90. Maio de 1960. Reunido com vários amigos
no Bar Avenida, o poeta Américo Antony começou a recitar o seu famoso poema
“Igapó” e um garçom parou perto da mesa para ouvir o bardo.
Quando o famoso
guru da Amazônia iniciou a segunda estrofe (“Lá o rio oculta amplas fadigas / E
as sombras abrem em flor de suavidade / E espera e dorme e sonha a eternidade /
De insetos de ouro e prónubas formigas...”), o garçom começou a rir, provavelmente
porque nunca tinha ouvido falar antes em “prónubas formigas”, as tais formigas
“noivas”.
O poeta parou
de recitar e encarou o ouvinte impertinente:
– O senhor é
poeta?
– Não sou não,
senhor! – respondeu timidamente o garçom.
– Pois então,
chispa-se daqui. Quem te manda a ti, ó sapateiro, tocar rabecão? – inquiriu
Antony.
E antes que o
garçom pudesse falar qualquer coisa, fulminou:
– Porque comigo
ou é muita poesia ou é muita porrada!
O garçom quase
saiu correndo do bar.
O Bar Avenida fechou
suas portas em 10 de novembro de 1968. No seu lugar se instalou uma agência do
Banco Mineiro do Oeste.

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