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terça-feira, agosto 25, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 35

 


35. O saudoso escrivão juramentado Hugo Leão de Castro (esse aí de cavanhaque) era tão conhecido na igualmente saudosa Ipanema pelo apelido de Hugo Bidê que havia quem jurasse, em cartório, que “Leão de Castro” era o pseudônimo. Boêmio militante e vagabundo em dedicação exclusiva, ele encarava o balcão do bar com o mesmo senso de missão que um monge encara o altar.

Na década de 1960 não havia quitinete mais animada em Ipanema que a de Hugo, escrevente de imóveis pela manhã e um dos mais instigantes boêmios durante a noite. Aqueles 25 m² lotavam. Um desavisado das leis do copo e da convivência era capaz de chamar a NASA para constatar que dois corpos podem sim ocupar o mesmo lugar no espaço.

Em uma das inúmeras festas promovidas por Hugo, ele seria batizado com o apelido que garantiria fama e o status de lenda. Preparada para alguns amigos, mais de cinquenta pessoas surgiram na feijoada. Sem ter panelas suficientes, o anfitrião aproveitou o bidê como um lugar seguro, higiênico e diametralmente perfeito para acomodar o caldo, as orelhas e afins. Nascia Hugo Bidê.

O certo é que um belo dia o fígado resolveu pedir as contas. Depois de anos trabalhando em jornada extraordinária, entrou em greve. Hugo, então, foi procurar um médico desconhecido, mas tão recomendado que parecia fazer milagres por atacado.

Seguiu o ritual da consulta como quem comparece ao confessionário. Nu, obediente, vulnerável e profundamente arrependido – não dos excessos, mas de estar ali. O doutor, uma sumidade de jaleco e cara de poucos amigos, fazia perguntas sem levantar os olhos da ficha, como se entrevistasse um sonegador do imposto de renda.

Hugo informou a idade, relembrou as doenças da infância, recitou o histórico médico da família, negou enfermidades contagiosas (silenciando prudentemente uma velha gonorreia que já tinha prescrito até da memória) e respondeu a tudo com a disciplina de um recruta diante do sargento. O médico continuava impassível. Nem um sorriso, nem um “hum-hum”, nem um resquício de solidariedade humana. Então veio a pergunta decisiva:

– O senhor bebe?

Hugo respirou fundo. Sabia que aquela resposta podia definir seu destino.

– Socialmente...

O médico demorou mais do que o normal para escrever a palavra. A caneta parecia desconfiada. Temendo que o silêncio denunciasse uma fraude estatística, Hugo resolveu esclarecer:

– É que eu tenho muitos amigos.

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