39. Agosto de 1996. Lenda viva do samba
brasileiro, dono de uma voz capaz de acordar ancestrais e fazê-los cantar em
coro, Jamelão estava em Manaus para realizar um show no Clube Nostalgia, na
Cachoeirinha.
Na manhã de
sábado, seus anfitriões, Edu do Banjo e Caio do Cavaco, tiveram uma ideia
aparentemente sensata:
– Vamos levar o
homem para dar uma entrevista na televisão e assim chamar mais gente para o
show musical no Nostalgia.
Parecia um
plano infalível. Era mais ou menos como levar Pelé para falar sobre futebol,
Oscar Niemeyer para falar sobre arquitetura ou Madre Teresa para comentar
caridade.
O que poderia dar errado? Tudo.
Pouco antes do meio-dia, a comitiva chegou aos estúdios da TV A Crítica.
Lá encontraram o produtor Kid Mahal, guardião supremo da pauta
daquele sábado. Após uma rápida consulta à programação, veio a notícia
devastadora. Não havia espaço. A pauta estava lotada. Completamente lotada.
Lotadíssima. Não cabia mais ninguém. Edu do Banjo estranhou.
– Como assim?
Kid explicou. O
programa já contava com duas atrações de peso. Uma senhora ensinaria a
confeccionar flores de papel machê. Em seguida, um poeta de Alvarães falaria
sobre seu primeiro livro, financiado pela prefeitura municipal.
Era realmente
uma disputa duríssima. De um lado, Jamelão. Do outro, flores de papel machê.
Difícil escolher. Edu tentou argumentar.
– Mas, Kid, é o
Jamelão...
Kid permaneceu
impassível.
– E daí?
– O Jamelão!
– Certo...
– O Jamelão da
Mangueira!
– Sim...
– O maior
intérprete de samba vivo do Brasil!
– Entendo...
Mas nada parecia atravessar a blindagem intelectual do produtor ou, o que é muito mais provável, ele nem soubesse quem era Jamelão.
Pertencente à geração que
acreditava sinceramente que a história do samba começara com Karametade,
Molejão e talvez algum CD promocional distribuído em posto de gasolina, Kid
Mahal não demonstrou qualquer sinal de emoção. Por via das dúvidas, comunicou-se
com a apresentadora pelo ponto eletrônico.
– Tem aqui um
senhor de idade... sambista das antigas... querendo participar do programa...
A descrição foi
tão precisa quanto apresentar Albert Einstein como “um rapaz interessado em
matemática”.
Lá do outro
lado, sem saber quem estava na recepção, a apresentadora respondeu que a pauta
já estava fechada. Missão encerrada. Kid voltou triunfante.
– Se ele
quisesse participar, tinha que ter marcado uma semana antes. Regras são regras.
Afinal, não se pode abrir precedentes. Hoje é Jamelão. Amanhã aparece Paul
McCartney. Depois surge o Papa. Quando se vê, a agenda vira uma bagunça.
Durante toda a
discussão, Jamelão permaneceu imóvel. Não levantou a voz. Não reclamou. Não fez
escândalo. O que, no caso de Jamelão, era um péssimo sinal. Quanto mais calado
ele ficava, maior era o risco de alguém morrer de vergonha nas próximas horas.
Foi então que o
destino resolveu intervir. Passando casualmente pelo corredor, os radialistas
Walter Yalas e Carlos Caldas avistaram o cantor. Pararam. Piscaram. Olharam de
novo. Confirmaram que não estavam tendo uma alucinação. E concluíram que alguém
naquela emissora havia acabado de cometer uma das maiores barbeiragens
culturais da história do Amazonas.
Sem perder
tempo, agarraram Jamelão e o levaram para os estúdios da rádio. Invadiram o
noticiário que estava no ar, interromperam a programação e entrevistaram o
sambista durante quinze minutos. Foi um daqueles raros momentos em que o bom
senso venceu por nocaute. Saíram do estúdio felizes da vida. Com a alma lavada.
Com o espírito renovado. E provavelmente contando a história para todo mundo
que encontravam pela frente.
Algum tempo
depois, Baby Rizzato finalmente descobriu quem era o misterioso “senhor de
idade, sambista das antigas” que Kid Mahal havia descrito com a riqueza de
detalhes de um retrato falado feito no escuro. A apresentadora ficou
mortificada. Quis pedir desculpas imediatamente. Mas já era tarde. Muito tarde.
Tarde demais.
Jamelão, cuja
fama de rabugento não havia sido conquistada por acaso, não demonstrou qualquer
interesse em promover reconciliações diplomáticas. Foi taxativo:
– Me leva
embora, porra, que eu não quero mais nem ouvir falar no nome dessa mulher...
E assim
terminou um dos episódios mais inacreditáveis da história da comunicação
amazonense. Durante algumas horas de um sábado de agosto de 1996, um dos
maiores intérpretes da história do samba brasileiro foi considerado menos
urgente do que uma aula de papel machê.
Tratado com
tapete vermelho por onde passava no país inteiro, Jamelão conseguiu a proeza de
ser barrado em Manaus por um produtor de televisão armado apenas com um ponto
eletrônico, excesso de autoconfiança e um desconhecimento enciclopédico da
própria cultura brasileira. Pode isso, Arnaldo?
Poder até pode.
Mas que foi uma das maiores vitórias da flor de papel machê sobre o samba
nacional, isso foi.

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