81. Fevereiro de 1990. A Reino Unido
atravessava uma fase financeira tão complicada que, se aparecesse um ladrão
para assaltar a escola, era capaz de sair de lá deixando uma contribuição.
Mesmo assim, alguém teve a brilhante ideia de caprichar no figurino dos
puxadores de samba para impressionar Gera da Portela, contratado para defender
o samba-enredo na avenida. A missão caiu nas mãos da mãe do poeta Gilsinho
Nogueira.
Ela aceitou
confeccionar, de graça, seis ternos completos: blazer e calça de seda branca,
camisa verde, tudo elegante, digno de um artista da Portela. Nem cobrou o
tecido. Era puro amor à escola. Os seis privilegiados seriam Gera da Portela,
os vocais Almeron, Roque, Erasmo e Renato, além do mestre de bateria Arnoldo. O
restante da diretoria continuaria desfilando com o uniforme oficial das escolas
falidas: camisa de meia fio 24 e calça de brim coreana comprada no Sukatão. A
elegância tinha limite. O orçamento também.
A costureira
terminou o serviço quase sete da noite, poucas horas antes do desfile. Gilsinho
colocou os ternos em duas sacolas plásticas, pendurou-as num poste ao lado da
tradicional mesa de dominó do Bar Kipapo's, administrado por um de seus irmãos,
e deixou o recado:
– Se alguém for
lá pro Morro, entrega essas sacolas pro Nicéias. Ele sabe o que fazer.
Missão dada,
foi jantar na casa da mãe, que ficava ali atrás. Duas horas depois voltou. As
sacolas tinham evaporado. Os jogadores de dominó continuavam imóveis,
discutindo a eterna tese de que parceiro ruim estraga qualquer dupla. Os
frequentadores do bar permaneciam igualmente fiéis às suas cervejas. Ninguém
havia ido ao Morro. Então quem tinha levado as roupas?
Depois de muito
interrogatório, um dos pinguços deu a única informação útil da noite:
– Só passou o
caminhão do lixo...
Silêncio.
Gilsinho empalideceu. As peças finalmente se encaixaram. Os garis tinham visto
duas sacolas penduradas num poste em pleno sábado de carnaval e concluído,
corretamente do ponto de vista deles, que aquilo só podia ser lixo. E fizeram
exatamente aquilo que se espera de um caminhão de lixo. Levaram.
Começou então
uma perseguição que faria inveja aos filmes policiais de Hollywood – com uma
pequena diferença: em vez de Ferraris, os heróis estavam num Fusca. Gilsinho e
seu irmão Gilberto saíram rasgando a Praça 14, o Centro e tudo quanto era rua
atrás do caminhão coletor. Já passava da meia-noite quando avistaram o fugitivo
na Sete de Setembro, em frente ao Palácio Rio Negro. Gilberto atravessou o
Fusca na frente do caminhão. Desceu. Sacou um revólver calibre 38. E anunciou
que a coleta seletiva seria interrompida naquele instante.
– Descarrega
tudo!
O motorista
percebeu que discutir com um sujeito armado no meio da madrugada não fazia
parte do treinamento da prefeitura. Obedeceu. Em poucos minutos, uma montanha
de lixo tomou conta da rua. O cheiro era tão violento que parecia capaz de
enferrujar o nariz.
Enquanto isso,
Gilsinho mergulhava naquele Everest de cascas de frutas, restos de peixe,
papéis engordurados e sabe Deus mais o quê. Milagrosamente encontrou as duas
sacolas. Estavam ensopadas de chorume, mas ainda não haviam passado pelo
triturador. Era praticamente uma vitória da ciência.
Com as sacolas
penduradas para fora da janela do Fusca – para preservar o pouco de dignidade
respirável existente no veículo –, os irmãos voltaram correndo para a casa da
mãe. Atrás deles ficou o motorista do caminhão, acompanhado pelos colegas,
distribuindo um repertório de palavrões tão criativo que merecia um desfile
próprio.
A mãe de
Gilsinho recebeu as roupas como uma cirurgiã diante de um paciente em estado
gravíssimo. Lavou tudo com sal grosso, detergente, amoníaco e, provavelmente, a
ajuda de todos os santos do calendário. Depois secou peça por peça no ferro
elétrico. As roupas ficaram limpas. O problema era convencer o nariz. O chorume
continuava vencendo de goleada.
Foi quando
entrou em cena Maria, irmã de Gilsinho. Ela olhou para sua pequena coleção de
perfumes franceses Versace V/S Versus, adquiridos ao longo de anos de economia,
respirou fundo, fez o sinal da cruz e tomou uma decisão que exigia coragem
quase militar. Despejou perfume em todos os ternos. Um vidro. Dois. Três. Oito.
Naquele
momento, travava-se uma batalha histórica. De um lado, a perfumaria italiana.
Do outro, o chorume da Prefeitura de Manaus. Até hoje ninguém sabe quem venceu.
Por volta da
uma e meia da madrugada, os ternos chegaram finalmente ao Sambódromo. Os donos
vestiram as roupas sem desconfiar de absolutamente nada. Também ajudava o fato
de que boa parte deles já estava calibrada por algumas generosas doses de
uísque, cerveja e sabe-se lá mais o quê.
No dia
seguinte, apenas Gera da Portela apareceu reclamando de um misterioso “caminho
de cobra” nas costas. Ninguém teve coragem de explicar que talvez aquilo fosse
o menor dos problemas enfrentados por aquele terno. Naquele ano, a Reino Unido
desfilou o enredo “Vem a Mais de Mil”. Curiosamente, era exatamente esse o
preço de cada frasco de perfume sacrificado por Maria naquela operação de
guerra química.
Apesar de tudo
– ou talvez por causa de tudo – a escola conquistou o bicampeonato do carnaval
amazonense. Ficou provado que santo ajuda. Mas, em certos carnavais, quem faz
milagre mesmo é uma mãe, um Fusca e oito vidros de Versace enfrentando um
caminhão de chorume.

Nenhum comentário:
Postar um comentário