terça-feira, julho 12, 2016

Bumbás Brilhante, Garanhão e Corre Campo e o empoderamento das Tribos Indígenas no Auto do Boi Bumbá


Em 1962, no VI Festival Folclórico do Amazonas, o jornalista Bianor Garcia, responsável pela organização do festival, trouxe o bumbá Garantido, de Parintins, para se apresentar pela primeira vez em Manaus, como atração extra do “Festão do Povo”.

Havia uma explicação plausível para a iniciativa. Como a maioria dos ritmistas dos bumbás manauaras participava das baterias de escolas de sambas e batucadas da época (Escola Mixta da Praça 14, GRES Unidos da Raiz, Batucada dos Barés, GRES Unidos de São Francisco, Batucada Imperial, GRES Unidos de São Jorge, etc), as toadas de bois estavam ganhando o andamento acelerado dos sambas de enredo das escolas.

Mostrando em Manaus o autêntico folguedo do boizinho de Mestre Lindolfo Monteverde, que mantinha o espírito da brincadeira dentro do formato original, Bianor Garcia acreditava que os bumbás manauaras iriam se espelhar naquele exemplo e reverter o processo de descaracterização do auto do boi. Deu certo.

Em 1973, depois de passar os dois anos anteriores trabalhando como artesão de escolas de samba no Rio de Janeiro, o artista plástico Jair Mendes retornou a Parintins e resolveu turbinar as apresentações do bumbá Garantido com aquilo que havia aprendido no carnaval carioca. 

Ele começou a introduzir alegorias gigantescas em torno de lendas regionais, como da iara, cobra-grande, boto, lagarta-de-fogo, etc.  A população da ilha gostou da novidade.


Alguns anos depois, quando foi contratado pelo bumbá Caprichoso, Jair Mendes fez o mesmo upgrade no touro negro. 

Pouco a pouco, os bumbás de Parintins passaram a se distanciar do primitivo auto do boi e encaminhar suas apresentações para a mitologia amazônica, com sua ênfase nas apresentações das tribos indígenas e rituais de pajé, criando um espetáculo absolutamente inovador. 

Os bois de Manaus, entretanto, continuaram fiéis à brincadeira original.

O bumbá Brilhante foi fundado no dia 7 de março de 1982, no Beco Tarumã, nº 49, na Praça 14 de Janeiro, por Wilson Costa dos Santos, o “Coca”, e Lúcio Flávio, o “Pilonga”. A agremiação foi legalizada perante as autoridades competentes e inscrita na Associação de Grupos Folclóricos do Amazonas no dia 23 de março do mesmo ano.

O nome “Brilhante” foi decidido por sorteio, realizado pela Dona Vitória Garcia, esposa do Coca, que também escolheu as cores azul e branco para a agremiação. Marido e mulher já tinham uma longa folha corrida de serviços prestados ao folclore manauara.

Os pais de Coca, Edmilson e Josefa, haviam sido fundadores da Tribo dos Manaús. Aos 12 anos, Coca começou a brincar de vaqueiro no bumbá Caprichoso, da Praça 14. Dona Vitória foi uma das primeiras mulheres a fazer parte da Barreira de Índios do bumbá Corre Campo, da Cachoeirinha.


O primeiro curral do bumbá Brilhante foi armado ao lado da Igreja Nossa Senhora de Fátima, na Praça 14, no local onde hoje funciona a quadra do GRES Vitória Régia e a partir daí começaram os preparativos para a apresentação do boi no Festival Folclórico do Amazonas. O boi de pano foi confeccionado com a colaboração de toda a comunidade.  

Em virtude da ação de vândalos, que se aproveitavam da escuridão reinante para derrubar o curral durante a madrugada, Coca transferiu a brincadeira, naquele mesmo ano, para o bairro de Petrópolis, onde permaneceu até 1989. Neste ano, o boi voltou para a Praça 14, com seu novo curral armado na Av. Japurá, nº 1.882, tendo permanecido no local até 1993.

No ano seguinte, o bumbá Brilhante mudou seu curral para a Rua Garcia, nº 49, no bairro de São José, onde está até hoje.

Entre os brincantes pioneiros do bumbá Brilhante estavam Horácio (Amo), Olarino, Carlito, Ulisses, Papi, Emanuel e Mimica (vaqueiros), Bodó, Pano e Junior (Rapaz do Amo), Má, Jésu e Hélio (Barreira de Índios), Quelé (Padre), Messias (Doutor da Vida), Ação (Pai Francisco), Sabá (Mãe Catirina), Carlos (Mãe Maria), Nego 14 (miolo), Mosca. Cacique e Jaime (batucada). 

Em 2006, o boi passou de touro branco malhado para touro totalmente marrom, na tentativa de se diferenciar do boi do rival Corre Campo, que é branco. Segundo os dirigentes do boi, a mudança foi muito bem aceita pela comunidade.


O bumbá Garanhão foi fundado no dia 16 de junho de 1991, na Rua São Vicente de Paula, nº 99, em Educandos, por um motivo absolutamente prosaico: a ausência de grupos folclóricos no bairro.

Berço do bumbá Veludinho, fundado em 1946 pelo senhor Leônidas Almeida, das escolas de samba Uirapuru e Em Cima da Hora, das danças regionais Caninha Verde, Maracatu e Amazonense e das quadrilhas cômicas Rizadrilha na Roça e Vitor e Vitória, todos desaparecidos ou arribados do bairro, Educandos resolveu fazer um acerto de contas com suas raízes a partir da determinação de brincantes e ex-diretores dos grupos já citados: Isaac Freitas, Wanderlan Marques, Edna Moraes, Arnoldo Maia, Ivo Morais e Adalberto Seixas.

Em um primeiro momento, o projeto tinha como objetivo criar um grupo folclórico que pudesse ao mesmo tempo, envolver a juventude e toda a comunidade da Cidade Alta (como é carinhosamente chamado o bairro de Educandos), despertando nos moradores seu antigo amor pelo folclore. Para ajudar nessa tarefa foram convidados os senhores José Maria Guedes de Souza, Paulo Fernandes, José Luiz Pena das Neves e Antonio Ricardo Moraes.

Reunidos na residência da senhora Raimunda Freitas, após discussões de várias propostas, entre elas a de se criar uma dança nordestina (formulada por Arnoldo Maia), decidiu-se pela proposta de Paulo Fernandes de se criar um boi-bumbá no estilo dos bois de Parintins, dando mais destaque às tribos indígenas, alegorias e rituais do que ao auto do boi tradicional.

As cores verde e branca foram escolhidas por votação, após sugestão do próprio Paulo Fernandes, para se diferenciar das do bumbá Corre Campo (vermelha e branca) e do bumbá Brilhante (azul e branca). Isaac Freitas havia sugerido as cores preta e amarela.

O nome Garanhão foi proposto por Ivo Morais para homenagear, eufonicamente, o bumbá Garantido, sendo que  a cor preta do boi era uma homenagem ao bumbá Caprichoso. O nome “Associação Cultural Folclórica Educandense Boi Bumbá Garanhão” foi escolhido para formalizar a existência oficial do bumbá.

Ainda em 1991, Wilson Alves da Costa, Mário Alberto de Carvalho, Sidney Borba Menezes, Alcimar Pinto Nascimento, José Aroldo Maia, Luiz Paixão Rodrigues e Raimundo Nonato Negrão Torres se juntaram ao grupo inicial passando a fazer parte do seleto grupo de sócios fundadores.


Após a criação do bumbá, Paulo Fernandes e José Maria viajaram para Parintins, onde coletaram farto material sobre as apresentações dos bumbás Garantido e Caprichoso, no Bumbódromo local, que serviu de base para a estruturação da brincadeira em Manaus. O primeiro boi foi confeccionado pelo artista plástico parintinense Jair Mendes.

Em 1992, o bumbá Garanhão fez sua estreia no Festival Folclórico do Amazonas, apresentando-se como categoria extra no Centro Social Urbano do Parque 10, onde conseguiu nota máxima de todos os jurados e foi convidado para uma apresentação especial no Centro de Convenções, tendo repetido o mesmo sucesso.

No ano seguinte, conseguiu levar milhares de moradores de Educandos e de diversos bairros da Zona Sul de Manaus para o Centro de Convenções, onde mais uma vez conseguiu a nota máxima.

Nos anos seguintes, o bumbá Garanhão continuou arrebatando as plateias e os jurados, acabando por forçar que seus dois adversários diretos na disputa pelo título de campeão do festival, Corre Campo e Brilhante, também adotassem a dinâmica cênica dos bois de Parintins.

Em 1996, o bumbá Garanhão alcançou o maior número de pontos entre todos os 75 grupos folclóricos que disputaram o Festival Folclórico da LIGFM (Liga Independente dos Grupos Folclóricos de Manaus) e com isso levou para Educandos o troféu “Destaque do Festival – Wandi Guaromiro”, sendo o primeiro grupo folclórico a ter sob sua guarda esse troféu.

O cobiçado troféu é colocado em disputa todos os anos e só vai ficar em posse definitiva do grupo que conseguir alcançar o maior número de pontos em três anos consecutivos ou em cinco anos alternados.

O Garanhão conseguiu o troféu nos anos de 1996, 1998 e 2000, quando desfiliou-se da LIGFM, da qual foi um dos fundadores, para fundar, junto com os bumbás Corre Campo e Brilhante, a Associação Movimento Bumbás de Manaus (AMB).

Atualmente, somente esses três bumbás disputam o título do festival na principal categoria da competição, a “Bumbá Master”, que é quase uma réplica do festival de bois de Parintins.


No Festival de 2012, por exemplo, o bumbá Garanhão mostrou o tema “Sou Bravo, Sou Forte, Sou Filho do Norte”, explorando o universo cultural e folclórico dos cabocos da Amazônia. 

Entre seus destaques estavam Rivaldo Pereira (apresentador), Anderson Figueiredo (levantador de toadas), Alexandre Azevedo (tripa do boi), John Carlos (amo do boi), Fabiano Alencar (pajé), Nicole Santos (cunhan poranga), Alana Muniz (porta-estandarte), Izabel Cerdeira (rainha do folclore) e Francielem Costa (sinhazinha da fazenda).

O boi realizou o ritual “Cataclisma Karajá” e contou com a participação de oitos tribos: Deni, Marubo, Katukina, Apurinã, Manaó, Assurini, Yanomamy e Tapajó. 

O presidente do boi era Ivo Morais e na Comissão de Arte estavam Ozimar Lima, Nonato Torres, Ciro Cabral, Wallace Almeida, Iraneide e Zé de Cima.


No mesmo ano, o bumbá Corre Campo mostrou o tema “70 anos de Tradição e Glória”, falando sobre sua trajetória como boi de rua desde o ano de fundação até os dias atuais. 

Entre seus destaques estavam Carlinhos do Boi (apresentador), Jairo Santos (levantador de toadas), Robson Junior (amo do boi), Layana Pampolha (sinhazinha da fazenda), Marjory Menezes (rainha do folclore), Cristiane Amarante (cunhan poranga), Mayra Dias (porta-estandarte), Paulinho Corre Campo (tripa do boi) e Almir Nascimento (pajé).

O boi realizou o ritual dos “Homens Morcegos da Nação Apinayé” e contou com a participação de seis tribos coreografadas: Sateré-Mawé, Kayapó, Parintintin, Kanamari, Apinayé e Manaó. 

O presidente do boi era Rogério Monteiro Rocha e na Comissão de Arte estavam Wilson Assayag (“Rapidola”), Maurison Nogueira, Junior Cardoso, Sinvla Barbosa, Leonardo Rodrigues e Nilson Batista (“Baratinha”).


O bumbá Brilhante, por sua vez, defendeu o tema “Amazônia Mística”, mostrando os costumes, manifestações religiosas, misticismo e magia existentes no imaginário dos povos da floresta. 

Entre seus destaques estavam Fabiano Neves (apresentador), Jefferson Aires (levantador de toadas), Prince do Boi (amo do boi), Adriano Sá (tripa do boi), Lorena Sá (sinhazinha da fazenda), Raíssa Assis (porta estandarte), Shirlei Nobre (rainha do folclore), Isabelle de Pádua (cunhan poranga) e Rogerio Santos (pajé).

O boi realizou o ritual dos “Homens Morcegos da Nação Xavante” e contou com a participação de quatro tribos: Tupinambá, Amazonas, Karajá e Xavante. 

O presidente do boi era Vilson Santos Costa e na Comissão de Arte estavam Ednelza Sahdo, Lizandra Sá, Jussara, Luizinho Andrade, Nilson Matos, Clemilson, Diego, Misael Costa, Ayrton Farias e Doca Ramos.

Apesar dessa “traição” dos bumbás maiorais (segundo os folcloristas mais radicais e tradicionalistas porque eles se renderam sem lutar e resolveram fazer um pastiche do espetáculo parintinense), a brincadeira do boi de rua ainda não morreu.

No Festival Folclórico do Amazonas, os demais bumbás existentes na cidade (Bumbá do Norte, Tira Prosa, Garantido de Manaus, Mina de Ouro, Amado, Tinideira, Filhos do Sol, Touro Negro, Amazonas, Brilha Noite, Carinhoso, Tarumã e Galante), bem como os garrotes (Estrelinha, Tira Fama, Marronzinho, Filho do Campo, Malhado, Tinideirinha, Renascer, Esplendor, Majestoso e Corre Fama), disputam o título em duas categorias: “Bumbá/Garrote Regional”, cujo auto é muito semelhante ao dos bois de Parintins, e “Bumbá/Garrote Tradicional”, onde procuram manter a brincadeira dentro de seu formato original.



São esses últimos (entre os quais o mais conhecido é o bumbá Tira Prosa) que continuam andando pelas ruas em procissão e se apresentando aonde forem chamados, com as mesmas fantasias, adereços e toadas dos velhos tempos.

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