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sexta-feira, agosto 28, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 45

 


45. Abril de 2002. O bar da Dona Jura, em O Clone, preparava-se para receber um convidado que parecia ter saído do departamento de criação do próprio Rio de Janeiro. Um homem movido a ziriguidum, telecoteco, balacobaco, borogodó e outras palavras que o dicionário jamais conseguiu explicar, mas qualquer sambista entendia perfeitamente. Era Oswaldo Sargentelli, o homem das mulatas que não estavam no mapa.

Se o Cristo Redentor resolvesse descer do Corcovado para tomar uma cerveja na Lapa, provavelmente encontraria Sargentelli sentado na primeira mesa, cercado de amigos, mulatas, músicos e meia dúzia de histórias que ninguém acreditaria se não tivesse acontecido.

Sambista, radialista, apresentador, empresário, animador, boêmio e, acima de tudo, “mulatólogo” – profissão criada por ele mesmo porque nenhuma outra era capaz de descrever exatamente o que fazia. Hoje a palavra certamente provocaria um inquérito nas redes sociais. Naquela época rendia aplausos, manchetes e casas lotadas.

Sobrinho do famoso compositor Lamartine Babo (seu pai biológico era Leopoldo de Azeredo Babo, irmão de Lamartine), carioca da Lapa, ele nasceu em 8 de dezembro de 1924. Foi criado pela mãe, Maria Amélia, já que o pai desapareceu da história antes mesmo de resolver registrá-lo. Talvez por isso Oswaldo tenha aprendido cedo que, na vida, era preciso fazer barulho para ser notado. E fazia. Desde menino gostava de microfone como criança gosta de sorvete. Apresentava festinhas escolares, imitava locutores e narrava acontecimentos que ninguém havia pedido para serem narrados.

Nos anos 40 foi a São Paulo com uns tios ligados ao teatro. Assistiu ao tenor italiano Tito Schipa cantando a ópera Vivere e decidiu que seria cantor. Participou do programa de calouros de Ary Barroso, ganhou o concurso e voltou para casa convencido de que o destino finalmente lhe abrira a porta. O destino, porém, era carioca. Abriu a porta, mas era a porta errada. A carreira de cantor durou menos que promessa de político em ano eleitoral. Sargentelli formou-se em Contabilidade, trabalhou na Aeronáutica, passou pela Ultragaz e parecia condenado a uma vida respeitavelmente sem graça. Ainda bem que desistiu dela.

Em 1948 estreou como locutor da Rádio Clube do Brasil. A voz grave era tão marcante que, se anunciasse um apagão, metade da cidade apagaria a luz por educação. Passou pela Rádio Mauá, Rádio Guanabara, Rádio Nacional e fez de tudo um pouco: apresentou programas de samba, narrou futebol e distribuiu opiniões com a mesma elegância com que distribuía bordões.

Na televisão virou figura obrigatória. Seu programa Preto no Branco era tão temido que alguns convidados provavelmente prefeririam enfrentar uma extração de dente sem anestesia. Sargentelli fazia perguntas como quem aplicava interrogatório da Polícia Federal.

Veio 1964. O golpe militar cassou seu espaço na televisão e no rádio. Foi um daqueles casos raros em que o destino empurra o sujeito escada abaixo e ele descobre que havia um elevador esperando no térreo.



Sem poder trabalhar na comunicação, resolveu organizar espetáculos de samba. Com mulatas. Era a combinação perfeita. Sargentelli entendia de samba. As mulatas entendiam de palco. E os turistas entendiam que valia cada centavo do ingresso.

Em pouco tempo inaugurou a Sambão, depois a lendária Sucata, ao lado de Ricardo Amaral, e mais tarde a Oba-Oba. Eram casas tão badaladas que, se você aparecesse sem reserva, tinha mais chance de conseguir audiência com o Papa do que uma mesa perto do palco.

Mas seria injusto imaginar que Sargentelli só descobriu o samba quando descobriu as mulatas. Muito antes disso ele já era figurinha fácil nos botequins da Tijuca e de Vila Isabel. Convivia com Jamelão, Monsueto, Elizeth Cardoso e tantos outros que qualquer mesa em que sentasse acabava parecendo uma reunião extraordinária da Academia Brasileira do Samba.

Suas frases também eram patrimônio nacional. Gostava de dizer que expressões como telecoteco, balacobaco, ziriguidum e borogodó não eram invenções suas. Apenas recolhia aquilo que o povo produzia espontaneamente nas calçadas, nos botequins e nas rodas de samba. Era uma espécie de IBGE da malandragem carioca.

Quando perguntaram o que era música brasileira de verdade, respondeu sem pestanejar: era batuque, era chorinho, era lamento sertanejo, era samba de telecoteco. O resto podia até ser música, mas precisava pedir visto para entrar.

No auge da fama, mantinha cerca de quarenta mulatas contratadas. Quarenta. Era praticamente um batalhão. E havia disciplina militar. As dançarinas não podiam conversar com clientes, aceitar bilhetes nem criar intimidade com o público. Um bilhetinho recebido significava demissão sumária. Se o garçom servisse de pombo-correio, os dois iam para a rua.

Sargentelli administrava suas boates com a severidade de um diretor de colégio interno e a animação de um mestre-sala depois de três caipirinhas. Acusaram-no diversas vezes de facilitar a prostituição. Negou sempre. Dizia que suas casas vendiam espetáculo, não companhia.

Em abril de 2002, o destino resolveu escrever seu último roteiro. Convidado para participar de O Clone, Sargentelli foi homenageado justamente por Solange Couto, uma das mulatas que ajudara a lançar décadas antes. A vida parecia fechar um círculo perfeito. Mas resolveu colocar um ponto-final antes do último aplauso.

Durante as gravações sofreu um infarto fulminante e morreu aos 77 anos. O Botafogo perdeu um torcedor apaixonado. A Portela perdeu um admirador de carteirinha. O samba perdeu um dos seus maiores divulgadores. E o dicionário brasileiro ficou perigosamente ameaçado de nunca mais ganhar palavras como telecoteco, balacobaco, ziriguidum e borogodó pronunciadas com tanta convicção. Porque Sargentelli não era apenas um personagem do samba. Era um carioca em estado de exagero.

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