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quarta-feira, agosto 26, 2026

Tecoteco do Balacobaco - Canto 37

 

Clube da Mocidade em 1978: Alfredo Tetenge, Almério Cabral dos Anjos,
Miguel Tetenge, Fabiano Babicho, Andréa Limongi, Mário Bacalhau 
e Flaviano Limongi

37. Em 1970, o coronel Jorge Teixeira chegou a Manaus para assumir o comando do Centro de Instruções de Guerra na Selva (Cigs). Como combater cobras, onças e guerrilhas na floresta evidentemente não ocupava todo o seu tempo livre, resolveu fundar também uma escola de samba: a Unidos da Selva.

A agremiação reunia militares das Forças Armadas e pagodeiros civis, uma combinação improvável que talvez só pudesse nascer na Amazônia. Era o encontro entre a disciplina dos quartéis e a filosofia do “deixa a vida me levar”, embora esta última ainda não tivesse sido oficialmente inventada.

A Unidos da Selva revolucionou o carnaval manauara. Introduziu carros alegóricos, tripés e destaques luxuosos numa época em que boa parte das escolas ainda resolvia seus problemas estruturais na base do arame, da boa vontade e das promessas a Santo Antônio. Entre 1971 e 1976, conquistou cinco títulos. Só deixou escapar o campeonato de 1975 para a Unidos de São Francisco, provavelmente porque até os generais precisam descansar de vez em quando.

A escola encerrou suas atividades em 1976 por um motivo curioso. Seu patrono, o coronel Jorge Teixeira – conhecido por todos como Teixeirão, apelido que dispensava apresentações – havia sido nomeado prefeito de Manaus. Como a Prefeitura patrocinava o carnaval, os militares concluíram que continuar vencendo todos os anos poderia parecer favorecimento.

É um dos raros casos da história brasileira em que alguém olhou para uma situação potencialmente suspeita e disse: “Melhor evitar comentários”. A prudência foi tão grande que simplesmente fecharam a escola. Hoje isso seria considerado um comportamento quase revolucionário.

Em 1975 surgiu o GRES Vitória Régia, na Praça 14 de Janeiro, resgatando a tradição da lendária Escola Mixta. A escola entrou na avenida como quem chega atrasado a uma festa e, dois anos depois, já estava empilhando títulos. De 1977 a 1980, venceu quatro carnavais seguidos e mostrou que a Praça 14 continuava produzindo campeões com a mesma facilidade com que Manaus produz calor.

Em 1977, o bloco Em Cima da Hora resolveu virar escola de samba. O nome era apropriado. Como todo brasileiro respeitável, a agremiação parecia fazer tudo no último minuto possível. Mesmo assim, estreou conquistando o vice-campeonato e deixando para trás escolas tradicionais.

Dois anos depois conquistou seu primeiro título, empatada com a Vitória Régia. Foi uma solução diplomática muito elegante para evitar discussões intermináveis em mesas de bar, embora tenha produzido discussões intermináveis em mesas de bar do mesmo jeito.

Mas nada se compara ao fenômeno chamado Mocidade Independente de Aparecida. Fundada em 1980 por dissidentes do GRES Em Cima da Hora, a escola transformou o carnaval amazonense numa espécie de monarquia constitucional. Nas primeiras trinta disputas, conquistou dezoito títulos, cinco vice-campeonatos e três terceiros lugares. Em oitenta por cento das vezes terminou entre as três melhores. Traduzindo para o português claro: durante três décadas, quem apostasse na Mocidade tinha mais chances de acertar do que um meteorologista prevendo calor em Manaus.

Para entender como era o carnaval antes do Sambódromo, vale recorrer às memórias do enciclopedista Carlos Zamith, pai do queridíssimo juiz Carlos Zamith Jr. e responsável pelo belíssimo site “Baú Velho”:

Naqueles tempos, a festa começava às quatro da tarde. Os carros conversíveis desciam e subiam a Avenida Eduardo Ribeiro carregando belas jovens fantasiadas, serpentinas, confetes e uma quantidade de elegância que hoje exigiria patrocínio internacional.

As famílias levavam cadeiras de casa para assistir ao desfile sob a sombra dos benjaminzeiros. Era uma época em que as pessoas saíam de casa carregando móveis para assistir ao carnaval e ninguém achava isso estranho. Os carros alegóricos também tinham seus patrocinadores. A cervejaria Miranda Corrêa promovia a XPTO. O J. G. Araújo distribuía saltos de borracha Coroa. A Fábrica Andrade lançava garrafas de guaraná para o público. Hoje especialistas em segurança pública provavelmente desmaiariam ao ouvir isso.

O Nacional Futebol Clube, por sua vez, apresentava carros montados sobre caminhões fumacentos que pareciam prestes a pedir aposentadoria por invalidez. Não tinham luxo, mas compensavam com alegria. E alegria, convenhamos, sempre foi uma moeda forte no carnaval.

Luiz Bertucéa, Alfredo Tetenge, José Maria Bichara, Flaviano Limongi,
Nelson Cachimbinho, Almério Cabral dos Anjos, José Barros, Pedro 
Bichara, Theomário Pinto, Flávio Augusto, Andréa Limongi e Miguel Tetenge


Entre as atrações mais aguardadas estava o grupo Clube da Mocidade. Todo ano eles apareciam com um tema mantido em segredo absoluto, como se estivessem planejando uma operação militar. Na prática, os carros eram construídos na serraria de Jackson Cabral, lá em Educandos, com a assistência de uma turma saboreando a gostosa batida de taperebá, enquanto o desembargador Luís Cabral, pai da cantora Lucinha Cabral, preparava os brincantes, exclusivamente “coroas”, quase todos antigos desportistas do futebol, basquetebol, voleibol ou mesmo ex-dirigentes esportivos. A produção artística e a produção etílica avançavam rigorosamente no mesmo ritmo.

O grupo estreou em 1953 com “Branca de Neve e os Sete Anões”. Os materiais vieram do Rio de Janeiro. Já a batida de taperebá parecia vir diretamente do paraíso dos foliões, porque desaparecia em questão de minutos. Ao longo dos anos vieram temas inesquecíveis: Cangaceiros, Ciganos, Lavadeiras, Donas de Pensão, Babuínos e o memorável “Só Deve Quem Compra”, uma sátira tão amazonense quanto genial.

Mas nada superou o tema “Maternidade”. Os participantes se fantasiaram de médicos e enfermeiras. O carro alegórico trazia berços, fraldas e mamadeiras. Até aí tudo normal. O detalhe é que as mamadeiras continham um líquido amarelo, espumoso e extremamente apreciado pelos “bebês”, que esvaziavam o conteúdo em poucos segundos.

O responsável por reabastecer as mamadeiras era Mário Bacalhau, fiscal da Prefeitura e babá oficial daquela creche etílica ambulante. Segundo os relatos, ele trabalhou mais durante aquelas duas horas de desfile do que muitos servidores públicos durante um semestre inteiro.

Em 1978, o grupo realizou seu último desfile. Os integrantes, já bastante distantes da juventude sugerida pelo nome Mocidade, decidiram encerrar a trajetória repetindo o tema da estreia: “Branca de Neve e os Sete Anões”. Era uma despedida emocionante. Alguns dos anões originais já estavam mais para aposentados do INSS do que para personagens dos Irmãos Grimm, mas isso apenas tornava tudo mais bonito.

Ao final, o prefeito Jorge Teixeira entregou medalhas de ouro aos participantes, homenageando os 25 anos de contribuição à alegria popular. Foi um reconhecimento merecido. Afinal, poucas instituições fizeram tanto pelo carnaval amazonense quanto um grupo de senhores que passava meses construindo carros alegóricos numa serraria, alimentado por taperebá fermentado e por uma convicção inabalável de que a vida fica muito melhor quando encarada com samba, fantasia e uma boa dose de irresponsabilidade criativa.

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