89. Janeiro de 1986. Vice-campeã em 1985
com o enredo “Caprichoso e Garantido: Cultura Popular de Parintins”, a escola
de samba Andanças de Ciganos dessa vez queria colocar a mão no título. O enredo
daquele ano era “O Amazonas, Sua História e Suas Lendas”, de Duda e Alvadir
Assunção.
Responsável
pela confecção dos carros alegóricos, o engenheiro Chico Costa chamou um
ajudante de ordem no barracão da escola e foi peremptório:
– Zé Bernaldo,
pega essa trena e vai lá na Djalma Batista medir a largura da avenida, que o
nosso último carro alegórico vai revolucionar o carnaval de Manaus...
O sujeito foi, tirou
a trena do bolso, realizou a medição solicitada e retornou uma hora depois:
– Medi de ponta
a ponta duas vezes. Tem 16 metros!
Chico Costa fez
os cálculos:
– Deixando uma
folga de dois metros para cada lado, dá para fazer um carro alegórico com 12
metros de largura e 20 metros de extensão. Mãos à obra, moçada!
Em um mês, o
carro alegórico estava pronto. Era um colosso inimaginável. Todo o lendário
amazônico (curupira, mapinguari, iara, boto tucuxi, juma, cobra grande, lagarta
de fogo, onça pé-de-bola, etc.) estava presente no carro alegórico, em seu
máximo esplendor, por meio de alegorias gigantescas executadas pessoalmente
pelo mago Jair Mendes.
Foi preciso
alugar duas carretas de três eixos para transportar o carro alegórico do
barracão para o início da Av. Djalma Batista, numa operação de guerra que
envolveu o Corpo de Bombeiros, Detran, Polícia Militar, Defesa Civil, Médicos
Sem Fronteiras, Greenpeace e o Exército da Salvação Nacional.
Na entrada da
avenida, uma surpresa: a colocação de arquibancadas dos dois lados da pista
havia “encolhido” a passarela do samba em seis metros.
É que o
ajudante de ordens do Chico Costa, o famoso Zé Bernaldo, havia medido a avenida
de ponta a ponta, isto é, de uma sarjeta a outra, sem se dar conta desse
pequeno detalhe das arquibancadas.
Para o
gigantesco carro alegórico entrar na avenida seria necessário serrar dois
metros de cada lado de sua base fixa.
Chico Costa
refez os cálculos e explicou timidamente aos dirigentes da escola, que já
queriam comer seu fígado:
– A base do
carro foi feita de pau de ferro. Mesmo que a gente arrume uma serra elétrica de
última geração, nós vamos levar duas horas para serrar esses 40 m² de cada lado
do carro e até lá a escola já desfilou. Melhor deixar essa porra aqui mesmo...
E assim foi
feito. O gigantesco carro foi abandonado na área de concentração, deixando o
mago Jair Mendes à beira de um ataque de nervos. A escola amargou um decepcionante
4º lugar.
Demitido
sumariamente, à base de pescoções, Zé Bernaldo nunca mais colocou os pés no
barracão da escola.

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