47. Outubro de 1986. Morador do conjunto
Beverly Hills, o violonista Altairzinho Nunes tinha um pastor alemão chamado
Ringo, que ganhou esse nome porque era tão ou mais violento quanto o famoso
pistoleiro do cinema: o cão não perdoava, matava! E matava qualquer coisa que
tivesse vida própria e entrasse em seu raio de ação. Quando a fera estava solta
no quintal, até os familiares do violonista mantinham uma distância prudente.
Num determinado
domingo, Mestre Carlito e Rinaldo Buzaglo estavam enchendo a cara no boteco de
um posto de gasolina, próximo do conjunto Santos Dumont, quando bateu uma
saudade inexplicável do Altairzinho.
– Vamos fazer
uma serenata pro Altairzinho, compadre? – propôs Rinaldo.
– Só se for
agora! – devolveu Mestre Carlito.
Eram quase
cinco horas da manhã de segunda-feira. Pra lá de Marrakesh, os dois entraram no
fusquinha de Rinaldo e rumaram para o conjunto Beverly Hills.
Lá chegando,
pularam o muro da casa. Mestre Carlito retirou a gaita do bolso, se agachou
embaixo da janela de Altairzinho e começou os primeiros acordes de “Diamante
cor-de-rosa”. Na sequência, Rinaldo entrou com o violão.
Ouvindo aquilo,
Altairzinho abriu a janela e acendeu a luz externa da residência, com o coração
apreensivo: se Ringo escutasse aquilo iria estraçalhar os “invasores”. Ele
quase caiu pra trás, com a cena.
Ainda agachado,
Mestre Carlito tentava afastar as patas de Ringo dos seus ombros com uma das
mãos – enquanto o cão insistia em lhe lamber o rosto – e com a outra mão livre
continuava soprando a gaita.
Para
Altairzinho só havia uma explicação: no fundo, no fundo, o seu pastor alemão
nutria um desejo secreto de ser guia de deficiente visual. E se Mestre Carlito
não fosse cego, com certeza teria saído correndo diante da aparição daquele
famigerado cachorro.

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