37. Em 1970, o coronel Jorge Teixeira
chegou a Manaus para assumir o comando do Centro de Instruções de Guerra na
Selva (Cigs). Como combater cobras, onças e guerrilhas na floresta
evidentemente não ocupava todo o seu tempo livre, resolveu fundar também uma
escola de samba: a Unidos da Selva.
A agremiação
reunia militares das Forças Armadas e pagodeiros civis, uma combinação
improvável que talvez só pudesse nascer na Amazônia. Era o encontro entre a
disciplina dos quartéis e a filosofia do “deixa a vida me levar”, embora esta
última ainda não tivesse sido oficialmente inventada.
A Unidos da
Selva revolucionou o carnaval manauara. Introduziu carros alegóricos, tripés e
destaques luxuosos numa época em que boa parte das escolas ainda resolvia seus
problemas estruturais na base do arame, da boa vontade e das promessas a Santo
Antônio. Entre 1971 e 1976, conquistou cinco títulos. Só deixou escapar o
campeonato de 1975 para a Unidos de São Francisco, provavelmente porque até os
generais precisam descansar de vez em quando.
A escola
encerrou suas atividades em 1976 por um motivo curioso. Seu patrono, o coronel
Jorge Teixeira – conhecido por todos como Teixeirão, apelido que dispensava
apresentações – havia sido nomeado prefeito de Manaus. Como a Prefeitura
patrocinava o carnaval, os militares concluíram que continuar vencendo todos os
anos poderia parecer favorecimento.
É um dos raros
casos da história brasileira em que alguém olhou para uma situação
potencialmente suspeita e disse: “Melhor evitar comentários”. A prudência foi
tão grande que simplesmente fecharam a escola. Hoje isso seria considerado um
comportamento quase revolucionário.
Em 1975 surgiu
o GRES Vitória Régia, na Praça 14 de Janeiro, resgatando a tradição da lendária
Escola Mixta. A escola entrou na avenida como quem chega atrasado a uma festa
e, dois anos depois, já estava empilhando títulos. De 1977 a 1980, venceu
quatro carnavais seguidos e mostrou que a Praça 14 continuava produzindo
campeões com a mesma facilidade com que Manaus produz calor.
Em 1977, o
bloco Em Cima da Hora resolveu virar escola de samba. O nome era apropriado.
Como todo brasileiro respeitável, a agremiação parecia fazer tudo no último
minuto possível. Mesmo assim, estreou conquistando o vice-campeonato e deixando
para trás escolas tradicionais.
Dois anos
depois conquistou seu primeiro título, empatada com a Vitória Régia. Foi uma
solução diplomática muito elegante para evitar discussões intermináveis em
mesas de bar, embora tenha produzido discussões intermináveis em mesas de bar
do mesmo jeito.
Mas nada se
compara ao fenômeno chamado Mocidade Independente de Aparecida. Fundada em 1980
por dissidentes do GRES Em Cima da Hora, a escola transformou o carnaval
amazonense numa espécie de monarquia constitucional. Nas primeiras trinta
disputas, conquistou dezoito títulos, cinco vice-campeonatos e três terceiros
lugares. Em oitenta por cento das vezes terminou entre as três melhores.
Traduzindo para o português claro: durante três décadas, quem apostasse na
Mocidade tinha mais chances de acertar do que um meteorologista prevendo calor
em Manaus.
Para entender
como era o carnaval antes do Sambódromo, vale recorrer às memórias do
enciclopedista Carlos Zamith, pai do queridíssimo juiz Carlos Zamith Jr. e
responsável pelo belíssimo site “Baú Velho”:
Naqueles
tempos, a festa começava às quatro da tarde. Os carros conversíveis desciam e
subiam a Avenida Eduardo Ribeiro carregando belas jovens fantasiadas,
serpentinas, confetes e uma quantidade de elegância que hoje exigiria
patrocínio internacional.
As famílias
levavam cadeiras de casa para assistir ao desfile sob a sombra dos
benjaminzeiros. Era uma época em que as pessoas saíam de casa carregando móveis
para assistir ao carnaval e ninguém achava isso estranho. Os carros alegóricos
também tinham seus patrocinadores. A cervejaria Miranda Corrêa promovia a XPTO.
O J. G. Araújo distribuía saltos de borracha Coroa. A Fábrica Andrade lançava
garrafas de guaraná para o público. Hoje especialistas em segurança pública
provavelmente desmaiariam ao ouvir isso.
O Nacional
Futebol Clube, por sua vez, apresentava carros montados sobre caminhões
fumacentos que pareciam prestes a pedir aposentadoria por invalidez. Não tinham
luxo, mas compensavam com alegria. E alegria, convenhamos, sempre foi uma moeda
forte no carnaval.
Entre as atrações mais aguardadas estava o grupo Clube da Mocidade. Todo ano eles apareciam com um tema mantido em segredo absoluto, como se estivessem planejando uma operação militar. Na prática, os carros eram construídos na serraria de Jackson Cabral, lá em Educandos, com a assistência de uma turma saboreando a gostosa batida de taperebá, enquanto o desembargador Luís Cabral, pai da cantora Lucinha Cabral, preparava os brincantes, exclusivamente “coroas”, quase todos antigos desportistas do futebol, basquetebol, voleibol ou mesmo ex-dirigentes esportivos. A produção artística e a produção etílica avançavam rigorosamente no mesmo ritmo.
O grupo estreou
em 1953 com “Branca de Neve e os Sete Anões”. Os materiais vieram do Rio de
Janeiro. Já a batida de taperebá parecia vir diretamente do paraíso dos
foliões, porque desaparecia em questão de minutos. Ao longo dos anos vieram
temas inesquecíveis: Cangaceiros, Ciganos, Lavadeiras, Donas de Pensão,
Babuínos e o memorável “Só Deve Quem Compra”, uma sátira tão amazonense quanto
genial.
Mas nada
superou o tema “Maternidade”. Os participantes se fantasiaram de médicos e
enfermeiras. O carro alegórico trazia berços, fraldas e mamadeiras. Até aí tudo
normal. O detalhe é que as mamadeiras continham um líquido amarelo, espumoso e
extremamente apreciado pelos “bebês”, que esvaziavam o conteúdo em poucos
segundos.
O responsável
por reabastecer as mamadeiras era Mário Bacalhau, fiscal da Prefeitura e babá
oficial daquela creche etílica ambulante. Segundo os relatos, ele trabalhou
mais durante aquelas duas horas de desfile do que muitos servidores públicos
durante um semestre inteiro.
Em 1978, o
grupo realizou seu último desfile. Os integrantes, já bastante distantes da
juventude sugerida pelo nome Mocidade, decidiram encerrar a trajetória
repetindo o tema da estreia: “Branca de Neve e os Sete Anões”. Era uma
despedida emocionante. Alguns dos anões originais já estavam mais para
aposentados do INSS do que para personagens dos Irmãos Grimm, mas isso apenas
tornava tudo mais bonito.
Ao final, o
prefeito Jorge Teixeira entregou medalhas de ouro aos participantes,
homenageando os 25 anos de contribuição à alegria popular. Foi um
reconhecimento merecido. Afinal, poucas instituições fizeram tanto pelo
carnaval amazonense quanto um grupo de senhores que passava meses construindo
carros alegóricos numa serraria, alimentado por taperebá fermentado e por uma
convicção inabalável de que a vida fica muito melhor quando encarada com samba,
fantasia e uma boa dose de irresponsabilidade criativa.


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