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terça-feira, setembro 22, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 87

 


87. Fevereiro de 1973. O comerciário Assis Bulcão resolveu promover uma “brincadeira” em sua casa, na Cohab-AM da Raiz, em pleno sábado gordo de carnaval.

Para quem não sabe, “brincadeira” era o nome das festinhas “mela-cueca” que rolavam nas residências à base de luz negra e música ambiente romântica. Até aí, tudo normal.

O problema foi a estratégia de recrutamento. Em vez de convidar a vizinhança inteira, Assis decidiu chamar um esquadrão de aproximadamente quinze comerciárias que, reunidas no mesmo ambiente, faziam qualquer concurso de Miss parecer reunião de condomínio.

O resultado foi imediato. Os marmanjos do bairro esqueceram completamente que existiam outras mulheres na face da Terra. As comerciárias não paravam sentadas um minuto. Dançavam uma música, emendavam outra e, quando voltavam à cadeira, já aparecia um novo candidato segurando a mão e perguntando: “Podemos dançar só mais essa?”

As moças da vizinhança assistiram ao espetáculo durante algum tempo. Depois concluíram que estavam participando de um baile na condição de figurantes. Uma saiu fazendo charme. Outra saiu fazendo cara feia. A terceira saiu prometendo nunca mais voltar.

Antes das dez da noite, a debandada feminina era tão grande que só restavam as quinze comerciárias e cerca de cinquenta sujeitos disputando cada uma delas como se fossem terrenos na Ponta Negra.

Foi quando surgiu Antídio Weil. Ou melhor: surgiu o Opala. O carro era zero-quilômetro e brilhava mais do que fantasia de destaque. Pneus tala larga, rodas de magnésio, bancos de couro de antílope, descarga Kadron e um toca-fitas Roadstar que fazia qualquer um acreditar que estava dirigindo um carro da Fórmula 1, embora o trânsito de Manaus insistisse em lembrar que não.

Na prática, Antídio deixou de ser um cidadão comum para virar acessório do automóvel. As meninas cercaram o Opala como arqueólogos diante da descoberta de Tutancâmon. Percebendo que São Longuinho finalmente resolvera trabalhar a seu favor, Antídio lançou a proposta:

– E se a gente fosse todo mundo pro Baile do Havaí, no Rio Negro?

Foi a pergunta mais desnecessária da história do carnaval. Em menos tempo do que leva um fiscal para pedir ingresso, as quinze comerciárias já estavam acomodadas no carro. “Acomodadas” talvez seja exagero. Algumas estavam sentadas. Outras, empilhadas. Havia moça no banco, no colo, no ombro e provavelmente uma ocupando espaço em outra dimensão.

Assis Bulcão viu sua monumental brincadeira terminar antes das onze da noite, vítima do maior êxodo feminino já registrado na Cohab-AM da Raiz. Dizem que até hoje ele desconfia de veículos de quatro portas.

No Atlético Rio Negro Clube, Antídio estacionou numa viela ao lado do clube, comprou mesas, ingressos, colares havaianos, bandanas coloridas, confete, escondeu o lança-perfume onde a fiscalização jamais imaginaria procurar e entrou aos gritos de:

– Aloha! Aloha!

Foi recebido como se tivesse desembarcado de um cruzeiro vindo do Taiti. Durante algumas horas, tornou-se o homem mais invejado de Manaus. Não apenas pela quantidade de belas companhias, mas pela impressionante capacidade logística de administrar um harém carnavalesco sem perder nenhuma integrante pelo caminho.

Quando o baile terminou e o sol já começava a cozinhar os foliões, Antídio saiu do clube mais feliz do que pinto na merda, abraçado com duas garotas, puxando em coro: “Bandeira branca, amor...”

Era um homem que acreditava sinceramente que Deus existia e gostava dele. Até virar a esquina. O lugar onde o Opala havia sido estacionado estava vazio. Tão vazio que parecia nunca ter existido um automóvel ali. Antídio olhou para um lado. Depois para o outro. Depois olhou para cima, talvez imaginando que o enredo do Baile do Havaí tivesse sido substituído por “A Ascensão do Opala ao Reino do Céu”. Nada. O carro tinha evaporado. Ele entrou em desespero.

– Puta que pariu! Cadê meu carro? Roubaram meu carro! Estou lascado!

Como todo brasileiro em estado de calamidade emocional, procurou imediatamente um culpado que não fosse o verdadeiro. Encontrou quinze.

Virou-se para as comerciárias e distribuiu impropérios numa velocidade que faria qualquer locutor de corrida de cavalos pedir arrego. Disse que a culpa era delas, chamou-as de tudo o que o Código Penal não proíbe e expulsou o próprio harém como quem dissolve um ministério.

As pobres fugiram em direção ao Terminal da Matriz sem entender como tinham passado da condição de musas havaianas para responsáveis pelo furto de um automóvel.

Antídio pegou um táxi e saiu convocando amigos para uma caçada ao Opala desaparecido. O carro foi encontrado apenas às cinco da tarde do domingo, abandonado perto do Igarapé do Japonês, na Colônia Japonesa.

Só que, nesse momento, o Opala já era praticamente um conceito filosófico. Tinham levado os quatro pneus com rodas de magnésio, os bancos de couro de antílope, a descarga Kadron, o toca-fitas Roadstar e tudo o que pudesse ser desaparafusado sem derrubar o volante. Restou apenas a lataria e a lição.

Até hoje não existe prova alguma sobre quem arquitetou tamanha desgraça. Mas confesso que sempre achei muito curiosa a coincidência. A “brincadeira” do Assis acabou por falta de mulher. O Opala do Antídio acabou por excesso de inveja.

E, conhecendo a capacidade de um anfitrião humilhado de planejar vinganças criativas, nunca consegui absolver completamente o Assis Bulcão dessa presepada.

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