Pesquisar este blog

quarta-feira, setembro 23, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 88

 

Os jornalistas Sérgio Bártholo e Margareth Queiroz

88. Quando o jornalista Hiel Levy foi contratado pelo GRES Reino Unido da Liberdade para cuidar da assessoria de imprensa da escola, no final dos anos 90, decidiu mostrar serviço logo de cara.

Na primeira oportunidade que surgiu, levou para a quadra da escola o colega Sérgio Bártholo, jornalista conhecido, pagodeiro de carteirinha e potencial multiplicador de boas notícias. Se a noite rendesse, quem sabe a escola ainda ganhava algumas linhas generosas no jornal do dia seguinte.

Tudo começou no lendário Bar do Lateral, esse lugar onde cerveja gelada costuma transformar qualquer desconhecido em filósofo.

Hiel Levy e Serginho sentaram, pediram a primeira, depois a segunda, depois as demais, e passaram a resolver os grandes problemas da humanidade.

Em meia hora, já tinham encontrado solução para a inflação, para o Oriente Médio e para a escalação da Seleção Brasileira.

Foi então que chegaram dois ex-presidentes da Reino Unido, Jairo Beira-mar e Nicéias Magalhães. Sentaram-se à mesa por pura cordialidade. Afinal, em quadra de escola de samba, ninguém deixa cerveja desacompanhada.

Como não fazia ideia de quem eram os recém-chegados, Serginho continuou sua conferência internacional sobre os males do Brasil.

– O problema deste país é a polícia! Se não fosse tão corrupta, tão mesquinha, tão bandida, tão safada e tão covarde, esse país era outro! Conheço um monte de policiais. Todos ladrões! Na polícia só tem filho da puta!

Fez a denúncia completa, tomou um gole de cerveja, limpou o bigode de espuma e, educadamente, estendeu a mão ao primeiro visitante.

– Prazer, Sérgio Bártholo. Jornalista.

O homem sorriu com uma serenidade franciscana.

– Muito prazer. Nicéias Magalhães. Policial civil.

Dizem que, naquele instante, a cerveja de Serginho perdeu até o gás. Ainda tentando acreditar que aquilo era coincidência, virou-se para o outro cavalheiro.

– Prazer, Sérgio Bártholo. Jornalista.

– Jairo Beira-mar. Também sou policial civil.

Pronto. Se existisse campeonato mundial de arrependimento instantâneo, Serginho acabara de estabelecer um novo recorde. Faltou apenas perguntar se havia algum delegado escondido debaixo da mesa esperando a sobremesa.

Hiel Levy tentou salvar o amigo, explicando que ambos eram ex-presidentes da Reino Unido e figuras respeitadíssimas da escola. O esclarecimento ajudou tanto quanto guarda-chuva embaixo d'água.

Seguiu-se um silêncio tão constrangedor que dava para ouvir a espuma da cerveja pedindo baixa. Foi Jairo quem resolveu praticar caridade cristã.

– O senhor tem razão, mas só em parte.

E, sem elevar a voz nem sacar algema, sem colocar o revólver em cima da mesa, fez uma defesa elegante do trabalho da Polícia Civil, contando casos da rotina de investigação e lembrando que ainda existia gente séria na corporação.

Serginho, que cinco minutos antes pretendia refundar a segurança pública, agora só queria refundar a própria biografia. Como todo jornalista experiente sabe que nunca existe uma segunda chance para causar uma primeira boa impressão – mas sempre existe uma primeira chance para consertar uma péssima –, ele iniciou uma das mais extraordinárias defesas da Polícia Civil já pronunciadas em mesa de bar.

Foi um discurso tão convincente, tão apaixonado e tão cheio de elogios que Jairo e Nicéias foram embora convencidos de que pertenciam à melhor polícia do planeta. E Serginho também saiu satisfeito. Afinal, naquela noite, ele conseguiu escapar sem ser preso... e ainda descobriu que jornalista muda de opinião mais rápido do que garçom troca o barril de chope.

Nenhum comentário: