durante uma briga no salão, um sujeito fantasiado de cowboy disparou acidentalmente uma arma e a atingiu. A jovem caiu. Um cortejo formado por mascarados, palhaços, pastoras, negas-malucas e piratas carregou a moça agonizante até a Santa Casa. A cena parecia uma mistura de velório, desfile carnavalesco e surto coletivo. Mas Áurea não resistiu.

Nos meses seguintes, os poetas de Manaus fizeram o que os poetas fazem quando não podem resolver um problema: escreveram sonetos. Muitos sonetos. Sonetos suficientes para derrubar outra floresta amazônica se todos fossem impressos. O crime que chocou a capital amazonense com seus quase 100 mil habitantes nunca foi elucidado e silenciou para sempre o violino da artista prodígio no auge dos seus 18 anos.

O ano de 1915 começava melancólico. O preço da borracha despencava sob a concorrência dos seringais plantados pelos ingleses na Malásia com sementes brasileiras contrabandeadas. Em outras palavras: o sujeito roubou a muda, abriu uma filial do outro lado do planeta e ainda tomou o mercado do dono. Os seringais nativos começaram a ser abandonados e os seringueiros desempregados migraram para outros locais.

Em 1916 não houve carnaval de rua. As francesas foram embora, os cafés fecharam as portas e o mato começou a reassumir o controle da cidade, como um proprietário paciente que havia saído para almoçar e voltava para cobrar o aluguel atrasado. A efêmera Paris dos Trópicos começava a descobrir que era, antes de tudo, uma cidade amazônica cercada de floresta por todos os lados.

Foi nesse cenário que surgiram os blocos de sujos, ranchos e cordões populares. A organização era praticamente inexistente. Cada grupo saía da própria comunidade e Deus ajudava quem tentasse entender o regulamento. Entre os pioneiros estavam o Cordão das Lavadeiras, Os Linguarudos, Caboclo Suraras, Cordão das Jardineiras e o sempre ameaçador Comigo Ninguém Pode, que já parecia nome de bloco e resposta de briga ao mesmo tempo.

Na metade da Segunda Guerra Mundial, os japoneses ocuparam os seringais da Malásia e, por alguns instantes, a Amazônia voltou a acreditar que o destino lhe devia uma indenização. Getúlio Vargas organizou o Exército da Borracha e trouxe milhares de nordestinos para a floresta. Parecia o retorno do esplendor. Durou mais ou menos o tempo de um sorvete ao sol de meio-dia.

Terminada a guerra, Manaus voltou à sua tradicional vocação para a pasmaceira. Mas os blocos carnavalescos se multiplicaram numa velocidade que faria inveja a coelhos sob efeito de energético. Surgiram Vai Ser Pra Mim, Holandesas na Folia, Tá Bom Demais, Filhos de Momo, Bloco das Hawaianas, Periquitos da Madame, Garotos Infernais, Anjos de Cara Suja e dezenas de outros nomes que demonstram que o carnaval amazonense sempre tratou a coerência como mera sugestão.

As batalhas de confete no Bar Avenida, Leitaria Amazonas e Bar Americano atraíam multidões. Também começaram a surgir marchinhas de sucesso, como “Casado Não Pode”. Era uma composição revolucionária que defendia a tese de que o matrimônio era incompatível com a felicidade carnavalesca, posição científica amplamente debatida nos botequins da época.

Em 1946 surgiu a primeira escola de samba da cidade: a Escola de Samba Mixta da Praça 14 de Janeiro. Organizada nos moldes cariocas, ela dominou o carnaval local de forma tão absoluta que conquistou quinze títulos seguidos. Hoje isso seria investigado pela imprensa, pelo Ministério Público e provavelmente pela polícia científica. Outros bairros correram atrás do prejuízo e criaram suas próprias escolas. Nascia uma rivalidade que alimentaria gerações de sambistas, fofoqueiros e especialistas em reclamar da nota dos jurados.

Os desfiles daquela época tinham uma característica curiosa: eram cercados por cordas. Quem estava dentro era o folião fantasiado. Quem estava fora era a chamada “pipoca”, os descamisados que pulavam do lado de fora sonhando em participar. Era uma espécie de versão carnavalesca do condomínio fechado.

O sistema funcionou até que duas emissoras de rádio resolveram transmitir os desfiles ao vivo. O palanque foi instalado exatamente no meio da avenida, atrás do Teatro Amazonas. Assim, as escolas precisavam se dividir em dois grupos, contornar o palanque e depois tentar se reencontrar do outro lado. A ideia tinha a mesma lógica urbanística de construir uma rotatória no meio da sala de jantar. Naturalmente, a corda virou um problema insolúvel.

O estilo “cordão” foi aposentado, a Escola Mixta encerrou suas atividades e, pouco depois, veio a ditadura militar. Entre 1962 e 1970, os desfiles continuaram acontecendo na Avenida Eduardo Ribeiro, mas de maneira tão tímida que pareciam ensaios gerais de uma festa que nunca começava. O carnaval amazonense atravessava um de seus períodos mais difíceis, aguardando tempos melhores para voltar a fazer aquilo que sempre soube fazer: transformar dificuldades históricas em samba, confete e uma saudável dose de bagunça.

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