45. Abril de 2002. O bar da Dona Jura, em O
Clone, preparava-se para receber um convidado que parecia ter saído do
departamento de criação do próprio Rio de Janeiro. Um homem movido a
ziriguidum, telecoteco, balacobaco, borogodó e outras palavras que o dicionário
jamais conseguiu explicar, mas qualquer sambista entendia perfeitamente. Era
Oswaldo Sargentelli, o homem das mulatas que não estavam no mapa.
Sambista,
radialista, apresentador, empresário, animador, boêmio e, acima de tudo,
“mulatólogo” – profissão criada por ele mesmo porque nenhuma outra era capaz de
descrever exatamente o que fazia. Hoje a palavra certamente provocaria um
inquérito nas redes sociais. Naquela época rendia aplausos, manchetes e casas
lotadas.
Sobrinho do
famoso compositor Lamartine Babo (seu pai biológico era Leopoldo de Azeredo
Babo, irmão de Lamartine), carioca da Lapa, ele nasceu em 8 de dezembro de
1924. Foi criado pela mãe, Maria Amélia, já que o pai desapareceu da história
antes mesmo de resolver registrá-lo. Talvez por isso Oswaldo tenha aprendido
cedo que, na vida, era preciso fazer barulho para ser notado. E fazia. Desde
menino gostava de microfone como criança gosta de sorvete. Apresentava
festinhas escolares, imitava locutores e narrava acontecimentos que ninguém
havia pedido para serem narrados.
Nos anos 40 foi
a São Paulo com uns tios ligados ao teatro. Assistiu ao tenor italiano Tito
Schipa cantando a ópera Vivere e decidiu que seria cantor. Participou do
programa de calouros de Ary Barroso, ganhou o concurso e voltou para casa
convencido de que o destino finalmente lhe abrira a porta. O destino, porém,
era carioca. Abriu a porta, mas era a porta errada. A carreira de cantor durou
menos que promessa de político em ano eleitoral. Sargentelli formou-se em
Contabilidade, trabalhou na Aeronáutica, passou pela Ultragaz e parecia
condenado a uma vida respeitavelmente sem graça. Ainda bem que desistiu dela.
Em 1948 estreou
como locutor da Rádio Clube do Brasil. A voz grave era tão marcante que, se
anunciasse um apagão, metade da cidade apagaria a luz por educação. Passou pela
Rádio Mauá, Rádio Guanabara, Rádio Nacional e fez de tudo um pouco: apresentou
programas de samba, narrou futebol e distribuiu opiniões com a mesma elegância
com que distribuía bordões.
Na televisão
virou figura obrigatória. Seu programa Preto no Branco era tão temido que
alguns convidados provavelmente prefeririam enfrentar uma extração de dente sem
anestesia. Sargentelli fazia perguntas como quem aplicava interrogatório da
Polícia Federal.
Veio 1964. O
golpe militar cassou seu espaço na televisão e no rádio. Foi um daqueles casos
raros em que o destino empurra o sujeito escada abaixo e ele descobre que havia
um elevador esperando no térreo.
Sem poder
trabalhar na comunicação, resolveu organizar espetáculos de samba. Com mulatas.
Era a combinação perfeita. Sargentelli entendia de samba. As mulatas entendiam
de palco. E os turistas entendiam que valia cada centavo do ingresso.
Em pouco tempo
inaugurou a Sambão, depois a lendária Sucata, ao lado de Ricardo Amaral, e mais
tarde a Oba-Oba. Eram casas tão badaladas que, se você aparecesse sem reserva,
tinha mais chance de conseguir audiência com o Papa do que uma mesa perto do
palco.
Mas seria
injusto imaginar que Sargentelli só descobriu o samba quando descobriu as
mulatas. Muito antes disso ele já era figurinha fácil nos botequins da Tijuca e
de Vila Isabel. Convivia com Jamelão, Monsueto, Elizeth Cardoso e tantos outros
que qualquer mesa em que sentasse acabava parecendo uma reunião extraordinária
da Academia Brasileira do Samba.
Suas frases
também eram patrimônio nacional. Gostava de dizer que expressões como
telecoteco, balacobaco, ziriguidum e borogodó não eram invenções suas. Apenas
recolhia aquilo que o povo produzia espontaneamente nas calçadas, nos botequins
e nas rodas de samba. Era uma espécie de IBGE da malandragem carioca.
Quando
perguntaram o que era música brasileira de verdade, respondeu sem pestanejar:
era batuque, era chorinho, era lamento sertanejo, era samba de telecoteco. O
resto podia até ser música, mas precisava pedir visto para entrar.
No auge da
fama, mantinha cerca de quarenta mulatas contratadas. Quarenta. Era
praticamente um batalhão. E havia disciplina militar. As dançarinas não podiam
conversar com clientes, aceitar bilhetes nem criar intimidade com o público. Um
bilhetinho recebido significava demissão sumária. Se o garçom servisse de
pombo-correio, os dois iam para a rua.
Sargentelli
administrava suas boates com a severidade de um diretor de colégio interno e a
animação de um mestre-sala depois de três caipirinhas. Acusaram-no diversas
vezes de facilitar a prostituição. Negou sempre. Dizia que suas casas vendiam
espetáculo, não companhia.
Em abril de
2002, o destino resolveu escrever seu último roteiro. Convidado para participar
de O Clone, Sargentelli foi homenageado justamente por Solange Couto, uma das
mulatas que ajudara a lançar décadas antes. A vida parecia fechar um círculo
perfeito. Mas resolveu colocar um ponto-final antes do último aplauso.
Durante as
gravações sofreu um infarto fulminante e morreu aos 77 anos. O Botafogo perdeu
um torcedor apaixonado. A Portela perdeu um admirador de carteirinha. O samba
perdeu um dos seus maiores divulgadores. E o dicionário brasileiro ficou
perigosamente ameaçado de nunca mais ganhar palavras como telecoteco,
balacobaco, ziriguidum e borogodó pronunciadas com tanta convicção. Porque
Sargentelli não era apenas um personagem do samba. Era um carioca em estado de
exagero.


Nenhum comentário:
Postar um comentário