86. Fevereiro de 1994. O GRES Balaku-Blaku
estava convencido de que aquele seria o ano da glória. Com o enredo “No Mundo
das Nuvens: Venha Voar Comigo”, prometia decolar rumo ao primeiro título do
Grupo Especial. E, como toda aeronave precisa de alguém para apertar os botões
errados, entrou em cena Manuel Português.
Gago de pedra,
chato de galochas e fiscal de tudo o que não era da sua conta, Manuel ganhou o
pomposo cargo de diretor de Fogos de Artifício. Não porque entendesse de
pólvora, mas porque a diretoria concluiu que era mais seguro deixá-lo brincando
com rojão do que dando palpite no samba-enredo, nas fantasias e na vida alheia.
Sua missão era
simples: transformar a entrada da Balaku-Blaku num espetáculo digno da queima
de fogos do Réveillon de Copacabana. Bastava esperar a escola entrar na avenida
e apertar o “play” da explosão.
Como a
Balaku-Blaku seria a quarta a desfilar, Manuel e sua equipe passaram o sábado
inteiro instalando morteiros, rojões e foguetes no Centro de Convenções.
Pareciam engenheiros da Nasa preparando o lançamento de um ônibus espacial.
Havia um croqui detalhado, sequência cronometrada e uma organização tão
meticulosa que dava até medo.
Quando a
terceira escola deixava a dispersão e a bateria da Balaku-Blaku começava o
esquenta, Manuel foi acometido por aquele tipo de pensamento que só aparece
para quem está prestes a fazer uma besteira histórica:
– E se essa
geringonça não funcionar?
Em vez de
confiar no destino, resolveu confiar em si mesmo – o que, como se sabe, costuma
dar muito mais prejuízo. Acendeu uma mecha “só para testar”. Funcionou.
Funcionou maravilhosamente bem.
Os morteiros
subiram, os rojões explodiram, os fogos coloridos desenharam o céu exatamente
na ordem prevista. Foi um espetáculo tão bonito que muita gente achou que o
Carnaval tinha começado mais cedo.
O único detalhe
era que... a Balaku-Blaku ainda estava estacionada na concentração.
Dez minutos
depois, quando o último foguete deu seu suspiro final e uma fumaceira digna da
Guerra do Golfo tomou conta do céu, Manuel percebeu que havia promovido o show
pirotécnico oficial... para absolutamente ninguém. Não havia mais um único
traque para comemorar a entrada da escola.
Resultado: a
Balaku-Blaku cruzou o portão da avenida ao som da bateria... e do mais absoluto
silêncio celestial. Nem um estalinho de festa junina.
O enredo era
sobre aviação. Quem decolou mesmo foi Manuel Português, e sem direito a voo de
volta: foi expulso da escola antes que o último foguete esfriasse.
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