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segunda-feira, setembro 21, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 81

 

Gero da Portela e Gilsinho Poeta

81. Fevereiro de 1990. A Reino Unido atravessava uma fase financeira tão complicada que, se aparecesse um ladrão para assaltar a escola, era capaz de sair de lá deixando uma contribuição. Mesmo assim, alguém teve a brilhante ideia de caprichar no figurino dos puxadores de samba para impressionar Gera da Portela, contratado para defender o samba-enredo na avenida. A missão caiu nas mãos da mãe do poeta Gilsinho Nogueira.

Ela aceitou confeccionar, de graça, seis ternos completos: blazer e calça de seda branca, camisa verde, tudo elegante, digno de um artista da Portela. Nem cobrou o tecido. Era puro amor à escola. Os seis privilegiados seriam Gera da Portela, os vocais Almeron, Roque, Erasmo e Renato, além do mestre de bateria Arnoldo. O restante da diretoria continuaria desfilando com o uniforme oficial das escolas falidas: camisa de meia fio 24 e calça de brim coreana comprada no Sukatão. A elegância tinha limite. O orçamento também.

A costureira terminou o serviço quase sete da noite, poucas horas antes do desfile. Gilsinho colocou os ternos em duas sacolas plásticas, pendurou-as num poste ao lado da tradicional mesa de dominó do Bar Kipapo's, administrado por um de seus irmãos, e deixou o recado:

– Se alguém for lá pro Morro, entrega essas sacolas pro Nicéias. Ele sabe o que fazer.

Missão dada, foi jantar na casa da mãe, que ficava ali atrás. Duas horas depois voltou. As sacolas tinham evaporado. Os jogadores de dominó continuavam imóveis, discutindo a eterna tese de que parceiro ruim estraga qualquer dupla. Os frequentadores do bar permaneciam igualmente fiéis às suas cervejas. Ninguém havia ido ao Morro. Então quem tinha levado as roupas?

Depois de muito interrogatório, um dos pinguços deu a única informação útil da noite:

– Só passou o caminhão do lixo...

Silêncio. Gilsinho empalideceu. As peças finalmente se encaixaram. Os garis tinham visto duas sacolas penduradas num poste em pleno sábado de carnaval e concluído, corretamente do ponto de vista deles, que aquilo só podia ser lixo. E fizeram exatamente aquilo que se espera de um caminhão de lixo. Levaram.

Começou então uma perseguição que faria inveja aos filmes policiais de Hollywood – com uma pequena diferença: em vez de Ferraris, os heróis estavam num Fusca. Gilsinho e seu irmão Gilberto saíram rasgando a Praça 14, o Centro e tudo quanto era rua atrás do caminhão coletor. Já passava da meia-noite quando avistaram o fugitivo na Sete de Setembro, em frente ao Palácio Rio Negro. Gilberto atravessou o Fusca na frente do caminhão. Desceu. Sacou um revólver calibre 38. E anunciou que a coleta seletiva seria interrompida naquele instante.

– Descarrega tudo!

O motorista percebeu que discutir com um sujeito armado no meio da madrugada não fazia parte do treinamento da prefeitura. Obedeceu. Em poucos minutos, uma montanha de lixo tomou conta da rua. O cheiro era tão violento que parecia capaz de enferrujar o nariz.

Enquanto isso, Gilsinho mergulhava naquele Everest de cascas de frutas, restos de peixe, papéis engordurados e sabe Deus mais o quê. Milagrosamente encontrou as duas sacolas. Estavam ensopadas de chorume, mas ainda não haviam passado pelo triturador. Era praticamente uma vitória da ciência.

Com as sacolas penduradas para fora da janela do Fusca – para preservar o pouco de dignidade respirável existente no veículo –, os irmãos voltaram correndo para a casa da mãe. Atrás deles ficou o motorista do caminhão, acompanhado pelos colegas, distribuindo um repertório de palavrões tão criativo que merecia um desfile próprio.

A mãe de Gilsinho recebeu as roupas como uma cirurgiã diante de um paciente em estado gravíssimo. Lavou tudo com sal grosso, detergente, amoníaco e, provavelmente, a ajuda de todos os santos do calendário. Depois secou peça por peça no ferro elétrico. As roupas ficaram limpas. O problema era convencer o nariz. O chorume continuava vencendo de goleada.

Foi quando entrou em cena Maria, irmã de Gilsinho. Ela olhou para sua pequena coleção de perfumes franceses Versace V/S Versus, adquiridos ao longo de anos de economia, respirou fundo, fez o sinal da cruz e tomou uma decisão que exigia coragem quase militar. Despejou perfume em todos os ternos. Um vidro. Dois. Três. Oito.

Naquele momento, travava-se uma batalha histórica. De um lado, a perfumaria italiana. Do outro, o chorume da Prefeitura de Manaus. Até hoje ninguém sabe quem venceu.

Por volta da uma e meia da madrugada, os ternos chegaram finalmente ao Sambódromo. Os donos vestiram as roupas sem desconfiar de absolutamente nada. Também ajudava o fato de que boa parte deles já estava calibrada por algumas generosas doses de uísque, cerveja e sabe-se lá mais o quê.

No dia seguinte, apenas Gera da Portela apareceu reclamando de um misterioso “caminho de cobra” nas costas. Ninguém teve coragem de explicar que talvez aquilo fosse o menor dos problemas enfrentados por aquele terno. Naquele ano, a Reino Unido desfilou o enredo “Vem a Mais de Mil”. Curiosamente, era exatamente esse o preço de cada frasco de perfume sacrificado por Maria naquela operação de guerra química.

Apesar de tudo – ou talvez por causa de tudo – a escola conquistou o bicampeonato do carnaval amazonense. Ficou provado que santo ajuda. Mas, em certos carnavais, quem faz milagre mesmo é uma mãe, um Fusca e oito vidros de Versace enfrentando um caminhão de chorume.

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