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segunda-feira, agosto 31, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 48

 

O apresentador Otávio Mesquita

48. Carnaval de 1995. Naquela terça-feira gorda, a Band resolveu fazer um passeio carnavalesco pelo Brasil. O telespectador saía da Ilha Porchat, dava uma voltinha no Scala Gay, espiava o Baile da Cidade, passava pelo Vermelho e Preto e, de repente, desembarcava em Manaus como quem troca de canal sem trocar de fantasia. O comandante da folia era Otávio Mesquita, transmitindo tudo ao vivo da Ilha Porchat. Lá pelas tantas, anunciou:

– Vamos ver como está o Baile do Havaí, no Tropical Hotel, em Manaus.

Corta para Manaus. Entrou no ar um apresentador local visivelmente empenhado em convencer o Brasil de que ali acontecia o maior carnaval do hemisfério.

– A festa está pegando fogo! É o melhor carnaval da cidade! Uma animação contagiante!

Enquanto isso, as imagens conspiravam contra o texto. A câmera mostrava senhores respeitáveis praticando um samba compatível com suas taxas de colesterol, algumas dezenas de foliões que já haviam perdido qualquer compromisso com a sobriedade e uma quantidade industrial de senhoras elegantíssimas com a mesma expressão de quem esperava havia duas horas pelo prato principal de um casamento.

Era uma divergência filosófica entre áudio e vídeo. O locutor descrevia o Sambódromo. A câmera insistia num baile de condomínio. Foi então que, lá da central técnica da TV Rio Negro, o diretor de imagens avistou a atriz Gisela Prochaska sambando sobre uma mesa. Era a salvação da transmissão. Apertou o botão do ponto eletrônico e disparou para o cinegrafista:

– Enquadra na Prochaska! Enquadra na Prochaska!

Até aí, tudo certo. O problema é que o apresentador resolveu funcionar como pombo-correio. Em vez de fingir naturalidade, repetiu no ar:

– Ô Faísca, o Ediney está pedindo para você enquadrar na Prochaska.

Ao vivo. Para todo o Brasil. O cinegrafista Faísca ouviu a ordem. Só não ligou o sobrenome à atriz. Nem precisava. Naquele instante, identificou sobre uma mesa uma loura escultural usando um biquíni branco tão econômico que a Receita Federal talvez o classificasse como sonegação de tecido. Concluiu, com a segurança dos grandes incompreendidos, que aquilo era a tal “prochaska”. E enquadrou o monte pubiano da louraça. Mas enquadrou com entusiasmo. Com dedicação. Com espírito científico.

A câmera avançou em velocidade de documentário do National Geographic. Se aproximou tanto que o telespectador brasileiro ficou com a impressão de que, dali a alguns segundos, surgiria um ginecologista pedindo “mais um pouquinho para a direita”. Nunca um zoom foi tão obediente. No estúdio da Band instalou-se aquele silêncio constrangedor que dura apenas dois segundos, mas parece uma quaresma.

Otávio Mesquita, tentando salvar a transmissão com o improviso de quem tentava apagar um incêndio usando um copo d’água, comentou:

– É... realmente o negócio em Manaus está pegando fogo...

Fez uma pausa. Olhou novamente para o monitor. E concluiu:

– Tem cada Prochaska que vou te contar...

A essa altura, metade do Brasil ria. A outra metade procurava entender por que a atriz havia mudado tanto de fisionomia. O cinegrafista Faísca, porém, descobriu no dia seguinte que existe uma diferença importante entre interpretar uma ordem e reinventá-la. Foi demitido.

Entrou para a história da televisão brasileira como o único cinegrafista que levou ao pé da letra um comando técnico e acabou produzindo, em rede nacional, o mais famoso close equivocado do carnaval amazonense.

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