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quinta-feira, agosto 17, 2017

ABC do Fausto Wolff (Parte 56)


PEIXE – Tirésias – que não tem nada a ver com o peixe – não passava de um cidadão tebano dos mais comuns. Um dia, porém, decidiu matar um casal de serpentes. Pra que que o idiota foi fazer uma coisa dessas? Imediatamente os deuses o transformaram em mulher.

Algum tempo depois Zeus e Hera, para trocarem de tédio (os imortais se chateiam pacas) começaram a discutir quem gozava mais na hora de trepar, o homem ou a mulher.
Como não chegassem a conclusão alguma, mandaram chamar Tirésias, que na ocasião era mulher mas já havia sido homem, e lhe perguntaram: “Como é que é, Tira, você gozava mais quando era homem ou agora que é mulher?”
E ela: “Mulher goza muito mais”.
Hera, que era de opinião contrária, cegou-o na hora. Zeus, talvez por achar que ceguinha ela não arranjaria nem mesmo pro café, a transformou novamente em homem e lhe deu o dom da profecia.
Depois disso ele ficou célebre e fez figuração em várias tragédias, como em Édipo-Rei de Sófocles e nas Bacantes, de Eurípedes.
E o peixe? Pois é: tem um peixinho que leva uma vida muito melhor que os outros, pois ninguém o aporrinha. Deveria chamar-se Tirésias, mas chama-se “Limpador”.
É que o sacana tem o hábito de comer parasitas que se grudam no corpo dos peixes maiores. Como precisam dele para limpá-los, os peixões não o comem.
O limpador anda em bandos: um macho, que é o líder, e várias fêmeas.
Quando o macho morre, a fêmea principal muda de sexo e toma o seu lugar até morrer e ser substituída por outra que também vira macho.
Caso único de hermafroditismo (que funciona) no reino animal. Fim da aula dedicada às feministas.

PELOTAS – Cidade do sudeste do Rio Grande do Sul à margem esquerda do rio São Gonçalo, que liga a Lagoa Mirim à Lagoa dos Patos. Foi fundada em 1780 com o nome de São Francisco de Paula e rebatizada como Pelotas em 1830, quando virou cidade. Por que Pelotas, que em espanhol quer dizer culhões (“No me rompas las pelotas”), eu não sei.
Hoje é a terceira cidade do estado em população (maiores só Porto Alegre e Esteio), o principal porto para transporte de gado, além de ser o maior produtor de charque do Brasil.
Dizem, mas não provam, que é a cidade brasileira que tem o maior número de viados por metro quadrado.
Sacanagem, pois nos últimos dezoito anos, o município dobrou a população, que deve andar por volta dos 300 mil.
A fama do pelotense jogar água fora da bacia é antiga e se deve à rivalidade entre porto-alegrenses e pelotenses.
Esses, mais ricos, mandavam seus filhos estudar na Europa. Voltavam sofisticadíssimos, ocasião em que eram chamados de bundinhas. De bundinhas a darem as bundinhas foi um passo.
Como não sou de botar a mão no fogo por ninguém, repasso a história que me foi contada por um pelotense.
Disse-me ele que a Câmara de Vereadores da cidade, cansada da fama, resolveu reagir.
Depois de muito discutirem, decidiram chamar o Nhonhonho, um pelotense dono de uma mangueira de mais de 50 centímetros que, por incrível que pareça, endurecia.
Deram-lhe um dinheiro e mandaram-no (comecei na ordem indireta e assim irei até o fim) passear pelo Brasil.
Já no mijador da rodoviária de Porto Alegre, o armanho do Nhonhonho fez o maior sucesso.
Os caras se aproximavam e perguntavam pro dono da vará:
– De onde és, tchê!
E ele, abotoando a braguilha, muito orgulhoso:
– De Pelotas, com muita honra.
Em São Paulo já havia quase recuperado a reputação da cidade natal.
Ao chegar no mijador da Central do Brasil, no Rio, e tirar a mangueira (era tão grande que o sacana tinha que mijar em diagonal) pra fora, aproximou-se um carioca e disse:
– Pelo tamanho da peça, já vi que você é pelotense.
– Como foi que adivinhaste?, perguntou o Nhonhonho.
E o carioca, implacável:
– Pra aguentar uma vara dessas, só as bichas de Pelotas.

PÊNIS, Astrolábio da Silva (1901-1964) – Contínuo da Caixa Econômica Federal e chefe do clã dos Pênis, família originária da Bahia. Em verdade, tudo começou no século XVII, quando aportou por lá um grumete holandês chamado Leopold van der Penits que com o correr dos tempos teve o “t” cortado e virou Pênis.
Durante anos os descendentes de Leopold van der Penits, que voltou para a Holanda onde morreu sem saber a confa que havia armado, tentaram se livrar do sobrenome.
Finalmente, o velho Astrolábio da Silva Pênis conseguiu mudá-lo.
Hoje seus filhos, filhas e netos ostentam orgulhosamente o sobrenome Trolha.
Se vocês duvidam, perguntem pro Tenório Prepúcio Rocha, que vende ouro na Rua da Alfândega, no Rio, que não me deixa mentir.
O que é que vocês queriam, porra? Que eu explicasse o que é pênis? Quem tem sabe e quem não tem, mais dia menos dia acabará sabendo.

PENTELHOS – Trata-se de um ramo da família Pênis, mas, também, intimamente ligado à família Xota. Durante séculos acreditou-se que a simples exposição dos pentelhos (também conhecidos entre os membros da Academia Brasileira de Letras como “pêlos púbicos”) numa revista qualquer poderia ser o primeiro passo para a Terceira Guerra Mundial e o Apocalipse. Tanto isso é verdade que durante décadas a revista Playboy raspava os pentelhos das suas modelos.
Em abril de 1970, porém, Bob Guccione, editor da revista Penthouse, resolveu correr o risco e publicou a foto de uma moça com pentelhos. Como se sabe, o mundo não acabou e árabes e judeus continuaram a se matar como se nada tivesse acontecido.
Os pentelhos aparecem em homens e mulheres entre onze e treze anos. Há casos de mulheres, perfeitamente normais, onde eles só fazem sua aparição por volta dos dezoito anos.
Walter Frank (que não verbeteio porque mentiu demais) diz em seu livro, My Secret Life: “Conheci uma irlandesa que tinha pentelhos ruivos que chegavam até o umbigo na parte da frente e até o começo da espinha dorsal na parte de trás”.
Mas como eu já disse, o cara chutava exageradamente.
Verdade mesmo é que quando Flores da Cunha foi interventor no Rio Grande do Sul, em 1930, um grupo de mães foi até o Palácio Piratini se queixar de que os meninos mais velhos estavam molestando os meninos e meninas mais moços que tomavam banho pelados todas as tardes na praia de Belas, atrás do Palácio. Sentenciou o interventor:
– De hoje em diante só pode tomar banho pelado o guri ou a guria que não tiver pentelhos.

ABC do Fausto Wolff (Parte 57)


PERVERSÃO – No verbete “Parafilia” dei alguns exemplos de perversão (notem: não falei de corrupção, pois quem entende disso são os nossos ministros), mas em se tratando do ato sexual, eles são milhares.
Diante disso é interessante notar que em todas as épocas a perversão mais perseguida foi a punheta ou siririca.
Isso se deve, provavelmente, ao fato dela ter sido praticada em todas as civilizações e até mesmo por Adão, antes de Eva pintar no pedaço, quando não tinha nenhum bicho dando sopa.
O sexólogo Alex Comfort (que andou até explicando sexo para crianças) fez uma pesquisa e notou que durante mais de vinte séculos, até os dias de hoje, a medicina informou que punheta pode causar pneumonia, dispepsia, cegueira, vertigens, epilepsia, perda da memória, histeria, asma, melancolia, loucura, paralisia e morte.
Ah, ia esquecendo: também faz crescer pentelhos nas palmas das mãos.

PETRÔNIO, Arbítrio (12-66 d.C.) – Sacanólogo oficial do imperador Nero e provavelmente autor do Satiricon, uma obra de arte da qual restam apenas alguns fragmentos que Federico Fellini tentou remendar, adaptar para o cinema e quebrou a cara.
Autor do que pode ser considerado o primeiro romance da civilização ocidental, Petrônio foi também o cronista social do século I da era cristã.
Um cronista social bem menos hipócrita que seus coleguinhas modernos, pois que deixou relatada detalhadamente a vida sexual da classe dominante e, em particular, a do imperador.
Embora escrevesse direitinho, não devia ser flor passível de cheiro, pois era cafetão.
Tácito diz que ele comeu todas as mulheres comíveis de Roma. Como o seu Satiricon é cheio de romances de rapazinhos na cama com outros rapazinhos, não se pode afastar a hipótese dele eventualmente entornar uma baguete. Ainda segundo Tácito, “ele passava os dias dormindo e as noites gozando os prazeres da vida”.
Entre um poeminha e outro ele bolava sacanagens para Nero pôr em prática. O imperador, como quem leu seu verbete sabe, traçava tudo em todas as posições. Desde aquela do dragão míope até a da lagosta com caspas.
Animal, vegetal ou mineral que fosse para a cama com o gordinho piromaníaco (ou gordinha piromaníaca, segundo versão de membros viris da sua guarda pessoal) tinha que ser aprovado antes por Petrônio.
Profissional do bom viver, vivia numa boa até que – verdade ou intriga da CUT e da CGT – decidiu conspirar contra Nero lá pelo ano de 66.
O imperador devia estar bem humorado no dia em que descobriu a traição do seu cronista sócio-sexual, pois em vez de mandar cortar-lhe os badulaques, informou gentilmente:
– Petrônio, minha flor, você é muito bonzinho e como eu gosto de você, vou te dar uma colher de chá. Tens vinte e quatro horas para te suicidar. Passar bem e boas festas.
Nosso herói foi para casa e passou o dia inteiro no banho, abrindo e fechando as veias dos pulsos enquanto batia papo com amigos, amigas e fãs em geral. Um profissional, devo reconhecer.
Quando sentiu que lhe restava pouco sangue no corpo, sentou o rabo num banco e começou a escrever um relatório de todas as sacanagens sexuais e políticas praticadas por Nero. Morreu numa boa.
Só pra dar uma ideia a vocês do bom humor do cara, eis um versinho pinçado do Satiricon, onde Enclopius, descobrindo-se broxa, incrimina o pau: “Vítima de terror mais frio que o mais gelado inverno, ele se escondeu no fundo dos meus pentelhos. Perdido entre mil rugas, como levantar sua cabeça para castigá-lo?”
Não é poesia moderna, mas, em compensação, também não rima. Pequena, porém, mole.

PHALICA, Adoração – Bloco dos adoradores do caralho. Escrevi com ph para ficar mais fino. O caralho vem sendo adorado religiosamente há mais de 4 mil anos, quer no Egito, na Judeia, na Escandinávia, no baile do Scala G, do Guilherme Araújo, no Rio de Janeiro.
Adorar esculturas com falos enormes – segundo a crença popular – acabava com a impotência dos homens dos homens, com a infertilidade feminina e ainda protegia contra o mau-olhado.
Na Bíblia (Gênesis 24,2), Abraão pede ao seu criador: “Por favor, ponha a mão debaixo da minha túnica, pegue no meu pau e jure pelo Senhor, deus do Céu e da Terra”.
Os tradutores da Bíblia, evidentemente, substituíram a palavra pênis por coxa.
Quando vocês batem na madeira para afastar o azar, o que é que vocês acham que estão fazendo, realmente? Madeira é pau, bichos!

PHILIPE, Duque de Orléans (1640-1699) – Sujeito dos mais engraçados. Foi Voltaire que – para fazer vender o seu livro sobre os tempos de Luís XIV, o Rei-Sol – inventou que ele era o prisioneiro com a máscara de ferro, encerrado na Bastilha e quase dois séculos depois imortalizado por Dumas.
Em verdade nunca houve um máscara de ferro. Houve, isso sim, um prisioneiro italiano, acusado de traição – cujo nome não tenho tempo para procurar na enciclopédia –, que apareceu na Bastilha em 1698 com uma máscara de veludo negro.
E por que é que o Philipe decora as nossas páginas?
Pelo seguinte: ele era o irmão mais moço de Luís XIV, aliás, dois anos mais moço e muito parecido com ele.
Para que não rivalizasse com o irmão, sua mãe, Ana da Áustria, em vez de lhe tascar uma máscara de ferro na cabeça (não sobreviveria muito tempo) o educou como se fosse uma menina.
Pois o Filipe gostou do papel de Filipa: se vestiu de mulher quase toda a vida.
Perfumado, elegante e perucado, era macho e militar.
Segundo registros da época, liderava seus soldados nas batalhas com saia, sapatos de salto alto, uma gigantesca peruca negra e não usava chapéu para não desmanchar o penteado.
Segundo sua mulher, ele tinha mais medo do sol que poderia queimar sua pele alvíssima que das balas dos mosquetões que enfrentava com coragem inusitada.
Aparentemente nunca entregou o anel ducal, embora tivesse o físico do rolo.

PÍLULA, A – Controla a natalidade e sua aparição no menu da burguesia causou, certamente, a maior revolução da história do século XX, o que inclui a revolução russa, a chinesa e a cubana. Foi aparecendo e dizendo “virgindade, você não passa de um tabu”.

O mulherio passou a dar com maior disposição e muito menino não teria nascido filho da puta caso houvesse nascido antes da descoberta dela – a pílula.

É que as mulheres casadas, sem o temor de engravidarem, também passaram a ornamentar as testas dos maridos com incrível non-chalance.
Mas, voltando à pílula: ela previne o desenvolvimento dos óvulos e suas consequências posteriores. Um meio realmente efetivo de controle da natalidade, desde que a leitorinha que me honra não esqueça de tomá-la.
Uma pílula deve ser tomada todos os dias durante vinte e um ou vinte e dois dias durante o ciclo de vinte e oito dias.
Algumas mulheres, infelizmente, não se dão bem com elas e enjoam com facilidade, e elas só são vendidas sob prescrição médica porque podem ser perigosas para algumas freguesas com predisposição ao câncer e à coagulação sanguínea.
Apesar dela, o mundo marcha para a superpopulação, o que significa que vocês do século XXI que me lêem, não terão uma chance de me lerem sozinhos por absoluta falta de espaço.
É claro que – lembrando Toynbee – a Terceira Guerra Mundial é uma solução que não pode ser posta de lado.

ABC do Fausto Wolff (Parte 58)


PIROMANIA – Mania todo mundo sabe o que é e todo mundo tem. No Brasil, por exemplo, a mania dos ricos é sacanear os pobres e a mania dos pobres, ainda, é futebol, carnaval, apanhar da polícia, morrer afogado sempre que chove e passar fome.
piro, embora tenha a ver com piroca, quer dizer “fogo” em grego. Vai daí que piromania é tesão por fogo, embora não existam registros de nenhum piromaníaco que tenha tido os culhões flambados à la Club Gourmet de Celidoniô.
Quando vocês lerem nos jornais (às vezes, quando os fatos se impõem ao jornalismo mercantilista, eles publicam algumas verdades) a notícia de algum incêndio sem motivo aparente, podem ter certeza que foi obra de um piromaníaco.
O psiquiatra Euster Chesser escreveu um livro chamado The Human Aspects of Sexual Deviations (até aí nada demais: gostaria de ver ele escrever um livro chamado The lnhuman etc...) e nele ele cita um caso interessante. Tão interessante que eu vou contar para vocês.
Uma mulher solteirona, virgem e fria – dose, né? – recebeu a visita de um irmão que resolveu se instalar na sua casa. Uma noite, quando ele dormia de porre, ela botou fogo na cama dele.
Interrogada, informou à polícia que, quando criança, costumava brincar com o irmão de “papai-mamãe”, “médico-paciente”, esses troços, e que esperara aquele tempo todo para se vingar.
Mais tarde, porém, entregou o jogo a um psiquiatra e confessou que se masturbara enquanto via a cama do irmão pegar fogo. A cama e os culhões do irmão que ela torrou literalmente.
Outro caso contado por Chesser é tão engraçado que merece um parágrafo.
Cerca de quarenta anos atrás, os habitantes de uma cidadezinha no Sul da França viveram algumas semanas de terror, pois duas, três vezes por mês, um celeiro pegava fogo.
Finalmente o incendiário foi apanhado e – pasmem – se tratava de um bombeiro. Elementar! Quem gosta de ver fogo vai ser bombeiro e se há escassez de incêndios, o jeito é arrumar alguns por conta própria.
Aliás, o bombeiro, que foi apanhado ejaculando sobre as chamas, disse que a visão do fogo fazia ele ficar de pau duro, razão por que foi procurar a companhia dos corajosos soldados do fogo, como costumava dizer a valorosa crônica policial de algumas décadas atrás.
“Durante algumas semanas tive uma vida sexual intensa”, disse ele, o que foi confirmado pela mulher, que acrescentou: “Antes de se dedicar ao esporte de incendiar celeiros ele não passava da meia-bomba”.
Quando Hitler, Goering e Goebbels mandaram incendiar o Parlamento alemão, quem foi que eles acusaram? Um piromaníaco, autor de vários incêndios menores. Segundo os nazistas, ele teria feito o serviço a mando dos comunistas!!!
Ora, para uma simples punhetinha, bastava incendiar um banco de praça.
Após a noite do incêndio do Reichstag, estrearam na Alemanha uma mania que se alastrou rapidamente por toda a América Latina: pirocomunomania, ou seja, botar fogo nos membros do partidão.

PLACENTA – Boca-livre de feto. Quando a mãe é pobre, a boca é livre, mas não é tão boa e geralmente se trata do único período da vida – os nove meses antes de nascer – que o serzinho ou a serzinha vai comer sem pagar. Já feto de dondoca vai de caviar e champanhe e nasce bem fortinho pra continuar comendo o rabo os pobres.
Mas vamos à placenta: trata-se do órgão que liga o feto ao útero da mãe e funciona como filtrador de qualquer matéria que passa entre os dois.
Nascida a placenta, a mãe expele o bebê. Ora, que besteira: nascido o bebê a mãe expele a placenta que – segundo alguns dermatologistas – faz bem para a pele.
A plácida placenta plange o cordão umbilical da plebe, como diria um poeta concretista do caderno B do Jornal do Brasil do fim dos anos 50.

PLÁGIO – Segundo o Código Penal ainda em vigor na Itália, o crime de plágio consiste no seguinte: dominar tão completamente a vida de uma pessoa – menor ou adulta – que ela passa a não ser mais senhora de suas ações.
Se isso funcionasse no Brasil, todos esses vigaristas fantasiados de pastores evangélicos que aparecem na TV para explorar a crendice do povo estariam na cadeia.
Há, é claro, outro tipo de plágio. Por exemplo: quando um cara rouba ideias de um autor ele é considerado um plagiário.
Quando, porém, como acontece comigo neste ABC com pretensões a enciclopédia, ele rouba ideias de uma infinidade de autores, ele não é mais plagiário, mas sim um respeitável pesquisador.

POLIGAMIA – Casamento – de papel passado – entre mais de duas pessoas. Se um homem é casado com mais de uma mulher trata-se de poliginia. Se uma mulher é casada com mais de um homem, trata-se de poliandria. Isso porque gineca quer dizer “mulher” e andros quer dizer “homem” em grego.
A língua portuguesa é riquíssima em palavras de origem grega. Deveria, aliás, ser considerada uma língua neogrecolatina e não neolatina, simplesmente.
Há um ano (1988), um estudioso mineiro, depois de pesquisar durante uma vida inteira, apresentou um dicionário filológico apenas de palavras portuguesas derivadas do grego. Como estamos no Brasil, nenhuma editora quis publicar o livro.
Batem punheta com os best-sellers dos pobres babacas (Harold Robbins) e com os dos ricos babacas (Kundera), mas para que ler um dicionário desses se basta escrever o Brejal dos Guajas (segundo Millôr Fernandes, a obra com o maior número de mancadas da história da humanidade) para entrar para a Academia Brasileira de Letras?
A poligamia pode ser legal, como em alguns emirados árabes, ou ilegal, ocasião em que dá cana.
Em algumas tribos da África e da Oceania, a poliginia às vezes se fazia necessária, porque, eventualmente, após uma guerra, havia falta de homens, ocasião em que um guerreiro podia se casar com várias mulheres a fim de repovoar a tribo.
Na América do Sul, o caso de poliginia mais conhecido aconteceu após a guerra do Paraguai.
Corajosos soldados brasileiros, uruguaios e argentinos, cumprindo ordens inglesas, acabaram com quase todos os homens com mais de quatorze e menos de setenta anos do Paraguai.
Uma lei foi promulgada às pressas, permitindo que um homem casasse com mais de uma mulher.
A poliandria ainda é comum entre as tribos da Austrália, pois, com o fim das guerras entre grupos aborígines, os homens acabaram por se acostumar com o status de objeto de decoração.
Como são mulheres que dão duro enquanto os machões se enfeitam, elas decidiram que podem casar com quantos quiserem.
Como vocês vêem, há quem não acredite no quase-axioma de que o casamento é muito bom e que duros são apenas os primeiros cinquenta anos.

ABC do Fausto Wolff (Parte 59)


POMPADOUR, Jeanne-Antoinette Poisson, Marquesa de (1721 – 1764) Carinha bonitinha, peitos durinhos, olhos inocentes, cabelos penteados para o alto (o penteado depois recebeu o seu nome), era, entretanto, da pá virada. Entenderam? Ela virava a pá pra frente, pra trás, pros lados, etc.
Filha de burgueses ricos, foi educada para casar com um ricaço, evidentemente. Casou e logo começou a brilhar entre o society parisiense da época.
Aliás, foi numa festinha em Versalhes que Luís XV, que até há pouco tempo era marca de cigaros da Souza Cruz com e sem filtro, virou-se para um dos seus inúmeros aspones e declarou: “Quero comer aquela moreninha hoje à noite”. E comeu.
Levou de cara uma chave de buceta que nunca mais largou a senhora que se fosse viva hoje estaria decorando nossas colunas sociais ao lado dos vagabundos do Hipopotamus e outros antros de perdição.
Luís, que não era de perder tempo, chamou o marido e disse: “Rapaz, esta mulher não é pro teu bico burguês. Toma esta grana, te divorcia e te arranca”.
Ele se arrancou e reclamou tão pouco que até hoje ninguém sabe o seu nome. Já Jeanne foi promovida a marquesa.
Em 1645, com o consentimento da rainha, ela se instalou no palácio. Quando ficou mais velha, Luís conseguiu se desvencilhar da chave, mas não dela.
De amante passou a provedora. Com a grana do rei andava de carruagem por toda a França procurando moças proprietárias de belas chávenas onde sua majestade pudesse molhar seu brioche.
O rei se encontrava com suas ocasionais amantes num castelo perto de Paris e fingia ser um nobre polonês. Apenas uma jovem descobriu que o brioche aristocrata polonês era, em verdade, real e francês. Foi imediatamente internada num hospício.
Mas façamos justiça a Jeanne-Antoinette: como algumas senhoras da nossa melhor sociedade, não era só de putaria que ela manjava.
Foi matrona das artes e incentivou a construção de muitos projetos, entre eles o Trianon e a Place de La Concorde. Sem ela talvez a Enciclopédia nem tivesse sido publicada.
Nada a ver, naturalmente, com a mulher do falecido presidente Pompidou, hoje Centro Cultural.

PLATÔNICO, Amor – Que se trata de uma tara, todo muno sabe. Mas qual tara? A única jovem que sabia (Maria Joaquina Patonho Lornhão, natural do Minho) se suicidou após matar o marido (Manoel Benevides Lornhão) sem revelar o segredo.
Segundo sua mãe, naquela noite de 1920, após a cerimônia religiosa, sua filha aproximou-se e confidenciou:
– Estou nervosa, mamãe. O Manoel acaba de me dizer que é adepto do amor platônico.
Ao que a respeitável matrona respondeu:
– Este eu não conheço, minha filha. De qualquer modo, faz uns gargarejos com água mineral, lava bem teus tesouros da frente e de trás e seja lá o que Deus quiser.
Por outro lado (este aí mesmo, minha senhora), alguns adivinhões insistem que se trata de amor e afeição profundos entre duas pessoas sem envolvimento sexual. Vocês acreditam?
Platão (428-347 a.C), popular escrivão oficial das aulas que Sócrates dava nas saunas gregas, seria chegado a este tipo de amor.
Não acredito que um homem sério como Platão, que costumava dizer que não havia lugar para um homem de caráter entre políticos, pudesse defender uma bobagem dessas.
Por outro lado (não, não este aí, aquele ali entre o Arnaldo Nisquier e o Guilherme Merchior), o homem foi o fundador da Academia.

PORNOGRAFIA – Como acontece com a estética, o conceito de pornografia é extremamente subjetivo. No mundo ocidental concordou-se nas últimas décadas que pornografia seria a representação do comportamento erótico em livros, fotografias, filmes, peças de teatro, publicados e exibidos com o propósito de causar excitação sexual.
Situação altamente discutível na qual não há quem não tenha se encontrado uma ou outra vez na vida.
Lembram do moço que só conseguia gozar tendo entre ele e a mulher um pinheirinho de Natal todo decorado? O pinheiro de Natal seria pornográfico?
Ora, se o sexo é a mola que move a humanidade, como pretendia Freud corretamente, então a excitação é a mola que move o sexo.
Já a obscenidade, convencionou-se que é tudo que ofende outra convenção, ou seja, a moral pública.
É aquela velha história: a foto de um homem e uma mulher ou de um homem e duas mulheres ou de uma verdadeira bacanal, cujo propósito único é causar excitação sexual, é pornográfica?
E a propaganda televisiva de uma jovem seminua com uma enorme mangueira encostada no rostinho, cantando as vantagens de determinada marca de gasolina, não é mais pornográfica?
Mais pornográfica ainda não é a foto de uma senhora da nossa sociedade publicada na primeira página de O Globo, dizendo que o melhor drinque para o verão é vinho do porto, ao lado de uma manchete informando que quem ganhar mais de dois salários-mínimos (menos de 60 dólares) pagará imposto de renda? Isso num país onde vivem mais de 70 milhões de pessoas em estado de miséria absoluta!
Depois que acabaram com as leis calhordas contra a pornografia (a honesta, a que é só pornográfica), ela diminuiu.
Outro dia fui a um cinema em Botafogo, no Rio, ver um filme de sacanagem e ele estava às moscas. Moscas, aliás, pouco exigentes, pois o filme era uma bosta.
No cinema ao lado exibiam um filme de terror com baldes de sangue e ele estava lotado.
Infelizmente, o que é realmente obsceno parece não chocar os nossos moralistas. Caso contrário, não teríamos milhões de crianças abandonadas dormindo sob as marquises de todas as cidades do país. Oitava economia do mundo no bolso de umas oito famílias!

ABC do Fausto Wolff (Parte 60)


PORTO, Sérgio (1924-1968) – Um dos sujeitos mais decentes que conheci. Secretamente, sempre desejei ser um jornalista, um escritor, um cronista, um humorista,um ser humano tão bom quanto ele. Talento, porém, não é para quem quer.
Não, não estou sendo modesto. Acho que poucas pessoas escrevem tão bem quanto eu neste país, mas estou longe do estilo do Bolão. Morreu antes de ser apanhado pelo AI-5 em 1968.
Começou no Diário Carioca, gozando os cronistas sociais, muito em moda na época.
Sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, criou dezenas de personagens (Primo Altamirando, Rosamundo, Tia Zulmira, etc.) e centenas de neologismos e expressões, como “cocoroca”, “febeapá” (festival de besteira que assola o país), para denunciar as cocorocagens da ditadura militar, “mulher para cem talhares”, etc.
Não havia pulha, cheio de pompa e empáfia, que escapasse impune das suas gozações.
Misturou sexo e humor como ninguém e todos os anos, no jornal Última Hora, apresentava a sua lista das mais certinhas: as garotas do teatro rebolado e dos shows noturnos que mais haviam se destacado.
Um ano saiu da Última Hora e foi para o Diário da Noite – em 1961, se não me engano –, mas seu arquivo de mulheres ficou no jornal antigo.
Com um fotógrafo, eu, que na época não tinha mais de vinte e um anos, saí para visitar as certinhas do Lalau.
De cara descobri que a maioria não o conhecia pessoalmente.
Levei pouco tempo para assumir a sua identidade e as vantagens da sua identidade.
É claro que nem todas davam, mas muitas davam, pois ele era adorado pelo mulherio que disputava um lugar na sua fototeca.
Uma noite, me encontrou na boate Secha's e foi logo dizendo:
– Alemão, se eu souber que brochei, você vai se ver comigo!
Sérgio era de se apaixonar e tinha um coração enorme, mas bom demais para aguentar o que os vampiros verde-oliva-burocratas fizeram com este país.
Já imaginaram o que seria de Sir Ney se, além de Millôr, ainda tivesse que ler toda as manhãs o Sérgio Porto?

POSIÇÕES – Este “posições” aí do lado está para “posições de fuder”. Tem uns malucos que anotam posições. As mais comuns, naturalmente, são o homem por cima, o homem por baixo, o homem ao lado da mulher.
Segundo Havelock Ellis, o mais antigo manual de posições de foda é um papiro egípcio que data de 1.300 anos a.C.
Quem duvidar que o procure na livraria municipal de Turim. Posteriormente, descobriram manuais chineses ainda mais antigos.
Os chineses pré-Mao eram chegados a grandes firulas poéticas e falavam das posições da “lagosta preguiçosa”, do “dragão nadador”, do “colibri enforcado”, do “unicórnio na chuva” e assim por diante.
O sexologista F. K. Forberg garante que não existem mais de noventa posições. Me parece frescura. Homem de pé, mulher enganchada fazendo figa é uma posição? Sei lá!
De qualquer modo, a posição que sempre me intrigou é a do sacerdote. Onde entra o sacerdote? O que é que ele tem a fazer na cama com um casal? Que sacerdote sacana! Ou será que a posição é a popular papai-mamãe recomendada pelo sacerdote, ou seja, pela Igreja?
Enfim, segundo a dupla Master & Johnson, casais casados tendem a ter mais imaginação. Mais tesão? Mais tédio?
Pessoalmente, a posição mais complicada me foi ensinada por uma aeromoça dentro daquele W.C. de avião. Quando a aeronave entrava em zona de turbulência, então, era de lascar.
Dizem, mas não provam, que num daqueles bares gays que o Al Pacino andou visitando durante as filmagens de Parceiros da Noite, dois viados executavam uma posição sui-generis.
O que ia ser enrabado levantava a bunda e o que ia enrabar dizia: “Vou botar só a cabecinha”. E botava. Mas era a cabecinha de cima. Ambos morriam no fim da performance. Chama-se Headfuck Act. Haja cu!

PRECOCE, Ejaculação – É quando o cara goza antes do tempo. Um amigo meu, que chamarei de Daniel J. porque ainda está vivo, se considera campeão mundial da ejaculação precoce. Costuma telefonar para as moças – amadoras ou profissionais – e as convida para dar um pulo no seu apê. Quando elas ainda estão tirando as calcinhas, ele diz, muito deprimido: “Pode botar as calcinhas de novo que eu já gozei”. Dizem que isso se deve a muita ansiedade ou a pouca foda.
Outro dia encontrei o Daniel e perguntei:
– Como é que é? Continuas campeão?
E ele:
– Agora, antes de telefonar, bato duas punhetas.
– E daí?
– Daí que quando a mulher chega, eu já estou broxão.
Com os leitores deixo a questão: “É melhor ser um ejaculador precoce ou broxa?”
PROMISCUIDADE – Promíscuo é o (a) heterossexual ou homossexual que trepa com qualquer um. Antes da AIDS fazer sua entrada em cena ao som da Marcha Fúnebre, era moda. Não é mais.
PSICANÁLISE – Deixo de comentar o assunto em especial deferência à minha concunhada, a psicanalista Maria da Conceição Fernandes Breier.
PUBERDADE – Período na vida de uma pessoa na qual os órgãos genitais se tornam capazes de reproduzir. Outras mudanças: pentelhos e seios. Depois da puberdade – pelo menos no meu tempo – é que vinha o período mais chato da história do homem: a adolescência e suas espinhas assanhadas. Sobra tesão mas falta mulher e dinheiro.
PUNHETA Masturbação praticada por manetas.

Menino do Acre prestou um desserviço ao conhecimento


Bruno Borges: “Eu estava precisando me reencontrar!”

Por Maicon Tenfen

A entrevista de Bruno Borges ao Fantástico valeu por uma confissão de que o seu sumiço não passou de uma jogada de marketing ou golpe publicitário, como se dizia antigamente.

– Meu maior objetivo com esse projeto – declarou o rapaz – foi estimular as pessoas a adquirirem conhecimento.

Ele se arrepende de ter causado dor à família, mas dá a entender que, no fim das contas, tudo se fez necessário para o cumprimento de uma missão confusamente relacionada a misticismos e esoterismos.

TAC – Teoria da Absorção do Conhecimento, primeiro dos 14 livros que deixou escritos em código, foi publicado e chegou à lista dos mais vendidos, apesar de ser uma xaropada repleta de redundâncias e falhas gramaticais, isso pra não falar na megalomania das questões propostas – qual o sentido da vida? – e nos cansativos clichês de autoajuda.

Atenção: esta não é a opinião de um crítico solitário e pé-no-saco.

Basta acessar as redes sociais para conferir que quase ninguém engoliu o livro. O menino do Acre não poderá dizer, como Paulo Coelho, que é odiado pela crítica e amado pelo público. Talvez pense que seja algum tipo de gênio tropical. A verdade é que não passa de um moleque mimado que foi longe demais em seu devaneio.

Mesmo assim não há motivo para criticar ou lamentar o desaparecimento de Bruno. Não deixa de ser divertida a maneira como mobilizou a mídia e reuniu os telespectadores em torno de um mistério que teve final feliz. A polícia também não vê crimes no caso, sinal de que a história se resume a uma trampolinagem inconsequente.

Então está tudo bem, né?

Nem tanto.

O golpe publicitário toca um problema que certamente não passou pela cabeça de Bruno quando resolveu fazer o que fez. Ele não devia ter armado o seu teatrinho ao redor de livros e, principalmente, não devia ter declarado, ao voltar, que sua causa surgiu para difundir o conhecimento (assim, no genérico, para além dos seus interesses).

Ainda hoje, para a imensa maioria dos brasileiros, livros são artefatos de gente doida, confusa, infeliz e esquizofrênica, ou seja, a própria fisionomia que o moleque mostrou na televisão. Em vez de difundir o conhecimento, como disse, o que Bruno fez foi reforçar estereótipos que continuam arraigados no imaginário nacional.

Por incrível que pareça, muita gente ainda encara os livros com medo e desconfiança. “Leu tanto que ficou louco” ou “ler é coisa de rico imoral” são ideias comuns nas periferias do país. Alguém que põe uma estátua no quarto e enche as paredes de inscrições não está melhorando a situação. Pelo contrário, está apenas aprofundando a bibliofobia em que vivemos desde o período colonial.

“Isso é coisa do capeta!”, podemos ler nas redes sociais.

O “isso” se refere ao tom esotérico do caso e à baboseria mística, mas também, tristemente, aos livros, à leitura e ao tal do conhecimento. “Além de dar trabalho e me fazer pensar – uma atividade que dói –, os livros ainda podem me transformar num maluco como aquele de Rio Branco. Tô fora!”

Felizmente existe um movimento espontâneo de valorização da leitura que nasceu com a internet e está gerando frutos através de blogs, vlogs, fóruns e painéis dedicados à discussão de livros. Tudo é feito por pessoas jovens – meninas em sua maioria – capazes de mostrar que a leitura é sim um passatempo saudável e divertido, uma prática esclarecedora que nos ensina a abrir os olhos para o mundo, e não o seu oposto sombrio, sisudo, alienante – coisa de gente que requer acompanhamento psiquiátrico.

O menino do Acre perdeu uma excelente oportunidade de colaborar com esse movimento. Tudo o que tinha a fazer era não misturar os livros com o seu narcisismo.

segunda-feira, agosto 14, 2017

ABC do Fausto Wolff (Parte 51)


NERO (37-68) Bicha louca. Mas louca de dar nó em pingo d'água. Além disso, foi também imperador romano, aliás, o quinto da linha júlio-claudiana. Era filho de Agripina e de Domício, que comia a própria irmã, hábito, aliás, que embora condenado oficialmente, era o trivial simples da aristocracia romana.

Quando Domício morreu, Agripina casou-se com o velho Cláudio (ver verbete de Messalina), que havia mandado matar sua mulher, Messalina.
Para que seu filho pudesse assumir o império aos dezessete anos, Agripina envenenou o marido.
Em público o jovem imperador até que se comportou direitinho durante uns cinco anos, embora na cama fizesse com a mamãe algo mais que o papai-mamãe. Algo como o mamãe-filhinho.
Foi quando conheceu Pompéia que, segundo Tácito, tinha todas as qualidades, menos uma: a virtude. Se a mãe iniciou-o no deboche, dando-lhe a instrução primária, Pompéia, que era alguns anos mais velha que ele deu-lhe a instrução superior.
Em matéria de sexo não houve sacanagem que os dois não bolassem e não botassem em prática.
No Circus Maximus, Nero passou a dar orgias públicas todas as noites.
Mandou construir bordéis às margens do Tevere, tendo damas da sociedade como prostitutas, hábito que, aliás, vocês devem estar lembrados, herdou de Messalina, oficializando o que todo mundo já sabia, ou seja, que as damas da sociedade eram umas boas putas.
Para mudar de tédio, saía à noite com seus assessores de porra nenhuma, dando surras em quem encontrasse pelas ruas.
Foi nesta época que passou a se interessar também por homens e começou comendo o rabo do seu irmão Britânico, a quem envenenou posteriormente.
Fez uma paródia das lutas entre gladiadores e animais selvagens. Se vestia com a pele de um leão e investia contra os países baixos de homens e mulheres amarrados a postes de madeira.
Aos vinte e cinco anos resolveu abrir o jogo e se tornou mulher de um degenerado chamado Pitágoras, cujos números eram bem diversos dos usados pelo matemático grego apaixonado por hipotenusas e catetos.
Depois da paródia pública de cerimônia nupcial, Nero (ou melhor, a esta altura Nera) foi comida pelo noivo diante do povão que se esbaldou pacas... por dentro, pois quem risse, se escandalizasse ou fizesse algum comentário considerado deselegante sobre o homem mais poderoso do mundo estar levando um salmão no brioco, era imediatamente condenado à morte, troço muito chato.
Apesar de dar mais do que chuchu na serra, Nero continuou enfatuado por Pompéia. O problema é que ele ja era casado com Otávia, a quem odiava, e ela também tinha marido. Além de tudo, Agripina era contra.
O que foi que ele fez? Mandou esfaquear a mãe-amante e depois foi olhar as vísceras dela para ver de onde havia saído. Daí a origem da palavra que dá nome à operação cesariana. E dizer que, por muito menos, Édipo arrancou os olhos e foi passear no deserto.
Para se livrar de Otávia, Nero inventou que ela o corneava e se divorciou dela. Em seguida a baniu da cidade e, secretamente, deu ordens para que a matassem. As ordens foram cumpridas.
Mãe assassinada, esposa assassinada, só faltava assassinar o marido de Pompéia para poder se casar com ela. Foi o que ele fez realmente, sem pestanejar com as longas pestanas.
Depois do incêndio de Roma, que parece não ter sido ele quem ateou, pois estava fora da cidade, a bicha enlouqueceu completamente.
Primeiro botou a culpa do fogo nos cristãos e passou a usá-los como tochas humanas para iluminar seus banquetes.
Depois teve um ataque de histeria delirante e matou Pompéia que estava grávida a pontapés.
Passou os últimos três anos de sua vida entregando o imperial anel, em particular e em público, no varejo e no atacado.
Quando não estava sentado num objeto pontiagudo de carne, estava participando de torneios poéticos que vencia sistematicamente, pois juiz nenhum era o suficientemente maluco para dizer que o viado não entendia xongas de poesia.
A esta altura não havia uma só alma no mundo antigo que não quisesse ver os seus culhões pregados nm muro.
Finalmente, ao saber que a sua guarda pretoriana queria lhe enfiar no rabo outras espadas que não as de carne, se suicidou jogando-se contra um objeto perfurocortante de metal.
Bicha louquíssima era a gorda Nera!
Só não teve nenhum amante pianista como conhecido ex-ministro e senador brasileiro porque ainda demorariam quase 1.800 anos para inventar o instrumento.
Mas tocadores de harpa, passou todos na cara.

NIEMEYER, Oscar (1907- ) Arquiteto carioca, trabalhou com Lúcio Costa até 1936 no projeto para o Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, considerado a primeira obra-prima da arquitetura moderna no Brasil. O projeto de Pampulha foi o primeiro solo de Niemeyer, em 1941, encomendado por Juscelino Kubitschek.
Em 1956, JK pediu a Oscar que desenhasse Brasília, a nova capital. Hoje Brasília, apesar dos políticos que insistem em poluíla, é patrimônio universal tombado pela Unesco.
O fato de que, fatalmente, o sonho de Niemeyer será devorado pelas miseráveis favelas que o circundam, não impede dele ser um dos quatro ou cinco gênios que este país já produziu desde que os portugueses apareceram aqui em 1500 para condenar os índios à morte.
Em 1964, quando a ditadura militar deu o golpe com o apoio do Departamento de Estado americano, gorilas de farda questionaram Niemeyer sobre as razões do porquê preferira determinado material em detrimento de outro mais barato.
Cansado de responder a tantas besteiras, quando um general lhe perguntou por que havia mandado construir tais colunas em tais lugares, o sogro do meu amigo e dentista Walter Atademo não titubeou:
– Só de sacanagem!
E foi andando, andando e andando.
Sua personalidade era (e é) tão forte que, embora jamais tenha negado sua filiação ao Partido Comunista Brasileiro, nunca mais ninguém ousou se meter no seu caminho.

NIN, Anaïs (1903-1977) Escritora americana nascida em Paris, embora fosse amiga íntima de cobras como Lawrence Durrell, Henry Miller (que merecia um verbete, por ser um dos cinco melhores escritores deste século, mas fica para uma próxima edição), Edmund Wilson e James Agee, a verdade é que ela só foi reconhecida mundialmente quando começou a publicar os seus diários em 1966. Foda, não é mesmo?
Aliás, fuder era um troço que esta bela escritora (bela em forma e conteúdo) gostava de fazer com qualquer coisa que se movesse e tivesse estilo.
Em seu livro, O Triângulo Delta, relata algumas das suas lutas aranhais. Eis um trecho que traduzi para vocês:
“As três se sentaram no sofá cheio de almofadas. Leila meteu a mão cheia de anéis por baixo da saia de Bijou e se espantou com o contato da sua mão contra as coxas macias, pois esperava encontrar uma combinação de seda. Bijou se deitou de costas e puxou a boca de Elena contra o seus lábios. Leila ficou com ciúme. Cada carícia que fazia em Bijou esta transmitia a Elena. Quando a mão de Leila foi até o fundo por baixo do vestido de Bijou, esta enfiou a mão debaixo do vestido de Elena. Leila ficou de joelhos e levantou o vestido de Bijou, que jogou o corpo para trás. Elena perdeu a timidez e começou a acariciar o corpo de Bijou. Ao passar a mão pelos bicos dos seios dela, notou que os seus também estavam duros. Ao acariciar as nádegas de Bijou, Elena encontrou a mão de Leila. As três tiraram a roupa e uma vez nuas jogaram-se sobre o grande tapete branco. Passaram a ser um só corpo, composto apenas por boca, dedos, línguas e sentidos. Cada boca estava sempre procurando uma outra boca, o bico de um seio, um clitóris. Beijaram-se até que os beijos se tornaram uma tortura que seus corpos não podiam mais suportar. Cada mão encontrava sempre um orifício ansioso por ser penetrado”. Henry Miller diria : “It was a time when the smell of cunt was in the air”. Mas vocês querem mais Anaïs, não é mesmo? Então aí vai:
“ (…) Leila caiu ao lado de Elena e ofereceu a sua buceta para a outra chupar. Quando Elena aproximou a boca, Leila afastou-se:
– Pede, implora, diz o que você quer!
E Elena:
– Deixa eu chupar a tua buceta. Faça qualquer coisa comigo, mas deixa eu enfiar a língua nesta buceta. Eu quero gozar com você sentada na minha cara.”
Acabo de ter uma ereção.

ABC do Fausto Wolff (Parte 52)


NINFOMANIA Muito melhor e mais excitante que jogar bombas no Riocentro, cobrar empréstimo compulsório (que burrice: ou é empréstimo ou é compulsório) de quem quer viajar de avião ou impedir eleições diretas, é ir para a cama com uma ninfômana ou ninfomaníaca.

Caso o leitor seja uma leitora, também aconselho unir a prática da ninfomania à de dar chás de caridade e depois embolsar a grana dos mongolóides.
Sofre de ninfomania a mulher que tem um desejo sexual insaciável. É a popular “quero mais”.
Embora abundem na literatura pornográfica e na cuquinha dos descabeladores de palhaços, as ninfômanas são raras na vida real (esse troço aí, que vocês vivem) e há psiquiatras que acham que elas não existem.
Os maridos que se queixam das respectivas mulheres que querem ser comidas mais que duas vezes por semana na verdade estão se queixando da própria incompetência.
Se a História é algo mais que uma istória, então há casos bem documentados de mulheres com muito apetite. Messalina, Cleópatra, Júlia, Mata Hari, que já lhes apresentei, e Ninon de Lenclos, cortesã do século XVII que esqueci de colocar na letra “L” (foi comida por monsieur de Sevigné aos trinta e seis anos, pelo filho do marquês de Sevigné quando tinha sessenta anos e, finalmente, pelo neto do marquês de Sevigné quando tinha setenta e seis anos), são apenas uns poucos exemplos. Mas nada mau o apetite de Ninon, hein?
Há quase vinte anos eu comi uma atriz americana que pintou aqui para o carnaval. Depois de horas de exercício carnal no Copacabana Palace, quando eu, finalmente, pedi arrego, ela disse que ia sair por aí. Perguntei-lhe o que pretendia fazer e ela: “Dar mais, ora!”
Pintou três dias depois com o corpo cheio de equimoses e um ar de indescritível felicidade no rosto. Foi logo dizendo: “Vou dormir um pouquinho e logo recomeçamos”.
Loura, tinha uma carinha de anjo. Como ainda está viva e é uma coroa boérrima de seus cinquenta anos, dou apenas uma dica: trabalhou num filme de Joshua Logan com Willian Holden e noutro do Alfred Hitch com o James Stewart. Me confessou depois que havia aberto as pernas para uns trinta desconhecidos em dois dias.
Bons tempos aqueles em que o perigo era a gonorréia!
Outro caso está documentado no livro do insider Colin Wilson, Origens of the Sexual Impulse: há alguns anos em New York, uma jovem foi flagrada pela polícia na rua, convidando homens a irem para a cama com ela.

Se livrou da cana pois provou que não estava pedindo dinheiro. Só queria mesmo fuder.

Não conseguiu, porém, se livrar da comissão de psiquiatras à qual informou sofrer de TG, ou seja, tesão galopante.
Tudo teria começado alguns meses antes, durante a sua noite de núpcias. Depois de trepar durante horas com o marido, ele pediu um tempo e dormiu. Ela levantou da cama, se vestiu e foi até o Central Park, onde foi apanhada por um desconhecido que a levou até um motel e a comeu até o cu criar bico.
Do hotel ela saiu e apanhou mais um, mais dois, mais três, mais quatro homens (um de cada vez, naturalmente), antes de voltar para dar mais uma bimbada com o marido, que continuava dormindo. Desde então dedicou-se à pegação amadora de homens sem que em nenhum momento alguns deles tenha se negado a satisfazê-la.
E vocês, feministas, ainda se queixam, hein? Um homem que não for extremamente bonito, atlético, viril, inteligente e bem-humorado e for para rua se oferecer às mulheres, o máximo que conseguirá será uma porrada nos xornos, como se sabe, bem mais dolorida que a porrada nos cornos propriamente ditos.
Mas voltando à ninfômana de New York: quando os psiquiatras perguntaram se ela havia deixado o tálamo (gostaram?) nupcial porque a relação com o marido não a satisfizera, ela respondeu negativamente: “Gostei tanto que quis repetir”, frase esta que acaba com a teoria de que as ninfômanas são mulheres frias que perseguem o orgasmo inutilmente.
Cheguei, portanto, à conclusão que ninfômana é apenas uma mulher que gosta de fuder mais do que as outras.

NOIVADO Antigamente acontecia ou no dia do casamento ou no dia em que o rapaz se comprometia em casar com determinada moça. Como símbolo do seu propósito dava a ela um anel que ela usaria na mão direita até o dia do casamento, quando o colocaria na mão esquerda.

O noivo, por sua vez, faria o mesmo com outro anel que ele, naturalmente, comprara.

O pai da noiva arcaria com as despesas da cerimônia religiosa e da recepção posterior.
Havia o noivado e a noiva geralmente era virgem, ou pelo menos tinha o hímen intacto.

Depois apareceu a pílula, o women's lib e a mulher disputando o mercado de trabalho com o homem.
Pelo menos entre a burguesia, então o noivado e a virgindade caíram de moda como gravatas no escuro de uma noite quente de verão.
Depois, sem ser convidado, surgiu a AIDS e tudo leva a crer que teremos novamente a virgindade e o noivado.
A tradição do noivado, embora hoje em dia resista apenas no interior e nos subúrbios pobres das grandes cidades, é antiga.
Os colonizadores ingleses que chegaram à América, depois de brutalizarem as índias, sentiram saudades das mulheres da sua terra e mandaram buscar noivas na loura Albion.

Pois, segundo um passageiro que estava a bordo de um navio inglês com destino à Carolina do Norte, das sessenta noivas que viajavam para a América, vinte e quatro eram renomadas prostitutas.
Assim começou boa parte das famílias dos pais da pátria americana.
Não se preocupem que entre nós aconteceu a mesma coisa ou pior. Milhares de holandeses noivaram em Pernambuco no fim do século XVII, mas os cartórios não registram um único matrimônio entre uma brasileira e um holandês. Cês já viram como tem pau-de-arara com olhos verdes? Principalmente críticos literários.
Hoje em dia as coisas estão mais fáceis. O pessoal noiva até pela TV.
Mas quando Hellen Morrison, solteirona de Manchester, Inglaterra, botou um anúncio estilo correio sentimental, pedindo noivo no Manchester Weekly Journal, o prefeito da cidade mandou interná-la num hospício por quatro meses para tomar vergonha.
Já as portuguesas até hoje ainda anunciam em muitos jornais: “Santo Antônio do Amarante, valei-me que bem podeis/ Já tenho teias d'aranha naquilo que bem sabeis”.
Em algumas sociedades, noivado se confunde com pedofilia legalizada.
Na Índia, por exemplo, desde tempos pré-cristãos que as meninas noivam e casam muito cedo.

Um recenseamento em 1964 mostrou que existiam 60 milhões de meninas na Índia com menos de quinze anos e dessas, mais de 8 milhões e meio estavam casadas.

Entre mil crianças com menos de cinco anos, quinze já estavam casadas ou viúvas.

Havia pelo menos 400 mil crianças viúvas com menos de quinze anos e que, segundo a lei, não poderiam se casar novamente.
Maomé, se sabe, teve muitas mulheres, mas a mais moça, com quem ele manteve relações sexuais, foi uma noiva de seis anos.
Não foram poucos em todo o Oriente, os casamentos entre bebês, para preservar as fortunas dos pais. O Deus Grana sempre fala mais alto. Mais alto que o Deus Brahma e o Deus Grapette.
Quem está pensando “Esses orientais são uns selvagens”, pode tirar o pensamento da chuva e se ilustrar um pouco. Até o meio do século XIX era muito comum a venda de noivas em pleno centro de Londres. Os preços variavam de uma uma a vinte libras e mais meio barril de chope.

NUDISMO Mulher nua vicia mais que álcool, maconha, cocaína, cigarro ou pôquer. Eu já devo ter visto mais de mil e ainda não consegui enjoar. E é sempre a mesma coisa: dois seios, um triângulo cortado ao meio e um popô. Nego acabou de ver um já quer ver outro.
Aos cinco anos eu já andava rolando debaixo das mesas onde tias e primas conversavam. Nesta época fiquei horas dentro de um cesto de roupas no banheiro esperando que minha prima de dezoito anos viesse tomar banho.
A ideia de que eu estava infringindo uma lei não escrita devia estar no subconsciente, porque jamais disse a ninguém por que preferia as coxas das parentes aos jogos de bolinhas de gude com a garotada da rua.
É verdade, também, que eu mesmo não sabia o porquê da minha preferência.
Aprendi a ler muito cedo e gostava de ficar lendo meus gibis na casa de uma tia que costurava para fora e que tinha uma jovem aprendiz que não parava quieta dois minutos sem cruzar as pernas. Além disso, vinha uma porção de freguesas experimentar as roupas.
Minha tinha achou estranho “este menino que está sempre no meio das mulheres”, me dedou pra minha mãe e menos de uma semana depois, minha prima me descobriu no cesto e me dedou pro meu pai.
O velho, que estava mais para vara de marmelo que pra tratados de pedagogia, me perguntou:
– O que é que você estava fazendo no cesto?
– Tava espiando a fulaninha tomar banho.
– E por quê?
– Porque ver mulher pelada é muito bom.
Naquela noite, do meu quarto, ouvi o pai dizer pra mãe:
– Lembra daquele negócio que você me falou de estar preocupada porque o garoto só vive no meio de mulheres?... Pois não precisa se preocupar mais. Fresco o guri não vai ser.
Mulher nua, além de ser um negócio bom e saudável, é um negócio antigo. Os seres humanos e posso afirmar isso sem medo de errar fazem amor há uma pá de tempo. Vivem na terra há mais de 2 milhões de anos e já naquela época mulher nua era fundamental.
Depois de descobrir o sexo, o homem gostou tanto que achou por bem transmitir o seu prazer às gerações futuras através de desenhos, pinturas, inscrições em pedra. As representações sexuais que podem ser vistas na caverna de Combabrelles, na França, datam de 40 mil anos.
E o que é mais interessante: a posição do casal troglodita trepando não é papai-mamãe, mas a mulher de joelhos, se apoiando no solo com as mãos e o homem imediatamente atrás dela. O clássico vaca atolada.
O nu feminino, que na minha opinião desde o quinto século antes de Cristo deixou de ser um tema artístico para transformar-se numa forma de arte, do século III aos nossos tempos, com um ligeiro alívio na Renascença, foi sempre condenado.
Esta mania de que mulher nua faz mal à saúde e leva adolescentes à debilidade mental continua em vigor em boa parte do mundo e tem raízes de ordem econômica. A pornografia, se proibida, rende muito mais dinheiro.
Felizmente, no Brasil, nos últimos anos, a pornografia como nos países nórdicos já está ao alcance do bolso do povo. Passado algum tempo, a venda das revistas pornográficas diminuiu e a maioria dos cinemas que passam filmes X-rated vivem às moscas.
Aliás, não sei por que ninguém consegue fazer um filme pornográfico bem-feito. Dizem os produtores: “As atrizes negam-se a trepar diante das câmeras”. Ora, então ensaiem as putas. Se nenhuma tiver talento, existem sempre a mesa de edição, que faz milagres. A atriz beija o ator na cabeça de cima e a duble na cabeça de baixo.
Nudismo é também uma porrada de gente se reunir pelada na praia. Foi em Mykonos que estive numa praia nudista pela primeira vez. Zanzei com meu calção até que tomei coragem e fiquei pelado num canto, perto de uma rocha.
Não demorou muito uma francesinha Dominique deitou-se peladinha a uns dez metros de mim. Tive que botar o calção às pressas.
Um dia, me vendo sempre de calção, uma jovem perguntou:
– Por que você está vestido numa praia nudista?
E eu:
– Nós ainda não estamos acostumados.
Isto aconteceu há mais de vinte anos. Outro dia, porém, fui à praia em Ipanema e uma atriz da moda veio puxar papo comigo. No meio do papo, tirou a parte de cima do biquíni e começamos a conversar a quatro: eu, ela e o par de peitos.
Como não sou viado nem eunuco, como ainda não sou o suficientemente broxa e como essas coisas me deixam nervoso, tirei o calção e fiquei pelado. Meio-bombão. Ela entendeu e botou o sutiã. Depois deu uma desculpa e se arrancou.

ABC do Fausto Wolff (Parte 53)


OBSCENIDADE Para mim obsceno é dono de supermercado, que paga salário mínimo para as caixas, explicar na televisão por que precisa aumentar o preço dos gêneros de primeira necessidade. Mas a definição mais razoável, embora longe de ser exata, é a seguinte: tudo aquilo que é ofensivo à decência e capaz de corromper pessoas que entrem em contato com a matéria quer lendo, vendo ou ouvindo.
Troço tão hipócrita que O Poço da Solidão, clássico do lesbianismo de Radcliff Hall, foi proibido por causa da frase “E aquela noite elas não se separaram”.
Em 1933, pela primeira vez desde o princípio da era industrial, o juiz norte-americano Augustus Hand acabou com esta bobagem de julgar frases fora do seu contexto e disse: “Maníaco sexual é quem tem paciência de procurar obscenidades em Ulysses, gigantesca obra de Joyce”.
O célebre professor Samuel Johnson (1709-1784), logo após a publicação do seu Dicionário da Língua Inglesa, teve que ouvir de duas velhas: “Como foi que o senhor pôde publicar tantos palavrões?” E ele: “Como foi que as senhoras foram correndo procurá-los?”
Em verdade eu vos digo, leitores, não tem nada mais sujo que a cabeça de um puritano.
Pessoalmente, como vocês estão carecas de saber, sou favorável à pornografia ao alcance do povo, privilégio até alguns anos atrás acessível somente à classe dominante.
Nego compra uma revista dessas que tem aos montes em qualquer banca, bate uma punheta num W.C. qualquer e não pensa mais em matar o presidente da UDR, por exemplo.
Cedo, porém, o povão não vai ter mais grana pra comprar revistas de sacanagem: fome de comida, bebida e sexo, terá que explodir de algum modo lá pela avenida Vieira Souto, de preferência.
Se sacanagem transformasse alguém em tarado, aquela dona Solange que foi presidente da Censura Federal estaria maluquinha, pois passou anos vendo pornochanchadas nacionais e estrangeiras...
Mas agora, falando sério: é óbvio que muito malucão lê literatura pornográfica, mas muita senhora do society também lê, e como! Apesar disso, o único crime que essas damas cometeram até agora foi não aumentar o salário dos seus serviçais.
E os maníacos sexuais? Terão sido os livros, filmes, revistinhas de sacanagem que os piraram?
Os americanos realizaram uma pesquisa para saber quais os livros que o público considerava sexualmente excitantes.
Uma senhora teria respondido: A Ascensão da República Holandesa, troço que também não entendi, pois a Holanda ainda é uma monarquia.
Nego ou nega a perigo se assanha até lendo catálogo telefônico.
O Dr. Murilo Pereira Gomes, que foi um dos melhores psiquiatras deste país (morreu, naturalmente), me contou que uma vez mostrou a um paciente as fotos de um Volkswagen, de uma manicure, de uma bandeira do Brasil e de um prato de tomates em rápida sucessão e pediu-lhe que lhe dissesse o que elas sugeriam. O paciente não teve dúvidas: “Sexo, sexo, sexo, sexo”.
Quando Murilo sugeriu delicadamente que ele estava obcecado com sexo, o cara quis virar a mesa:
– Então o senhor me mostra essas fotos de sacanagem e eu é que sou tarado?...

ONANISMO Onan não era onanista, mas esta bobagem pegou. Personagem bíblico, ele teria nascido uns 1.700 anos a.C. Mal havia completado vinte anos e seu pai, Judah, o obrigou a casar com Tamar, mulher do seu falecido irmão Er.

Esta porra de Onan, Judah, Tamar e Er está parecendo palavra cruzada.

Mas voltando ao boi quente: como Er não tivera filhos com Tamar, Onan teria que fazer filhos nela.

Eles, porém, seriam considerados filhos de Er e receberiam o seu patrimônio. 
Eu também não entendi bem a história, mas parece que Onan estava gastando a grana de Er e se tivesse filhos com a viúva dele, esta grana passaria para eles. Pode não ser verdade, mas faz sentido.
Verdade é que todas as noites Onan comia Tamar, que era boa pacas, mas na hora de gozar tirava o paranaguá da caravalha e gozava no chão. 
Isso, qualquer idiota sabe, não é masturbação, mas coitus interruptus
Apesar disso até hoje os masturbadores (a humanidade inteira, com exceção de uns poucos maníacos sexuais) são considerados membros do fã-clube de Onan.
Onanismo virou masturbação e masturbação é qualquer forma de auto-estímulo com o objetivo de atingir o orgasmo.
Durante séculos se acreditou que punheta causava cegueira, loucura, impotência e outros males. Posso garantir a vocês que isto é uma mentira: William Shakespeare, Marilyn Monroe, Coufúcio, Jaguar, Homero, Mercedes Benz, Napoleão, Ziraldo, a rainha Vitória e aquela moça que está passando agora eram e são chegados a uma bronha.
O máximo que aconteceu com eles foi verem nascer pêlos nas palmas das mãos. Digo mãos porque tem muito malandro que também vai de canhota.
O que tem de cafumango que vive trancado no dejetório botando os cinco a lutar contra um, não está na revista Letras em Marcha.
Gostam tanto do esporte que chegam a ponto de apresentar a mão direita lá deles como “minha patroa” e esporadicamente a esquerda como “a filial”.
Sobre este diálogo manual ainda escreverei uma peça de teatro em cujo final a mão direita, irritada com as traições do marido, acaba por cortar a esquerda. Desesperado com a morte da amante, o marido pede a um amigo que lhe decepe a mão direita, ou seja, que mate a esposa. Finalmente, ele, de acordo com a origem semântica da palavra, pode bater uma punheta (de punhos) sem ser aporrinhado pelas mãos.
Mas agora falando sério: deixem seus filhos se masturbarem que não faz mal algum, pelo contrário. Segundo Kinsey (ver verbete) há crianças que se masturbam já aos cinco, seis meses de idade. Aliás, o leitor que não sabe como socar uma bronha não deveria estar lendo o meu ABC.
Mas talvez os marmanjos devessem saber que a mulher atinge o orgasmo estimulando a área ao redor do clitóris, pois este, na maioria das vezes, é tão sensível que um contato direto e contínuo com o dedo pode causar mais irritação que prazer. Não vai à la louca, portanto, ô bucéfalo!
Dizem que as mulheres se masturbam menos que os homens. Chute puro! E que muitas não consideram autogratificação o chuveirinho do bidê, o travesseiro entre as pernas, o esfregar uma coxa contra a outra.
Já homem, tem muito principiante que não gosta da punheta tradicional e enfia o pau em gargalo de garrafa. Troço burro e perigoso, pois pode parar a circulação do sangue.
Melhor e mais seguro é fazer um buraco num melão, numa melancia, num quilo de fígado (pra quem é rico), num mamão, sempre que haver mamão-fêmea.
Existem uns caras bem-dotados ou contorcionistas que conseguem autofelaciar-se. Não acredito que o trabalho compense.
Conheci muitas mulheres que se consideravam frias até conhecerem o orgasmo através do noivo.
Do noivo de matéria-plástica, com baterias por dentro, chamado Vibrador da Silva, é supérfluo esclarecer.

ONASSIS, Aristóteles (1906-1975) Do filósofo só tinha o primeiro nome. Nunca se interessou, realmente, pelas letras. Conhecia algumas óperas e isto apenas porque durante muitos anos comeu a famosa soprano, grega como ele, Maria Callas. Em verdade, preferia os números, aqueles que aparecem nas notas de dólar.
Um dos seus biógrafos biografia escrita quando o armador ainda vivia disse que ele era bonito quando rapaz. Chute: sempre foi baixinho, gordo e meio vesgo.
Outro chute: teria nascido pobre. Conversa fiada, seu pai era um próspero negociante grego em Esmirnia, na Turquia. Negociava com cigarros.
Em 1922, porém, os turcos acharam que havia muitos gregos em seu país e expulsaram entre outros a família de Onassis.
Foi assim que ele deu com seu 1,55m de altura em Buenos Aires, onde deve ter pensado: “Tenho um pau grande e muito tesão, mas com esta cara não vou muito longe”.
Roubou pacas e com vinte e cinco anos já era um milionário, graças aos seus investimentos, principalmente em petroleiros.
Dizem, mas não provam, que comeu sua professora de francês, quando ainda adolescente. Provavelmente seu pai tratou de pagar a francesinha para iniciar o filho nas artes fodais.
Com muita grana no bolso acabou em New York nos anos 40, ocasião em que fudeu tudo que tinha saia, livrando apenas a cara de padres e escoceses.
Mas fudeu, principalmente, sua amante de 1,85m, a louríssima Ingeborg Dedichen, jantar para mais de cem talheres, como diria o Sergio Porto.
Com Ingeborg fez de tudo, chupava-lhe os dedos dos pés, aplicava-lhes surras incríveis e um dia chegou a peidar na sua cara enquanto ela examinava o seu rabo para ver se ele tinha hemorróidas.
Como sempre teve um amor puro e desinteressado por dinheiro, se casou aos quarenta anos com uma menina de dezessete mas... atenção para o detalhe: ela era Tina, filha de Livanos, juntamente com Onassis, o maior armador do mundo na época.
Juntaram a grana, fez dois filhos em Tina: Alexandre e Cristina, mas nem por isso deixou a cama da Callas.
Em 65 se divorciou da mulher e casou em 68 com nada menos que Jacqueline, a viúva de John Kennedy.
Como já disse no verbete referente ao ex-presidente americano, Jackie tinha orgasmos quando via grana, e grana era coisa que Onassis tinha demais.

Ainda assim ela se precaveu: fez um contrato pré nupcial com o armador que incluía mais de cem itens, entre os quais 1 milhão de dólares mensais para pequenas despesas, quartos separados e nenhuma obrigação de engravidar.
Sempre que queria fuder com Jackie, ela dizia: “Estou com dor de cabeça, Ari”.
Cedo ele encheu o saco e chegou a pensar em se divorciar, mas os deuses já tinham decidido que ele havia fudido o suficiente e o carregaram para o inferno onde seu dinheiro não lhe valeu de nada.