sexta-feira, julho 22, 2016

O 1º Festival Folclórico do Amazonas (1957)


Boi-bumbá Corre Campo, o primeiro campeão do Festival

No dia 2 de junho, domingo, em uma reunião na redação dos Diários Associados que contou com a presença de Philipe Daou, secretário-geral de O Jornal e Diário da Tarde, Irisaldo Godot, secretário de O Jornal, Bianor Garcia, secretário do Diário da Tarde, coronel Márcio de Menezes, comandante do 27º BC, e de Stênio Neves, Chefe de Polícia, os dirigentes dos grupos folclóricos tomaram conhecimento do regulamento do concurso e das penalidades passíveis a quem desobedecesse às regras de disciplina e segurança.

“Espero de vossas senhorias tão somente que a harmonia e o congraçamento preponderem com absoluta normalidade, evitando-se que a rivalidade seja desviada para fins menos gloriosos”, avisou o coronel Márcio de Menezes, em um recado direto aos bois-bumbás.

A comissão julgadora do concurso, presidida pelo folclorista e professor Mário Ypiranga Monteiro, incluía o sociólogo e desembargador André Araújo, o professor Sebastião Norões e a professora Bete Antunes de Oliveira.

Ficou decidido que no primeiro dia do concurso, dia 21, sexta-feira, se apresentariam os sete bumbás, a quadrilha da Escola Técnica de Manaus, o Cordão de Pássaro Gavião Real e a Dança Regional do Colégio Estadual do Amazonas.

Cada conjunto teria 15 minutos para fazer sua exibição. Os grupos seriam chamados para o tablado por meio dos dez alto falantes espalhados pelo estádio. As apresentações deveriam começar impreterivelmente às 19 horas. A tolerância para o atraso seria de 5 minutos. Quem ultrapassasse esse tempo estaria automaticamente desclassificado.

Por meio de sorteio, as apresentações das quadrilhas no dia 22, sábado, obedeceriam a seguinte ordem: Caboclinhos na Soçaite, Maria Bonita, Última Hora, Normalistas, Ypiranguenses, Coronel Janjão, Mocidade, Caboclos do Andirobal, Curupiras e Forró do Virgulino.

No domingo, 23, a ordem era a seguinte: Real Madrid, Caipiras, Primo do Cangaceiro, Los Caipiras Andaluzes, Rouxinol e Matutos do PTB.


O hoje cada vez mais raro Gavião Real, considerado a maior ave de rapina do Brasil

A notícia de que o cordão de pássaros de Petrópolis iria se apresentar com um gavião real de verdade virou o grande assunto da cidade. Segundo o dono da brincadeira, Raimundo da Silva Vale, o “Velho Raimundo”, ex-vaqueiro do bumbá Mina de Ouro, ele antes organizava o Cordão do Pássaro Tucano, “mas ele era artificial, simbólico, feito de pano, meio fuleiro”.

O gavião real de verdade havia sido encontrado, ainda filhote, nas matas do rio Purus e dado de presente ao Velho Raimundo por um de seus compadres. Criado como uma ave doméstica, o gavião real começou a ser treinado artisticamente pelo dono da brincadeira.

“O gavião real vai fazer miséria no campo dos militares. O bicho canta, dança, abre as asas e suas gesticulações são perfeitas, harmoniosas, disciplinadas. Atualmente, ele já entende os compassos do ensaio, mas de vez em quando dá umas bicadas da moléstia”, divertia-se o Velho Raimundo.

Como o “bosque” do gavião real estava localizado em uma área de difícil acesso, a brincadeira era exibida apenas para os poucos moradores do bairro de Petrópolis, na época um dos mais distantes de Manaus.

Segundo o Velho Raimundo, o Cordão de Pássaro Gavião Real iria contar a história de um caçador que tenta a todo custo matar a ave, mas que é impedido pela fada, dona Judith Oliveira Vale, esposa do próprio Raimundo.

Os outros personagens do auto eram Cleonice (princesa), Rosalvo (príncipe), Dukita (camponesa), Clarice (vassala), Mimita (cigana), Maria das Dores (feiticeira), Zuleide (tuxaua braba), Maria (tuxaua mansa), Madalena, Francinete, Mariana, Raimunda e Zuleika (índias), Chico (mestre), Jorge (contramestre), João (guarda-bosques), Rogério (soldado), Aluisio (pajé), José (matuto), João Paulo (Dr. Bochecha), Joaquim (palhaço Tampinha), Cristovão (tesoureiro), Biriba (morcego), José Oliveira (carrasco), Magnólia (enfermeira), Raimundo (caçador), Maria das Graças, Maria de Fátima e Francisca (borboletas).

Patrocinado pelo prefeito Gilberto Mestrinho, o cordão fez seu ensaio geral no dia 16 de junho, domingo, com início às 17 horas, na Praça da Polícia Militar, atraindo milhares de pessoas interessadas em ver, pela primeira vez, um gavião real de verdade, ao vivo e a cores.

Entre as quadrilhas mais bem organizadas, algumas despontavam como favoritas:

Forró do Virgulino, de Jurandir de Souza Amorim, que ensaiava na Rua Santa Luzia, na Matinha.

Matutos do PTB, de Maria do Carmo Ribeiro, que ensaiava na sede do PTB de São Francisco.

Quadrilheiros de Última Hora, de Wilson Santos, que ensaiava na Rua Ajuricaba, na Cachoeirinha.

Quadrilha da Mocidade, de Francisco Oliveira Pires, que ensaiava na Av. Airão, na Praça 14, e tinha entre seus membros ilustres representantes da comunidade carnavalesca maranhense radicada em Manaus como Sabá, Maria, Dedé, Georgete, Amazonina, Bobó, Maria Zulma, Cleomar, Nescafé, Vandeta, Adamor e Tereza, entre outros.

Quadrilha Primo do Cangaceiro, de Gentil Bessa, que ensaiava na sede do PTB da Cachoeirinha.

Quadrilha do Coronel Janjão, de Umberto Normando, que ensaiava na Rua Dr. Machado, 817, Centro.

Quadrilha Los Caipiras Andaluzes, do capitão do Exército Sandoval Pinheiro de Amorim, que ensaiava na Rua Recife, 659, Adrianópolis.

E, finalmente, a Quadrilha Ypiranguense, de Carlos Queiroz Costa, que ensaiava na sede social do Ypiranga Futebol Clube, na Cachoeirinha.


O boi-bumbá Mina de Ouro, do famoso mantra “Êi, ferro, êi, aço, eu te procuro e não acho”, que aterrorizava os adversários

Em junho de 1989, em uma série de artigos publicados diariamente no jornal Diário do Amazonas sob o sugestivo título de “Os Anos Dourados do Festão do Povo”, o jornalista Bianor Garcia relembrou aquele dia memorável:

O 1º Festival Folclórico do Amazonas, inaugurado no dia 21 de junho de 1957, no Estádio General Osório, teve a participação de 25 grupos, sendo sete bois, um pássaro, uma dança regional e 1.500 figurantes. Começou com 1.500 pessoas, mas no último que fiz, seis anos depois, em 1963, reuni mais de 10 mil figurantes, em 100 grupos, obrigatoriamente com o mínimo de 100 pessoas cada um.

Os bois foram Rica Prenda (Praça 14), Mineirinho (Santa Luzia), Ás de Ouro (Matinha), Corre Campo (Cachoeirinha), Flor do Campo (Aleixo), Canarinho (Morro da Liberdade) e Mina de Ouro (Boulevard). Diziam que eu não reuniria mais de quatro ou cinco bumbás, pois era só o que aparentemente tinha em Manaus de manifestações folclóricas. Reuni 25 grupos. Até um gavião vivo apareceu, no pássaro Gavião Real. O presidente de Portugal, Craveiro Lopes, nessa noite, ao sair do estádio, foi acariciar o pássaro e levou uma bicada na mão. A única Dança Regional, do Colégio Estadual, teve a ajuda do professor Mário Ipiranga Monteiro.

O festival abriu às sete da noite, mas desde as três da tarde o estádio já estava completamente lotado. Às 19h30 caiu uma chuva torrencial, danificando parte da decoração do estádio e da fantasia dos brincantes que ali já se encontravam. Passada a chuva, tive um trabalho enorme para reagrupar todos para iniciar o desfile. É que durante o aguaceiro, a maioria foi entrando casa adentro da vizinhança para se defender. Já fui encontrar o Mineirinho em cima da cama de uma família, na Av. Epaminondas, com o resto do grupo espalhado da sala à cozinha. O dono da casa, que não me conhecia, ao me ver entrar, chegou pra mim e disse: ‘Eu só queria conhecer esse filho da puta do Bianor Garcia pra mostrar a ele o que estão fazendo dentro da minha casa, com essa porcaria de folclore’. Eu saí de fininho.

Mas foi, modéstia à parte, uma das noites mais lindas de Manaus. O povo não estava ali só para conhecer o presidente de Portugal, mas porque era a primeira vez que se fazia uma promoção junina daquele porte. A partir daí, o festival cresceu ano a ano. Até o Rio de Janeiro queria conhece-lo. Mas isso é outra história para ser contada mais adiante.


No dia 22 de junho, sábado, o matutino O Jornal saiu com a manchete “Sucesso absoluto na festa popular em homenagem a Craveiro”:

Apesar da chuva torrencial que, inesperadamente, desabou sobre a cidade, por volta das 20 horas, prolongando-se por mais de uma hora, obteve êxito completo a festa popular que os nossos Diários – O Jornal e Diário da Tarde – realizaram, ontem, no Estádio General Osório, com a prestimosa colaboração do 27º BC e da Prefeitura Municipal de Manaus, em homenagem ao ilustre presidente de Portugal, general Francisco Higino Craveiro Lopes.

E a nossa vitória foi tanto maior porque, na manifestação de seu irrestrito apoio à nossa inciativa e ao desejo de aplaudir o primeiro magistrado da nação lusa, o nosso povo, uma incalculável multidão de homens, mulheres e crianças de todas as nossas classes sociais, resistiu ao aguaceiro, não se arredou do Estádio General Osório e assim a festa alcançou o sucesso retumbante que tanto esperávamos.

O presidente Craveiro Lopes e sua brilhante comitiva, acompanhados pelo governador Plinio Coelho e sua Exmª esposa, pelo nosso mundo oficial e pelos senadores da República que nos visitaram, ficaram contentes e satisfeitos com as inúmeras apresentações dos bois-bumbás, da quadrilha da Escola Técnica de Manaus, pelo conjunto regional do Colégio Estadual do Amazonas, pelo Gavião Real e, por igual, profundamente comovidos com a espetacular homenagem que lhes prestou nossa população. O êxito obtido pela iniciativa compensou nossos esforços. Sentimo-nos bem recompensados, assim como o 27º BC e a Prefeitura de Manaus.

Neste rápido registro, já que no Diário da Tarde, edição de hoje, voltaremos ao assunto nos detalhes, apresentamos nossos agradecimentos à Construtora Lippi, na pessoa de seu dirigente maior, engenheiro Mauro Lippi, aos dirigentes da Companhia de Eletricidade de Manaus, às Serrarias Hore, Furtado, Morais, Pereira, Amazonas (de Jackson Cabral) e Vila Rica, à firma J. G. Araújo & Cia. Ltda, ao mestre Branco e Silva e à Fogueteria Iracema, pela valiosa contribuição que nos deram e em função do que foi possível conseguir a vitória maravilhosa da noite de ontem.


A amazonense Terezinha Morango, a nossa eterna Miss Brasil

É ainda o jornalista Bianor Garcia que recorda as emoções daquele ano, em artigo publicado na série já citada anteriormente:

O ano de nascimento do Festival Folclórico foi recheado de acontecimentos agradáveis para o povo amazonense. Ainda se festejava o jorro do petróleo em Nova Olinda, que trouxe ao Amazonas o presidente Juscelino Kubistchek, quando Terezinha Morango, aluna do Colégio Estadual, foi eleita Miss Brasil. Naquela época, conquistar o título de Miss Brasil era a suprema realização de qualquer Estado. O comércio fechava, o povo corria para as ruas, havia festa dia e noite. No segundo dia do festival, 22 de junho, a população amanheceu sob a expectativa do concurso Miss Brasil, que iria se realizar à noite, no Hotel Quintandinha, no Rio de Janeiro, no mesmo instante das exibições folclóricas no General Osório.

Como não havia televisão e pouca gente tinha rádio potente, capaz de acompanhar o certame, o jeito era aguardar a sirene de O Jornal, ou do Jornal do Comércio ou de A Crítica, caso Terezinha Morango, Miss Amazonas, ganhasse o título nacional. Tudo que acontecia de inusitado e pudesse representar “furo” de reportagem merecia um toque de sirene. No incêndio da Lobrás (na época chamava-se Lojas 4.400) e da Biblioteca Pública foi assim. Onde quer que se estivesse e se ouvisse o toque da sirene na Eduardo Ribeiro, corria-se para lá, em busca de novidade.

Era mais ou menos meia-noite. Eu acabava de chegar do estádio General Osório, onde tinha apresentado a segunda noite do festival. Irizaldo Godot, secretário de O Jornal, me aguardava para fazer as legendas das fotos que iriam sair no dia seguinte. De repente, chega a notícia: Terezinha Morango venceu o Miss Brasil. Alguém da empresa saiu do gabinete: “Macaco (Macaco era o apelido de um dos impressores), toca a sirene”.

Em 15 minutos a Eduardo Ribeiro estava cheia de gente, festejando o acontecimento. Ninguém acreditava que Terezinha pudesse ganhar, apesar de ser uma linda morenaça de olhos verdes, filha de português com índio. Afinal, naquele tempo, o Amazonas era muito marcado como terra de índio, de cobras e de jacarés. O governador Plinio Coelho deixou o Palácio Rio Negro e foi para o meio da rua festejar com o povo. Alunos do Colégio Estadual, companheiros de Terezinha, acompanhados de batucadas e músicos, fizeram um carnaval que só terminou às cinco da manhã.

No dia seguinte, 23 de junho, O Jornal estampou a grande vitória de Terezinha com uma fotografia de 30 centímetros de altura por duas colunas. Teve que rodar a impressora duas vezes pela manhã para atender à procura. Vendeu mais jornais que o Jornal do Comércio, que era vizinho de O Jornal, no dia em que o antigo matutino dos Diários Associados – cadeia nacional de Assis Chateaubriand – publicou um anúncio de rodapé, com um erro de revisão. Em vez de “colchões de mola” saiu “colhões de mola”. A notícia que publicamos sobre Terezinha Morango foi a seguinte:

RIO – 23 – URGENTE – (Da Sucursal) – Teve lugar à noite de ontem, no Hotel Quintandinha, um suntuoso desfile que se prolongou até às primeiras horas da madrugada de hoje: o julgamento final do concurso para a escolha da Miss Brasil 1957. O certame sensacional prendeu a atenção de todo o Brasil e culminou com a escolha da senhorita Terezinha Morango, representante do Amazonas.

Após o desfile das candidatas em trajes de soirée e de maiô foram escolhidas as finalistas, a saber: Miss Minas Gerais, Miss Amazonas, Miss Ceará, Miss Paraná e Miss Rio Grande do Sul. Logo após, o locutor oficial do concurso anunciou que o título de Miss Brasil estava entre Miss Minas Gerais e Miss Amazonas.

Foi realizado então o julgamento final ao qual concorreram as finalistas, anunciando a Comissão Julgadora a escolha da senhorita Terezinha Morango Miss Brasil de 1957, seguindo-se as representantes de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Ceará e Paraná. O grande ‘furo’ foi dado por nossos diários através de nossas sirenes a uma hora da madrugada. Amanhã, na 1ª edição do Diário da Tarde, maiores detalhes e farto material fotográfico.


Terezinha Morango ficou em 2º lugar no Miss Universo, “porque possuía as coxas muito grossas”, segundo os gringos bundões da Comissão Julgadora de Long Beach... Interessa?...

No 1º Concurso Junino, a Comissão Julgadora chegou aos seguintes resultados:

Bumbás: Corre Campo (1º lugar), Rica Prenda (2º lugar) e Mina de Ouro (3º lugar).

Quadrilhas: Coronel Janjão (1º lugar), Caboclos do Andirobal (2º lugar) e Primo do Cangaceiro (3º lugar).

A Dança Regional do CEA e o Cordão de Pássaro Gavião Real foram declarados campeões em suas categorias porque não tiveram adversários.

Calcula-se que 30 mil pessoas (20% da população de Manaus daquela época) tenham passado pelo Estádio General Osório durante as três noites de competição.

Mal comparando, é como se hoje, na semana do festival, 50 mil pessoas fossem prestigiar todas as noites, de domingo a domingo, a apresentação dos nossos grupos folclóricos na arena do Centro Cultural dos Povos da Amazônia.

Em termos de popularidade, a pajelança havia começado com o pé direito.

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