40. Em 1974, o Murrinhas do Egito terminou
como o 10º melhor time do 2º Peladão (eram 336 equipes disputando o título) e
conquistou dois prêmios: a universitária Silene Pessoa foi a primeira “Rainha
do Peladão” e o meia-armador Áureo Petita foi o primeiro “Craque do Ano”. Com
apenas 20 anos, Áureo recusou vários pedidos para se profissionalizar e
disputar o campeonato amazonense de futebol e rejeitou um convite para fazer um
teste no juvenil do Botafogo, no Rio de Janeiro, mesmo sendo botafoguense.
Continuou defendendo vários times no Peladão e participando do campeonato
amador pela equipe do Náutico.
Em 1981, o
Peñarol, de Itacoatiara, que desde o ano anterior disputava o campeonato
profissional amazonense, recrutou alguns jogadores em Manaus para reforçar sua
equipe no meio da competição. Entre os novos reforços estavam alguns antigos
craques do Murrinhas do Egito, da Cachoeirinha, e do Canarinho, de Petropólis:
Lúcio Preto, Áureo Petita, Nego Irineu, Tobias, Paulo César e Carioca.
Em junho
daquele ano, o Peñarol se preparava para enfrentar o Fast Clube, no estádio
Floro Mendonça, em Itacoatiara, precisando vencer a partida para se classificar
automaticamente para o quadrangular decisivo do campeonato amazonense sem
depender de outros resultados.
Nova estrela do
time, o meia-armador Áureo Petita estreou contra o Sul América, no estádio da
Colina, em Manaus, na semana anterior, fez um gol, deu passes para outros dois,
foi escolhido o melhor jogador em campo e se transformou na grande esperança
dos torcedores itacoatiarenses para o jogo contra o Fast Clube. Ele vai jogar
oficialmente na terra da Pedra Pintada pela primeira vez.
No vestiário, o
quarto-zagueiro Lúcio Preto se aproxima do meia-armador como quem não quer nada
e explica a situação:
– O nosso
técnico acha que você ainda não está na sua forma física ideal e me pediu para
te dar essas vitaminas! É um composto de vitaminas C, outro de complexo B, e
outro de cálcio e selênio com sais minerais. Ele acredita que isso vai te dar
energia e mais disposição para encarar a zaga fastiana.
Inocente, puro
e besta, Áureo Petita pega da mão do quarto-zagueiro as três pílulas, uma de
cada cor, e engole com um copo d’água.
O estádio está
completamente lotado. Quando o jogo começa, Áureo Petita já está na ponta dos
cascos. Ele corre o campo inteiro, bate tiro de meta, cobra escanteio, tira
lateral, dribla, dá carrinhos, disputa bola de cabeça, divide bolas com
zagueiros, tromba, dá balãozinho, chagão, drible da vaca, enfim, inferniza pra
valer a defesa fastiana.
O jogo,
entretanto, permanece zero a zero, apesar de ele já ter deixado o atacante
Carioca na cara do gol umas quinze vezes. No intervalo, enquanto seu time entra
no vestiário, Áureo Petita permanece no campo, cada vez mais elétrico, dando
uma volta olímpica atrás da outra e imprimindo maior velocidade em cada pique.
A torcida do Peñarol vai ao delírio.
Mal a partida
recomeça, Áureo Petita faz um lançamento pra ele mesmo, do círculo central para
a entrada da área do Fast Club, ganha na corrida dos zagueiros e do goleiro e
enche o pé. A bola estufa o véu da noiva. Peñarol 1 a 0. Dez minutos depois,
Áureo Petita bate um escanteio na primeira trave, um zagueiro devolve de cabeça
pra fora da área, Áureo Petita sai correndo da bandeirinha de escanteio em
direção à bola rebatida pelo zagueiro, quase na intermediária, e sem deixar a
bola cair bate de voleio, com violência. A bola faz uma curva magnífica e
estufa o véu da noiva, exatamente no ninho da coruja. Peñarol 2 a 0. Na
arquibancada, os torcedores fazem um verdadeiro carnaval.
O meia-armador
está com a macaca. Ele continua correndo o campo todo, procurando pela bola,
esteja ela onde estiver. Faltando cinco minutos para acabar o jogo, ele toma
uma bola do ponta-esquerda fastiano Orange quase na entrada da área do Peñarol,
e volta célere em direção ao gol adversário. Na sequência, dribla o volante Zé
Luiz, dribla o meia-armador Mário Gordinho, dribla o volante Fabinho, se livra
de um chute do zagueiro Marcão, dá um balãozinho no lateral direito Carlos
Alberto, dribla o goleiro Ricardo, e rola a bola limpa para Carioca empurrar
pro gol. Peñarol 3 a 0.
Mal o jogo
termina, Áureo Petita sai correndo do campo direto para a concentração do clube
a cinco quilômetros do estádio. Ele troca de roupa rapidamente e sai correndo
até o Bar do Jaime, no bairro da Colônia, a cinco quilômetros da concentração.
Passa dois dias e duas noites bebendo no boteco sem se levantar nem para
urinar.
Foi resgatado
pelo zagueiro Lúcio Preto, que o levou de volta pra concentração, onde passou
três dias dormindo. Só muitos anos depois ele soube que em vez de vitaminas
havia ingerido disbutal, panbenil e mandrix. Não necessariamente nesta ordem.
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