sexta-feira, julho 29, 2016

O 10º Festival Folclórico do Amazonas (1966)


Interessado em fazer da décima edição do festival um evento sem precedentes, o jornalista Luiz Verçosa tomou para si a tarefa de convidar pessoalmente todos os grupos folclóricos que já haviam se exibido no tablado do Estádio General Osório.

A tarefa não foi bem sucedida porque muitos grupos simplesmente haviam deixado de existir e muitos outros alegaram que não valia a pena investir na brincadeira para receber um simples troféu pelo esforço dispendido. A premiação em dinheiro, aparentemente, era a grande motivação de muitas agremiações.

Para “forçar” os recalcitrantes a participarem da festa, o matutino O Jornal começou a fazer essas cobranças indiretamente, como pode ser visto na matéria intitulada “45 grupos típicos têm encontro marcado no tablado do X Festival Folclórico”, publicada no dia 1º de junho:

Iniciamos, hoje, o mês do X Festival Folclórico do Amazonas, realização que a Empresa Archer Pinto, em combinação com o Governo do Estado, realiza anualmente para alegria do povo amazonense. A concretização da realização do “Festão”, como foi denominado o X Festival, foi a maior alegria do ano de 1966 para todos os habitantes de Manaus. Retardando um pouco, na sua apresentação habitual, o festival desse ano deixou uma grande expectativa em todos. Havia mesmo os que diziam que não mais se realizaria o Festival. Porém, graças à colaboração do governador Arthur Reis, o X Festival Folclórico do Amazonas aí está e é uma realidade. Todo o povo amazonense espera, agora, a atenção dos dirigentes dos grupos folclóricos, principalmente daqueles que há nove anos vêm participando da maior e mais linda festa típica do Brasil.

AUXILIOS – Deverá sair dentro de mais alguns dias os auxílios para os grupos folclóricos inscritos no X Festival. Assim, todos aqueles que já estão devidamente inscritos para a maior e mais linda festa típica do Brasil vão ter o auxílio prometido pelo governador Arthur Reis, após o dia 4 de junho, quando as inscrições serão encerradas.

SEC DEVE COLABORAR – Há muitos anos, ou seja, nas primeiras fases do nosso festival folclórico, os colégios, inclusive grupos escolares, vinham para o festival trazendo conjuntos folclóricos bem ensaiados, que se transformaram em alegria do povo. Entretanto, nos últimos três anos, foi completo o abandono, uma vez que a Secretaria de Educação não proporcionou aquele incentivo, que sempre é necessário nessas ocasiões. Vamos aguardar que nesse décimo festival, a SEC dê o seu apoio ao Governo do Estado, que é um dos realizadores da grande festa típica que todo o Brasil aplaude.

DATAS ESCOLHIDAS – Com seu início marcado para o dia 19, este ano teremos onze dias de competições, reunindo 45 grupos das mais variadas categorias. O desfile de encerramento deverá ocorrer na tarde do dia 29 de junho, dia de São Pedro, tradição em todos os festivais.


No dia seguinte, 2 de junho, o matutino O Jornal voltaria ao mesmo assunto, com a matéria intitulada “Faltam 3 dias para o encerramento das inscrições para o X Festival”:

O X Festival Folclórico do Amazonas começa a preparar-se para receber as mais altas autoridades do país. Na tarde de ontem, confirmaram suas presenças na maior e mais linda festa típica do país, os senhores Pedro Aleixo e Adauto Lúcio Cardoso, respectivamente Ministro da Educação e Presidente da Câmara Federal. Por outro lado, deverá ser feito convite ao sr. Aldo Moura de Andrade, presidente do Senado Federal, esperando que ambos compareçam à festa de abertura do X Festival Folclórico do Amazonas.

Como se vê, todo o Brasil, representado pelas suas mais altas autoridades, estará presente à sua maior e mais linda festa típica, numa prova eloquente de que realmente o Amazonas, no mês de junho, com o Festival Folclórico, transforma-se na capital do país. Além destes, outros nomes estão na lista de convidados, entre os quais se conta o sr. Ministro da Guerra, General Costa e Silva, que é também candidato à Presidência da República, governadores de outros Estados, embaixadores, etc. Todos aqueles, enfim, que se sentem atraídos pelo maior espetáculo folclórico do Brasil, terão convites para estarem em Manaus, a partir do dia 19 de junho, quando será realizada a abertura do “Festão”.

GOVERNADOR PRESTIGIA A FESTA DO POVO – O governador Arthur Reis é um dos maiores entusiastas do X Festival Folclórico do Amazonas, festival esse em que terá a oportunidade de despedir-se de todo o povo amazonense, uma vez que para o ano não estará mais no Governo do Estado. O governador Arthur Reis é o grande incentivador que, temos certeza, estará diariamente aplaudindo os conjuntos que subirem ao gigantesco tablado do X Festival para as competições que vão escolher os melhores de 1966.

RELAÇÃO DA COMISSÂO – Já estão escolhidos, devendo apenas serem convidados, os membros da Comissão Julgadora, que serão em número de onze. A relação desses membros deverá ser publicada no próximo sábado, dia 4 de junho, quando serão encerradas definitivamente as inscrições.

FINAL DAS INSCRIÇÕES – No próximo sábado, às 18 horas, serão encerradas, definitivamente, as inscrições para os grupos folclóricos que desejarem participar do X Festival Folclórico do Amazonas. Até o presente momento, 45 grupos já solicitaram inscrição e estão habilitados a receberem os auxílios a serem dados pelo governador Arthur Reis dentro dos próximos dias.

LOCAL DE ENSAIOS – Os dirigentes de grupos devem trazer á nossa redação, no horário das 17 às 18 horas, o nome do local e o dia de seus ensaios, para que possamos visita-los e, ao mesmo tempo, dar publicidade de seus treinamentos, que muito interessam aos brincantes e aos aficionados dos conjuntos folclóricos.

CUXIMIARIBAS – A Tribo dos Cuximiraibas deverá, este ano, ser uma das atrações do X Festival Folclórico do Amazonas, contando com grande número de brincantes, fantasias luxuosas e originais, dando um colorido bonito e alegre a quantos admiram e aplaudem aquele grupo folclórico.

CORRE CAMPO – Mais uma vez estamos apelando para que o bumbá Corre Campo venha para o Festival Folclórico do Amazonas, neste que será o “Festão”. Os grandes grupos não devem estar ausentes, principalmente os campeões. Todo o bairro da Cachoeirinha espera pela presença do bumbá Corre Campo. Vamos trazer o bumbá. O povo espera.

AVISO URGENTE – Devem comparecer com urgência à nossa redação para tratar de assuntos de seu interesse, os dirigentes dos seguintes grupos folclóricos: Pássaros Bem-te-vi e Japiim, Tribos Iurupixunas e Manaú, Bumbás Pai do Campo e Corre Campo, Garrote Teimosinho e Danças Regionais Tipiti, Caninha Verde, Imperiais, Ciranda, Jacundá, Macaco Sauim e Camaleão.


Apesar dos reiterados apelos publicados nos dois jornais da Empresa Archer Pinto, muitos grupos folclóricos preferiram brincar apenas nas suas comunidades em vez de se apresentar no festival.

Com muito esforço, o jornalista Luiz Verçosa conseguiu a inscrição de 41 grupos, que foram distribuídos em oito chaves, tal como no ano anterior.

Bumbás: Caprichoso, Tira Prosa e Tira Teima.

Garrotes: Campineiro, Luz de Guerra, Pena de Ouro, Dominante, Pingo de Ouro, Brinquedinho, Canarinho, Malhado, Veludinho, Dois de Ouro e Treme Terra.

Pássaros: Corrupião e Japiim.

Tribos: Andirás, Iurupixunas e Caximiraiba.

Danças regionais: Gafanhoto, Peixe Vivo e Cacetinho (Tarianos).

Danças Nordestinas: Primo do Cangaceiro, Mineiro Pau e Cabras do Lampião.

Quadrilhas adultas: Flor Selvagem, Soçaite no Interior, Matutos do Arraial, Glorianos no Roçado, Araruama na Roça, Quadrilha Escocesa, Caipiras da Ipixuna e Quadrilha Sertaneja.

Quadrilhas infantis: Gaveanos no Roçado, Caboclinhos do Amazonas, Arsenalenses na Roça, Caboclinhos de Brasília, Filhos do Lampião, Caipirinhas da Ipixuna, Cantigas de Roda da Tia Júlia e Brotinhos do Eldorado.

Entre as novidades daquele ano, a Dança Nordestina Mineiro Pau, a Dança do Gafanhoto (uma versão “inseticida” dos Cordões de Pássaros) e a Dança Regional Peixe Vivo.

Originária da cidade de Diamantina (MG), a Dança do Peixe Vivo representa uma pescaria na lagoa. Os cavalheiros iniciam a dança, munidos de vara de pescar, seguindo-se as damas, pescando com rapixé (uma rede com cabo usada na captura de cardumes).

Depois de fazerem os gestos correspondentes, guardam o material e dançam aos pares, sem se enlaçarem, com movimentos rítmicos e passos que se relacionam com os versos de uma conhecida música de domínio popular: “Como pode o peixe vivo / viver fora d’água fria / como poderei viver? / como poderei viver? / sem a tua, sem a tua, / sem a tua companhia / os pastores dessa aldeia / já me fazem zombaria / por me verem andar sozinho / por me verem andar sozinho / sem a tua, sem a tua / sem a tua companhia”.

O secretário de Educação e Cultura, André Araújo, e o secretário de Imprensa, José Cidade de Oliveira, foram encarregados pelo governador Arthur Reis de concederem o auxílio financeiro para os grupos folclóricos mediante a emissão de cheque ao portador a ser resgatado no Banco do Estado do Amazonas.

O escalonamento dos valores obedecia à seguinte tabela: Bumbá, Cr$ 400 mil (cerca de R$ 10 mil, em valores de hoje). Garrotes, Cr$ 300 mil. Pássaros, Tribos, Danças e Quadrilhas adultas, Cr$ 250 mil. Quadrilhas infantis e outros grupos, Cr$ 200 mil.


A ordem de apresentação do X Festival, com 41 grupos inscritos e cerca de 4 mil figurantes, ficou assim definida:

Dia 19 (domingo) – Desfile de todos os conjuntos, a partir das 15 horas, da Praça São Sebastião ao General Osório, como parte da abertura oficial do festival. Abertura do festival pelo prefeito Paulo Nery. Saudação do governador Arthur Reis. Apresentação da Comissão Julgadora. Subida ao tablado dos grupos campeões do ano passado.

Dia 20 (segunda) – À noite. Garrote Pingo de Ouro, Quadrilha Brotinhos do Eldorado, Garrote Pena de Ouro e Quadrilha Sertaneja.

Dia 21 (terça) – À noite.  Quadrilha Escocesa, Garrote Campineiro, Quadrilha Caipiras da Ipixunas e Tribo dos Cuxumiraibas.

Dia 22 (quarta) – À noite. Quadrilha Matutos do Arraial, Dança Regional Gafanhoto, Quadrilha Glorianos no Roçado e Garrote Veludinho.

Dia 23 (quinta) – À noite. Garrote Canarinho, Dança Nordestina Primo do Cangaceiro, Dança Regional Cacetinho (Tarianos) e Bumbá Tira Teima.

Dia 24 (sexta) – À noite. Dança Nordestina Mineiro Pau, Garrote Brinquedinho, Quadrilha Soçaite no Interior e Garrote Luz de Guerra.

Dia 25 (sábado) – À tarde. Quadrilha Mirim Filhos de Lampião, Quadrilha Mirim Gaveanos no Roçado, Quadrilha Mirim Caboclinhos do Amazonas e Quadrilha Mirim Caipirinhas da Ipixuna. À noite. Quadrilha Araruama na Roça, Pássaro Corrupião, Dança Nordestina Cabras do Lampião e Bumbá Tira Prosa.

Dia 26 (domingo) – À tarde. Festa dedicada aos meninos do Educandário Gustavao Capanema, Quadrilha Mirim Arsenalienses na Roça, Quadrilha Mirim Caboclinhos de Brasília e Escola de Acordeão Santa Terezinha. À noite. Quadrila Infantil Cantigas de Roda da Tia Júlia, Garrote Malhado, Tribo dos Iurupixunas e Bumbá Caprichoso.

Dia 27 (segunda) – À noite. Quadrilha Flor Selvagem, Garrote Dois de Ouro, Dança Regional Peixe Vivo e Garrote Dominante.

Dia 28 (terça) – À noite. Pássaro Japiim, Garrote Treme Terra e Tribo dos Andirás.

Dia 29 (quarta) – À noite. Desfile de encerramento com todos os grupos típicos e entrega dos troféus aos melhores do festival.

A Comissão Julgadora ficou assim constituída: desembargador Mário Verçosa (presidente), desembargador João Rebelo Corrêa, professor Garcitilzo do Lago e Silva, Gebes de Melo Medeiros (teatrólogo), Antonieta Coelho (professora), capitão Juarez (representante do GEF), Herculano de Castro e Costa (jornalista) e Guanabara Araújo (teatrólogo).

Seriam levados em conta os seguintes critérios de julgamento: autenticidade folclórica (rigorosa observância dos enredos, passos e cânticos às suas raízes folclóricas), guarda roupa (levar em conta se a confecção dos vestuários e cores utilizadas estava de acordo com a tradição da brincadeira), coreografia (avaliar a movimentação dos personagens dentro do enredo), música e canto (observar a motivação, originalidade e coesão das letras e melodias dos cânticos).


Os campeões e vice-campeões daquele ano foram os seguintes:

Bumbás: Caprichoso e Tira Prosa.

Garrotes: Luz de Guerra e Malhado.

Tribos: Andirás e Iurupixunas.

Pássaros: Corrupião e Japiim.

Dança Nordestina: Primo do Cangaceiro e Cabras do Lampião.

Outros Grupos: Maneiro Pau e Peixe Vivo.

Dança Regional: Cacetinho (Tarianos) e Gafanhoto.

Quadrilha Adulta: Soçaite no Interior e Flor Selvagem.

Quadrilha Mirim: Caboclinhos de Brasília e Filhos de Lampião.

Prêmio Especial: Danças e Cantigas da Tia Júlia.

Campeã das Campeãs: Tribo dos Andirás, que levou para o tablado mais de 300 brincantes.

Rainha do Festival: Esther Pinheiro (Tribo dos Andirás)

Rainha de Beleza: Maria Denise Lopes (Tribo dos Iurupixunas)

Rainha Mirim: Nazareth Ramos (Caipirinhas da Ipixuna)

A Comissão Julgadora, por iniciativa própria, também resolveu instituir naquele ano o “Prêmio Sepetiba”. Em sua justificativa para a criação da comenda, registrou o seguinte:

Cipriano Vieira foi o mais discutido amo de boi do passado. Ganhou fama e suas toadas até hoje são lembradas. Era o “Sepetiba”, paraense radicado no Amazonas, morando lá no Seringal Mirim, bairro do Boulevard Amazonas, onde o Mina de Ouro tinha curral armado. Nas grandes lutas de rua, na parte dos desafios, “Sepetiba” era infernal. Este ano, no decurso do X Festival, quis a Comissão Julgadora prestar homenagem ao grande brincante, desaparecido em 1962, aos 55 anos de idade, a maior parte deles dedicado ao bumbá. Por conta disso, foi instituído o “Prêmio Sepetiba”, que anualmente será concedido ao “mais animado brincante de boi” que comparecer ao Festival Folclórico. Este ano, o prêmio coube ao brincante Carlito, o Pai Francisco do garrote Veludinho.

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