48. Carnaval de 1995. Naquela terça-feira
gorda, a Band resolveu fazer um passeio carnavalesco pelo Brasil. O
telespectador saía da Ilha Porchat, dava uma voltinha no Scala Gay, espiava o
Baile da Cidade, passava pelo Vermelho e Preto e, de repente, desembarcava em
Manaus como quem troca de canal sem trocar de fantasia. O comandante da folia
era Otávio Mesquita, transmitindo tudo ao vivo da Ilha Porchat. Lá pelas
tantas, anunciou:
– Vamos ver
como está o Baile do Havaí, no Tropical Hotel, em Manaus.
Corta para
Manaus. Entrou no ar um apresentador local visivelmente empenhado em convencer
o Brasil de que ali acontecia o maior carnaval do hemisfério.
– A festa está
pegando fogo! É o melhor carnaval da cidade! Uma animação contagiante!
Enquanto isso,
as imagens conspiravam contra o texto. A câmera mostrava senhores respeitáveis
praticando um samba compatível com suas taxas de colesterol, algumas dezenas de
foliões que já haviam perdido qualquer compromisso com a sobriedade e uma
quantidade industrial de senhoras elegantíssimas com a mesma expressão de quem
esperava havia duas horas pelo prato principal de um casamento.
Era uma
divergência filosófica entre áudio e vídeo. O locutor descrevia o Sambódromo. A
câmera insistia num baile de condomínio. Foi então que, lá da central técnica
da TV Rio Negro, o diretor de imagens avistou a atriz Gisela Prochaska sambando
sobre uma mesa. Era a salvação da transmissão. Apertou o botão do ponto
eletrônico e disparou para o cinegrafista:
– Enquadra na
Prochaska! Enquadra na Prochaska!
Até aí, tudo
certo. O problema é que o apresentador resolveu funcionar como pombo-correio.
Em vez de fingir naturalidade, repetiu no ar:
– Ô Faísca, o
Ediney está pedindo para você enquadrar na Prochaska.
Ao vivo. Para
todo o Brasil. O cinegrafista Faísca ouviu a ordem. Só não ligou o sobrenome à
atriz. Nem precisava. Naquele instante, identificou sobre uma mesa uma loura
escultural usando um biquíni branco tão econômico que a Receita Federal talvez
o classificasse como sonegação de tecido. Concluiu, com a segurança dos grandes
incompreendidos, que aquilo era a tal “prochaska”. E enquadrou o monte pubiano
da louraça. Mas enquadrou com entusiasmo. Com dedicação. Com espírito
científico.
A câmera
avançou em velocidade de documentário do National Geographic. Se aproximou
tanto que o telespectador brasileiro ficou com a impressão de que, dali a
alguns segundos, surgiria um ginecologista pedindo “mais um pouquinho para a
direita”. Nunca um zoom foi tão obediente. No estúdio da Band instalou-se
aquele silêncio constrangedor que dura apenas dois segundos, mas parece uma
quaresma.
Otávio
Mesquita, tentando salvar a transmissão com o improviso de quem tentava apagar
um incêndio usando um copo d’água, comentou:
– É...
realmente o negócio em Manaus está pegando fogo...
Fez uma pausa.
Olhou novamente para o monitor. E concluiu:
– Tem cada
Prochaska que vou te contar...
A essa altura,
metade do Brasil ria. A outra metade procurava entender por que a atriz havia
mudado tanto de fisionomia. O cinegrafista Faísca, porém, descobriu no dia
seguinte que existe uma diferença importante entre interpretar uma ordem e
reinventá-la. Foi demitido.
Entrou para a
história da televisão brasileira como o único cinegrafista que levou ao pé da
letra um comando técnico e acabou produzindo, em rede nacional, o mais famoso
close equivocado do carnaval amazonense.

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