quinta-feira, julho 28, 2016

O 8º Festival Folclórico do Amazonas (1964)


O jornalista Bianor Garcia havia ficado irritado com o pífio número de grupos inscritos no ano anterior e tinha na ponta da língua o responsável por aquele estado de coisas: a famigerada Comissão Amazonense de Folclore (CAF).

Na reunião preparatória do evento, que acontecia no começo de janeiro, o jornalista abriu o jogo. Sim, ele aceitaria de bom grado organizar de novo o festival, mas desde que fosse com as regras de antes: ele próprio indicaria os grupos participantes, haveria disputas entre os grupos por categoria e os vencedores ganhariam uma premiação em dinheiro.

Depois de acaloradas discussões na redação do jornal, Bianor Garcia venceu a parada. Ele teria carta branca para agir e uma boa retaguarda para defendê-lo de possíveis retaliações da CAF.

Empolgado, o jornalista garantiu que iria escalar para a festa, no mínimo, 120 grupos folclóricos, num total de mais de 15 mil brincantes, na “maior passeata folclórica da história do Brasil” e se comprometeu a começar a procurar os dirigentes dos grupos folclóricos depois do carnaval.

As inscrições seriam abertas na segunda quinzena de abril e se encerrariam na primeira quinzena de junho.

Infelizmente, ele não teve tempo de poder exibir as cartas que trazia na manga.


Na madrugada do dia 31 de março de 1964, um golpe militar foi deflagrado contra o governo legalmente constituído do presidente João Goulart (PTB). A falta de reação do governo e dos grupos que lhe davam apoio foi notável. Não se conseguiu articular os militares legalistas. Também fracassou uma greve geral proposta pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) em apoio ao governo.

Em busca de segurança, João Goulart viajou no dia 1º de abril do Rio, para Brasília, e em seguida para Porto Alegre, onde Leonel Brizola tentava organizar a resistência com apoio de oficiais legalistas, a exemplo do que ocorrera em 1961. Apesar da insistência de Brizola, Jango desistiu de um confronto militar com os golpistas e seguiu para o exílio no Uruguai, de onde só retornaria ao Brasil para ser sepultado, em 1976.

Antes mesmo de Jango deixar o país, o presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, já havia declarado vaga a presidência da República. O presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, assumiu interinamente a presidência, conforme previsto na Constituição de 1946, tal como já ocorrera em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros. O poder real, no entanto, encontrava-se em mãos militares.

No dia 2 de abril, foi organizado o autodenominado “Comando Supremo da Revolução”, composto por três membros: o brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo (Aeronáutica), o vice-almirante Augusto Rademaker (Marinha) e o general Artur da Costa e Silva, representante do Exército e homem-forte do triunvirato. Essa junta permaneceria no poder por duas semanas.

Nos primeiros dias após o golpe, uma violenta repressão atingiu os setores politicamente mais mobilizados à esquerda no espectro político brasileiro, como, por exemplo, o CGT, a União Nacional dos Estudantes (UNE), as Ligas Camponesas e grupos católicos como a Juventude Universitária Católica (JUC) e a Ação Popular (AP).

Milhares de pessoas foram presas de modo irregular, e a ocorrência de casos de tortura foi comum, especialmente no Nordeste.


O líder comunista Gregório Bezerra, por exemplo, foi amarrado na traseira de um jipe militar e arrastado pelas ruas de Recife, como se fosse um boi a caminho do matadouro.

A junta baixou um “Ato Institucional” – uma invenção do governo militar que não estava prevista na Constituição de 1946 nem possuía fundamentação jurídica. Seu objetivo era justificar os atos de exceção que se seguiram. Ao longo do mês de abril de 1964 foram abertos centenas de Inquéritos Policiais-Militares (IPMs).

Chefiados em sua maioria por coronéis, esses inquéritos tinham o objetivo de apurar atividades consideradas subversivas. Milhares de pessoas foram atingidas em seus direitos: parlamentares tiveram seus mandatos cassados, cidadãos tiveram seus direitos políticos suspensos e funcionários públicos civis e militares foram demitidos ou aposentados.

Entre os cassados, encontravam-se personagens que ocuparam posições de destaque na vida política nacional, como João Goulart, Jânio Quadros, Miguel Arraes, Leonel Brizola e Luís Carlos Prestes.

Dos políticos amazonenses, o então deputado federal Gilberto Mestrinho (PST-RR) foi o primeiro a ser cassado. Ele sustentava ser vítima de revanchismo pessoal do general Muniz de Aragão, ex-comandante da Guarnição Federal de Manaus (GFM).

Na eleição de 1962, quando apoiava a candidatura de Plínio Coelho, Mestrinho teve uma altercação com o general no meio da rua, por causa de um comício da oposição, e prometeu que ele seria afastado da região.

Dito e feito: a pedido de Mestrinho, o presidente João Goulart mandou prender e remover o general. O general de fato foi transferido, mas nunca foi preso. De Manaus, ele foi exercer a função de chefe de Estado-Maior do 4º Exército, comandado pelo general Castelo Branco.

A vingança, segundo Mestrinho, viria após o golpe. O general Aragão teria incluído o nome dele, à caneta, na primeira lista dos 100 cassados.


Cunhado de Gilberto Mestrinho, o advogado, jornalista e deputado estadual Arlindo Porto (PTB), ex-presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas, nem precisou esperar pela fúria dos militares: ele foi cassado pelos seus próprios pares – em um caso inédito e vergonhoso nos anais políticos da história do Brasil – e ficou detido por 128 dias em um quartel do Exército, em Manaus.

O jornalista Bianor Garcia não era político, mas era muito próximo de Gilberto Mestrinho e lidava com milhares de pessoas no período do festival. E se, de repente, os militares encasquetassem que ele era um potencial subversivo?

O jornalista preferiu se afastar da ribalta e entregar a organização do festival para um triunvirato formado pelos jornalistas Luiz Verçosa, Philiphe Daou e Milton Cordeiro.

A nova Comissão Organizadora resolveu seguir as linhas mestras traçadas por Bianor Garcia, ou seja, não dar a menor pelota para as recomendações da kafkiana CAF.

Sem saber ainda que Bianor Garcia havia se afastado da organização do festival, Mário Ypiranga Monteiro resolveu ir à forra, com o único objetivo de satanizar o ex-coordenador do festival.


No dia 23 de maio, sábado, no editorial “Paleio no Copiar” do Jornal de Folclore nº 40, ele lançava uma série de indiretas e diatribes contra uma suposta inautenticidade dos grupos folclóricos da cidade e não poupava das críticas sequer o saudoso Bruno de Menezes, falecido no ano anterior:

Aproxima-se o mês de junho, mês das maiores tradições populares no Amazonas. Podemos assegurar que essas tradições populares surgem ao ensejo do descobrimento dos rios das Amazonas para a Europa. Com quatro séculos e um quarto de conhecimento, as levas de conquistadores implantaram os seus usos e costumes na região, mas não conseguiram eliminar completamente as tradições nativas, que se firmaram de um lado pela excedência populacional e influência vertical da língua e dos costumes. Podemos contar com quatro séculos de efetiva movimentação do nosso folclore, principalmente nativo, folclore este que recebeu a suplementação europeia e mais tarde a mestiça, de outras regiões do Brasil.

Esse folclore se desenvolveu até poucos anos sem intromissão de leigos, sem a participação direta e indevida de pessoas não autorizadas culturalmente para dirigi-lo e orientá-lo. Isto significa em termos mais claros que o nosso folclore foi autêntico e espontâneo até quando não submetido a duras experiências de interessados e interesseiros, passando vertiginosamente a constituir mistificações quando manipulado frontalmente pelos que, não possuindo nem cultura nem experiência, se atiram numa aventura cujo fim não é difícil de prever.

Salva-se desse descalabro uma meia dúzia de grupos que, por serem tradicionais, ainda guardam certa harmonia, uma linha de tradição, que se vai aos poucos deixando corromper. Há muitos desgostosos, muitos atribulados, mesmo elementos que reagem dignamente contra injustiças, contra coações, contra privilégios. Em matéria de folclore o que se deseja é plenitude, autenticidade, espontaneidade. Esse ano, por exemplo, muitos grupos folclóricos deixarão de circular por causas várias que serão analisadas mais tarde. E vão aparecer grupos que absolutamente possuem tradição no Amazonas, nem sequer mesmo poderão apresentar-se à altura de corresponder à verdade. Não vamos ajuizar muito a fundo o problema. Deixaremos para quando terminar a estação junina.

O que se nota realmente é um fracasso coletivo na tradição. Já sabemos que bois, tribos, etc, deixarão de aparecer por falta de estímulo e de ajuda financeira condigna. Muitos outros grupos não aparecerão por falta de quem os oriente e ensine. A Comissão Amazonense de Folclore tem sido procurada constantemente para resolver esse problema, mas, desde que, situada numa posição de observação, eximiu-se de qualquer responsabilidade. Não dá mesmo nenhuma contribuição, pois a sua linha de conduta, honesta e científica, não lhe permite mais envolver-se em problemas atuais que estão criando problemas futuros. Sendo assim, o que se vai ver este ano em matéria de folclore autêntico, reduz-se apenas a bumbás, tribos e pássaros. O resto é pura mistificação. E note-se que até os genuínos grupos folclóricos de Manaus já estão se distanciando do autêntico, perdendo gradativamente a beleza radical.

Em compensação, aumentou desproporcionalmente o número de “quadrilhas”, que de quadrilhas só portam mesmo o nome. Nenhuma delas garante autenticidade. E não culpamos aos ensaiadores. Não. Culpamos, sim, àqueles que, ignorando o que seja folclore, se intitulam orientadores. Há poucos dias, ao ensejo da apresentação, parece, dos discos Colúmbia, um radialista estava aconselhando os interessados em festas juninas a adquirirem o disco de uma daquelas quadrilhas marcadas pelo cômico Zé Trindade! Isto é fazer folclore! Deveria haver pelo menos um certo policiamento, uma autocrítica, uma cautela ao abordar o assunto. Exemplo de como certa gente entende de folclore foi a “lição” que um pseudofolclorista morto o ano passado, deu a respeito do boi-bumbá. Perguntado o porquê da denominação “bumbá”, respondeu ele com segurança: que era porque o boi caía: “bumba!”

Estamos repetindo sempre que o folclore é uma ciência, e que uma ciência não pode servir de pretexto para projeções de nomes, a não ser quando esses homens são de fato honestos cultores dela. Improvisar-se folclorista é cursar a borda de um precipício. O tal que o faz seria incapaz de resistir a cinco minutos de debates, acabaria desmoralizado, confundido. Esse é o caminho que conduz o mistificador a projeções lábeis.


No mesmo boletim, no artigo intitulado “Cordão de Índios”, as bordoadas de Mário Ypiranga Monteiro eram dirigidas aos alunos da Escola Técnica de Manaus:

Em 1953, exibiu-se em Manaus o Cordão dos Índios Aimorés, proveniente da cidade de Tefé, dirigido pelos cidadãos Ambrósio e Fares Saddo. A cidade de Tefé nos tem proporcionado muito folclore e portadores dele, radicados aqui desenvolveram suas atividades não encontrando grande receptividade. Desse antigo Cordão dos Aimorés originou-se o atual Tarianos, que foi ensaiado pelo Ambrósio e pelo Saddo no Beco do Macedo. Agora é ensaiado pela rapaziada da Escola Técnica. Ano passado fui obrigado a dirigir uma crítica a esse cordão, que deixou a tradição para um lado e meteu um lundu muito mal apresentado. Vamos ver se esse ano os Tarianos circulam com o programa completo. Naquele tempo, os Aimorés possuíam mais autenticidade e maior brilhantismo, estando em decadência quando passou a ser ensaiado por outros elementos. A tradição deve ser mantida. Nisso é que está a beleza intrínseca do folclore.

Nesse grupo dança-se o cacetinho, item que verdadeiramente não é nosso, não é dos índios legítimos, mas apenas uma assimilação. A parte do cacete é europeia, dançando-se em Portugal pelos conhecidos “pauliteiteiros”. Dança-se também em outras regiões da América do Sul. O que também não é nosso são as partes conhecidas como “paima” e “laços”, de origem europeia. Também a versão dos Tarianos, letra da cantiga, é daqui mesmo de Manaus, pois o original é diferente. Isto aparentemente não tem muita importância, pois um motivo folclórico pode ter várias versões. A parte chamada “tipiti”, que já se tornou fabulosamente conhecida, e é dançada pelo mesmo grupo, foi também anexada ao mesmo e é dançada por quase todos os povos do mundo, europeus, asiáticos e americanos. Era dançada pelos índios do México e conhecida como “dança do sol”. A primeira vez que a vi dançar foi na povoação de Carvoeiro, há mais de trinta anos, antes, portanto, de aparecerem os grupos Aimorés e Tarianos.

Entre nós não é respeitada a tradição como se vê, por exemplo, no Rio Grande do Sul, onde é conhecida por “pau de fitas”, como na Europa, ou “palo de tranzas”, nas regiões de fala espanhola. Tipiti é, todavia, uma denominação que soa bem e está concorde com a técnica de trançar fitas semelhante ao famoso tipiti. Depois que o Colégio Estadual do Amazonas divulgou mais acertadamente a dança com os passos originais, menos dois que são mais difíceis, o Tipiti alcançou grande popularidade entre os manauenses.

Os grupos folclóricos possuídos de tradição é que deveriam marcar presença nos Festivais, para serem vistos, e não as marmeladas que com o título de folclore são apresentadas, como, por exemplo, as quadrilhas sem pé nem cabeça e as danças suspeitas com títulos arrivistas. Estamos muito longe de manter fielmente uma nota técnica. A prova está nesse grupo que escolhemos para referir hoje. Se houvesse uma direção capaz, a primeira coisa a usar-se era a cabeça, no sentido de provocar uma reconstituição honesta dos grupos desaparecidos de Manaus.

No caso dos Aimorés, com o seu programa perfeito, a sua exibição ritualística. Naquele tempo, que eu me lembre, os índios se ataviavam modesta, mas originalmente, não usando plumas de espanadores, mas penas reais de aves. Praticavam como se estivessem em plena sociedade local, usando de uma exigente disciplina, de recursos que lhe davam mais valor do que qualquer outro grupo. Igual a esses só conheci a Tribo dos Manauaras, que deixou de circular por motivos que conhecemos. Assim vão desaparecendo os mais perfeitos e mais belos motivos folclóricos da cidade, só resistindo aqueles que por motivos vários se apegam à tradição. Mas nem esses resistirão. O que falta para garantir-se a presença dos genuínos grupos folclóricos? Que respondam os que se tornaram responsáveis diretos pelo desgosto de uns, desarmonia de outros, etc.


No dia 5 de junho, sexta feira, o matutino O Jornal publicou uma matéria intitulada “Povo prestigia com vibração e entusiasmo a festa do Amazonas”:

Em todos os bairros e em muitas artérias do centro da cidade, há ensaios, grupos cantam e dançam, preparando-se para o desfile de abertura e para as suas exibições durante o fabuloso VIII Festival Folclórico do amazonas, soberba realização de O Jornal e Diário da Tarde. O monumental certame será inaugurado, com todas as pompas do estilo, no dia 14, reunindo cerca de 8 mil brincantes, vestidos tipicamente e distribuídos em 52 diferente grupos folclóricos, desfilarão sob os vivas e calorosos aplausos do nosso povo que, em massa, como nos anos anteriores acorrerá ao Estádio General Osório, prestigiando, fortemente, a sua maior festa inteiramente a céu aberto.

Só Deus sabe o que tem sido a sua efetivação. Exatamente, por isso, como certame que resulta do esforço e do sacrifício que resulta do esforço dos que desejam a alegria da população, o VIII Festival será muito maior e mais vibrante, que os dos anos anteriores. Com certeza a coletividade manauara o prestigiará com todas as forças do seu entusiasmo.

O VIII Festival tem o apoio do Governo do Estado, da Prefeitura de Manaus, da Companhia de Eletricidade de Manaus (CEM), do industrial João Furtado, da Serraria Rodolfo, do Grupamento de Elementos de Fronteira (GEF) e da Guarnição Federal de Manaus (GFM). E, sobretudo, conta com a solidariedade dos grupos folclóricos e o estímulo do nosso povo. Há de se coroar, por isso mesmo, de êxito.

AUXÍLIOS – Os auxílios concedidos pelo Governo do Estado aos grupos folclóricos para ajuda-los na confecção de suas vestimentas serão pagos a partir de hoje, segundo nos garantiu o secretário de Finanças, dr. Mário Jorge Couto Lopes. Os que ainda não receberam seus ofícios devem fazê-lo em nossa redação. Em nosso poder encontram-se os ofícios de auxílio do conjunto do Educandário Gustavo Capanema, do Maracatu de Pernambuco, do Balé Folclórico Japonês, Dança Regional do Instituto de Educação do Amazonas, Dança Regional da Escola Comercial Sólon de Lucena, Dança Regional Cantigas Infantis, Dança Regional do Arara, Tribo dos Tarianos, Quadrilha Rancho Alegre e Dança Regional Desfeiteira.

ANDIRÁS – O “tuxaua” Carlito Souza, sobre a sua afinada Tribo dos Andirás, prestou-nos, ontem, os seguintes esclarecimentos: “A Tribo dos Andirás, antigamente localizada no rio Andirá, no município de Barreirinha, pertence à grande família dos Maués, que habitava com os Mundurucus, a Mundurucânia, ou seja, a grande ilha Tupinambarana. A nossa Tribo dos Andirás se constitui apenas numa reconstituição da tribo do rio Andirá, de origem Maués. Muitas das cenas que se passam são originais. Os instrumentos musicais e de dança vieram diretamente da Ponta Alegre, no rio Andirá, adquiridas pelo professor Mário Ypiranga Monteiro. Da festa da “tucandira” foi omitida apenas a “dança real” e os versos, o porantim ou remo mágico dos Maués ou Andirás, zarabatana, cartucheira, gambá, curupira, luvas para a dança da tucandira, mauáco, o apito mágico. O ritual da tucandira e o do cipó são reais, bem como a luva onde os moços dão a prova de virilidade. Os cantos são de inspiração nossa, mas a língua geral é verdadeiramente autêntica.”

SÁBADO – REUNIÃO OBRIGATÓRIA – Sábado, às 16 horas, haverá reunião para todos os dirigentes dos grupos folclóricos inscritos no VII Festival Folclórico, oportunidade em que serão sorteados os lugares para o desfile de abertura e encerramento, bem como a tabela para as noitadas de apresentação.

CUNHANTANS PURANGAS – A Quadrilha Cunhantans Puranga estará à noite de amanhã reunindo seus brincantes, no sentido de realizar mais um ensaio para adestrar com afinco o seu conjunto, a fim de conquistar o tão almejado título de campeão. Este ano novos passos serão introduzidos na Quadrilha Cunhantans Purangas, daí a seriedade dos ensaios.

CAPRICHOSO – O tradicional bumbá Caprichoso estará no sábado, dia 6, realizando o seu ensaio geral, preparando-se para a grande festa de abertura do próximo dia 14. O Caprichoso desponta como um dois mais sérios concorrentes ao título de campeão dos bumbás. Com novas toadas e belas fantasias, contando com um grande número de brincantes, o caprichoso não teme qualquer concorrente. Sábado, no grande ensaio geral, todos os brincantes estarão presentes. Para dar maior brilho e entusiasmo, também serão mostradas as novas fantasias.

CAIÇARAS NA ROÇA – Pela primeira vez disputando o título de quadrilha mirim, Caiçara na Roça vem treinando assiduamente, disposta a superar os seus rivais. Muito bem orientada, a quadrilha mirim Caiçaras na Roça reúne todas as características de um conjunto que poderá brilhar no VII Festival Folclórico.

CIRANDA – O grupo regional Ciranda, formada por alunos da Escola Comercial Sólon de Lucena, em virtude da falta do ensaiador José Silvestre, o qual é lamentada por todos os brincantes e que nós, da Comissão Organizadora do VIII Festival, apelamos, no sentido de que o sr. José Silvestre venha tomar a frente do referido conjunto, conforme é vontade dos mesmos, ainda não realizou seu ensaio. Ontem à noite, grande número de brincantes esteve em nossa redação, no sentido de que formulássemos esse convite ao sr. José Silvestre, para que o mesmo, único conhecedor do ritmo e passos da tão querida dança que conquistou brilhantemente o título do ano passado e reuniu para si um grande número de adeptos, venha a dirigi-los como aconteceu anteriormente.


No dia 6 de junho, sábado, o Jornal do Folclore n° 42, em novo editorial folcloricamente cabotino, voltava a soltar os cachorros contra o jornalista Bianor Garcia, dando a impressão de que o editorialista já tinha ciência de que o jornalista não fazia mais parte da organização do festival:

Hoje, o leitor encontrará neste modesto jornal dedicado especialmente ao movimento folclórico do Amazonas, um ligeiro histórico documentado dos festivais folclóricos de Manaus, a começar de 1946. Não pretendemos fazê-lo de modo exaustivo, pois se assim fosse roubaríamos espaço de outros assuntos não menos importante. É só uma ligeira referência para conhecimento dos interessados. Naqueles tempos os festivais não possuíam os nomes que hoje têm – eram realizados durante certos arraiais, ou mesmo propositadamente, mas sempre com o auxílio direto dos poderes constituídos, na forma de taça aos grupos vencedores, de transportes para os brincantes. Lembramos que auxiliaram esses festivais os drs. Aluísio Brasil, Chaves Monteiro, Álvaro Bandeira de Melo, então prefeitos municipais.

Nesses festivais notava-se a presença principalmente de bois e pássaros, quadrilhas poucas e pastorinhas. O povo comparecia seguidamente à praça do General Carneiro, da rua de Ajuricaba, da avenida de João Coelho esquina da rua de Leonardo Malcher,  e desta com a de Getúlio Vargas, à então Festa da Mocidade, e a outros locais como o Parque Amazonense, com a mesma receptividade, o mesmo carinho, apesar de serem esses locais às vezes mais distante, depender de bonde, etc. Houve um tempo em que certos clubes recreativos tomavam os arraiais sob patrocínio, como o Internacional, o Satélite. Não é de hoje, portanto, a ocorrência desses festivais, como se poderá ver pelo calendário que publicamos. Nem se justifica o privilégio defendido aos gritos e clamores por certo cidadão que se intitulava nababescamente “inventor” dos festivais folclóricos de Manaus, quando de 1946 a 1956 tais festivais vinham sendo realizados em vários pontos da cidade com o mesmo ajuntamento de povo, posto que com menor número de grupos originais.

E quem introduziu o folclore regional diferente, fora do comum, nesses e noutros festivais, foi o secretário da Comissão Amazonense de Folclore, chamando as tradições folclóricas do interior para a cidade, a fim de que essas tradições fossem conhecidas melhor e difundidas. Não com o propósito de “abrilhantar” os festivais. Não com este fim, mas com o objetivo de divulgar e de ensinar. Este sim, deve ser a finalidade dos festivais. Entretanto, ocorre o contrário. Todos os anos os portadores de folclore querem aparecer com uma inovação (excetuando-se os bois, pássaros e tribos), a fim de sobressair-se aos demais. É um erro. O folclore só pode sobreviver se houver continuidade, e essa continuidade, repetimos mais uma vez, é que faz a tradição. A tradição firma-se no conhecimento do povo e se transmite. Essa é que é a lição a ser observada. Essa é que deveria ser a sistemática dos festivais: educação pela observância e não recorrência a recursos exibitórios. É por tudo isso que vimos lutando danadamente.

Calendário dos Festivais Folclóricos de Manaus: 

Em 1946 – Local: Avenida de João Coelho canto com a rua de Leonardo Malcher. Promotores: Bar Balalaika e Prefeitura Municipal, com taças e prêmios de Cr$ 300,00 ao vencedor (bois). 

Em 1947, 1948, 1950, 1951, 1952 e 1953 – Local: Praça de General Carneiro. Promotores: Internacional Futebol Clube e Prefeitura Municipal. Prêmios: taças. 

Em 1948, houve concursos em três lugares diferentes, incluindo o Parque Amazonense. 

Em 1950, houve um concurso de pastorinhas e pastoris na Festa da Mocidade. 

Em 1949 e 1954 – Local: Avenida de Ajuricaba. Promotores: Prefeitura Municipal. Prêmios: taças.


No VIII Festival Folclórico do Amazonas, o auxílio financeiro dado pelo governo ficou assim distribuído. Bumbás: Cr$ 80 mil (em valores de hoje, R$ 6.400,00). Garrotes, Tribos e Quadrilhas adultas: Cr$ 60 mil. Quadrilhas mirins: Cr$ 20 mil. Danças regionais e Pássaros: Cr$ 30 mil. O prêmio dos vencedores de cada categoria seria o dobro desses valores.

Em termos comparativos, a ajuda financeira aos grupos folclóricos havia regredido para menos da metade do que eles haviam recebido no último ano do governo de Gilberto Mestrinho. O governador Plinio Coelho atribuiu o problema à baixa arrecadação estadual de tributos devido à desaceleração econômica do país e ao aumento da carestia.

Foram inscritos 39 grupos, com aproximadamente 5 mil brincantes:

Bumbás: Caprichoso, Pai do Campo, Tira Prosa e Mina de Ouro.

Garrotes: Teimosinho, Malhado, Luz de Guerra, Tira Teima, Pingo de Ouro, Canarinho e Dominante.

Pássaros: Bem-te-vi, Japiim e Corrupião.

Tribos: Iurupixunas, Andirás e Amazonas.

Danças regionais: Imperiais, Dança do Tipiti, Dança do Jacundá-Camaleão Suim, Dança do Arara-Desfeiteira, Maracatu de Pernambuco e Rancho das Rosas.

Quadrilhas adultas: Flor do Plano, São João na Roça, Camponeses, Araruama na Roça, Cunhantans Purangas, Asa Branca, Rancho Alegre, Glorianos na Roça, Flor Selvagem, Primo do Cangaceiro e Cabras do Lampião.

Quadrilhas mirins: Dança de Roda e Brincadeiras Infantis, Caiçaras na Roça, Brotinhos de Amanhã, Caboclinhos de Brasília e Filhos do Cangaceiro.

Por meio de sorteio, o bumbá Caprichoso, que estava completando 52 anos de existência, foi escolhido para abrir o desfile inaugural, seguido pela Quadrilha Flor do Plano, Tribos dos Iurupixunas, Pássaro Bem-te-vi, Garrote Teimosinho e Dança do Tipiti. O bumbá Mina de Ouro seria o último a desfilar.

Também, por meio de sorteio, ficou decidido que o bumbá Tira Prosa mostraria o auto completo do boi, incluindo a matança, mas que esse último item não contaria pontos para o julgamento.

O grande ausente do VIII Festival foi o bumbá Corre Campo. Em carta endereçada aos organizadores, Astrogildo Pereira dos Santos, o popular Mestre Tó, informou que sua mãe estava muito adoentada e já desenganada pelos médicos. Ele havia prometido dedicar todo o seu tempo à genitora, sem se afastar um só minuto de sua cabeceira, e, por esse motivo, não teria condições psicológicas de colocar o boi na rua.

Entre as novidades daquele ano, o Pássaro Bem-te-vi, ensaiado pela famosa Mãe Joana Galante, de São Jorge, que voltava a se apresentar depois de 18 anos de ausência, e o grupo Danças de Roda e Jogos Infantis, ensaiada pelo professor Isidoro Barbosa (o famoso “Titio Barbosa”, que apresentava um programa radiofônico na Rádio Rio-mar intitulado “Teatrinho Infantil”), que pretendia fazer a plateia empreender um verdadeiro mergulho na infância a partir de brincadeiras tradicionais como “Chicotinho queimado”, “Ciranda, cirandinha”, “Fui no Tororó” e “Terezinha de Jesus”.

A carismática Joana Almeida dos Anjos, nome verdadeiro da Mãe Joana Galante, foi a babalorixá mais famosa de Manaus, tendo sido preceptora da Mãe Zulmira, do Morro da Liberdade.

Vinda do Pará, ela foi morar na Rua Leonardo Malcher e depois se mudou para o bairro de São Jorge.

Personalidade carismática, Mãe Joana nasceu em 28 de junho de 1910 e iniciou seus trabalhos com a umbanda e o candomblé ainda aos 28 anos de idade.

Festeira, recebeu o nome de Galante, por ter sido madrinha e patrocinadora do Boi-Bumbá Galante, do Boulevard Amazonas.


O enredo do Pássaro Bem-te-vi, apresentado pela Mãe Joana, contava a seguinte história:

Em uma floresta existia um lindo Bem-te-vi e um caçador, ao saber da existência de tão bela ave, resolveu caçá-lo. Ao saber que o audacioso caçador havia penetrado em sua floresta, o Princípe e a Princesa ordenaram rapidamente ao Guarda do Bosque que fosse chamar o Tuxaua de uma tribo, para o qual entregaram a pequena ave fazendo-o jurar que a protegeria com sua própria vida.

O Tuxaua leva o Bem-te-vi para a sua maloca, mas o esperto Caçador, com a ajuda de uma Feiticeira, faz a tribo inteira adormecer, após os índios ingerirem uma bebida chamada caulim, facilitando a entrada do caçador na maloca para atirar na ave.

Neste momento, o Guarda Bosques que por ali passava ouviu o estampido do tiro e correu para a maloca, encontrando apenas o passarinho quase morto. Um Matuto, que também correu para o local, presenciou a mesma cena que o Guarda do Bosque e, juntos, foram avisar o ocorrido para o Príncipe e a Princesa.

O Príncipe, indignado, ordenou que o Guarda do Bosque trouxesse à sua presença, presos, o Caçador e a Feiticeira.  A Feiticeira, entretanto, havia se escondido. Após passar o efeito da bebida, os índios também tomam conhecimento do acontecido e, enfurecidos, saem em busca do Caçador.

Ele é levado preso à presença do Príncipe e, então, pede perdão pelo seu ato tresloucado. O Príncipe, que era piedoso e tinha bom coração, diz que só liberta o Caçador se ele fizer o Bem-te-vi voltar a viver.

O Caçador pede ao Soldado para chamar o Doutor. Depois de examinar detidamente o passarinho, o Doutor diz que a cura dele está além da sua ciência e que nada pode fazer para trazer de volta a vida da avezinha.

Escutando a conversa do Doutor, o Matuto diz que conhece um macumbeiro, que seria capaz de fazer o passarinho ficar bom.

O Príncipe, desejando ardentemente que o pássaro reviva, ordena ao Matuto para chamar o tal macumbeiro, na verdade um Pajé, que chega rapidamente, pondo-se a fazer seu trabalho por meio de cânticos, chamando um de seus espíritos.

O Doutor, ao ver aquela invocação, põe-se a dar gargalhadas zombeteiras e o Pajé, vendo a zombaria do doutor, passa a sua espada sobre a cabeça do mesmo, fazendo-o incorporar um espírito e entrar na dança.

Ao término da dança, o Pajé faz a entrega do pássaro com vida ao Príncipe e depois da lição dada ao Doutor, retira o espírito do mesmo, que voltando a si, envergonhado e encabulado, some rapidamente do local.

Depois de liberto, o Caçador promete nunca mais voltar à floresta e, ao sair, encontra a Feiticeira, que já o esperava, e os dois vão embora, juntos. 

O Guarda do Bosque, juntamente com o Matuto e seu filho, começam a canta uma música de despedida de muita graça e ritmo, e todos os brincantes se despedem do público cantando e dançando.


Para julgar os participantes do VIII Festival, a Empresa Archer Pinto Ltda delegou poderes ao Padre Raimundo Nonato Pinheiro, homem culto e de profundos conhecimentos sobre o folclore, para reunir os juízes que integrariam a Comissão Julgadora e definir os critérios de julgamento.

A Comissão Julgadora ficou constituída pelo coronel João Walter (presidente), desembargadores Leoncio Salignac, João Rebelo Correa e João Pereira Machado, acadêmicos Padre Nonato Pinheiro, Aderson de Menezes e Aristophanes Antony, jornalista Satyro Barbosa e professor Garcitilzo do Lago e Silva.

Também ficou estabelecido que, entre os grupos vencedores de cada categoria, seria escolhido o campeão oficial do festival, com direito a uma gigantesca taça de bronze ofertada pela própria Empresa Archer Pinto.

A posse da taça seria provisória, tornando-se definitiva se um grupo folclórico obtivesse duas vitórias consecutivas ou três vitórias intercaladas, a partir daquele ano.

No dia 13 de junho, sábado, o general Castelo Branco anunciou uma nova lista de cassações, que pretendia ser a última, de acordo com o AI-1, atingindo dezenas de pessoas, entre as quais 11 parlamentares, o governador do Amazonas Plínio Coelho e quatro ex-ministros de João Goulart.

Nesse mesmo dia, foi criado o Serviço Nacional de Informações (SNI), com a finalidade de assessorar o presidente na orientação e coordenação das atividades de informação e contra-informação, em particular aquelas de interesse para a segurança nacional. Assumiu a chefia do novo órgão o general Golberi, que ali permaneceria durante todo o governo Castelo.

No dia seguinte, 14 de junho, domingo, o programa de abertura do festival deveria ser cumprido à risca conforme havia sido estabelecido pelos organizadores:

15h30: Chegada ao palanque oficial da Comissão Julgadora do certame.

15h45: Início do desfile dos grupos folclóricos.

16h45: Saudação e agradecimento da Empresa Archer Pinto Ltda.

17h: Abertura solene pela palavra do prefeito Josué Cláudio de Souza.

17h15: Saudação do governador Plinio Coelho ao povo em geral.

17h3: Apresentação dos membros da Comissão Julgadora do Festival e palavra de seu presidente.

17h45: Apresentação especial do Coral João Gomes Junior.
 

Quando Plinio Coelho ainda estava discursando, entretanto, surgiu no evento o coronel José Alípio de Carvalho, comandante do 27º BC, e informou ao chefe da Casa Civil do governador que Plinio estava deposto por ter seus direitos políticos cassados.

Informado da situação, o governador não reagiu. Ele concluiu seu discurso se despedindo do povo de Manaus e, em companhia do coronel Carvalho, se dirigiu à casa do general Jurandir Bizarria Mamede, comandante militar da Amazônia, onde tomou ciência oficial de que havia sido cassado no dia anterior pelo general Castelo Branco.

O governador ficou pálido, cinza, bege, tom-sobre-tom, mas ainda assim não esboçou qualquer resistência. Em companhia de alguns secretários estaduais, Plinio Coelho foi comboiado ao Palácio Rio Negro pelo general Mamede, onde deu posse ao deputado estadual Anfremon Monteiro como novo governador do Amazonas, por volta das 22 horas.

Na segunda feira, 15 de junho, primeiro dia da competição, um forte aguaceiro desabou sobre a cidade o dia inteiro, entrando pela noite, e as apresentações foram suspensas. Os grupos escalados para a segunda feira se apresentaram juntos com os grupos escalados para terça feira, num total de sete apresentações. Foi o único incidente sério que ocorreu no festival daquele ano (descontando-se, evidentemente, a deposição do governador).

Entre as atrações especiais mais aplaudidas pelo público, destacou-se o grupo dos “Aqualoucos”, ensaiados pelo tenente Cavalcante, que fizeram uma série de saltos ornamentais e acrobáticos de tirar o fôlego, sozinhos ou em grupos, na piscina do estádio.

Entre os convidados especiais, a nova diretora do Serviço Nacional de Teatro, Barbara Heliodora, crítica de teatro do Jornal do Brasil, teatróloga e tradutora renomada.

Muito aplaudida pelo público presente, Barba Heliodora pediu para ser fotografada junto a alguns grupos regionais, mas entrou em pânico quando se aproximou dela uma índia da Tribo dos Andirás trazendo uma inofensiva jiboia enrolada no corpo.

A crítica teatral recebeu um diploma de participação ofertado por Maria de Lourdes Archer Pinto e elogiou muito a originalidade dos grupos presentes no festival.

Eleito pela Assembleia Legislativa do Amazonas para substituir o governador Plínio Ramos Coelho, o historiador, escritor e professor Arthur Cézar Ferreira Reis participou da festa de encerramento do VIII Festival, fazendo um breve discurso logo após a saudação do prefeito Josué Cláudio de Souza. Foi ovacionado por quase 80 mil pessoas presentes no Estádio General Osório.


Na sequência, a Comissão Julgadora, após a apuração de todas as notas, proclamou os seguintes campeões por categorias:

Bumbá: Pai do Campo.

Garrote: Luz de Guerra.

Quadrilha adulta: Cabras do Lampião (que com seus 126 pares luxuosamente fantasiados, também foi eleita “Campeã dos Campeões”, ficando com a posse provisória do troféu alusivo ao título).

Quadrilha mirim: Brotinhos de Amanhã.

Tribos: Iurupixunas e Andirás.

Pássaros: Japiim e Bem-te-vi.

Dança regional: Dança dos Imperiais.

Rainha do Festival: Ana Cláudia (“Maria Bonita” da Quadrilha Cabras do Lampião).

Rainha de Beleza: Maria Paula (Dança do Tipiti).

Rainha Mirim: Elizabeth Oliveira (Filhos do Cangaceiro).

Nesse meio tempo, o “papa do folclore tupiniquim”, por meio de sua solitária trincheira no boletim Jornal do Folclore, não cansava de arrotar bacaba sobre a possível ignorância do apresentador das danças que se exibiam no festival.

No nº 45 do boletim, publicado no dia 27 de junho, sábado, sob o título de “Reparos oportunos”, escreveu esse texto:

Um locutor, durante a abertura oficial do VIII Festival Folclórico, referindo-se aos grupos que desfilavam, disse umas coisas que nós resolvemos retificar com o objetivo sadio de orientar:

TIPITI – Não é uma dança exclusivamente amazônica nem está influenciando outros povos, como disse o locutor. Já escrevemos neste mesmo jornal, declarando sua universalidade. Apenas o nome “tipiti” é amazônico, bem como alguns itens da dança.

CAMALEÃO – O locutor estranhou o seu aparecimento no festival, dizendo nunca haver aparecido nos outros festivais. É um equívoco: surgiu o ano passado, ensaiado por nós.

IMPERIAIS – Lembramos ao locutor que a dança não se filia ao gênero tribo, como ele disse, porque esta é de brincantes travestidos à indígena.  O mesmo locutor estranhou estarem os brincantes “com a cara pintada de branco”.

Referindo-se à quadrilha CUNHANTÃS PURANGA, privou-a da acepção feminina, dizendo “O Cunhantã Puranga”. Lembramos ao locutor que cunhantã é menina.

Foi decerto um grande sabido que soprou para o locutor que a festa dos índios era denominada “putirum”.  Engano: é dabacuri.

Lá para as tantas, o locutor referiu-se a uma “tribo de Gambá”, que não existe. Existe a dança de mesmo nome.

Um dos oradores, atribuindo-se conhecimentos de folclore de que nós nos admiramos justamente por desconhecer-lhe qualquer experiência no assunto, atribui ao festival a natureza de “congresso”.

PREVENÇÃO – A Comissão Nacional de Folclore não possui nem divulgou qualquer norma técnica para julgamento de grupos folclóricos, mesmo porque, conscientemente, ela desaprova esses concursos, contrários à ética folclórica. Portanto, toda e qualquer referência à Comissão Nacional de Folclore, divulgada em público, como vem sendo feita, é mero recurso explorativo, sem nenhuma validade. Que se faça o julgamento como melhor pareça, vá lá, mas que se meta a Comissão Nacional do Folclore numa atividade a ela completamente estranha é ir além da ética. Que exibam os promotores dos festivais qualquer documento nesse sentido, para que nós saibamos ao menos o que está ocorrendo, pois até hoje ignorávamos que a Comissão Nacional do Folclore estivesse interessada em concursos dessa natureza.  E se estivesse seríamos nós os primeiros a haver conhecimento dos fatos. Em todo caso, a Comissão Amazonense de Folclore vai pôr-se em contato com a CNF, a fim de aclarar a questão.


Como as críticas do renomado folclorista não repercutiram além das duas centenas de leitores do jornal A Gazeta, ele voltou à carga no Jornal do Folclore nº 46, de 4 de julho, com nova pérola de cabotinismo pernóstico:

Terminaram as festas juninas e também o VIII Festival Folclórico, organizado sem a necessária visão e o conhecimento de uma técnica de base. O resultado não foi nada promissor. A crítica popular que o diga. Faltaram os melhores grupos, os grupos também representativos do nosso folclore legítimo. Ouvimos dizer – e o registramos sob reserva – que o brigue Independência foi riscado do programa sob o pretexto de que circulava pelo carnaval e portanto não era folclore. A ser verdade essa história, isso marca um capítulo novo no conhecimento da ciência, um capítulo que nós ignorávamos. Uma das coisas mais fúteis que observamos foi a notícia publicada de que o grande folclorista Luís da Câmara Cascudo havia declarado que o “nosso festival era a mais linda festa típica do Brasil” (lugar comum sem variações), como se na verdade o homem tivesse vindo cá e assistido a coisa.

No final do festival, houve como prêmio de consolação um sururuzinho entre grupos, para reafirmar, mais uma vez, o que sempre dissemos: folclore é espontâneo e toda e qualquer intromissão de leigos só poderá degenerar em anarquia. Uma outra situação desfavorável se exprime no fato de que houve um julgamento feito sem nenhuma técnica e o jornal promotor chegou ao cúmulo de dizer que esse julgamento era de acordo com o exigido pela Comissão Nacional de Folclore. Na verdade, a Comissão Nacional de Folclore nunca expôs razões a esse respeito nem reconhece qualquer situação idêntica nem muito menos os nomes dos “estudiosos” do Folclore que tomaram parte naquela comissão julgadora, mesmo porque eles jamais escreveram sobre folclore. E assim vai indo, de vento em popa, o nosso folclore, desmantelado, anarquizado.

A Comissão Amazonense de Folclore fez bem em não se meter naquilo. Nenhum membro dela tomou parte na comissão julgadora. E o que vaticinamos antes, verificou-se depois: os protestos dos grupos são justos. E se não houve mais protestos é porque os dirigentes de grupos desconhecem, ignoram as próprias situações. O erro mais triste que houve foi classificar-se em primeiro lugar a Dança dos Imperiais, metida à força numa chave em que apareciam o Tipiti, o Camaleão e o Jacundá. Isso prova que os membros da comissão julgadora desconhecem o verdadeiro folclore amazônico e a diversidade deles. Mais uma para a história dos Festivais.


No dia 11 de julho, no matutino O Jornal, o professor José Braga, responsável pela Dança dos Imperiais, exibida pelos alunos do Instituto de Educação do Amazonas (IEA), publicou um artigo intitulado “Qual o erro, professor?”, questionando o abusivo comentário feito anteriormente pelo renomado folclorista:

Leio sempre o seu Jornal do Folclore, professor Mário Ipiranga, inserto em “A Gazeta”. O do dia 4, nas críticas ao VIII Festival Folclórico, diz que “o erro mais triste que houve foi classificar-se em primeiro lugar a Dança dos Imperiais, metendo-a à força numa chave em que apareciam o Tipiti, o Camaleão e o Jacundá”.

Sabe o meu ilustre amigo que sou o responsável, como professor, pelo grupo de moças e rapazes do Instituto de Educação, que mostrou a Dança dos Imperiais naquele festival.

Sua crítica roubou-me a mim e a meus alunos, que ainda exultávamos – menos pela classificação no concurso do que pelo brilho de nossas duas apresentações ao público durante as festas juninas –, a alegria e o entusiasmo.

O amigo sabe também – e se não quis dizê-lo o fez por modéstia – que a dança foi escolhida sob sua orientação e ensaiada, no ano passado, com o seu concurso, havendo o sr. José Marques, que é filho de Tefé, município onde ainda hoje subsiste a Dança dos Imperiais como exemplo de cultura, contribuído de modo decisivo para a sua organização.

Procurei formar um grupo o quanto possível autêntico, observando todas as instruções que me deu o amigo. Até mesmo a descrição feita por mim no VIII Festival foi fiel àquilo que aprendi com o folclorista.

Por tudo isso, caro professor Mário Ipiranga, surpreendi-me ao ler o seu “Paleio no Copiar” do sábado passado. Gostaria mesmo que o amigo esclarecesse melhor se o “erro” está em haverem os promotores do festival incluído a Dança dos Imperiais na chave do Tipiti, Camaleão e Jacundá, assim impedindo, pela diversidade dos grupos, um julgamento equânime ou se consiste na falta de condições do conjunto para a classificação que lhe coube.

É que não temos motivo, os moços do Instituto de Educação e eu, para envergonhar-nos do título que, em podendo ser de qualquer dos participantes do VIII Festival, nos coube, ainda que a presença do colégio naquela festa não tivesse outro objetivo senão o de oferecer a sua mensagem de cultura ao público que a apladiu. Um abraço, professor.

Mostrando mais uma vez que “cão que ladra, não morde”, Mário Ypiranga Monteiro preferiu meteu a viola no saco a continuar a polêmica e fez quase um humilhante pedido de desculpas públicas ao professor José Braga, conforme pode ser lido no Jornal do Folclore nº 48, de 18 de julho:

O nosso comentário de sábado retrasado, sobre a vitória do grupo “Imperiais”, no último festival, provocou o artigo do professor José Braga, inserto n’O Jornal do dia 11 de julho, sob o título “Qual o erro, professor?”, a que respondemos no jornal A Gazeta, de 14 de julho. Publicamos a seguir a nossa resposta, que agradou não somente ao articulista, mas a muita gente que, embora não sendo entendida em folclore, aprecia discussões em torno do assunto. Eis a nossa resposta:

O professor José Braga, a quem eu tenho em alto merecimento, escrevendo na edição de O Jornal de 11 do corrente, me força a uma explicação sobre o conteúdo do “Paleio no Copiar”, do Jornal do Folclore, de sábado atrasado. Parece-me que ele supôs haver eu feito severas restrições à apresentação do grupo “Imperiais”, grupo que, afinal de contas, me é caro e para cuja exibição contribui com uma modesta parcela de meus conhecimentos do folclore amazonense. Posto que contrário, por muitas razões, ao processo de competições folclóricas (razão ver que a Comissão Amazonense de Folclore deixou de tomar parte no festival), acho que a vitória do grupo “Imperiais” foi justa, de um certo ponto de vista que o professor José Braga já conhece. Quanto a esta parte, está tudo Ok. Nada há que aduzir: o grupo “Imperiais”, no seu gênero, entrou no tablado sem competidores.

O que ocorreu foi simplesmente isso: meteram à força, numa chave, quatro grupos que mereciam primeiramente ser estudados nos seus diversos itens, tal se juntassem alhos com bugalhos. Se o professor me entendeu bem, sacrificaram uma dança tipicamente regional, o “Jacundá”. E como nem o “Jacundá” nem o “Imperiais” são do mesmo gênero, restavam dois grupos, “Camaleão” e “Tipiti”. Vai daí que estes dois também não formavam parelha. Então, o caro professor José Braga deve estar compreendendo que todos os quatro grupos entraram no páreo vencedores, com direito, cada um, ao seu prêmio. Morou?

Infelizmente, folclore não é futebol, coisa fácil de ser posta em chaves. Estudioso de folclore não se improvisa da noite para o dia. Consequentemente, se o meu simpático grupo “Imperiais” ganhou justamente um prêmio, injustamente deixou-se de conferir prêmio a quem a ele fazia jus. Essas injustiças continuadas provocam uma reação nos grupos. Muitos deixarão de comparecer a esses torneios absurdos para não sofrerem humilhações. É por isso que quem estuda Folclore estuda também Psicologia. Eu previ o que iria acontecer quando li a tal chave. Uma aberração. O erro não foi seu, caro professor José Braga. O erro gritante é de quem se improvisa, por vaidade, entendedor de assunto que eu há mais de trinta anos estudo e acho que ainda estou encontrando surpresas...

Louvo a sua dedicação e o desempenho dos alunos do Instituto de Educação do Amazonas, a quem, mais uma vez, cumprimento pela vitória e pela apresentação magnífica, posto que, como sempre, seja contrário a disputas. E para os perdedores, “Jacundá”, “Camaleão” e “Tipiti”, só posso oferecer palavras de estímulo e de conforto. Até para perder é preciso possuir dignidade. Que tenham paciência. Desta vez ainda calaram sobre um Convênio e uma Lei de Estado, desprestigiando a Comissão Amazonense de Folclore. Um dia aparecerá alguém que lhe fará a merecida justiça, isto é, quando nesses festivais houver verdadeiros amigos da ciência. (Mário Ypiranga Monteiro).

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