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quinta-feira, agosto 27, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 40

 

Os craques Áureo Petita, Mário Gordinho e Lúcio Preto  

40. Em 1974, o Murrinhas do Egito terminou como o 10º melhor time do 2º Peladão (eram 336 equipes disputando o título) e conquistou dois prêmios: a universitária Silene Pessoa foi a primeira “Rainha do Peladão” e o meia-armador Áureo Petita foi o primeiro “Craque do Ano”. Com apenas 20 anos, Áureo recusou vários pedidos para se profissionalizar e disputar o campeonato amazonense de futebol e rejeitou um convite para fazer um teste no juvenil do Botafogo, no Rio de Janeiro, mesmo sendo botafoguense. Continuou defendendo vários times no Peladão e participando do campeonato amador pela equipe do Náutico.

Em 1981, o Peñarol, de Itacoatiara, que desde o ano anterior disputava o campeonato profissional amazonense, recrutou alguns jogadores em Manaus para reforçar sua equipe no meio da competição. Entre os novos reforços estavam alguns antigos craques do Murrinhas do Egito, da Cachoeirinha, e do Canarinho, de Petropólis: Lúcio Preto, Áureo Petita, Nego Irineu, Tobias, Paulo César e Carioca.

Em junho daquele ano, o Peñarol se preparava para enfrentar o Fast Clube, no estádio Floro Mendonça, em Itacoatiara, precisando vencer a partida para se classificar automaticamente para o quadrangular decisivo do campeonato amazonense sem depender de outros resultados.

Nova estrela do time, o meia-armador Áureo Petita estreou contra o Sul América, no estádio da Colina, em Manaus, na semana anterior, fez um gol, deu passes para outros dois, foi escolhido o melhor jogador em campo e se transformou na grande esperança dos torcedores itacoatiarenses para o jogo contra o Fast Clube. Ele vai jogar oficialmente na terra da Pedra Pintada pela primeira vez.

No vestiário, o quarto-zagueiro Lúcio Preto se aproxima do meia-armador como quem não quer nada e explica a situação:

– O nosso técnico acha que você ainda não está na sua forma física ideal e me pediu para te dar essas vitaminas! É um composto de vitaminas C, outro de complexo B, e outro de cálcio e selênio com sais minerais. Ele acredita que isso vai te dar energia e mais disposição para encarar a zaga fastiana.

Inocente, puro e besta, Áureo Petita pega da mão do quarto-zagueiro as três pílulas, uma de cada cor, e engole com um copo d’água.

O estádio está completamente lotado. Quando o jogo começa, Áureo Petita já está na ponta dos cascos. Ele corre o campo inteiro, bate tiro de meta, cobra escanteio, tira lateral, dribla, dá carrinhos, disputa bola de cabeça, divide bolas com zagueiros, tromba, dá balãozinho, chagão, drible da vaca, enfim, inferniza pra valer a defesa fastiana.

O jogo, entretanto, permanece zero a zero, apesar de ele já ter deixado o atacante Carioca na cara do gol umas quinze vezes. No intervalo, enquanto seu time entra no vestiário, Áureo Petita permanece no campo, cada vez mais elétrico, dando uma volta olímpica atrás da outra e imprimindo maior velocidade em cada pique. A torcida do Peñarol vai ao delírio.

Mal a partida recomeça, Áureo Petita faz um lançamento pra ele mesmo, do círculo central para a entrada da área do Fast Club, ganha na corrida dos zagueiros e do goleiro e enche o pé. A bola estufa o véu da noiva. Peñarol 1 a 0. Dez minutos depois, Áureo Petita bate um escanteio na primeira trave, um zagueiro devolve de cabeça pra fora da área, Áureo Petita sai correndo da bandeirinha de escanteio em direção à bola rebatida pelo zagueiro, quase na intermediária, e sem deixar a bola cair bate de voleio, com violência. A bola faz uma curva magnífica e estufa o véu da noiva, exatamente no ninho da coruja. Peñarol 2 a 0. Na arquibancada, os torcedores fazem um verdadeiro carnaval.

O meia-armador está com a macaca. Ele continua correndo o campo todo, procurando pela bola, esteja ela onde estiver. Faltando cinco minutos para acabar o jogo, ele toma uma bola do ponta-esquerda fastiano Orange quase na entrada da área do Peñarol, e volta célere em direção ao gol adversário. Na sequência, dribla o volante Zé Luiz, dribla o meia-armador Mário Gordinho, dribla o volante Fabinho, se livra de um chute do zagueiro Marcão, dá um balãozinho no lateral direito Carlos Alberto, dribla o goleiro Ricardo, e rola a bola limpa para Carioca empurrar pro gol. Peñarol 3 a 0.

Mal o jogo termina, Áureo Petita sai correndo do campo direto para a concentração do clube a cinco quilômetros do estádio. Ele troca de roupa rapidamente e sai correndo até o Bar do Jaime, no bairro da Colônia, a cinco quilômetros da concentração. Passa dois dias e duas noites bebendo no boteco sem se levantar nem para urinar.

Foi resgatado pelo zagueiro Lúcio Preto, que o levou de volta pra concentração, onde passou três dias dormindo. Só muitos anos depois ele soube que em vez de vitaminas havia ingerido disbutal, panbenil e mandrix. Não necessariamente nesta ordem.

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