88. Quando o jornalista Hiel Levy foi
contratado pelo GRES Reino Unido da Liberdade para cuidar da assessoria de
imprensa da escola, no final dos anos 90, decidiu mostrar serviço logo de cara.
Na primeira
oportunidade que surgiu, levou para a quadra da escola o colega Sérgio
Bártholo, jornalista conhecido, pagodeiro de carteirinha e potencial
multiplicador de boas notícias. Se a noite rendesse, quem sabe a escola ainda
ganhava algumas linhas generosas no jornal do dia seguinte.
Tudo começou no
lendário Bar do Lateral, esse lugar onde cerveja gelada costuma transformar
qualquer desconhecido em filósofo.
Hiel Levy e
Serginho sentaram, pediram a primeira, depois a segunda, depois as demais, e
passaram a resolver os grandes problemas da humanidade.
Em meia hora,
já tinham encontrado solução para a inflação, para o Oriente Médio e para a
escalação da Seleção Brasileira.
Foi então que
chegaram dois ex-presidentes da Reino Unido, Jairo Beira-mar e Nicéias
Magalhães. Sentaram-se à mesa por pura cordialidade. Afinal, em quadra de
escola de samba, ninguém deixa cerveja desacompanhada.
Como não fazia
ideia de quem eram os recém-chegados, Serginho continuou sua conferência
internacional sobre os males do Brasil.
– O problema
deste país é a polícia! Se não fosse tão corrupta, tão mesquinha, tão bandida,
tão safada e tão covarde, esse país era outro! Conheço um monte de policiais.
Todos ladrões! Na polícia só tem filho da puta!
Fez a denúncia
completa, tomou um gole de cerveja, limpou o bigode de espuma e, educadamente,
estendeu a mão ao primeiro visitante.
– Prazer,
Sérgio Bártholo. Jornalista.
O homem sorriu
com uma serenidade franciscana.
– Muito prazer.
Nicéias Magalhães. Policial civil.
Dizem que,
naquele instante, a cerveja de Serginho perdeu até o gás. Ainda tentando
acreditar que aquilo era coincidência, virou-se para o outro cavalheiro.
– Prazer,
Sérgio Bártholo. Jornalista.
– Jairo
Beira-mar. Também sou policial civil.
Pronto. Se
existisse campeonato mundial de arrependimento instantâneo, Serginho acabara de
estabelecer um novo recorde. Faltou apenas perguntar se havia algum delegado
escondido debaixo da mesa esperando a sobremesa.
Hiel Levy
tentou salvar o amigo, explicando que ambos eram ex-presidentes da Reino Unido
e figuras respeitadíssimas da escola. O esclarecimento ajudou tanto quanto
guarda-chuva embaixo d'água.
Seguiu-se um
silêncio tão constrangedor que dava para ouvir a espuma da cerveja pedindo
baixa. Foi Jairo quem resolveu praticar caridade cristã.
– O senhor tem
razão, mas só em parte.
E, sem elevar a
voz nem sacar algema, sem colocar o revólver em cima da mesa, fez uma defesa
elegante do trabalho da Polícia Civil, contando casos da rotina de investigação
e lembrando que ainda existia gente séria na corporação.
Serginho, que
cinco minutos antes pretendia refundar a segurança pública, agora só queria
refundar a própria biografia. Como todo jornalista experiente sabe que nunca
existe uma segunda chance para causar uma primeira boa impressão – mas sempre
existe uma primeira chance para consertar uma péssima –, ele iniciou uma das
mais extraordinárias defesas da Polícia Civil já pronunciadas em mesa de bar.
Foi um discurso
tão convincente, tão apaixonado e tão cheio de elogios que Jairo e Nicéias
foram embora convencidos de que pertenciam à melhor polícia do planeta. E
Serginho também saiu satisfeito. Afinal, naquela noite, ele conseguiu escapar
sem ser preso... e ainda descobriu que jornalista muda de opinião mais rápido
do que garçom troca o barril de chope.
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